i

Octávio Ribeiro em entrevista ao programa ao artigo 38

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Octávio Ribeiro em entrevista ao programa ao artigo 38

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Octávio Ribeiro, diretor editorial da Cofina: "Lamento que os nossos concorrentes se tenham cmtvizado" /premium

Dias após a compra da TVI pela Cofina, Octávio Ribeiro comenta o negócio, acusa a concorrência de ter mimetizado a CMTV e fala de André Ventura e de Pedro Guerra em entrevista.

Poucos dias depois de ter sido noticiada a compra da Media Capital (TVI e TVI24) pela Cofina (numa entrevista gravada ainda antes das eleições), Octávio Ribeiro, diretor-geral editorial do grupo liderado por Paulo Fernandes (que já detém o Correio da Manhã e a CMTV, entre outros), fala do desafio que aí vem e das críticas de que é alvo atualmente. Confiante no novo projeto, diz que pode ser “cortante” para quem ataca o Correio da Manhã, para defender os seus trabalhadores. Explica ainda o que, segundo ele, afasta o CM do conceito de tablóide — mas também daquilo que o aproxima. E lamenta que a concorrência se tenha “cmtvizado”, porque isso “não é bom para a democracia”. A entrevista desta semana de João Miguel Tavares no programa Artigo 38 da Rádio Observador, para ouvir também aqui.

O teu cargo atualmente é diretor-geral editorial da Cofina, é isso? Disse bem?
Exato, é isso.

E agora com a compra da TVI, o que vais ser?
Não faço a mínima ideia. Ser diretor editorial da Cofina, que está num processo de compra da TVI, é bastante para mim. Estou muito satisfeito com o trabalho que temos desenvolvido, com as direções dos diversos títulos e, portanto, não faço a mínima ideia.

Não fazes ideia de qual é que vai ser o teu futuro ou ainda não podes dizer, no caso de a compra ser bem sucedida?
Ao contrário de algumas notícias que têm saído — e, como estamos a gravar, não sei o que acontecerá até sair a entrevista –, tenho a informação necessária para estar descansado, para ter confiança no futuro do grupo. Em relação a mim, isso logo se vê. Não é uma coisa que me preocupe.

Ao contrário de algumas notícias que têm saído — e, como estamos a gravar, não sei o que vai sair daqui — durante uma semana que vem entre estarmos a gravar e sair a entrevista, eu tenho a informação necessária para estar descansado, para ter confiança no futuro do grupo. Em relação a isso logo se vê. Não é uma coisa que me preocupe.

Chegaste a chamar ao Sérgio Figueiredo um “comissionista dos interesses instalados” e disseste: “Esse indivíduo é a abcesso da democracia”. Como é que vais estar com ele na…
Não sei se vou estar. No trabalho, acima de tudo, as pessoas têm direito a viver, desde que se respire um ar saudável. Se não se respirar um ar saudável, eu não estou…

Alguma vez te arrependes de ser assim tão cortante?
Não. Acho que procuro ser justo, mas as coisas têm uma conjuntura. Nessa altura, essa pessoa tinha dito pior do projeto que eu estava a liderar…

Da CMTV…
Sim. Há essa conjuntura. O que é preciso é que quem está à frente do projeto jornalístico seja jornalista. E ser jornalista é ser independente, ser corajoso, respeitar o artigo 38, como se chama este programa — e que tem subjacente o artigo 3º número 1, que diz que toda a soberania reside no povo. E, portanto, a nossa função é de grande responsabilidade.

