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Intrometem-se nos piqueniques; dão-nos dolorosas ferroadas que, nalguns casos, podem ser fatais; o seu zumbido insidioso não nos deixa pregar olho nas noites de Verão; alojam-se nas nossas vestes e na roupa de cama para nos sugar o sangue; parasitam os nossos animais de estimação; enervam as vacas e espantam os cavalos; devoram as colheitas nos campos e nos armazéns; invadem cozinhas e despensas e conspurcam as vitualhas; caem inopinadamente na nossa sopa; saracoteiam-se sobre as nossas mesas e pratos com as patinhas imundas que, momentos antes, acariciaram excrementos e cadáveres putrefactos; escavam galerias sob a casca das árvores, debilitam florestas de produção e arruínam jardins esmeradamente cuidados; minam sorrateiramente mobiliário e edifícios em madeira; mastigam com gosto bibliotecas inteiras; transmitem doenças que causam centenas de milhares de mortes por ano; e, last but not least, esburacam as nossas camisolas favoritas.

A relação do homem com os insectos tem sido, na sua essência, conflituosa e as suas raízes são antigas – o Livro dos Mortos, uma compilação egípcia de textos e fórmulas mágicas com origens que vão do terceiro milénio a.C. ao século VII a.C., inclui um esconjuro em que é invocado o auxílio do deus Khnum para manter à distância a “vil barata”.

Khnum, deus egípcio da criação (era também conhecido como o Divino Oleiro, por ser responsável por moldar em argila os corpos dos bebés humanos e inseri-los no ventre materno) e das águas (era associado às nascentes do Rio Nilo), também trabalhava em part time a espantar baratas

A aversão aos insectos até ficou impressa nalgumas línguas: se o português conta com o verbo “melgar”, como sinónimo de “importunar, enervar”, o verbo equivalente inglês, “to bug”, tem um espectro mais amplo, uma vez que “bug” designa genericamente insectos e pequenos invertebrados.

Habituados que estamos a encarar os insectos quase exclusivamente como incómodo, ameaça ou praga, levámos tempo a dar-nos conta de que os seus efectivos têm vindo a diminuir nos anos mais recentes. Os primeiros alertas foram acolhidos com indiferença, mas os estudos científicos sobre o declínio das populações de insectos têm vindo a multiplicar-se e a inspirar preocupação, pelo menos entre os que estão conscientes do papel crucial desempenhado pelos insectos nos ecossistemas naturais e na produção agrícola. O fenómeno poderá não justificar títulos alarmistas como “O Apocalipse dos Insectos está aí” (New York Times, 27.11.2018) ou “Alerta de Armagedão ecológico” (The Guardian, 18.10.2017), mas o assunto é sério e merece reflexão.

“Uma paixão por besouros”

“O Criador parece ter sido dotado de uma paixão por […] besouros, pela simples razão de existirem 300.000 espécies destas criaturas, ou até mais, o que deve ser comparado com um pouco menos de 9000 espécies de aves e um pouco menos do que 10.000 espécies de mamíferos” – as palavras são do biólogo e geneticista J.B.S. Haldane e constam do livro What is life? (1947), ainda que, frequentemente, uma afirmação similar seja, erroneamente, atribuída a Charles Darwin. A ciência do século XXI apresenta estimativas diferentes para o número de espécies – 6400 de mamíferos, 10.000 de aves e 400.000 de besouros – mas a observação de Haldane mantém-se válida: o Criador produziu tantas variações sobre o tema “besouros” que é duvidoso que o quarto e o quinto dia da Criação tenham sido suficientes para levar a cabo tão vasto e minucioso empreendimento.

Uma minúscula amostra da variedade de coleópteros, no Museu Estatal de História Natural de Karlsruhe, Alemanha

Mas os besouros – em termo formais, a ordem Coleoptera – são apenas uma das 26 ordens da classe Insecta, que contará, no total, com seis a dez milhões de espécies. Na verdade, “apenas” pouco mais de um milhão de espécies foram identificadas até à data pela ciência, o que significa que estarão ainda por descobrir cinco a nove milhões de espécies. Entre as espécies identificadas, 80% correspondem às ordens Coleoptera, Diptera (moscas, com cerca de 125.000 espécies), Hemiptera (cigarras, afídeos, percevejos, com cerca de 80.000 espécies), Hymenoptera (vespas, abelhas, formigas, com cerca de 150.000 espécies) e Lepidoptera (borboletas e mariposas, com cerca de 180.000 espécies).

Mais coleópteros, desta feita na colecção do Melbourne Museum, Austrália

Esta copiosa diversidade permitiu aos insectos ocupar os mais variados nichos ecológicos – do alto das montanhas às cavernas mais profundas, da tundra aos desertos tropicais – e colonizar todos os continentes – até a inóspita Antártida possui uma (uma só) espécie de insecto autóctone, a Belgica antarctica, um díptero sem asas, capaz de suportar temperaturas de 15ºC negativos. Não só os insectos surgem numa estonteante variedade, como os efectivos das espécies mais abundantes podem assumir números astronómicos, de maneira que se estima que existam 1400 milhões de insectos por cada ser humano. Decorre daqui que, embora a massa de cada uma destas criaturas seja ínfima, a sua massa combinada representa 70 vezes a do total dos seres humanos, o que é tanto mais notável por o Homo sapiens ser hoje o incontestável rei dos mamíferos, com uma biomassa total de 300 milhões de toneladas, ofuscando a biomassa combinada de todas as espécies de mamíferos selvagens, que é de 25 milhões de toneladas (ver capítulo “Enchei a terra e sujeitai-a” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?).

As formigas são um dos grupos de insectos com efectivos mais numerosos. Na imagem formigas legionárias do género Eciton usam os seus corpos para formar uma ponte

Esta fervilhante abundância, somada à pouca estima que os seres humanos nutrem pela esmagadora maioria dos insectos, leva a que o anúncio de que uma dada espécie de insecto está em declínio acentuado ou corre mesmo perigo de extinção, dificilmente suscite a reacção empática que decorre de notícias análogas envolvendo mamíferos ou aves. Na verdade, no mundo do século XXI, e em particular nos países desenvolvidos, o meio natural está sob um assédio tão implacável que o declínio das espécies selvagens é aceite como um dado adquirido e é preciso que a “vítima” seja uma espécie particularmente “amável” aos olhos humanos – por exemplo, pandas, orangotangos ou golfinhos – para conquistar o interesse da opinião pública.

Com excepção das abelhas-do-mel, porque usamos o seu talento e labor em prol do nosso deleite gustativo, e das borboletas, em que descortinamos qualidades estéticas, há poucos insectos capazes de comover os seres humanos. É certo que os cientistas, que (em princípio) não se regem pelos critérios emocionais ou materialisticamente interesseiros do cidadão comum, distribuem mais homogeneamente os seus “afectos” pelas diferentes espécies, pelo que poderemos contar pelo menos com os entomólogos e os especialistas em ecologia para defender a negligenciada causa dos insectos.

