Em apenas uma semana, sumiram-se das bolsas mais de três biliões de euros, o equivalente à produção da economia portuguesa nos últimos 20 anos. Nesta terça-feira, dia 6, os investidores entraram na segunda semana de perdas diárias. Em seis sessões de bolsa, as ações perderam 7%, em média, em todo o mundo. “O mercado vende tudo de uma forma mais ou menos indiscriminada”, avisa Emília Vieira, presidente da Casa de Investimentos, uma sociedade gestora de fortunas de Braga.

Ainda assim, e de acordo com os resultados ainda provisórios, o índice Dow Jones Industrial Average subiu 2,34%, para 24.915, pontos, e o índice alargado S&P 500 avançou 2,13%, para 7.115,88 unidades, no fecho da sessão desta terça-feira. O índice tecnológico Nasdaq registou uma valorização de 1,76%, para 2.695,50 pontos, indicam os mesmos dados provisórios.

O epicentro da queda — “tumulto”, segundo o The Financial Times, ou “sangria”, diz o The Guardian — está nos Estados Unidos da América. Na segunda-feira, em apenas 15 minutos após as 15 horas na bolsa de Nova Iorque (20 horas em Lisboa), o Dow Jones Industrial Average, um dos índices bolsistas mais antigos, caiu mais de 800 pontos, o equivalente a 3,5% da sua cotação.

“Não é um crash“, explica Miguel Gomes da Silva, o diretor da sala de mercados do Montepio. “Foi apenas um dia violento”, acrescenta, recordando dias com perdas superiores. Aliás, nos últimos dez anos, registaram-se 14 dias em que o Dow Jones Industrial Average deslizou mais de 4,60%, que foi a marca de segunda-feira.

Se não é um crash, o que é isto?

“É um mini-crash“, defende Steven Santos, gestor do BiG. “Não é uma coisa normal, que aconteça frequentemente, em especial a queda durante a tarde de ontem”, segunda-feira, explica. Também “não é uma situação anormal”, diz António Dias, o gestor do fundo IMGA Global Equities Selection, “tendo em conta que os mercados acionistas estão a subir há dois anos”. O índice MSCI World, que reúne os títulos das bolsas dos mercados desenvolvidos, revela um ganho de 30% nos últimos dois anos para os investidores com carteiras denominadas em euros.

A palavra mais frequente entre os especialistas é “correção”. “Isto não é o início de um bear market”, indica Miguel Gomes da Silva, do Montepio, referindo-se às fases longas de queda generalizada dos preços das ações. O PSI20, o principal índice português, perdeu cerca de 8% desde o início da semana passada. Todavia, mesmo contabilizando essa “correção”, a bolsa portuguesa rendeu 16% ao longo dos últimos dois anos.

Quem teve a culpa?

Os investidores começaram a ver sinais preocupantes de inflação, em particular nos EUA, onde se soube que os salários estão a subir. “Isso pode levar a uma subida mais rápida das taxas de juro [da Reserva Federal norte-americana] ou, mesmo, a mais revisões em alta ainda neste ano”, avisa Miguel Gomes da Silva. Se as taxas de referência subirem, as obrigações tenderão a acompanhar e, logo, as ações ficariam relativamente menos atrativas.

“O Tesouro norte-americano a pagar 2,71% a 10 anos é pouco”, alerta Emília Vieira. A presidente da Casa de Investimentos, que gere perto de 100 milhões de euros, calcula que, nesse prazo, as ações norte-americanas renderão mais apenas através dos dividendos e da recompra de ações pelas empresas emitentes.

Os receios de inflação não atuaram sozinhos na queda do mercado. “Uma estratégia que correu muito bem nos últimos dois anos foi a de posições curtas em volatilidade”, relata António Dias, da IM Gestão de Ativos. Essa tática consiste em apostar na descida da volatilidade das ações através de instrumentos complexos. Todavia, bastou um ligeiro movimento oposto para deflagrar a descida nas bolsas. “A volatilidade aumentou um pouco, o que gerou fechos automáticos de posições, algumas ainda por cima alavancadas”, explica António Dias. “Este movimento de correção foi exacerbado por estratégias de trading algorítmico”, completa Steven Santos, que é o responsável pela área de plataformas de negociação do BiG.

“Continuamos em bull market, uma fase positiva para as bolsas, recorda Miguel Gomes da Silva. “É apenas uma correção esperada que foi acentuada pela quantidade de produtos alavancados que temos hoje no mercado”, como contratos diferenciais e fundos cotados alavancados.

Nesta terça-feira, três fundos cotados que procuram replicar inversamente a volatilidade do mercado norte-americano foram suspensos da negociação à espera de notícias materiais. Durante a sessão de segunda-feira, todos perderam mais de 30% e, na negociação depois do fecho (algo possível nos EUA), os prejuízos chegaram até aos 80%, segundo a Reuters.