Octávio Ribeiro sublinha que uma das funções mais importantes que desempenha é a defesa dos profissionais com quem trabalha. Créditos: KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Quando estás a falar de algumas pessoas que se atravessaram no teu caminho de uma maneira que não apreciaste consegues ser realmente muito cortante. Isso é uma coisa que, quando olhas para trás na tua carreira, já te deu arrependimentos? Do João Marcelino disseste que não tinhas nada contra ele desta forma: “Acho piada ao João Marcelino, é um ótimo jornalista desportivo”.
Nessa área é o melhor que conheço. Nessa área é o melhor com quem trabalhei. Mas ele foi também um bom diretor do Correio da Manhã. Nessa entrevista digo que trabalhei com ele e fui-lhe leal até ao último dia. Depois as pessoas vão para outros sítios e tentam desestabilizar os projetos onde estou. E eu reajo. Raramente reajo a ataques se forem só contra mim. Agora ao projeto, à equipa… Quero dizer, nessa altura era responsável para aí por 280 pessoas. E pelo trabalho delas, pelo futuro delas. Agora sou por 400 e muitas. Tenho que defender o projeto e as pessoas.

No início, a CMTV, a TVI24, a SIC Notícias e a RTP3 eram canais que tu entendias como teus concorrentes, certo? Hoje em dia ainda o entendes dessa maneira?
Sim, concorrência são claramente. O que lamento é que os concorrentes se tenham cmtvizado. Nós procurámos ocupar espaços que estavam em aberto e, conforme fomos tendo sucesso, houve uma cmtvização excessiva, na minha perspetiva. Se alguma vez for responsável por algum projeto desses, ver-se-á que serei coerente com o que estou a dizer. Houve uma cmtvização excessiva que retirou alguma identidade aos projetos. A democracia portuguesa não ficou favorecida com isso.

O que eu lamento é que os concorrentes se tenham cmtvizado. Nós procuramos ocupar espaços que estavam em aberto e, conforme fomos tendo sucesso, houve uma cmtvização excessiva, na minha perspetiva. Se alguma vez for responsável por algum projeto desses, ver-se-á que eu serei coerente com o que estou a dizer. Houve uma cmtvização excessiva que retirou alguma identidade aos projetos. A democracia portuguesa não ficou favorecida com isso.

Achas que estão muito parecidos entre si?
Sim.

Isso não pode ser também um problema? Não estás na ERC, mas há a questão da CMTV ser ou não incompatível com a TVI24 não pode ser também um problema? Aliás já surgiram notícias de que a Cofina até poderia vir mais tarde a vender a TVI24…
As notícias atualmente são neste domínio, não é? Eu vivo das notícias, as notícias são um elemento essencial na democracia, mas por vezes as notícias são especulativas. E o que tem saído sobre algum tipo de integração entre aquilo que é hoje o grupo Cofina e o que é a Media Capital é claramente especulativo. São pessoas a meter cunhas para ver se salvam o lugar. Acho que não se deve dar ainda muita importância às notícias que têm saído. Em relação a essa pergunta, o portfólio de um grupo e do outro são muito complementares. A Media Capital não tem jornais em papel. A Cofina não tem rádios. Pronto, há a CMTV e a TVI24, mas lá está: se a TVI24 tiver um perfil mais adequado à sua matriz original — e eu estive no primeiro dia de lançamento da TVI24 e, com muito prazer, fui convidado de um programa que na altura era conduzido pelo Vítor Bandarra —, não me parece que haja aí algum choque. Se a CMTV for o que é e se a TVI24 for o que o que deve ser, não vejo choque nenhum.

No Correio da Manhã estiveste na fase em que o jornal mais vendeu, e hoje em dia a CMTV dentro do cabo é um sucesso de audiências. Qual desses trabalhos mais te orgulhas? Ou achas que é o mesmo?
É complementar, é o mesmo. Aliás, a CMTV foi criada em cima da estrutura do CM. A direção é a mesma. E fomos buscar essencialmente a super-estrutura dirigente, pessoas de grande qualidade e com formação em televisão generalista e em televisão de cabo. Carlos Rodrigues, José Carlos Castro, João Ferreira, Tiago Rebelo…