Insectos cuja extinção não deixaria saudades aos agricultores: Pragas da batateira, do livro Farm insects: Being the natural history and economy of the insects injurious to the field crops of Great Britain and Ireland (1860), por John Curtis

Os primeiros indícios da crise

Sem surpresa, o primeiro sinal de alarme a ressoar na televisão e na imprensa generalista teve a ver com as abelhas-do-mel (Apis mellifera). No mundo ocidental já tinham sido registados casos de redução drástica e sem explicação aparente do número de obreiras em colmeias (um dos mais antigos e mais bem documentados teve lugar nas Ilhas Britânicas em 1906), mas a extensão que o fenómeno atingiu nos EUA em 2006-07 levou a que se cunhasse o termo “síndrome do colapso das colónias” (CCD na sigla inglesa) para substituir várias outras designações atribuídas, consoante o tempo e o lugar, a ocorrências similares. Se o novo termo soa vago é porque as suas causas eram nebulosas, com uma lista de suspeitos que incluíam:

1) O parasita Varroa destructor, um ácaro que se alimenta de larvas, pupas e abelhas adultas, e as doenças infecciosas por ele transmitidas;

2) O microesporídeo Nosema ceranae, que coloniza o intestino das abelhas;

3) Toxicidade resultante do uso de pesticidas, sobretudo neonicotinóides;

4) Perda de habitat;

5) Práticas apícolas inadequadas, nomeadamente o transporte a longa distância de “colmeias de aluguer”, contratadas ao dia para a polinização de culturas agrícolas, e a alimentação das colónias durante o Inverno com xarope de milho;

6) Diminuição da diversidade genética da Apis mellifera em resultado da sua criação em moldes industriais;

7) Interferência da (cada vez mais omnipresente) radiação electromagnética na capacidade de orientação das abelhas;

8) Alterações climáticas;

Ácaro Varroa destructor parasitando uma abelha adulta; note-se que os ácaros não são, formalmente, insectos, fazendo antes parte da classe Arachnida

Após estudar 61 variáveis que poderiam explicar a síndrome do colapso das colónias, o Grupo de Trabalho para a CCD concluiu, em 2009, “não ser possível identificar um único factor como agente causal”. Um meta-estudo publicado em 2015 e compilando dados de 170 estudos também não conseguiu melhor do que sugerir como causa a “interacção entre parasitas, pesticidas e a dieta [das abelhas]”. E em 2023 a ciência continua a não ter melhor explicação para apresentar para a “síndrome do colapso das colónias”.

Em 2004, um pouco antes do alarme público em torno da CCD, já tinha surgido um alerta relativo ao outro grupo de insectos que merece a estima dos humanos: um artigo publicado por J.A. Thomas et al. na revista Science dava conta de que, Grã-Bretanha, o decréscimo nas populações de borboletas superava o decréscimo nas populações de aves e plantas. Pouco a pouco foram emergindo estudos que davam conta do declínio de outros insectos no mundo desenvolvido, mas seria preciso esperar até 2017 para que a preocupação extravasasse o restrito círculo dos especialistas e chegasse ao grande público, com a republicação, em inglês, de um estudo (publicado originalmente, em alemão, em 2013) da Sociedade Entomológica de Krefeld, na Alemanha, que, após estudar 63 locais situados em áreas protegidas (o que minimizaria o efeito de artificialização dos ecossistemas), dava notícia de um declínio de 76 a 82% na biomassa total de insectos, por comparação com 1989, o ano em que tinham começado as recolhas sistemáticas de insectos naqueles locais.

Uma das 63 áreas protegidas em que a Sociedade Entomológica de Krefeld realizou o seu inventário de insectos ao longo do tempo

Entretanto, na Europa e nos EUA, entomologistas profissionais e amadores começavam a ficar intrigados com a discrepância entre as recordações de juventude, em que, nas viagens longas em automóvel, era preciso parar de tempos a tempos para remover do pára-brisas uma constelação de insectos que comprometia a visibilidade, e o século XXI, em que, após quilómetros de estrada, o pára-brisas só era maculado por um ou outro mosquito transviado. Isto dispô-los a fazer recolhas sistemáticas de insectos e levou-os, frequentemente, a conclusões análogas às da Sociedade Entomológica de Krefeld.

Em 2018, a consciência do problema ganhou outra amplitude, quando de um estudo de Brad Lister e Andrés García, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, reportou um decréscimo, ao longo de um período de 35 anos, das populações de artrópodes (filo em que se inclui a ordem Insecta) em El Yunque, uma floresta tropical na Sierra de Luquillo, na ilha caribenha de Porto Rico.

Floresta de El Yunque, Sierra de Luquillo, Porto Rico

Este declínio não podia ser atribuído aos “suspeitos do costume” – a agricultura industrial e a aplicação maciça de pesticidas – já que a floresta de El Yunque é área protegida há mais de um século e tem escassa interferência humana; o culpado mais provável apontado por Lister & García foram as alterações climáticas.

Nesse mesmo ano, um meta-estudo (isto é, um estudo que analisa as conclusões de um conjunto de estudos sobre um tema similar) realizado por Francisco Sánchez-Bayo e K.A.G. Wyckhuys e publicado na revista Biological Conservation também lograva obter destaque nos media com a inquietante conclusão de que 40% das espécies de insectos do planeta estavam em declínio.

Instalação de uma armadilha Malaise (assim nomeada em honra do seu inventor, o entomólogo René Malaise), um dos dispositivos mais utilizados nos estudos de insectos

O muito que falta saber

Em A crise dos insectos: A queda dos pequenos impérios que fazem o mundo girar (2022), o “escritor ambientalista” Oliver Milman, descreve, no tom gongórico-histriónico que lhe é característico, o meta-estudo de Sánchez-Bayo & Wyckhuys como “um carrossel internacional de desespero, que nota a perda de abelhões nos Estados Unidos, o decréscimo do número de borboletas no Japão, o desaparecimento de escaravelhos-bosteiros na Índia e as libélulas extirpadas dos rios na Finlândia”. O livro de Milman – talvez a obra de divulgação com maior notoriedade pública nesta área – é, também ele, um “carrossel internacional de desespero”, que faz desfilar números assustadores (e nem sempre congruentes) e pinta cenários tremendistas, alheio ao rigor, ao equilíbrio e ao princípio do contraditório que devem pautar quer a ciência quer a divulgação científica. A verdade é que, se bem que existam numerosos estudos que sugerem um declínio geral das populações de insectos nos países desenvolvidos, há também estudos (e meta-estudos) que chegam a conclusões diversas, particularmente quando incidem em regiões menos perturbadas pela acção humana. Por exemplo, Willig et al. (2019) e Schowalther et al. (2021), em estudos realizados na mesma área da Sierra de Luquillo que fora analisada por Lister & García, não registaram os declínios populacionais de artrópodes nem o colapso das cadeias alimentares que estes últimos reportaram.

