Rangel passou pelo Rio Ave e quer ser campeão com um cartão amarelo

12 Maio 2019

Rio teve um ataque de tosse. Aguiar-Branco apareceu na praia para contrariar um gato preto. E Rangel quer ser campeão contra um adversário virtual.

Paulo Rangel, o candidato do PSD, é portista e, já com o segundo lugar garantido nas sondagens, ainda sonha com o primeiro, que à partida é mais fácil para o benfiquista Pedro Marques, candidato do PS. No dia em que o Benfica podia ter sido campeão em Vila do Conde, foi lá que foram marcados dois eventos do PSD pela manhã: uma viagem de barco pelo Rio Ave (sim, o mesmo que dá nome à equipa de futebol) e um almoço com pescadores. Pelo sim, pelo não, levou colete salva-vidas. E se faltassem metáforas futebolísticas, foi na defesa da “Economia azul” que Rangel defendeu um “cartão amarelo fortíssimo a António Costa“.

Durante a viagem de barco no Rio Ave, o mestre José Luís foi explicando a Rangel os problemas. À chegada ao cais — que ia metendo água por gente a mais em cima da plataforma — o candidato do PSD aproveitava o assoreamento, um dos principais problemas daquela zona, para visar Pedro Marques. Questionado sobre se os fundos europeus podiam ajudar a resolver o problema, Rangel lembrou que o FEAM (Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas da UE) tem “uma péssima execução”. O candidato do PSD, que tem insistido nas falhas do seu adversário como ministro do planeamento, destacou que “a execução do Mar 2020 é tão má que estamos em risco de perder fundos, em mais uma herança do Governo socialista que tem uma má relação com os fundos europeus”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ao almoço, mais críticas. Com o alvo apontado mais acima, a António Costa. Perante uma plateia de pescadores, Paulo Rangel diz que quanto aos problemas naquela zona “há abandono porque isso não dá votos”. Para o candidato, “os pescadores e as pessoas que têm a sua vida e economia ligada ao mar estão esquecidos, estão deitados ao abandono seja em termos económicos, seja em termos de segurança da sua vida e das suas embarcações”.

Para Rangel, este abandono dos pescadores alarga-se a áreas como a agricultura e a saúde. “Há aqui um traço comum e esse traço é o traço de Costa: só governa e só toma medidas para aquilo que pode dar votos”, criticou o cabeça de listas. Mas, num apelo ao voto, Rangel diz que as Europeias são uma boa oportunidade para “denunciar as políticas deste governo e dar também um cartão amarelo fortíssimo a António Costa.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Gato preto, Aguiar-Branco

Durante o almoço, no restaurante Bar da Praça, em Vila do Conde, um gato preto passeava-se dengoso em cima do muro. Dá azar, garantem os dizeres populares. E o dia começou, de facto, com um azar para a campanha: Carlos Moedas a dar rasgados elogios ao governo PS. Paulo Rangel não evitou o assunto e desafiou Costa a reconduzir Carlos Moedas na Comissão Europeia.

Ainda assim, e embora Rangel tenha dito que não ficou “nada incomodado” com as declarações do seu mandatário nacional, uma situação deste género causa sempre desconforto na estrutura.

Mas contra um gato preto, um Aguiar-Branco. O ex-ministro da Defesa apareceu para dar um apoio na campanha e dar uma ajudinha a Paulo Rangel. Uma arruada pela marginal, junto à praia, em Matosinhos. Aguiar Branco, camisa branca, dedo partido, mas em forma política.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O calor é forte e a comitiva cruza-se com banhistas, em calções de praia, biquínis e afins. Rangel cola um autocolante do PSD no peito de Aguiar-Branco, que continua a operação de charme aqui e ali. Promove Rangel e promove a número dois, Lídia Pereira. A um dos eleitores diz, enquanto aponta para Lídia: “Ali é que está o futuro. É uma jovem de grande futuro”. Rangel também está solto. Pára para falar com donos de cães e vai lembrando o seu, Tocquy, que tem esse nome em homenagem a Alexis de Tocqueville.

Alguns prometem o voto a Paulo Rangel, outros parecem indiferentes: “Man, isto é só laranjinhas”. Também houve um mais agressivo: “Escusas de vir para aqui, que não tens o meu voto”. Ao que Rangel respondeu: “Mas podemos conversar”. Voltou a ouvir resposta negativa: “Não vale a pena, não voto em ti”.

Para compensar, a comitiva acabaria por se cruzar com Guilherme Seixas, 73 anos, uma militante mais dedicado. O emigrante do Canadá começou por gritar: “Fora a geringonça”. Depois ainda teve tempo para falar de uma fake news: “Eles têm relógios de milhares de euros”. Falava da notícia falsa sobre Haddad que foi aplicada a Catarina Martins, de que tinha um relógio de milhares de euros.

Guilherme Seixas disse depois que só há duas coisas que o fazem vir a Portugal: “A Nossa Senhora de Fátima e o meu partido [o PSD]”. E, antes de ir embora, ainda fez um pedido a Rangel: “Bata neles, bata nos socialistas”.