Que continuam lá, não é?
Continuam todos. É uma equipa muito coesa, cada um é muito diferente do outro, mas há uma enorme coesão. O Pedro Morato, que é o diretor da produção e programas que veio da TVI, é um extraordinário profissional. E depois miúdos. Um pouco como o que o Observador fez no início. E os miúdos foram feitos por nós e, portanto, é o mesmo projeto. Nós tivemos no CM, a passar para a CMTV, pessoas que aprenderam a fazer os seus rudimentos de televisão aos 50 anos e que hoje são repórteres que aguentam um direto meia hora, se for preciso. E, portanto, são ambos trabalhos de que me orgulho. No CM ultrapassámos o JN e tornámo-nos líderes em 2003. Eu já lá estava, tenho essa honra, mas o João Marcelino só deixou a direção em fevereiro de 2007. O máximo que o CM atingiu de vendas foi em 2011: mais de 120 mil jornais vendidos em banca. E a partir daí disse à minha equipa, quando saíram os resultados desse ano, que tínhamos de nos virar para um objetivo que seria a quota de mercado. Porque não me parecia possível crescer mais e já estávamos a crescer em contraciclo com o setor há vários anos. Os sites estavam a tornar-se cada vez mais relevantes, por isso tínhamos de nos focar na quota de mercado.

Hoje em dia  quais são os valores em banca?
Não preparei isso, mas diria que ainda estamos nos 80 mil.

A última vez que cheguei a ver foram 73 mil, no início do ano.
Foi? Pois, mas no verão vende-se mais. Mas sim vendemos quase…

Mas isso significa, apesar de tudo, uma queda enorme. Que não acontece só do CM, claro, é de toda a imprensa…
Só o Público é que está a sofrer menos…

Mas isso também porque beneficiou do facto de o Diário de Notícias ter deixado de ser diário. Dirias que a CMTV pode ter canibalizado um pouco o jornal?
Sim. Na altura em que íamos lançar a CMTV, a única pessoa que tinha essa visão era o próprio engenheiro Paulo Fernandes. Eu não achava, e mais ninguém achava, que isso acontecesse. Agora, numa perspetiva quase a sete anos depois, claramente houve consumidores de informação do CM que passaram para a CMTV e ficaram satisfeitos, saciados, sem comprar o jornal diariamente. A frequência de compra dos jornais diários também reduziu muito. Penso que tem também a ver com o preço,  porque em Portugal os jornais estão a negar a principal regra de mercado — a lei da oferta e da procura. Há cada vez menos procura e o preço aumenta. Isso sustém um pouco a queda das receitas, mas pondo em causa o contacto diário com os leitores.

Agora, numa perspetiva quase sete anos depois, claramente houve consumidores de informação do CM que passaram para a CMTV e ficaram satisfeitos, saciados, sem comprar o jornal diariamente. A frequência de compra dos jornais diários também reduziu muito.

Quando fazes esse balanço entre Correio da Manhã jornal e CMTV, achas que valeu a pena perder essa quota de mercado no papel para ganhar a televisão?
Claro, até porque não sei que quota de mercado perderíamos sem televisão….

Quota de mercado é uma má expressão, até porque a quota de mercado até tem aumentado, não é? Estou a falar de vendas.
E perderíamos na mesma. Não sei se perdíamos uns oito, 10%, que está a acontecer ao ano. Perderíamos 6%. Mas ganhámos outra coisa: ganhámos futuro, porque o papel, se não houver nenhuma intervenção — e não sei se é saudável, mas tem que haver alguma intervenção, algum apoio estatal cego, tem que ser, se calhar na área dos impostos —, os projetos jornalísticos que se baseiam nas receitas do papel morrem.

E a Cofina ainda é um grupo lucrativo?
É muito lucrativo. Mas, deixe-me voltar a insistir na questão dos apoios estatais — aliás, só o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tem falado disso, mas isto é muito importante— porque não está só em causa a liberdade de imprensa e a diversidade dos títulos. Estão em causa milhares de postos de trabalho, desde as gráficas, os tipógrafos, os vendedores. Portanto, não se pode aspirar a melhores vendas com as pessoas todas a migrar para o digital. A terem dificuldade em aceder ao produto, pelo fecho dos quiosques: quando comecei a olhar para essas coisas, havia mais de 10 mil quiosques. Hoje deve haver sete mil, seis mil.

