Artigo em atualização ao longo do dia

Depois de uma manhã com uma ação mais simbólica, onde Jerónimo até abdicou do protagonismo, ao almoço voltou o registo de ataque ao PS. No regresso ao distrito de Santarém, com uma sala cheia no Pavilhão de Alpiarça, a CDU voltou a apontar a mira. “Podíamos ter ficado nas nossas tamanquinhas, podíamos dizer ‘entendam-se’, mas fizemos uma opção”, disse Jerónimo de Sousa aos mais de 500 apoiantes que esperavam o discurso do secretário-geral num ambiente agitado.

E foi enganado pelo PS? Jerónimo diz que não. Que “sabiam quem era o PS” e que não tinham “nenhuma ilusão que tivesse mudado”. Depois de uma intervenção inicial de António Filipe, que destacou os avanços conseguidos no distrito dos últimos anos, enquanto a CDU andou de mãos dadas com PS e Bloco de Esquerda, e tudo o que ainda havia a fazer e a necessidade de se reforçar o partido para que a aposta em Santarém possa ser maior, Jerónimo subiu ao palco para assumir que o que conseguiram foi “insuficiente”.

Mas o pouco é melhor que nada e ter conseguido tirar do governo o PSD e CDS foi uma vitória para o PCP que chama a si a formação de governo. O secretário-geral lembrou que o PS chegou mesmo a apresentar “cumprimentos ao PSD pelo resultado eleitoral” e que foi o PCP o primeiro a dar um passo em frente para dizer ao PS que só não formava governo “se não quisesse”.

Mas não estão satisfeitos. “Não é preciso que nos lembrem para assumir que foi pouco, foi limitado, insuficiente, tudo isso é verdade”, assumiu Jerónimo de Sousa para logo acrescentar que cada votante na CDU em 2015 poderá agora “dizer se está ou não de acordo” com a ideia de que o partido “fez bem em não perder nenhuma oportunidade”.

Enquanto Jerónimo discursava, a maior vaia, que ecoou bem alto pelo pavilhão, ficou mesmo para Cavaco Silva e para o governo a que deu posse. Foram 11 dias do governo do PSD e CDS que saiu do Parlamento com a criação da “geringonça” à esquerda. Jerónimo notou que foi a CDU que esteve na resolução “do problema institucional criado em 2015”.

Sendo ainda insuficiente aquilo que os comunistas afirmam ter conquistado ao apoiar o governo do PS, Jerónimo enumerou o aumento das reformas e pensões, do salário mínimo nacional, os passes sociais e os manuais escolares gratuitos a título de exemplo, para recordar os apoiantes que o ouviam que o voto foi “honrado” e que quem em 2015 votou no partido deve “estar orgulhoso”.

E, conforme tinha recordado na intervenção inicial o deputado António Filipe, o hino da CDU para esta campanha, da autoria de João Monge, funciona lindamente como gancho para o que a coligação quer: “Sempre em frente, pelos sonhos e pela razão, nós somos muita gente e mais nesta união”.

Jerónimo cede protagonismo para alertar contra obstáculos nos transportes públicos

Uma viagem de comboio entre a estação de Amadora e Sete Rios podia ter sido apenas uma ação de pouca expressão da campanha comunista já que ao domingo, ao contrário do que acontece em dias de semana, os comboios tendem a ficar mais vazios. Mas o objetivo era outro: à caravana juntaram-se pessoas com deficiência, que têm o seu dia-a-dia dificultado pelos transportes públicos. No final, Jerónimo disse que “não se importava” de abdicar do protagonismo nesta manhã, para que todos ficassem alerta para as dificuldades que ainda existem e para as quais a sociedade não tem resposta.

Ana Sezudo é presidente da Associação Portuguesa de Deficientes e integra as lista da coligação por Lisboa. Utiliza uma cadeira de rodas para se deslocar depois de um acidente de viação na adolescência a ter incapacitado. Aos jornalistas explica que optou por utilizar o carro para as deslocações diárias porque os transportes públicos não estão preparados para que possa movimentar-se sem constrangimentos. “Mas há quem não tenha capacidade para ter carro próprio e essas pessoas ficam condicionadas” inclusivamente no acesso ao mercado de trabalho, notou.

Na estação da Amadora a rampa de acesso é demasiado inclinada e obriga quem se desloca em cadeira de rodas a “ser atleta”, nas palavras de Ana, para conseguir aceder à plataforma dos comboios. Seja para subir porque a força de braços tem de ser muita, seja para descer quando é necessário travar. A alternativa é andar com mais alguém que possa dar uma ajuda com a cadeira, tal como aconteceu esta manhã. E este não é o único obstáculo. Em Sete Rios há apenas um elevador, o que em dias de movimento e hora de ponta se torna de acesso muito difícil. E depois, o próprio direito de utilizar o transporte. Todos os comboios da CP estão preparados com rampas de acesso na “carruagem azul”, mas para que haja alguém a colocar a rampa nas entradas e saídas é necessário avisar com 12 horas de antecedência. Aos jornalistas, o revisor responsável por esse trabalho, na ação desta manhã, explica que em hora de ponta estas deslocações não são autorizadas. “Há demasiadas pessoas, os comboios vão cheios e não temos espaço para as cadeiras de rodas”, justifica.

Mas a deslocação na CP foi apenas um dos exemplos, porque há autocarros “onde nem as cadeiras de rodas cabem nas portas”, pedreiros “que fazem passeios e acham que um degrau de dois centímetros não tem mal” e câmaras municipais que gastam milhares a rebaixar passeios, mas que não fiscalizam, a título de exemplo. O presidente da Associação de Paralesia Cerebral de Lisboa deixou claro que é preciso formar “os pedreiros, os engenheiros” para lhes explicar que os dois centímetros fazem muita diferença e que não são as instituições que podem resolver esses problemas, que sinalizam — “há muitos e muitos anos” — mas que o que é urgente é chegar à raiz do problema.

Depois de desembarcar em Sete Rios, o que ainda demorou algum tempo por só haver um elevador disponível na estação, estava preparado um momento de partilha de experiências entre a caravana da CDU e alguns representantes de associações. Tomé Coelho, presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) aproveitou o momento para explicar que desde o dia 14 está impedido de movimentar as suas contas na Caixa Geral de Depósitos.

Na sequência da implementação das novas diretrizes de segurança da União Europeia, a CGD aplica agora um novo código de controlo — “SMS Token” — que é enviado para o telefone do cliente e deve ser introduzido em 60 segundos. De acordo com Tomé Coelho, o tempo que o software de leitura de mensagens em voz alta do telefone demora a ler a mensagem até chegar aos dígitos de controlo é superior a 60 segundos e isso impede-o de movimentar a conta. No final explica que até a ACAPO teve problemas no processamento dos salários dos funcionários deste mês. Foi preciso emitir uma procuração especial a um dos membros da tesouraria, que não é invisual, para que os pagamentos pudessem ser processados. “Seria a mesma coisa que pedir ao presidente da EDP para estar de telemóvel em riste a validar o pagamento do vencimento de milhares de funcionários”, exemplificou.

Jerónimo de Sousa, numa curta declaração apenas para agradecer a todos as partilhas e a presença na ação, prometeu também que na próxima legislatura a CDU vai continuar a lutar para que cada vez menos as pessoas com deficiência — sejam de que tipo forem — se sintam limitadas no seu dia-a-dia em coisas tão simples como “dar um passo ou fazer avançar a cadeira de rodas uns metros”.