A pulsão para conquistar “um lugar ao sol” num meio académico cada vez mais competitivo e a pulsão para vender jornais, acumular page views e cativar audiências num meio cujo “modelo de negócio” está a ser erodido pela Internet, levam à proliferação de asserções bombásticas, quando o bom senso obrigaria a reconhecer que existem ainda demasiadas lacunas de conhecimento para poder anunciar-se “o apocalipse dos insectos” e atribuir-lhe causas precisas.

São muitas e fortes as razões que aconselham prudência quando se fala da crise dos insectos:

1) A ciência apenas identificou 1/10 a 1/6 do número total de espécies de insectos do planeta.

2) Em muitos casos, “identificar” significa apenas que se recolheram e estudaram alguns exemplares de uma espécie e se lhe atribuiu um nome científico. Da maioria das espécies identificadas pouco ou nada se sabe sobre a sua abundância (presente e pretérita), a sua distribuição, os seus requisitos ecológicos, a sua fisiologia, a sua história evolutiva, a sua reprodução, ou as suas interacções com outras espécies.

David Hollander

Colecção de insectos da Lincoln University, em Christchurch, Nova Zelândia

3) A formidável diversidade de insectos obriga os investigadores a dispersar a sua atenção. A entomologista Erica McAllister, citada no livro de Oliver Milman, exagera quando afirma que “temos 50.000 pessoas a estudarem um tipo de macaco e uma pessoa a estudar 50.000 tipos de moscas”, mas dá ideia da desproporção de recursos alocados ao estudo de mamíferos e aves e ao estudo de insectos. Para mais, dos limitados recursos consagradas à investigação sobre insectos, a esmagadora maioria diz respeito ao limitado número de espécies que são pragas agroflorestais ou vectores de doenças e ao número ainda mais limitado das espécies com valor comercial (leia-se: as abelhas-do-mel).

4) Devido à sua elevada taxa de reprodução, as populações de insectos tendem, naturalmente, a sofrer oscilações violentas e imprevisíveis: num ano com temperaturas favoráveis, abundância de alimento e ausência ou inactividade de competidores, predadores e parasitas, poderão ver o seu número centuplicar, para, no ano seguinte, quase desaparecerem. Já o número de elefantes no Quénia ou de lobos na Suécia tende a sofrer pequenas alterações de ano para ano. Assim, é difícil estabelecer qual é o número “normal” de uma dada espécie de insectos num dado território – e, sem esse número, como é possível afirmar se o número apurado em 2022 é excepcionalmente baixo ou alto?

5) Enquanto as espécies mais conspícuas, mais ameaçadas ou mais “estimadas” de mamíferos ou aves têm sido alvo de contagem e acompanhamento ao longo de muitas décadas e também se fazem estimativas regulares dos efectivos das principais espécies de peixes com valor económico, nada similar tem sido feito para os insectos.

6) É mais fácil contar elefantes, texugos ou andorinhas-do-mar-anãs do que cigarras. E é mais fácil contar cigarras do que mosquitos. Os insectos são só tendem a ser pequenos e discretos como algumas espécies passam boa parte do seu ciclo de vida enterradas no solo ou em troncos, como ovos, larva ou pupas, e têm uma vida muito breve como adultos alados, que é a fase mais susceptível a ser capturada e contada. É o caso das efémeras (ordem Ephemeroptera), onde se inclui a Dolania americana, cuja fase adulta dura apenas meia hora de vida, o que deixa uma brevíssima janela a quem queira contabilizar os seus efectivos.

7) Avaliar a evolução das populações de insectos requer a existência de uma série temporal de contagens das diversas espécies (ou, pelo menos, de pesagens de biomassa total de insectos), realizadas nos mesmos locais e empregando os mesmos métodos – um empreendimento que raramente tem sido levado a cabo.

Entomólogos em acção, ilustração no livro Die Insekten (1877), de Vitus Graber

8) Os estudos demográficos de insectos em períodos prolongados não só são escassos como têm sido realizados, na sua esmagadora maioria, na Europa e nos EUA, regiões que, em conjunto, representam menos de 20% da diversidade de espécies de insectos a nível global. David L. Wagner et al., no artigo “Insect decline in the Anthropocene: Death by a thousand cuts”, publicado em 2021 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, realçam “a escassez de dados de tendências de populações de insectos, sobretudo nos trópicos e em praticamente todo o Hemisfério Sul”, em resultado de “orçamentos ínfimos ou nulos, combinados com a hiperdiversidade, as pequenas dimensões e a incipiente taxonomia dos insectos, o que torna impossível o processamento e identificação da maioria das espécies de insectos tropicais”.

As tremendas lacunas no conhecimento das espécies de insectos nas florestas tropicais podem ser exemplificadas por um estudo realizado no Parque Nacional de Daintree, na costa nordeste da Austrália, e que, durante quatro anos, recolheu coleópteros nos vários níveis da floresta, tendo apurado que 30% das espécies viviam exclusivamente nas copas das árvores; isto significa que a esmagadora maioria dos inventários entomológicos, que se realizam apenas ao nível do solo, deixam de fora uma fracção significativa das espécies. Outra demonstração da nossa imensa ignorância no que respeita aos insectos das zonas tropicais são os coleópteros do género Trigonopterus, que habitam as florestas da Austrália, Indonésia e Melanésia: até 2013, tinham sido identificadas 90 espécies deste género, mas um único artigo científico publicado nesse ano, revelou, de uma assentada, 90 espécies novas. Estudos posteriores fizeram o número de espécies identificadas de Trigonopterus subir para 480 – segundo dados de Outubro de 2021, provavelmente desactualizados por esta hora…

Descubra as diferenças: 100 espécies do género Trigonopterus

9) O burburinho no meio científico e o alarido nos media em torno do “apocalipse dos insectos” contrasta com a falta de curiosidade em torno das populações de artrópodes. Acontece que para lá dos membros da classe Insecta, existem muitas espécies que a linguagem corrente também designa como “insectos”, mas que, na realidade, pertencem a outras classes do filo Arthropoda, como a Arachnida (aracnídeos), a Chilopoda (centípedes), a Sympyla (pseudocentípedes), a Diplopoda (milípedes) e a Pauropoda (similares a milípedes). Estima-se que existam 12.000 espécies de Diplopoda, 3000 de Chilopoda, 800 de Pauropoda e 200 de Sympyla, mas a classe Arachnida conta com 100.000 espécies identificadas, repartidas maioritariamente pelas ordens Aranae (aranhas), Scorpiones (escorpiões), Pseudoscorpiones (pseudo-escorpiões), Ixodida (carraças) e Acari (ácaros) e estima-se que possa englobar um total de 600.000 espécies. Os aracnídeos, centípedes ou milípedes estão tão espalhados pelo mundo e em números tão vastos quanto os membros da classe Insecta e desempenham papéis tão importantes nos ecossistemas quanto estes. Seria pois crucial perceber se também eles estarão em declínio, mas a investigação neste domínio parece ser ainda mais rarefeita e lacunar do que no caso dos insectos, talvez por entre as aranhas, escorpiões, centopeias, ácaros e carraças não existirem membros que produzam mel ou possuam asas ricamente coloridas, e, por outro lado, inspirarem receio ou repugnância à larga maioria dos humanos.