A CMTV teve um início atribulado, complicado. Aliás, tu dizes muitas vezes que isso teve  a ver com questões técnicas, que nem sequer estavam nas vossas mãos. Suponho que isso tenha a ver com questões de estúdio, de câmaras…
Não, não, não, não foi nada disso. A seleção de tecnologia foi excelente. A instalação é que correu mal, mas já passaram sete anos…

Mas no início foi uma pancada muito forte.
Foi. Muito forte.

Já te ouvi dizer que foi a coisa que mais anos de vida já te tirou.
E foi. Passei lá muitas noites a reinstalar, a ver reinstalar, a ver colocar bem as coisas que estavam mal. O que valeu foi uma grande união de cima a baixo do grupo, desde os acionistas, aos administradores, até aos técnicos internos que não percebiam nada de televisão e tiveram que fazer um curso intensivo.

Octávio Ribeiro foi um dos responsáveis pelo lançamento da CMTV. Créditos: KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Quando é que achaste que a CMTV se ia impor?
Ao fim de três meses. Assim que resolvemos as questões técnicas começámos a subir de audiências. Corrigimos não só questões técnicas. Quer dizer, tive dois ou três programas em que acreditava muito que foram fracassos. Tiveram que ser retirados rapidamente da grelha, com toda a dor que isso gera.

Falou-se também de uma telenovela. Também foi uma aposta grande que falhou, certo?
Sim, a telenovela foi recente. Continua em antena, porque estava contratualizada, mas foi uma falha, sim, sem dúvida.

O mundo da televisão ainda é um mistério? Aquilo que funciona e o que não funciona?
A telenovela… Acho que num canal como a CMTV pode haver eventualmente um reality show que entra e sai quando dá jeito, quando acontece alguma coisa muito forte. Com a telenovela aprendemos que não é a nossa praia porque os espectadores da CMTV não querem um slot monolítico, que dificilmente poderá sair dali, mesmo que haja um alerta CM. E, portanto, ficou provado que a telenovela não tem nada a ver com o projeto CMTV.

O projeto CMTV é sobretudo um projeto noticioso?
A essência da CMTV é noticiosa e entrar em direto. E mesmo quando o momento não é noticioso, convém que se possa cortar a qualquer momento com uma passagem harmoniosa para as notícias. Ou seja, é alguém que está em direto e diz: “Bem, vamos interromper porque está a passar-se” seja o que for. Já aconteceram, infelizmente, bombas em Paris, demissões no Governo, buscas a ministérios. É isso que os espectadores da CMTV querem.

A essência da CMTV é noticiosa e em direto. E mesmo quando o momento não é noticioso, convém que se possa cortar a qualquer momento com uma passagem harmoniosa para as notícias. Já aconteceram, infelizmente, bombas em Paris, admissões no governo, buscas a ministérios. E isso é muito mais harmonioso. É isso que os espectadores da CMTV querem. 

Foi preciso ultrapassar um preconceito em relação, por exemplo, a anunciantes? O preconceito em relação ao Correio da Manhã  ainda existe, sobretudo dentro daquilo que são as elites nacionais?
Já foi. Aliás, na CMTV nunca existiu muito. Não vou dizer nomes de marcas altamente prestigiadas e que lançam topos de gama também no CM. O CM tem mais audiência de classe AB do que outros jornais de audiência total. É  muito transversal, o CM. Agora, há preconceito? Há. E há um preconceito que dá muito jeito a alguma classe política, com alguns — e desculpem a expressão popular — “donos disto tudo”, uns que já o foram e outros que possam aspirar a ser. Porque o CM noticia e investiga dando à notícia um valor que nós, no estatuto editorial atualmente em vigor, consideramos absoluto.

Achas que o Correio da Manhã é quem faz melhor jornalismo em Portugal?
Acho que o Correio da Manhã faz um jornalismo que não pode ser ultrapassado na sua independência, na busca do rigor. Sou diretor há 13 anos e só tive que corrigir, em 13 anos, três manchetes. E todas levaram a uma grande reflexão interna e a um apuramento do que correu mal. Duas delas levaram a que pessoas saíssem discretamente do projeto. Portanto, não se pode dizer que não é independente. Visa sempre o rigor e a verdade dos factos, é livre. Agora, é muito agressivo.

