Estar num funeral e ter um ataque de riso — daqueles que não é possível disfarçar com tosse ou com um lenço em frente à boca — ou ouvir um amigo a chorar enquanto partilha uma história triste e soltar depois uma gargalhada estridente é, no mínimo, inoportuno. Mas é também relativamente frequente: muitas pessoas já passaram pela experiência de rir, sem querer, numa altura muito desadequada.
Apesar de nos termos habituado a olhar para o riso como uma manifestação de alegria ou diversão, ele pode surgir por causa de uma série de outras emoções e noutros contextos: podemos rir para troçar de alguém, para provocar ou desafiar, para esconder a vergonha que sentimos, quando somos tomados pela raiva ou quando ficamos ansiosos e assoberbados. A isso, chamamos “riso nervoso”.
Este riso, incongruente com a situação e com o que se sente, é considerado uma expressão emocional dimórfica, ou seja, manifestar uma emoção intensa através de um comportamento que, à primeira vista, parece expressar a emoção oposta. Esse é o caso de rir com ansiedade ou tristeza, mas também de chorar de alegria.
Alguns estudos demonstram que estas expressões emocionais dimórficas, como o riso nervoso, não são erros emocionais, mas antes uma resposta natural e adaptativa que ajuda a pessoa a equilibrar ou regular emoções intensas, evitando que fiquem fora de controlo. Ou seja, geralmente são uma tentativa – inconsciente e involuntária – de aliviar a tensão emocional, inclusivamente física, que se sente. Perante sintomas de desconforto ou ansiedade, o corpo reage ao procurar uma válvula de escape, que resulta neste riso que não é intencional.
“A risada é uma forma muito potente de sinalizar que está tudo bem e que nos podemos tranquilizar”, explica o médico psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no Brasil, autor, entre outros, do livro Rir é Preciso (ed. Sextante, 2022). “Perante uma emoção muito forte, uma tristeza ou medo repentinos, por vezes começamos a rir numa tentativa – involuntária – de nos acalmarmos a nós mesmos e aos nossos interlocutores.”
O médico refere que “pessoas mais sensíveis, que se emocionam com mais facilidade, e até mesmo mais inseguras, podem rir com mais frequência em situações que as deixem nervosas, para se tentarem acalmar ou para enfrentarem a situação com menos desconforto”, sendo que isto acontece principalmente “quando somos apanhados de surpresa por uma emoção, sem tempo de nos prepararmos para controlá-la”.
Historicamente, o riso nem sempre significou felicidade ou alegria, como hoje. Na Idade Média era visto com desconfiança, como um descontrolo do corpo que se devia evitar. Mais tarde, no período do Iluminismo, houve teorias que o associaram a um sentimento de superioridade e vaidade.
“O riso é (quase) sempre o seu contexto. Pode querer dizer tudo e o seu contrário. Pode ser alegria, claro, mas também nervosismo, vergonha, ironia ou desprezo”, diz Abílio Almeida, investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, que tem estudado como as emoções moldam a sociedade e escreveu, a propósito disso, História do Riso (ed. Guerra & Paz, 2022; Routledge, 2024).
Sentimo-nos desconfortáveis quando nos rimos numa altura inadequada porque o riso tem duas dimensões. “Uma mais pessoal, quase instintiva, e outra mais social — que define o que é ou não apropriado. Quando rimos num funeral, por exemplo, o corpo está só a reagir, a libertar pressão. (…) [mas] aprendemos que o riso tem hora e lugar, e rir fora desses lugares é falhar na performance social. Temos medo de parecer infantis, desajustados ou até cruéis.” Ou mesmo de sofrer sanções sociais.
O investigador lembra, no entanto, que este riso está longe de ser a única situação em que comportamentos instintivos e o que é socialmente correto não andam de mãos dadas. “Quem nunca bocejou ou arrotou num sítio inapropriado? O corpo e a sociedade nem sempre têm o mesmo ritmo. E o riso é só mais um exemplo disso.”
Por fim, menos frequentemente, o riso fora de contexto pode estar relacionado com uma condição neurológica rara chamada síndrome pseudobulbar. Neste caso, há doença neurológica subjacente – como demência, doença de Parkinson ou um acidente vascular cerebral (AVC) prévio — que afeta a capacidade de o cérebro controlar e expressar emoções, provocando explosões emocionais inadequadas de riso, choro ou de ambos.
A origem do fenómeno não é psicológica nem contextual, mas antes neurológica: supõe-se que o problema é causado por uma falha de comunicação entre o lobo frontal — que regula as emoções — e o cerebelo e o tronco cerebral, que têm um papel importante nos reflexos. Este artigo científico publicado em 2021 por quatro neurologistas norte-americanos mostra que, por exemplo, cerca de 40% das pessoas com doença de Parkinson apresentam este sintoma.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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