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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Rangel em campanha "picadinha" dá ao "flat" Pedro Marques o "direito à irritação"

No dia em que Montenegro desceu à campanha, Paulo Rangel deixou a veia de comentador, para a tarde, altura em que surfou a onda das críticas a Pedro Marques e negou que a campanha esteja flat.

Rangel não consegue (e não quer) ser Marcelo na rua, mas não sai dela. As ações sucedem-se desde passeios de bicicleta a passeios à beira mar. Mas há algo em que consegue ser eficaz, como o Presidente: a comentar o que se está a passar. Não raras vezes, num misto de aula e vivo jornalístico, descreve o que está acontecer no momento. Passa do surf ao comentário político num ápice. Ao final da tarde de segunda-feira, ainda o sol ia alto, Paulo Rangel comentou com um professor de surf, na praia da Cortegaça, em Ovar, que o mar estava flat. Mas a campanha, como comentaria minutos depois, analisa-a de outra forma: “Uma campanha picadinha, que ainda não está com aquelas ondas dignas de uma sinfonia de Beethoven, isso será para a frente, ou da Carmina Burana, mas uma campanha picadinha“.

O direito à irritação de Pedro Marques

O candidato não dispensa as referências culturais para mostrar que a campanha não está morna. Aliás, aquece bastante quando se fala de Pedro Marques. Rangel não se tem dado bem com feiras, mas diz que a sua falta de empatia com as pessoas, que o socialista destacou, é algo que “não merece comentário”. Rangel diz mesmo que não está para “estar a reagir a todas as erupções de irritação e irritabilidade do candidato socialista”. E atira: “Vamos deixá-lo irritar-se à vontade, é um direito fundamental. Todo o cidadão tem direito à irritação e Pedro Marques também“.

Rangel, que de manhã tinha estado pouco tempo à conversa com as pessoas, à tarde deteve-se mais tempo. Uma delas foi Jonathan Dias, jovem professor de Surf, que o alertou que as intervenções para proteger o avanço do mar, com a construção de barreiras, estão a “destruir as nossas ondas”. O professor de surf, como Rangel lembraria mais tarde, disse-lhe que as praias de Ovar estavam tão boas que parecia a “Indonésia”. Foi também a Jonathan que Rangel disse que o mar estava um “bocado flat”, para usar termos de surf.

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Flat aplicar-se-ia melhor à descrição que Rangel faz da volta das Europeias do PS. Insiste que “o PS decidiu fazer uma campanha que não está na rua, é uma campanha de espaços fechados”. O eurodeputado diz que “cada um escolhe o seu modelo de campanha”, mas os socialistas não podem querer ter “sol na eira e chuva no nabal.” Ou seja: não podem dizer que Pedro Marques tem mais à vontade das pessoas (por oposição com Rangel), quando têm poucas ações de rua.

As declarações de Rangel em Ovar foram feitas com os pés na areia. Antes já tinha escolhido o caminho das pedras: um dos pontões da praia da Corregaça. E, aí, ouviu Salvador Malheiro, presidente da câmara de Ovar, dizer que — embora sejam competências do Estado central — a autarquia está disposta a pagar metade da comparticipação nacional para resolver a questão da erosão costeira naquele município.

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Os 56 segundos de ator secundário de um Paulo que não é das feiras

Segunda-feira, primeira feira em período oficial de campanha. Paulo Rangel, rotulado como intelectual, está longe de ser um animal de campanha em ambientes mais populares e fica abaixo do meio da tabela se o contador for de zero a Marcelo. Este Paulo não é das feiras (como demonstraram peças televisivas na pré-campanha) e há cinco anos até deixava o palco para o colega de coligação Nuno Melo, com mais jeito entre os feirantes.

Na manhã desta segunda-feira, Rangel estava quase condenado a ser personagem secundária: de um lado, Luís Montenegro, vice-rei de Espinho (ao lado do indefectível apoiante e autarca Pinto Moreira) e de Salvador Malheiro, uma espécie de rei de Ovar. O carnaval estava montado e dos espinhenses — a maioria indiferentes à caravana ou às eleições europeias — até se ouviu: “Montenegro, conta comigo, para presidente!