Há uma expressão que gostas muito de usar que é “intensidade”. Depositar intensidade em tudo aquilo que fazes. Mas essa agressividade é muitas vezes confundida com o jornalismo tablóide, popularucho, que não tem a devida atenção pelo contraditório. Até que ponto essas acusações são verdadeiras? Reconheces algumas delas?
Não e não. O formato obviamente é tablóide: as manchetes são muito sintéticas e visam a atração para o produto na banca – ou seja, onde for que a pessoa vá olha para a capa. Em relação ao contraditório, o que não pode haver, e existe em Portugal bastante, é o veto de gaveta conseguido pelas pessoas que fogem ao contraditório. Isso não pode ser admitido.

Quando dizes isso falas de pessoas que não aceitam falar.
Não atendem, esperando que a notícia saia… Isso acontece imenso e vou até a tempos em que era diretor adjunto. Por exemplo, na fase da Casa Pia isso aconteceu imenso. Uma vez, inesperadamente, alguém me perguntou isso na SIC Notícias — penso que foi a Clara de Sousa — e surgiu-me uma imagem de que procuro fugir mas que, em último caso, é legítimo usar, que é o contraditório sucessivo. Se a pessoa não quer atender, ou se há um risco de providência cautelar sobre uma notícia relevantíssima, acho que a notícia deve ser dada na mesma. Lembrando a posição da pessoa, se ela já falou daquele caso, e continuando a persistir e a procurar uma reação. É como antigamente as notificações: as pessoas fugiam das notificações e nunca se era julgado. Isso não é possível.

Se a pessoa não quer atender, ou se há um risco de providência cautelar sobre uma notícia relevantíssima, acho que a notícia deve ser dada na mesma. E depois, lembrando a posição da pessoa, se ela já falou daquele caso, lembrando o que ela já disse e continuando a persistir e a  procurar uma reação da pessoa. Isso é como antigamente as notificações, as pessoas fugiam das notificações e nunca se era julgado. Isso não é possível.

Sentes que o Correio da Manhã tem um enorme poder em Portugal?
O Correio da Manhã tem o poder que merece, o poder que lhe é dado por uma comunidade em papel de leitores ainda à volta do milhão de pessoas. No site, dois milhões de contactos. Na televisão, se nos mantivermos nos contactos, dois milhões e duzentas ou dois milhões e trezentas. Obviamente que isso é um poder que exige muita responsabilidade.

O André Ventura é uma invenção do Correio da Manhã?
O André Ventura é um excelente comentador de televisão na área do futebol e também na área da segurança porque é um jurista de imensa qualidade…

Ele começou a aparecer em antena na altura em que era advogado da Cofina — não sei se ainda é —, certo?
Não, nunca foi advogado da Cofina. Nem sei se ele é advogado. Jurista é. E tem um doutoramento de qualidade numa universidade da Irlanda. Não é um doutoramento de aviário. O André Ventura apareceu uma vez num programa de segurança que nós temos chamado Rua Segura porque tinham faltado os titulares, digamos assim. Havia uma falha e a pessoa que na altura estava a editar o programa tinha conhecido o André Ventura numa universidade onde ele dava aulas. Eu estava em casa e vi que ele era um talento natural para comunicar na televisão. Assertivo, com bom vocabulário, com capacidade de raciocínio imediato. E portanto, nesse sentido, só nesse sentido, poder-se-ia dizer… Até estou com medo de dizer que sim, porque senão isso ainda é algum título, mas ele tornou-se conhecido no Correio da Manhã e na CMTV. Escreve muito bem. Deixa-me dizer uma coisa, que é o que sinto: se temos que ter um populista com algum sucesso, que seja um populista com o perfil dele. Um perfil católico, humanista.