O eventual declínio da carraça Ixodus ricinus não faria verter muitas lágrimas humanas, uma vez que este artrópode, comum em quase toda a Europa, transmite a doença de Lyme e uma forma de encefalite, bem, como várias maleitas que afectam bovinos e ovinos

Uma complexidade que desafia a compreensão

É instrutivo estabelecer um paralelo entre o que sabemos sobre a crise dos insectos e o que sabemos sobre as alterações climáticas. O mecanismo que associa a queima de combustíveis fósseis ao aquecimento global foi postulado logo em 1896 por Svante Arrhenius, o fenómeno foi modelado em computador na década de 1950 por Gilbert Plass e as medições sistemáticas realizadas na viragem das décadas de 1950-60 por Charles Keeling comprovaram o aumento consistente das concentração de CO2 na atmosfera. A medição padronizada da temperatura do ar alastrou pelo mundo a partir de 1880, a paleoclimatologia desenvolveu métodos para estimar temperaturas nas épocas anteriores a 1880 e a análise de núcleos de gelo (“ice cores”) extraídos de glaciares na Gronelândia e na Antártida permitiu estimar a concentração de CO2 na atmosfera em épocas remotas (ver As alterações climáticas e a conferência das Nações Unidas: O Grande Circo Carbónico).

A determinação da temperatura do ar e da concentração de CO2 estão, há muito, padronizadas, têm baixa margem de erro, não oferecem qualquer dificuldade e produzem resultados objectivos e inequívocos. Por outro lado, apesar da complexidade do ciclo do carbono e da físico-química do sistema atmosfera-oceano, estes mecanismos são comparativamente simples e previsíveis, face ao colossal e subtil emaranhado de interacções que determinam como uma população de organismos cresce ou diminui ao longo do tempo.

A formidável quantidade de medições da temperatura do ar e da concentração de CO2 (ao dia, à hora, ao minuto, ao segundo) acumulados ao longo de anos, numa infinidade de lugares espalhados pelo planeta, permitiu à comunidade científica chegar a um consenso: a temperatura da Terra está a aumentar e parte significativa desse aumento decorre da acção humana, em particular da queima de combustíveis fósseis. Ainda assim, há vozes que contestam a realidade do aquecimento global ou, pelo menos, a responsabilidade da acção humana nesse aquecimento.

Já a investigação sobre tendências demográficas de populações de insectos assenta numas escassas centenas de estudos, geralmente de curta duração e empregando métodos diversos e não comparáveis, realizados em alturas diferentes, num número muito restrito e pouco representativo de locais. Assim, a identificação de variações na abundância de insectos e de causas para essas variações está muito próxima do que os anglófonos designam por “educated guess”, o que não impede que alguns cientistas e muitos jornalistas produzam afirmações assertivas (e, quase sempre, catastrofistas) sobre o assunto.

Armadilha para captura de insectos voadores

A crise dos insectos no contexto da “Sexta Extinção”

Os termos “crise dos insectos” e “declínio dos insectos” têm vindo a disseminar-se no espaço público, sem que, em muitos casos, se defina exactamente o que significam. Existem indícios convincentes do declínio generalizado da abundância de insectos nas regiões mais desenvolvidas da Europa e dos EUA, mas ainda não é claro se 1) a abundância global de insectos está a diminuir; 2) a diversidade global de espécies de insectos está a diminuir; 3) a taxa de extinção de espécies de insectos é mais rápida do que a taxa de extinção global.

É relativamente consensual na comunidade científica que a biodiversidade em geral está a diminuir em resultado da acção humana – um inquérito realizado em 1998 pelo Museu Americano de História Natural apurou que que 70% dos biólogos são desta opinião – e há até quem fale da “Sexta Extinção em Massa do Antropoceno”, uma designação que recebeu forte difusão graças ao livro A Sexta Extinção (The sixth extinction: An unnatural history, 2014), de Elizabeth Kolbert, mas que já circulava pelo menos desde 1995, quando foi publicado The sixth extinction: Patterns of life and the future of humankind, de Richard Leakey & Roger Lewin.

Mas quando se passa à quantificação do fenómeno, obtêm-se números muito díspares, uma vez que 1) as estimativas sobre a presente taxa de extinção têm grande margem de variação, consoante os grupos de organismos considerados e os investigadores que as estimam; e 2) a “taxa de extinção de fundo” (“background extinction rate”) tem flutuado ao longo do tempo e a sua avaliação comporta uma grande margem de imprecisão, já que muitas espécies não deixam registo fóssil ou estão nele sub-representadas.

Estimativa da evolução das taxas de extinção de espécies marinhas (expressas como percentagem dos géneros extintos face ao n.º total de géneros) durante o Fanerozóico (de há 542 milhões de anos até ao presente)

A maioria das estimativas aponta para que a presente taxa de extinção seja 100 a 1000 vezes maior do que a “taxa de extinção de fundo”. O entomologista e pioneiro da sociobiologia Edward O. Wilson (1929-2021) previu, no livro The future of life (2002), que, a manter-se o actual grau de interferência humana na biosfera, metade das espécies de organismos superiores hoje existentes poderão extinguir-se até ao final do presente século.

O meta-estudo “More losers than winners: Investigating Anthropocene defaunation through the diversity of population trends”, publicado a 15 de Maio passado na revista Biological Reviews, por Catherine Finn, Florencia Grattarola & Daniel Pincheira-Donoso, analisou dados populacionais referentes a 71.000 espécies de animais, apurou que 48% das espécies estão em declínio, 49% estão estáveis e 3% estão em crescimento, com a maioria dos declínios a registarem-se nas regiões tropicais.

Percentagem de espécies, dentro de cada grupo taxonómico (mamíferos, aves, anfíbios, répteis, peixes e insectos), cujas populações estão a aumentar (verde), estáveis (alaranja), a diminuir (vermelho) ou cujo estatuto é desconhecido (cinzento), de acordo com Finn, Grattarola & Pincheira-Donoso (2023)

Os resultados da análise indicam que se encontram em declínio populacional 54% das espécies de insectos sobre as quais existe informação sobre tendências populacionais, valor que é superior à média de 48% de espécies em declínio no cômputo de todos os grupos. Porém, é preciso considerar que uma vez que 1) entre as espécies de insectos consideradas pelos investigadores, apenas se dispunha de informação populacional sobre 25% delas e 2) as espécies de insectos consideradas no estudo representam apenas uma ínfima fracção do número total de espécies de insectos identificadas, que, por sua vez é uma fracção do número total de espécies de insectos do planeta, de que decorre que não é legítimo comparar as percentagens de espécies em declínio/crescimento/etc. entre grupos de organismos.

O estudo de Finn, Grattarola & Pincheira-Donoso apurou que, 1) em todos os grupos considerados, o número de espécies em decréscimo populacional é várias vezes superior ao número de espécies em expansão e que 2) as taxas de declínio são, geralmente, muito maiores do que as taxas de crescimento, pelo que conclui que estamos, efectivamente, a entrar num período de extinção em massa. Mas, devido às imensas lacunas de informação acima mencionadas, fica por elucidar se o declínio dos insectos avança num ritmo mais rápido do que a dos restantes seres vivos.