Rangel e Montenegro começaram o dia com um abraço, perto da câmara de Espinho. Logo ali, o antigo líder parlamentar foi solidário com o candidato. “Está em grande forma, o país tem testemunhado que está em grande forma e também a má forma do outro candidato [Pedro Marques]”, atirou Montenegro. Seguiram em passo acelerado, Rangel queixou-se da garganta e lá chegaram à feira. A química esteve longe da que Rangel, desempoeirado, teve na praia de Matosinhos com José Pedro Aguiar-Branco.

Luís Montenegro sorria muito, mas ajudava pouco. Preferia refugiar-se na conversa com Pinto Moreira. Entre os feirantes, ao contrário de Malheiro (sempre muito ativo em mostrar o seu candidato “Paulo Rangel”), Montenegro não apelou uma única vez ao voto no PSD.

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À entrada da feira, um dos elementos da entourage de Rangel, tentava ajudá-lo a fazer da feira a sua praia. “Paulo, as canetas”. O brinde dá sempre uma ajuda, é um desbloqueador de conversa e a equipa de Rangel sabe isso. Mas não faz milagres. Rangel sorri simpaticamente aos eleitores, mas responde sempre como um autómato: “Dia 26 de maio, não se esqueça de votar”; “Europeias, dia 26 de maio”; “Bom negócio”; “Tome uma caneta para fazer as contas”. Saiu-lhe mais qualquer coisa quando uma idosa lhe disse que o país “está a ficar pior”. Rangel aproveitou a deixa para dizer que “a culpa é do governo do Costa, por isso é que tem de votar em nós”.

Rangel, muito comunicativo em debates, não terá tanto jeito com o povo, apesar das visíveis melhorias face a 2014. Já Malheiro era uma autêntica estrela. “Olha lá vai o Salvador”, dizia-se na banca de legumes. “Ó Malheiro, olha o nosso Malheiro, anda cá”, dizia outra feirante numa banca de folares de Ovar. Outra beatificava o presidente da distrital do PSD de Aveiro: “Este homem para mim foi um santo“. E beijocas repenicadas, algo que com Rangel seria impossível. Malheiro ainda tentou puxar pelo cabeça de lista e chamá-lo para uma roulote, a Toneca, em que todos os funcionários tinham a camisola laranja, mas a conversa estancou logo.

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Feira dentro, os “jotas” iam tentando fazer barulho: “Ninguém pára o Rangel, ninguém pára o Rangel, alê ô”. Ou mais otimistas ainda: “Já só faltam 13 dias para a vitória”. Mas também uma versão criativa: “Ninguém pára esta choradeira/ Chora o Costa/Chora o Marques/ Choram a família inteira”. Que logo ouviu resposta de uma banca: “Quem chora sou eu com a falta de clientes”.

Por entre as bancas, Montenegro não roubou voluntariamente palco a Rangel, mas era mais conhecido entre as gentes de Espinho. No fim, em declarações aos jornalistas, acabou por abafar o candidato — neste dia, e sendo a primeira aparição política a este nível depois de ter saído derrotado no confronto com Rio, a sua presença tinha mais interesse jornalístico. Rangel, na primeira ação de campanha oficial, falou só 56 segundos. O resto do tempo foi o antigo líder parlamentar a responder a perguntas.

Ainda assim o candidato teve tempo para dizer que no PSD há “sempre esta solidariedade, portanto a coisa mais natural era que, vindo a Espinho, o dr. Montenegro estivesse connosco“. Rangel diz que houve vontade dos dois lados: “Eu queria estar e ele queria convidar, digamos que há aqui um compromisso bilateral”. O eurodeputado acrescentou ainda que “o PSD está sempre unido nestes momentos importantes”.