Octávio Ribeiro comentou a relação da CMTV com Pedro Guerra e André Ventura. Créditos: KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Já ouvi esse argumento por parte de pessoas que trabalham com ele: “Bem, se é para ter alguém de uma direita mais musculada, mais vale ser o André Ventura”. Mas tu identificas-te minimamente com os seus posicionamentos políticos?
Não, não, não. Não, mas atenção. Dos posicionamentos políticos que conheço do André Ventura — não falo muito com ele —, ele não é racista. Pelo menos garante-me que não é. O que é a pena de prisão perpétua? Em Espanha existe, foi retomada.

É a maneira como fala da comunidade cigana…
O que eu ouvi dizer é que todos os portugueses devem ser iguais perante a lei. E se entram no autocarro devem pagar, se entram num tribunal devem acatar o que o tribunal decide, se entram num hospital devem esperar pela sua vez. Penso que foi isto que ele disse.

Tu fazes até ao fim a defesa da tua equipa?
Sim.

Então deixa-me fazer-te outra pergunta: o Pedro Guerra também é uma invenção do Correio da Manhã?
Não. Trabalhei com ele no jornal “O Independente”. Ele era muito próximo de Paulo Portas e da Helena Sanches Osório e fazia um trabalho muito interessante jornalisticamente. Depois foi para a política, penso que como adjunto do Paulo Portas. E reapareceu no Benfica. Nessa altura, foi na CMTV, no início, que o Pedro Guerra começou a aparecer. Mas, ao contrário do que ele diz, foi a CMTV que decidiu que ele não devia aparecer mais. Não foi ele que decidiu.

Não. Trabalhei com ele num meio independente. Ele era muito próximo de Paulo Portas e da Helena Sanches Osório e fazia um trabalho muito interessante jornalisticamente. Depois foi para a política, penso que como adjunto do Paulo Portas. E reapareceu no Benfica. Nessa altura, foi na CMTV, no início, que o Pedro Guerra começou a aparecer. Mas, ao contrário do que ele diz, foi a CMTV que decidiu que ele não devia aparecer mais. Não foi ele que decidiu.

E porque é que decidiu?
Porque não servia os interesses do canal…

Ele dá uma explicação num artigo a dizer que havia uma incompatibilidade entre ele e o facto de também estar na Benfica TV.
Sim, quando soubemos que ele era diretor de conteúdos da Benfica TV. Mas a decisão já estava tomada. Mesmo que se percam audiências durante dois ou três meses, a nossa corrida é uma maratona que eu espero que seja sem fim.

Mas o que é que isso significa exatamente — dizeres que alguém com o perfil dele não encaixa nos interesses do canal? 
Gosto de debates vivos e em que haja momentos de algum ruído, mas isso não pode ser permanente. E, portanto, não me revia no tipo de programas que nós conseguíamos com a presença dele. Acho é que já estamos é a perder muito tempo com uma figura menor.

Ainda te vou fazer uma pergunta. Bem, estou a ver que a relação não acabou muito bem.
Não, não. Nem bem, nem mal.

Mas há uma coisa que me interessa, porque tem a ver com o próprio produto do Correio da Manhã…
Mas é um figura menor, não?

Sim, mas quando ele saiu, houve uma notícia no Correio da Manhã de que ele, no Independente, tinha investigado o Luís Filipe Vieira. Um bocadinho tortuoso.Tiveste essa tentação?
Nem me apercebi disso. Não. Pelo menos em relação ao pedro Guerra. Já com o ministro que está a ser acusado, quando ele estava na ERC, às vezes dava essa tentação.

Estás a falar do Azeredo Lopes?
Sim. Agora, com todo o respeito, há figuras que merecem respeito, mas que não podem beliscar o caminho do projeto. Isso deve ter acontecido. Não me apercebi disso, mas por acaso lembro-me dos artigos que o Pedro Guerra escreveu no Independente sobre o Luís Filipe Vieira.

E o José Sócrates? Como colunista, sou acusado de ser obcecado por ele e ter a companhia do Correio da Manhã em termos noticiosos. Embora quem tenha dado a primeira notícia da vida faustosa de José Sócrates em França tenha sido o Expresso, com uma reportagem de Daniel Ribeiro no Expresso, depois o Correio da Manhã foi lá, acompanhou sempre o tema com uma grande intensidade. Porque é que nunca largaram isso e disseram: “O homem saiu e foi à sua vida…”
Mas isso não é assim. O homem saiu e depois ficou cá, não é? E, portanto, o escrutínio sobre políticos que desempenhem cargos de enorme relevância executiva, não acaba quando eles vão gozar os rendimentos, não é? E era fundamental apurar. Falas de uma reportagem do Expresso — eu não me lembro — a falar da vida faustosa?