Um rol de suspeitos

Tal como foi sugerido pelos estudos, acima mencionados, sobre a causa da síndrome do colapso das colónias de Apis mellifera, é possível que o declínio generalizado dos insectos também decorra não de um único factor mas de uma complexa combinação de factores. Passemos a examinar os principais suspeitos.

1. Perda de habitat devido a alterações no uso do solo

A Europa é um continente que tem sido profundamente modificado, ao longo dos milénios, pela acção humana. Hoje, na União Europeia, cerca de 39% do território está consagrado à agricultura, 6% corresponde a zonas urbanas e 4% corresponde a minas, pedreiras, instalações industriais e sistemas e locais de tratamento e deposição de resíduos líquidos e sólidos. Estas médias ocultam situações bem diversas: na Dinamarca, Irlanda e Hungria a agricultura ocupa mais de 60% do espaço, enquanto na Finlândia e Suécia se fica por menos de 10%, sendo a maior parte do território ocupado com florestas.

Uso do solo na União Europeia, dados de 2018

Na maior parte dos países europeus, a agricultura é praticada em moldes industriais, em propriedades de grande dimensão e em regime de monocultura, com extensas áreas ocupadas por uma única espécie de planta, o que, como é óbvio, não favorece a diversidade de insectos. O conceito de “floresta” tem uma grande latitude de interpretação, que vai das florestas naturais com grande diversidade de plantas e animais, às florestas de produção, frequentemente compostas por uma única espécie e em que todos os exemplares têm a mesma idade. Os cerca de 33% de “florestas” de Portugal sugerem que o nosso território está menos artificializado do que o de super-potências agrícolas como França, Holanda ou Alemanha. Porém, apenas uma pequena fracção das nossas florestas corresponde a verdadeiras florestas – o que domina são plantações monoespecíficas e de idade uniforme de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e eucalipto (Eucalyptus globulus), periodicamente cortadas para produzir pasta de papel (ou devastadas pelos incêndios), e que, do ponto de vista da biodiversidade, podem ser vistas como “desertos”.

Durante os últimos cem anos, na maior parte dos países, a agricultura tem visto a sua área crescer e, apesar da recente voga da “agricultura biológica”, tem evoluído consistentemente em direcção à intensificação, à artificialização, à padronização, à mecanização e à maximização do rendimento, o que implica quase sempre o aproveitamento de todo o terreno disponível (logo, sem lugar para sebes ou moitas de vegetação espontânea, que são “espaços mortos” do ponto de vista estritamente materialista), o que, inevitavelmente, cria um espaço inóspito para a esmagadora maioria dos insectos.

A intensificação da agropecuária tem passado pelo abandono progressivo da criação de gado em moldes extensivos, com os animais entregues a si mesmos em pastagens naturais, e pela aposta na estabulação e na alimentação à base de rações (muitas vezes importadas de países distantes, onde são cultivadas em terrenos antes ocupados por florestas naturais). Assim, as pastagens naturais, que podem exibir apreciável diversidade de plantas e insectos, dão lugar à monotonia da agricultura industrial, que não tem lugar para os escaravelhos-bosteiros que viviam dos excrementos do gado e promoviam a fertilização natural dos solos (que passam, assim, a ter de ser adubados artificialmente).

Circellium bacchus, um escaravelho-bosteiro em tempos abundante na África do Sul e hoje praticamente confinado ao Addo Elephant National Park, uma área protegida que visa preservar não só os elefantes como esta espécie de insecto classificada pela IUCN como “vulnerável”

A substituição de uma floresta natural por um terreno agrícola implica necessariamente uma perda de biodiversidade e, quando tal é praticado nas regiões tropicais, não só essa queda é dramática como implica frequentemente a extinção de espécies, a maior parte das quais ainda desconhecidas da ciência. Cerca de 1/5 da desflorestação nos trópicos destina-se à produção industrial de soja e de óleo de palma, sendo 80% desta soja usada na alimentação de gado e sendo 50% do óleo de palma incorporado em biocombustíveis. Nunca saberemos quantas espécies de insectos se extinguem todos os anos em resultado do desmedido apetite da humanidade por bifes e da asinina e pseudo-ecológica aposta dos países desenvolvidos nos biocombustíveis.

O alastramento de zonas urbanizadas e a construção de vias de comunicação não só resulta em perdas de habitat para os insectos como cria barreiras à sua movimentação. Não contente em impor a monocultura nas áreas agrícolas e florestais, o tacanho imaginário burguês fez do relvado meticulosamente cuidado um sinal exterior de prosperidade e um símbolo do domínio do Homem sobre a Natureza, pelo que se afadiga-se a fazê-lo medrar (frequentemente contra o que recomendam as condições climáticas locais) em jardins particulares e públicos, em parques, em torno das moradias e nos espaços comuns dos condomínios fechados, rodeando monumentos e edifícios públicos, em rotundas, em canteiros nas ruas e avenidas e em separadores de rodovias, em campos de golfe e de outros desportos, fazendo das áreas verdes urbanas um espaço de desconsoladora pobreza em termos de espécies vegetais e que, para mais, é aparado com um zelo maníaco, de forma a garantir que insecto algum possa ali encontrar pólen, néctar ou abrigo (ver Urinar no duche não adia o fim do mundo).

2. Supressão e artificialização de zonas húmidas

A drenagem de zonas húmidas, que, aos olhos humanos, mais não são do que “um viveiro de mosquitos”, e a “rectificação” do curso dos rios (geralmente no sentido da linearização e da supressão de meandros), a artificialização das margens destes nas zonas urbanas, que pode ir até ao “encanamento” (tornando o curso do rio subterrâneo), são muito desfavoráveis aos insectos. Mesmo nos trechos onde não existe artificialização do meio ribeirinho, o corte regular da vegetação ribeirinha também não favorece os insectos.

3. Uso generalizado de pesticidas

A monocultura permite optimizar o volume de produção mas é extremamente favorável à propagação de doenças e pragas, inconveniente que a agricultura moderna torneia com a aplicação maciça de pesticidas. Alguns pesticidas podem ser concebidos para eliminar um grupo específico de pragas, mas o seu efeito tóxico estende-se frequentemente a outras espécies de insectos e a seres vivos em geral.

4. Poluição

Além dos pesticidas que os têm como alvo, os insectos estão também, obviamente, expostos às formas “genéricas” de poluição do ar, água e solo que ameaçam todos os seres vivos. Algumas espécies mais resistentes poderão resistir e até prosperar – por os sues rivais e predadores serem mais sensíveis à poluição – mas o efeito final da poluição costuma ser uma queda na biodiversidade.