Mas nem só de bases se faz uma campanha. Logo na primeira ação de campanha oficial Paulo Rangel vai contar com aquele que foi o principal opositor interno do atual líder do partido, Luís Montenegro.

O cartão passa a laranja com a ajuda de D.Afonso Henriques

Coube ao líder da distrital do Porto, Alberto Machado, registar que estavam num jantar-comício em Penafiel cerca de duas mil pessoas (contas do PSD). E logo neste domingo em que, registou, “assistimos a um jogo do FC Porto e outro do Benfica que podia dar o campeonato, uma celebração em Fátima e procissões em todo o país”. Alberto Machado falou tanto que a produção do evento colocou o hino a meio do discurso, ao jeito dos óscares quando um vencedor não se cala e a orquestra sobe o tom. Lá saiu, para entrar Paulo Rangel, sem surpresas, no ataque a Pedro Marques.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Paulo Rangel sabia que o nome do adversário não tinha sido proferido por Costa no discurso do grande evento com Frans Timmermans. E, claro, usou isso: “Ainda hoje, num comício ao candidato socialista não houve uma única referência ao seu candidato, em quatro ou cinco discursos. É um candidato virtual, utilizado para fazer as vezes de António Costa, ele sim o nosso adversário”.

Rui Rio, que falaria pouco depois, insistia que os socialistas estavam a esconder Pedro Marques. Enquanto fazia saudações, chegou a vez de Paulo Rangel e Rio disse que estava a saudar “uma pessoa” que não queria “esconder”, que queria “mostrar ao país todo”: Paulo Rangel.

Pondo a foice em seara alheia, Rangel criticou a volta que Pedro Marques está a fazer. O candidato do PSD diz que “ao contrário do PS” o PSD “não foge à rua”. “Não fugimos ao contacto com as populações”, acrescenta.

Rangel contou a seguir que “estava ontem a ver o programa do PS para a sua campanha e a primeira vez que vão estar com a população é na sexta-feira. Vão estar em espaços fechados até sexta-feira, porque são eles que têm medo. De contactar na rua com os que deles discordam”.

Como tinha feito horas antes, Rangel voltou à gíria futebolística para pedir um “cartão amarelo forte, quase um cartão laranja ao governo de Costa e Pedro Marques”, voltando a elencar problemas no SNS e na resposta a segurança das pessoas (nos incêndios de 2017 e Monchique). E, ao seu estilo, ainda deixou mais umas farpas como dizendo que o PS atingiu o “máximo de carga fiscal alguma vez atingido em Portugal”, dizendo mesmo que é um “recorde de carga fiscal desde o tempo de D.Afonso Henriques.” Rangel quase rebentava com as colunas, de tão convicto que falava. Rio não teria a mesma sorte.

Rio teve ataque de tosse, mas voz chega para pedir campeonato

O discurso de Rio esteve em total sintonia com o de Rangel. O líder do PSD não evitou falar da crise dos professores (embora não perdesse muito tempo com isso) e disse que as Europeias são uma boa oportunidade para os portugueses poderem “avaliar o comportamento de um primeiro-ministro que não se demitiu por razões muito mais graves, mas ameaçou com demissão por razões partidárias”. E não dispensou recuperar o familygate, repetindo que eleições também são boas para os eleitores avaliarem um PS que “coloca os seus familiares e os amigos” em cargos públicos e que tem como lema: “Primeiro a família, depois o PS e só depois Portugal”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rio teve um ataque de tosse. E, mesmo parando várias vezes para beber água, teve dificuldades em ler o discurso. Mas conseguiu o principal objetivo: passar a mensagem ao eleitorado de centro. E, particularmente, de centro direita. Rio lembrou que o PSD é “um partido moderado” e “uma ponte para a moderação”. Já o PS, adverte, “pode combater o extremismo de direita, mas não combate o extremismo de esquerda”. Rio diz mesmo que o PS é “a ponte para a extrema-esquerda” . A crise política, destaca, foi boa para que se percebesse que Costa não ficou espantado com a “irresponsabilidade financeira” de PCP e BE e diz que o primeiro-ministro devia ter dito isso logo no início do mandato.

Rio também acredita na vitória e só não gritou a dizê-lo porque não podia. A tosse continuou. “Não grito senão ainda fica pior”, disse quando os militantes puxavam por si com gritos de PSD.

Neste FC Porto (Paulo Rangel) versus Benfica (Pedro Marques), o candidato do PSD ainda espera conseguir a vitória. Há cinco anos um dos eventos de campanha foi assistir à final da Liga Europa, num jantar no Café Império. Um Benfica-Sevilha, que os encarnados acabariam por perder nos penáltis. Nuno Melo ficou com os olhos humedecidos, Paulo Rangel (então seu companheiro de campanha, na Aliança Portugal) indiferente. Rangel liga pouco a futebol, ao contrário do seu adversário, Pedro Marques, que já disse que uma das prioridades após chegar a Bruxelas é ir à Casa do Benfica na capital belga. Resta saber se irá como campeão. Neste jogo, só a 26 de maio se saberá.

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