Sim, é uma reportagem do Daniel Ribeiro na revista do Expresso.
Nós mandámos uma equipa a Paris, constituída por uma fotógrafa que nasceu lá e por um jovem jornalista, que agora vive em Londres, e que podiam perfeitamente passar por um casal e alugámos um Smart. Durante três dias não encontraram o alvo da reportagem, e eu liguei-lhes para lhes dar confiança e dizer que íamos prolongar a estadia. Mas depois interrompi por qualquer coisa e, quando voltei a ligar, estavam excitadíssimos porque tinham tido contacto visual. E a partir daí foi um trabalho fabuloso que deve orgulhar qualquer jornal, porque pudemos reconstruir, pudemos seguir os passos e o tipo de vida que José Sócrates fazia em Paris.

Ficaste surpreendido com isso?
Não.

Ficaste surpreendido com a acusação da Operação Marquês?
Não, não fiquei. Acho que, eventualmente, há muitas coisas que a justiça não conseguiu apurar. Portanto, na minha perspetiva, se a justiça pecou, foi por defeito.

Achas que ainda havia mais casos?
Sim.

Qual deles todos consideras mais grave?
São todos, quer dizer, não sei. O que acho mais dilacerante, fulminante, para o país nem sequer está ainda muito bem apurado. É a PT, a venda da posição na Vivo — que era uma empresa que conhecia bem, pujantíssima no Brasil — e a compra de um dinossauro tuberculoso chamado Oi. Não há explicação racional para o que se passou.

Isso ainda está tudo por explicar?
Sim, está.

Nós somos um país corrupto?
Sei lá.Vejo Espanha também. Eventualmente não obtemos é os resultados necessários do ponto de vista da justiça, não é? E de se fazer justiça. Talvez não coloquemos os resultados com celeridade e com a severidade necessária para interromper este ciclo. Todos os países têm corruptos; e terão tanto mais quando maior impunidade houver. E leis cheias de alçapões, cheias de curvas em cotovelo, cheias de excesso de garantias na área do crime económico. Com todo o respeito, sou jurista mas nunca pratiquei.

Eventualmente não obtemos é os resultados necessários do ponto de vista da justiça, não é? E de se fazer justiça. Talvez não coloquemos os resultados com celeridade e com a severidade necessária para interromper este ciclo. Todos os países têm corruptos; e terão tanto mais quando maior impunidade houver. E leis cheias de alçapões, cheias de curvas em cotovelo, cheias de excesso de garantias na área do crime económico. Com todo o respeito, sou jurista mas nunca pratiquei.

Ainda acabaste o curso de Direito, não acabaste?
Acabei. Poderia, sem falsas modéstias, ser muito bom. E o que vejo é toda uma instituição excelente, até se chegar ao crime económico. Aí parece que todos os bons juristas deste país meteram férias e as leis foram escritas por uns analfabetos que foram para o parlamento. E não é por acaso.

Achas que é aí que falha? É logo nas leis do país?
É logo nas leis do país.

Que estão feitas para dificultar a prova, dirias tu?
Completamente. E depois, a falta de meios. Precisas tanto de mais meios quanto mais difícil for a forma de obter prova. Há quanto tempo é que andamos — e os partidos todos à vez, parece uma dança fandanga — a dizer: “O enriquecimento injustificado tem que ser criminalizado”. E onde é que está “a inversão do ónus da prova”. Acho que não se inverter o ónus da prova é uma grande conquista civilizacional. Mas, no direito fiscal, onde é que não há inversão do ónus da prova? E a colaboração premiada no tráfico de droga? Há quantos anos existe e é praticada? Então porque é que não pode ser transferido esse modelo para a área do direito económico?