5. Poluição luminosa

A poluição luminosa é frequentemente apresentada como um incómodo para quem se dedica à observação astronómica, como profissional ou amador. Porém, ela tem efeitos bem mais dramáticos na vida de muitas espécies de insectos nocturnos, que dependem da luz da Lua e das estrelas para se orientarem e que são desviados da sua rota e dos seus propósitos pela iluminação artificial. Assim, em vez de se consagrarem à busca de alimento e de parceiros sexuais, acabam, por passar a noite a esvoaçar futilmente em torno de lâmpadas, até sucumbirem ao cansaço e à inanição ou até serem comidos por um predador que tira partido do isco luminoso (estima-se que um em cada três insectos atraído por esta armadilha não sobrevive). Mesmo os que não são atraídos para uma dança fatal em torno dos candeeiros, acabam por ficar desorientados; e os pirilampos, que comunicam através da emissão de luz pelo seu abdómen, ficam baralhados com a iluminação artificial.

A poluição luminosa não tem cessado de aumentar desde o final do século XIX e nos últimos anos recebeu forte impulso de uma inovação tecnológica que parecia só trazer vantagens: as lâmpadas LED, ao serem muito mais eficientes do que as clássicas lâmpadas de filamento incandescente, permitem poupanças de energia que têm incentivado a proliferação da iluminação exterior, em vias públicas, em edifícios de comércio e serviços e em moradias, numa lamentável demonstração do Efeito de Jevons (ver capítulo “O Paradoxo de Jevons” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?). Para mais, as lâmpadas LED emitem mais radiação luminosa na região azul do espectro do que as antigas lâmpadas de vapor de sódio usadas na iluminação pública, o que parece ter um efeito desorientador mais poderoso sobre os insectos.

A solução não passa, claro, por prescindir da tecnologia LED, mas por só iluminar onde e quando é estritamente necessário.

Armadilha de insectos num candeeiro de iluminação pública, no âmbito de um estudo sobre efeitos da poluição luminosa na abundância de insectos

6. Alterações climáticas

As alterações climáticas têm costas larguíssimas e servem hoje como bode expiatório em variadas situações, desde a justificação de “calamidades imprevisíveis” que decorrem da inércia, desleixo e imprevidência dos governantes, até à “explicação” de fenómenos que deixam embatucados os mangas-de-alpaca da investigação científica. Sem dúvida que as alterações climáticas podem criar condições desfavoráveis para uma dada espécie de insectos num dado local, mas dificilmente explicam um declínio de todas as espécies de insectos em todo o planeta. Se o clima de uma região se torna demasiado quente para uma espécie que aprecia temperaturas moderadas, esta poderá ver o seu habitat diminuir ou até ser empurrada para a extinção, mas, em contrapartida, abre um novo território à colonização por espécies que apreciem o calor. A estonteante variedade de espécies de insectos é uma garantia de que existem espécies adaptadas a todas as condições climáticas imagináveis e o elevado número de ovos que cada fêmea pode produzir e a rapidez com que as gerações se sucedem permite-lhes ocupar rapidamente um nicho deixado vago por uma espécie rival ou por um predador ou tornado acessível pelo aumento de temperatura. A distribuição geográfica e a demografia das espécies alterar-se-ão em resultado das mudanças no clima e, se bem que a biomassa e a diversidade de insectos possam diminuir durante a transição, no longo prazo não há razão para que a abundância e a variedade de insectos decresçam em termos globais. Poderá até acontecer o contrário, já que o aumento da temperatura global incrementará a evaporação e, logo, a pluviosidade global e a maioria dos insectos floresce em ambientes quentes e húmidos – não é por acaso que atingem a sua maior exuberância (em diversidade de espécies e biomassa) nas florestas tropicais.

Assim como as alterações climáticas terão diferentes manifestações em diferentes pontos do globo, o mesmo acontecerá à dinâmica populacional dos insectos. No Canadá e na Rússia, algumas espécies irão expandir-se para norte. Já na bacia mediterrânica, onde se prevê que o clima se torne mais quente e seco e os fenómenos climáticos extremos mais frequentes, é possível que a diversidade e a biomassa total de insectos diminuam, sobretudo à custa das espécies mais necessitadas de água e humidade ou que requerem um clima mais estável. Por outro lado, é possível que o aumento de temperatura favoreça a dilatação dos habitats de espécies de mosquitos dos géneros Anopheles e Aedes, que são transmissores de doenças infecciosas como a malária e a dengue (respectivamente); e também pode acontecer que a maior instabilidade do clima na região mediterrânica favoreça o crescimento de espécies “oportunistas”, que tiram partido de uma peculiar combinação de factores ecológicos para se multiplicarem de forma explosiva (como acontece com algumas espécies de gafanhotos).

Distribuição global, em 2015, do mosquito Aedes aegypti, um vector da febre amarela, da dengue e da febre zika, entre outras doenças: presença assinalada em tons de amarelo claro (mínima) a vermelho escuro (máxima); a azul, ausente

7. Espécies invasoras

Quando o ser humano promove, deliberada ou inadvertidamente, a transferência de espécies entre diversos pontos do planeta, pode levar a que espécies invasoras causem a extinção de espécies autóctones, quer directamente – quando as invasoras agem como predadoras ou parasitas ou transmitem doenças – quer indirectamente – quando competem com as espécies autóctones por alimento, território e outros recursos. Isto tem o efeito de reduzir a biodiversidade, mas não afecta necessariamente a biomassa total, pelo que dificilmente explica os casos reportados de declínio generalizado da biomassa total de insectos.

A circulação de pessoas, organismos vivos e mercadorias não tem cessado de aumentar nos últimos séculos – e, em particular, nas últimas décadas – e não será a presente preocupação em diminuir as interdependências entre nações que se desenha no actual cenário geopolítico (pela parte de alguns governos ocidentais, alarmados com a excessiva dependência da China) que irá deter a globalização. Independentemente da ideologia que se perfilhe e do que se pense sobre os malefícios e virtudes da globalização, esta é, em grande medida, um fenómeno inelutável e com sérias consequências para a biosfera, que, à medida que a interferência humana nos ecossistemas se expande para áreas remotas, vai ficando mais homogénea. Mesmo que, por hipótese, fossem tomadas medidas eficazes para conter e até reverter as alterações no uso do solo, as alterações climáticas e as diversas formas de poluição, a tendência para o declínio global da diversidade de espécies – de insectos e de qualquer outro grupo de organismos – irá manter-se.

Do que falamos quando falamos de abelhas e de biodiversidade

Um das maiores preocupações na crise dos insectos diz respeito aos polinizadores e, em particular, às abelhas. Tendemos, precipitadamente, a estabelecer equivalência entre “as abelhas” e a abelha-do-mel ou abelha europeia (Apis mellifera), por razões interesseiras (o mel) e de convivência multissecular (os primeiros registos de domesticação de abelhas provêm do Egipto de há 4500 anos).