Há motivo para carregar no botão de pânico?

Não. Esta queda das bolsas “pode ser um evento de mercado saudável”, acredita António Dias. “Ainda não há sinais de alerta na economia e os resultados das empresas, em particular nos Estados Unidos, saíram acima das expectativas dos analistas”, relembra o gestor do IMGA Global Equities Selection, o fundo de ações mundiais gerido em Portugal que mais rendeu nos últimos cinco anos. Ganhou 10% por ano.

“Uma coisa posso garantir: a volatilidade será um fator a ter em conta nos próximos tempos. Não voltará aos níveis anteriores”, conclui António Dias. Nesta terça-feira, o Vix, o indicador que mede a volatilidade esperada pelos investidores no mercado, ultrapassou momentaneamente os 50 pontos. Desde março de 2009 que nunca fechou uma sessão de bolsa acima desse valor.

Mas a economia não está bem?

Regra geral, a economia mundial está saudável. O que os investidores podem recear é o que ainda está para vir. “Se os mercados continuarão a cair dependerá dos próximos dados económicos e dos bancos centrais”, avisa Miguel Gomes da Silva, do Montepio.

Os olhos de muitos investidores estão agora na Reserva Federal norte-americana, a autoridade monetária dos EUA. “Veremos se haverá uma resposta da Reserva Federal, agora que tem um novo presidente”, comenta António Dias, que, além do IMGA Global Equities Selection, é também responsável pelos fundos IMGA Ações América e IMGA Mercados Emergentes. No conjunto, os três fundos somam cerca de 20 milhões de euros em ativos.

Na segunda-feira passada, Jerome Powell foi nomeado presidente da Reserva Federal, indicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e confirmado pelo Senado. (Curiosamente, Donald Trump, que autoelogiou-se várias vezes pela subida da bolsa norte-americana, em particular através do Twitter, ainda não comentou a queda.)

“Ainda não temos uma conclusão sobre o movimento [de queda]. Temos de esperar para ver como o mercado digere os próximos dados”, indica Steven Santos, do BiG.

Que devo fazer agora?

Steven Santos mantém as suas previsões para o final do ano: o índice norte-americano Standard & Poor’s 500 (S&P500) nos 2.752 pontos, mais 4% do que agora, e o europeu Euro Stoxx 50 nos 3.788 pontos, 10% acima dos níveis mais recentes. Steven Santos não espera que Portugal se afaste do resto da Europa. “As empresas portuguesas não estão mais vulneráveis [do que o resto da Europa], em particular depois do esforço de redução da dívida.”

Os especialistas concordam que a recente queda pode ser um bom momento para reforçar a carteira de ações. “É natural que [a desvalorização] crie algum desconforto, mas as correções abrem espaço para fazer bons investimentos”, diz Emília Vieira. A presidente da Casa de Investimento revela que estão compradores no mercado em alguns títulos, aproveitando que têm quase um quarto das carteiras dos clientes em liquidez. “O investidores individuais devem aproveitar para ganhar muito dinheiro. A vantagem dos investidores individuais está na sua visão de longo prazo. Quem está preocupado com a volatilidade de curto prazo irá sofrer”, completa. Desde novembro de 2010, os clientes da Casa de Investimentos ganharam, em média, 10,78% por ano até ao final de 2017.

António Dias acredita que “nunca se deve seguir os movimentos de curto prazo”. O gestor da IM Gestão de Ativos diz que, “para um investidor de ações, que deve ter um horizonte de investimento de longo prazo, as quedas abruptas podem ser boas oportunidades para reforçar”. E recorda que o ano da Segunda-Feira Negra, 1987, acabou por fechar positivo.

Miguel Gomes da Silva aconselha os investidores a aproveitarem “a oportunidade para comprar seletivamente”. O diretor do Montepio exemplifica com o setor financeiro: “É lógico que a banca saia beneficiada [de um cenário de subida de taxas de juro], em particular na Europa, onde a maioria dos créditos está indexada às taxas de mercado”. Gomes da Silva acrescenta que os investidores mais conservadores devem proteger-se, por exemplo, através de contratos de opções de venda: “o pior que pode acontecer é perderem o prémio [se a bolsa subir]; se cair, beneficiam com o put“.

No BiG, “podemos aconselhar a alguns clientes uma proteção, como investir em ouro, no dólar norte-americano ou em dívida pública americana de longo prazo”, esclarece Steven Santos. “Mas não é para todos os clientes; apenas para os que fazem uma gestão mais ativa. Não há uma forma barata de proteção contra a volatilidade.”