Octávio Ribeiro defende que Portugal não é necessariamente um país mais corrupto que os outros, mas em que Justiça tem falhado. Créditos: KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Portanto, quando os políticos falam muito no combate à corrupção, estão só a empatar?
Sim. E este ano não se está a falar muito do combate à corrupção porque caiu o Ambiente em cima de nós todos, não é? E o PAN, não é? Portanto, a violência doméstica não interessa nada, o combate à corrupção interessa muito pouco. E estamos todos a discutir o degelo, que é importantíssimo. Mas Portugal, com o devido respeito, e eu sou português até à medula, é um bocado aquela anedota do elefante e da pulga no deserto. E a pulga que somos nós olha para trás e diz: “Olha, vamos a fazer uma grande poeirada”. Se calhar devíamos olhar mais para a corrupção, onde, na mangueira do investimento público, se perdem milhões e milhões até se chegar aos projetos e a eles estarem concluídos. Projetos de todo o tipo e de todas as áreas. Devíamos falar um pouco mais disso, porque talvez até daí pudessem vir receitas que contribuíssem para melhorar o Ambiente.

Este ano não se está a falar muito do combate à corrupção porque caiu o ambiente em cima de nós todos, não é? E o PAN, não é? A violência doméstica não interessa nada, o combate à corrupção interessa muito pouco. E estamos todos a discutir o degelo, que é importantíssimo. Mas Portugal é um bocado aquela anedota do elefante e da pulga no deserto. E a pulga que somos nós olha para trás e diz: "Olha, vamos a fazer uma grande poeirada".

E sentes que a Comunicação Social está a fazer o seu papel? Ou também falha?
Não, a comunicação social neste momento em Portugal está ligada à máquina.

Achas mesmo?
Acho.

A comunicação social em 2019 é mais fraca do que em 2009, em plena época socrática? O Parlamento é menos escrutinado? Porque aí é que me parece que comunicação social falhou muito. Ou seja, foi muito fácil para José Sócrates colocar boa parte da comunicação social portuguesa no bolso, ou não?
Sim e colocar boa parte de pessoas injustamente acusadas de serem jornalistas em lugares chave, isso é verdade. Já não me lembro quem é que noticiava, para além de nós, em 2009. Atualmente, o que é que vejo? Vejo o Público a fazer um bom trabalho, mas não é constante, de jornalismo de investigação e de levantamento de casos importantes. Vejo o Expresso, também está a passar por uma boa fase. E o Correio da Manhã e a CMTV a fazer eco do que se faz no Correio da Manhã. Vejo por vezes a Ana Leal…

Desconfio que em 2009 não era assim tão diferente…
Pois, talvez não me lembre. O que me lembro é que era mais difícil o Correio da Manhã fazer o jornalismo que faz hoje e que era o que fazia em 2009. Era mais difícil em 2009.

Então sentes que hoje em dia, apesar de tudo, és mais bem tratado?
Sim, quanto ao ambiente político. Quer dizer, Rui Rio talvez tenha tiques de José Sócrates e até mais claros, não é? Mas António Costa tem raízes democráticas muito mais profundas do que o nenúnfar da democracia que foi José Sócrates.

E quando olhas para trás… E tu já és jornalista desde da década de 80, não é?
Sim.

E olhas para a política, que também foste sempre mais ou menos acompanhando. Achas que as coisas estão melhores apesar de tudo? Em termos de transparência.
Estão, mas o caminho podia era ser muito mais rápido.

É sempre tudo muito mastigado.
Muito mastigado e com marchas atrás. E onde o jornalismo é muito pouco agressivo, e era fundamental ser muito mais agressivo, é no jornalismo parlamentar. Há ali quase um fenómeno de embedded e as pessoas são todas amigas umas das outras. Por vezes, dá-me a sensação que não estamos suficientemente atentos — nós, os jornalistas que andamos por lá — quanto deveríamos estar, porque os projetos-leis ou as propostas de leis passam todas por lá. E o escrutínio não é tão fino e arguto e tão agressivo, tão intenso como devia ser.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.