A apicultura no Tacuinum sanitatis, um manual sobre saúde que teve grande difusão na Europa Ocidental nos séculos XIII e XIV e que se baseava no Taqwim al-Sihha (Tratado de saúde), redigido em 1050 pelo médico iraquiano Ibn Bûtlan

Porém, a designação “abelhas” abrange cerca de 16.000 espécies (ou 20.000 ou 26.000, segundo outras fontes) da ordem Himenoptera, onde se incluem “abelhas sociais”, como as abelhas-do-mel, os abelhões e as abelhas sem ferrão, e “abelhas solitárias”, como as abelhas-alveneiras (do género Osmia), as abelhas-carpinteiras (do género Xylocopa), as abelhas-corta-folhas (do género Megachille), ou as abelhas-cuco (dos géneros Melecta e Thyreus). Para mais, contrariando a percepção generalizada, que associa abelhas a enxames e a colmeias, mais de 90% das espécies de abelhas são solitárias. Para lá das afinidades morfológicas, estas 16.000 espécies têm em comum alimentarem-se, essencialmente, de néctar e pólen, quer na fase adulta quer na fase larvar, o que explica o seu papel capital na polinização das plantas.

Se o termo “abelhas” tem significado muito diferente para o cidadão comum e para os biólogos e ecologistas, o mesmo se passa com “biodiversidade”. Mesmo entre quem estuda os organismos vivos e os ecossistemas circulam entendimentos diversos de “biodiversidade”, consoante se considera a diversidade genética, a diversidade de espécies e a diversidade de ecossistemas, pelo que uma definição abrangente de biodiversidade terá de contemplar estes três níveis.

Distribuição da diversidade de espécies na Terra, de máxima (vermelho escuro) a mínima (azul escuro). As florestas tropicais, apesar de só representarem 10% da área do planeta, contêm 90% das espécies

Quando se fala de “biodiversidade” no meio científico o mais frequente é esta referir-se à diversidade de espécies, referida a uma dada região, que pode ser calculada matematicamente através do índice de diversidade. Diversos investigadores propuseram diferentes fórmulas de cálculo de diversidade, sendo as mais correntes as que foram propostas em 1948 pelo matemático Claude Shannon e em 1949 pelo estatístico Edward H. Simpson e que têm aplicação a qualquer conjunto de dados, não apenas à diversidade de organismos vivos (por exemplo, pode calcular-se o índice de diversidade para as marcas de sapatos usadas pelas pessoas num auditório ou para as marcas de automóveis num parque de estacionamento).

[Exemplo simples de cálculo do índice de diversidade de Simpson:]

Infelizmente, na boca e na pena de políticos, jornalistas, publicistas e “paineleiros”, as palavras importadas do meio científico tendem a sofrer um rápido processo de desvirtuamento e distorção e foi o que aconteceu com a “biodiversidade”, que se implantou firmemente no linguajar corrente como sinónimo (modernaço e pseudo-sofisticado) de “natureza” ou de “bicharada” (hoje em dia é usado com tanta frequência e despropósito como “sustentabilidade” e “ecossistema”).

A conjugação da falta de propriedade vocabular com uma percepção lacunar e equívoca da realidade, leva a que, quando, no espaço público, se fala de “ameaças à biodiversidade” se elenque entre os casos mais preocupante o declínio das colónias de Apis mellifera e o risco que este representa para a polinização das plantas. Porém, a Apis mellifera, longe de ser uma vítima da diminuição da biodiversidade de insectos, é antes uma causa desta: a Apis mellifera era só uma espécie de abelhas entre 16.000, até que o ser humano começou a promovê-la e a explorá-la em escala e moldes industriais e fez dela a espécie de abelha hegemónica em todas as regiões do mundo, do Canadá à Patagónia, de Portugal à Mongólia. Ao competir, com armas desiguais, por néctar e pólen com as outras espécies de abelhas e de insectos polinizadores, a Apis mellifera foi contribuindo para o declínio daquelas e, quiçá, terá levado mesmo algumas à extinção. Como observa a ecologista Samantha Alger (uma especialista em polinização citada em A crise dos insectos, de Oliver Milman), “é um grande equívoco para o público as abelhas [a Apis mellifera] servirem como imagem icónica para a conservação dos polinizadores. É ridículo. É como fazermos das galinhas a imagem icónica da conservação das aves”.

Apicultores, por Pieter Brueghel o Velho, c.1568

O desmesurado domínio da Apis mellifera promovido pelo homem não se limita a ter efeitos negativos sobre as populações de outras abelhas e insectos polinizadores: também é contraproducente para a polinização das plantas agrícolas e selvagens. A Apis mellifera poliniza um vasto leque de plantas (este apetite católico contribuiu para que o homem a elegesse como espécie a domesticar), mas, como seria de esperar de uma “generalista”, tem eficiência sofrível em quase todas as plantas que poliniza. Já as 16.000 (ou mais) espécies de abelhas “selvagens” incluem agentes especializados em determinadas plantas (ou grupos de plantas), às quais se adaptaram ao longo de milhões de anos de co-evolução e cuja polinização executam com elevada eficiência. Quando se pretende ilustrar o calamitoso efeito da civilização na biodiversidade é usual realçar-se a desproporção entre a biomassa do minúsculo número de espécies de mamíferos domésticos – 600 milhões de toneladas – e a biomassa do grande número de espécies de mamíferos selvagens – 25 milhões de toneladas; porém, poucos se dão conta de que o ser humano criou um desequilíbrio análogo entre a espécie favorita de abelha “doméstica” e a constelação de espécies de abelhas “selvagens”.

A intensa artificialização do planeta substituiu os equilíbrios naturais por equilíbrios artificiais que requerem permanente intervenção humana – e, por vezes, conduzem a uma espiral de crescente artificialização. Por exemplo: hoje, a agricultura industrial americana faz-se numa escala tal e em moldes tão distantes dos naturais que alguns dos seus principais cultivos – maçã, pera, cereja, ameixa, frutos vermelhos, amêndoa, laranja, abacate, pepino, melão, girassol, colza, luzerna – estão dependentes da polinização “a pedido” realizada por apicultores “itinerantes” que percorrem o país em camiões carregados de colmeias de Apis mellifera.

Polinização comercial itinerante nos EUA: Preparação de um carregamento de colmeias na Carolina do Sul, a fim de atender um pedido para polinizar plantações de mirtilos no Maine

Hoje em dia, as populações locais de abelhas “selvagens” e dos restantes insectos polinizadores não seriam capazes de dar resposta aos picos de procura de polinizadores que vão ocorrendo ao longo do ano no vasto território dos EUA (só a polinização dos amendoais da Califórnia requisita, num curto período de tempo, 60-75% de todas as colmeias “itinerantes” dos EUA). Para completar este quadro de crescente desequilíbrio, deve referir-se que a incessante deslocação de colmeias de Apis mellifera pelo país tem o efeito de disseminar doenças e parasitas pelas populações locais de abelhas “selvagens”, contribuindo ainda mais para o seu definhamento.