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Embora possam ser adversários no pós-Rio, Montenegro foi simpático para Rangel. Entre as “muitas razões para votar no PSD”, o antigo líder parlamentar disse que a “primeira é que o PSD apresenta, de longe, o candidato mais qualificado e que está em melhores condições de defender os interesses de Portugal na Europa”.

Montenegro garante que não está a preparar “golpe do poucochinho”

Depois, Montenegro aplicou um dos seus desportos preferidos: tiro-ao-PS. A segunda razão, regista Luís Montenegro, é que “há três anos, o PS prometeu que ia mudar a Europa, mas três anos volvidos o que nós percebemos é que foi a Europa que mudou muito o PS. E para o lado mau”. O antigo líder parlamentar do PSD diz que hoje o PS está “obcecado de tal maneira com o défice (…) que temos uma situação historicamente irónica: é que é com o Governo de esquerda que o Estado social sofreu a maior machadada de sempre da vida democrática”. Luís Montengro diz que é com a “geringonça” que “há mais problemas na saúde, mais problemas na educação, mais problemas no atendimento em todos os serviços públicos.”

Sobre a crise dos professores, fugiu à pergunta e preferiu apontar baterias para o PS. Disse que “apesar de ter recebido uma herança magnífica do Governo anterior” o governo de Costa “não mudou a austeridade. Mudou um bocadinho a aparência da austeridade, mas ela continua na mesma na vida das pessoas“.

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E por isso parece ter passado até a ter fé numa vitória do PSD em outubro. O maior crítico de Rui Rio diz que deve “ser mostrado já um cartão amarelo [ao Governo de Costa nas Europeias] para em outubro termos um cartão vermelho, mudarmos de governo e retomarmos um nível de crescimento sustentado que dê mais futuro às nossas populações”.

Disse estar disponível para fazer campanha ao lado de Rio nas legislativas e negou estar a preparar um golpe do “poucochinho” após as Europeias. Diz que após 26 de maio o PSD vai concentrar-se na “luta voto a voto, cidade por cidade, para obter o maior nível de confiança que os eleitores possam dar”.

Se em janeiro queria afastar o líder, o que mudou afinal a opinião de Montenegro? Segundo o próprio, nada. “Acredito que o PSD tem capacidade para, na diferença das suas opiniões, construir uma oferta à população de um projeto político aliciante. Continuo a acreditar. Acreditava há 4 meses, já acreditava há 8. E daqui a 3 meses vou acreditar na mesma”.

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Quanto às divergências com Rio, Montenegro diz que o PSD está “muito à vontade” com isso. O espinhense considera que o PSD é “o partido onde a democracia se exerce de forma mais viva no sistema partidário português”. E adverte que “há muitos partidos que falam de democracia, mas dentro deles toda a gente pensa da mesma maneira, toda a gente diz as mesmas coisas. Parece que não há desacordo e, quando há, as pessoas saem do partido. No PSD não é isso que acontece.” Na verdade, aconteceu com Santana Lopes, mas isso Montenegro omitiu propositadamente.

A pedalada de Rangel na ria de Aveiro

Paulo Rangel começou a tarde a visitar Centro de Interpretação Ambiental (CIA), no início do percurso do Salreu, em Estarreja. Quando arrancou, a bicicleta ainda balançou um pouco, mas com o tempo a pedalada de Rangel foi ganhando vigor. Não muito longe dali, tinha pedalado há cinco anos, e tinha feito a analogia com a frase de Jean Monnet, de que “a Europa é como uma bicicleta, se não pedalarmos caímos”.

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Rangel liderou quase sempre a comitiva, tirando uma ou outra ultrapassagem tímida pela esquerda, da número dois Lídia Pereira, que logo voltava a ser ultrapassada. Já Álvaro Amaro (que por essa altura já tinha sido citado na campanha do PS) mostrou não estar tão em forma, sendo ultrapassado por Maló de Abreu, em melhor forma. Maló fez um bullying saudável com o presidente da câmara da Guarda e número cinco do PSD: “Ó Álvaro tens de pedalar, senão não chegas à Europa”.

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