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ILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

ILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

Porque é que falamos sozinhos?

Umas vezes em voz alta, outras silenciosamente. Umas vezes chegamos a fazer perguntas (e a responder), outras debitamos longos monólogos. Falar sozinho cumpre várias funções importantes.

Qualquer pessoa que já tenha observado uma criança pequena, entretida a brincar, teve oportunidade de perceber que ela vai murmurando frases a propósito do que está a fazer ou pensar: “Agora vou fazer esta casa”, “O bebé vai dormir porque está com sono”, “Cuidado que vem aí o dragão.” A criança não está a falar com ninguém, ou melhor, até está: está a falar consigo mesma.

Este comportamento foi observado inicialmente por Lev Vygotsky, um psicólogo russo que estudou crianças na década de 1920, concluindo que este tipo de discurso é uma parte vital do processo de desenvolvimento, permitindo a organização dos pensamentos, regular o comportamento e, provavelmente, internalizar a linguagem, que ainda está a aprender, como ferramenta de planeamento e resolução de problemas.

E mesmo que, em adultos, sintamos embaraço em admiti-lo — ou vergonha quando somos apanhados —, a maioria de nós continua a ter conversas consigo mesmo, umas vezes em voz alta, outras apenas dentro da nossa cabeça. É um comportamento muito comum, ao qual os psicólogos e investigadores nesta área se referem como auto-conversa ou auto-diálogo que podem dividir-se em:

  • discurso privado (quando falamos connosco em voz alta);
  • discurso interno (quando falamos connosco só em pensamentos).

“As pessoas falam consigo próprias por vários motivos. Para se orientarem, por exemplo, quanto a um problema, para se motivarem, para criarem novas ideias ou para praticarem interações sociais”, explica Charles Fernyhough, diretor do Centre for Research into Inner Experience, da Universidade de Durham, no Reino Unido, e autor do livro The Voices Within. De acordo com o investigador, os estudos mostram que este tipo de discurso é benéfico na infância, ajudando as crianças a resolver problemas e manter a atenção e, apesar de haver menos investigação sobre este tema em adultos, há razões para acreditar que tem alguns dos mesmos efeitos positivos.

Apesar de ser difícil de quantificar este fenómeno, alguns estudos referem que 96% dos adultos têm estes diálogos internos, enquanto 25% admite falar consigo próprio em voz alta. “Sabe-se que as crianças têm mais propensão a falar em voz alta consigo mesmas e os adultos tendem mais a fazer isso em silêncio, mas que, em condições desafiadoras, também podem recorrem ao discurso privado [em voz alta].”

“Provavelmente, há tantas razões para falar sozinho como há para falar com outras pessoas”, diz Thomas Brinthaupt, Professor na Middle Tennessee State University, nos EUA. “Mas uma das funções mais comuns é a auto-regulação, ou seja, a tentativa de controlarmos ou ajustarmos os nossos pensamentos e comportamentos.”

Que o diga Thomas Brinthaupt, Professor Emérito na Middle Tennessee State University, nos Estados Unidos, onde faz investigação nas áreas da Psicologia da Personalidade, Psicologia Social e Psicologia da Identidade. Ele lembra-se que começou a perceber que falava sozinho em voz alta quando, há mais de trinta anos, foi pai e estava a lidar com o desafio da privação de sono. Foi isso que o lançou nesta área de investigação, para tentar responder à pergunta: “Afinal, que função cumpre falarmos sozinhos?”

Três décadas e dezenas de estudos sobre o tema depois, consegue resumir a resposta a essa pergunta numa frase surpreendente simples: “Provavelmente, há tantas razões para falar sozinho como há para falar com outras pessoas”. Apesar disso, refere que a investigação tem mostrado que “uma das funções mais comuns é a auto-regulação, ou seja, a tentativa de controlarmos ou ajustarmos os nossos pensamentos e comportamentos”.

A Self-Talk Scale (STS), uma escala que o investigador desenvolveu para medir e identificar os vários tipos de auto-conversa, identifica ainda outras funções, “como a autocrítica (por exemplo, quando ficarmos chateados connosco mesmos), o auto-reforço (quando estamos satisfeitos connosco), a auto-gestão (nomeadamente tentar perceber o que precisamos de fazer) e a avaliação social (como seja antecipar ou repetir interações sociais).” Há ainda outras escalas e estudos desenvolvidos por outros autores que referem também como funções da auto-conversa tentar memorizar ou recordar informações, mudar de perspetiva sobre uma situação ou problema e reviver conversas já tidas com outras pessoas.

Quanto ao facto de ser, por norma, mais frequente termos estas conversas só dentro da nossa cabeça, sem falar em voz alta, Thomas Brinthaupt frisa que apesar de haver pouca investigação sobre o assunto, uma das razões será a inibição social, ou seja, as pessoas têm vergonha de ser apanhadas a falar sozinhas porque isso está erradamente associado a ter um problema de saúde mental. Por essa razão, geralmente tendemos a limitar a auto-conversa em voz alta a situações em que isso é socialmente aceitável. “Como quando alguém diz ‘OK, onde é que eu estava?’; quando uma pessoa está a tentar perceber o que está de errado com o seu computador e diz ‘Porque é que isto não está a funcionar?’ ou quando os atletas tentam motivar-se ou focar-se durante uma competição, dizendo, por exemplo “Tu consegues fazer isso!”

E apesar de ser verdade que, por vezes, a auto-conversa, sobretudo quando se trata de um discurso desordenado ou incoerente, poder ser um sintoma de uma perturbação mental, na maioria das vezes é apenas uma forma normal, muito comum e saudável de tentar processar e organizar o pensamentos, emoções e comportamentos.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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Com a colaboração de:

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