Polinização comercial itinerante nos EUA: Principais cultivos envolvidos e principais rotas das colmeias. A intensidade da cor verde com que são representados os estados é proporcional à área ocupada com cultivos que recorrem a este tipo de polinização

Não se pretende, com estas considerações, demonizar a Apis mellifera, a apicultura ou a agricultura moderna, mas antes sublinhar a extrema complexidade da teia que une os seres vivos e desmontar ideias erradas ou imprecisas sobre o papel de cada um deles. O fracasso de muitas medidas de “correcção” ambiental resulta amiúde da falta de dados, de visões hiper-simplificadas e equivocadas dos sistemas naturais e de enviesamentos “sentimentais” – três factores que são absolutamente centrais na “crise dos polinizadores”.

A Terra sem insectos

Os artigos, livros de divulgação, vídeos e programas televisivos sobre o declínio dos insectos costumam deleitar-se a pintar com cores carregadas o que seria o quotidiano dos humanos numa Terra em que todos os insectos se tivessem extinguido. Uma das consequências mais óbvias e directas seria o colapso da produção agrícola, já que ¾ dos cultivos (representando 1/3 da produção agrícola) são polinizados por insectos. Alguns deles podem também ser polinizados, com igual eficácia, por outros agentes, como o vento, aves ou morcegos (mas aves e morcegos também estão, genericamente, em declínio); outros cultivos, embora admitam outras formas de polinização, requerem a intervenção de insectos para obter melhores produções, em quantidade e qualidade.

A polinização manual, que já é empregue nalgumas regiões onde se pratica monocultura intensiva e onde as populações de insectos não conseguem suprir as necessidades de polinização, é muito laboriosa e muito dispendiosa e, em cultivos como a macieira, pode redundar na produção de frutos numerosos mas de calibre abaixo do exigido para comercialização. A substituição dos insectos polinizadores por enxames de micro-robots alados já foi testada em pequenas áreas de cultivo e deixa excitados os tecnólatras (que sonham com a criação de uma Tecnosfera global que nos permita dispensar de vez a Natureza), mas dificilmente será viável comercialmente.

GettyImages-519199644 Getty Images

Polinização manual de pereiras em Hanyuan, China. Hanyuan reclama ser a “capital mundial da pera”, mas tal título foi conseguido graças ao uso maciço de pesticidas, que, provavelmente, está na origem do acentuado declínio das populações locais de abelhas, obrigando a que os seres humanos tenham de desempenhar o papel dos insectos

Claro que a polinização é apenas o papel mais óbvio que os insectos desempenham na produção agrícola: de forma mais discreta – frequentemente longe dos nossos olhos – há hordas de insectos, bem como outros artrópodes e vermes, que se afadigam incessantemente a processar folhas, ramos, troncos, cadáveres e excrementos e a incorporá-los no solo, bem como a cavar túneis e a promover o arejamento do solo. O solo não é uma simples camada inerte, é um complexo sistema biomineral cuja fertilidade está muito dependente dos insectos e outros humildes organismos vivos. Claro que os tecnólatras lembrarão que hoje já se pratica a cultura hidropónica, que dispensa solo, mas, mais uma vez, é improvável que se consiga alimentar toda a população mundial só com recurso a culturas hidropónicas. Claro que, como sugerem algumas obras de ficção científica, é possível conceber um futuro em que a humanidade se alimenta exclusivamente de uma papa esverdeada e insípida extraída de algas marinhas, com excepção de uma pequena elite que tem o dinheiro suficiente para trincar uma maçã uma vez por semana.

A construção de cenários para um mundo sem insectos e as possíveis formas de a civilização conseguir adaptar-se a tal situação é um entretenimento ocioso e inconsequente. Os insectos são tantos e tão omnipresentes, desempenham tantos papéis e estão tão intimamente imbricados nos ecossistemas, que a sua desaparição teria desastrosos efeitos em cascata: logo desapareceriam os incontáveis mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes que se alimentam, exclusiva ou parcialmente, de insectos e também os predadores que, por sua vez, se alimentam desses insectívoros. Como escreveu Edward O. Wilson, “se a humanidade desaparecesse, o planeta regenerar-se-ia e voltaria ao fecundo estado de equilíbrio vigente há 10.000 anos [antes da disseminação da agricultura]. Se os insectos desaparecessem, ocorreria um colapso ambiental”.

Mas a verdade é que a possibilidade de extinção de todas as espécies de insectos é completamente absurda. Eles andam (rastejam, saltitam, esvoaçam e nadam) por cá há 400 milhões de anos e já passaram por situações bem piores – nomeadamente o cataclismo planetário que extinguiu os dinossauros (e milhares de outras espécies) há 66 milhões de anos. Já enfrentaram situações climáticas bem mais extremas do que as que hoje existem e do que as que se perspectivam para o futuro próximo caso a humanidade não seja capaz de travar a queima de combustíveis fósseis.

Evolução da temperatura média da Terra nos últimos 500 milhões de anos

O efeito conjugado dos factores discutidos no capítulo “Um rol de suspeitos” poderá causar fortes declínios no número de espécies e na biomassa de insectos (e outros artrópodes) nas regiões mais desenvolvidas e artificializadas do planeta, mas é altamente improvável que ocorra a extinção em massa de todos os insectos que é vaticinada – ou, pelo menos, explorada – em muitos artigos sensacionalistas. Não só a prodigiosa variedade de insectos garante que haverá sempre espécies capazes de tomar o lugar das que eventualmente se extingam ou retirem para territórios menos hostis, como a rapidez com que se reproduzem lhes permite reerguer-se rapidamente após um colapso populacional e reagir às pressões da selecção natural, produzindo com relativa rapidez novos ecótipos, subespécies ou espécies adaptados às novas condições físicas e ecológicas. A “vil barata” poderá não possuir a resistência à radiação que as lendas urbanas lhe atribuem, mas pode invocar a seu favor ter passado com distinção no teste do tempo, já que os mais antigos vestígios de “proto-baratas” têm 320 milhões de anos e, aos olhos de um leigo, as baratas contemporâneas dos dinossauros são indistinguíveis das baratas modernas. A “vil barata” tem mostrado uma tal tenacidade e uma tal capacidade de adaptação (a ordem Blattodea conta com mais de 4600 espécies) que é muito provável que continue a andar por aí, muito depois de o último panda, o último urso polar, o último bacalhau e o último Homo sapiens terem perecido.

Exemplar de barata-do-Turquestão (Shelfordella lateralis) junto a um fóssil de barata com idade estimada em 108-125 milhões de anos

Não deve depreender-se daqui que o Homo sapiens não tem motivos para se preocupar com o declínio dos insectos, quanto mais não seja por motivos estritamente antropocêntricos e egoístas: a civilização é tanto mais frágil e susceptível a “avarias” quanto mais complexa, mais artificial e mais ávida por recursos for. Um forte declínio dos insectos polinizadores não porá termo à agricultura, mas poderá fazer do pepino e da maçã artigos gourmet e isso será calamitoso para a paz social. Tal como acontece com as alterações climáticas, um declínio acentuado dos insectos não trará o fim do mundo – entenda-se: o apocalipse de chamas e enxofre que tira o sono a Greta Thunberg – mas é provável que nos conduza a um futuro mais pobre, cinzento, soturno e árduo, sobretudo para a parte mais desvalida e vulnerável da humanidade.