Aviso: Seja responsável, beba com moderação

O último congresso partidário, o do CDS, foi apenas há duas semanas e teve emoção para dar e vender: incerteza quanto a quem seria o novo líder, negociações madrugada fora, acusações, claques e apupos, vira-casacas de última hora e uma nova direção que entretanto já perdeu alguns dos seus membros. Foi uma festa, portanto. O mesmo não se espera do congresso deste fim de semana, do PSD, que não só não é eletivo, como serve apenas para arrumar a casa. O modelo está tão esgotado, que já há pedidos para que se acabe com as diretas e até uma moção para que sejam substituídas por primárias abertas a simpatizantes. Mas isso, não será para já. Para já, sabemos apenas que serão três dias (de sexta a domingo) de intervenções, discursos, avisos à navegação e machados de guerra enterrados mas sem juras de amor, onde se prevê que a preparação de listas opositoras ao Conselho Nacional seja o pico de adrenalina, na medida em que é através daquele órgão que se vão manter representadas as correntes que se digladiaram nas diretas do mês passado.

Luís Montenegro avisou logo que não se iria demitir de falar ao congresso, o seu escudeiro Hugo Soares também vai discursar. Para não falar de Pinto Luz, que vai meter as fichas todos no discurso. E depois, remetem-se ao silêncio? Tudo indica que sim. Quanto aos potenciais novos rostos que Rio irá escolher para a sua equipa, não se esperam surpresas bombásticas: os indefetíveis deverão manter-se, o “Centeno de Rio” será promovido (Joaquim Sarmento), e mesmo que haja um sinal pontual de renovação, o núcleo duro não será abalado. Quer acompanhar o congresso mas sente que falta emoção? Não se preocupe. Preparámos um jogo para animar os três dias que teremos pela frente.

Es ist ein fluss, der nicht aufhört (Ele é um Rio, que não vai parar)

Beba um shot sempre que Rui Rio disser a palavra “centro” (se não souber falar alemão, beba dois)

Rui Rio

Rui Rio tem tido na democracia cristã alemã algumas das suas referências: de Helmut Kohl a Angela Merkel. Vai ser num estilo Merkel que o reeleito líder do PSD se vai apresentar neste congresso, repescando o slogan da campanha das diretas: “Portugal ao Centro”. O discurso de Rio vai ser ao centro e com o objetivo de conquistar Portugal. Tal como na moção, o líder vai querer mostrar que está pronto para governar assim que a questão se colocar e até já disse que pode ser já em 2021.

Rio também não resistirá aos momentos ‘eu tinha razão’ e ‘viram? eu ganhei’. A questão é de que forma o fará. Ao líder não interessa uma postura de confrontação, mas de unidade. Por outro lado, também não vai fazer cedências nem ser condescendente com os críticos. Desta vez já disse que não vai entrar em negociações nas listas para o Conselho Nacional porque a experiência não correu bem quando o fez com Santana Lopes.

Quanto à maior crítica que lhe podem fazer — da colagem ao PS ou de fazer uma “oposição fofinha” a Costa– Rui Rio defendeu-se dela durante a semana. Com a redução do IVA da eletricidade, o PSD deu luta à “geringonça”, colocou o governo em apuros (que o governo resolveu) e ainda esta quinta-feira colocou António Costa a criticar Rui Rio. A estratégia do IVA pode ter falhado em parte (até porque o partido foi cedendo e acabou a votar num sentido diferente daquele que havia anunciado pouco antes), mas o presidente do PSD dificilmente podia ter melhor na véspera do arranque do Congresso: ter o primeiro-ministro a acusá-lo de “cenas patéticas”. Não leva na mão o trunfo de ter conseguido baixar o IVA na eletricidade com contra-partidas, mas tem a manilha de ter irritado e ter feito verdadeira oposição ao governo. Sem as perdas da chamada “crise dos professores”.

Rui Rio terá de apontar para um bom resultado das autárquicas (é pouco provável que assuma que quer ter mais mandatos que o PS, embora na moção), sob pena de ser acusado de falta de ambição. O presidente reeleito tem condições para sair mais líder deste congresso do que saiu há dois anos. E, aprendendo com os erros, pode evitar as vaias e falhas de percurso que teve no passado (como a escolha de Elina Fraga). Rio tem tudo para que esta seja mais um congresso de consagração do que de confrontação. Um Congresso sem história será um Congresso de vitória para Rio. Há um FC Porto-Benfica pelo meio e uma oposição enfraquecida a ajudar.

O último suspiro de um ferido em combate

Beba um shot de cada vez que alguém lembrar que Luís Montenegro é dono de 47% dos votos dos militantes do PSD.

Luís Montenegro

Luís Montenegro foi derrotado por Rui Rio não uma vez (Conselho Nacional de janeiro), não duas (primeira volta das diretas) mas três vezes (segunda volta). Está ferido em combate, mas ainda vive. Tudo graças a um balão de oxigénio: uma bolsa de 47% de votos dos militantes do PSD que o escolheram a si em detrimento de Rui Rio (53,2% estiveram ao lado do líder). Por um voto se ganha, por um se perde, e Luís Montenegro perdeu. Facto. No discurso da derrota, contudo, fez questão de dizer que as notícias da sua morte política, se as houvesse, eram “manifestamente exageradas”.

Prova disso é que vai a Viana do Castelo pelo próprio pé (“não abdico”, disse na altura), vai discursar aos congressistas e, sobretudo, vai prolongar a luta das diretas através de listas opositoras às de Rio no Conselho Nacional. Não será o próprio a encabeçar a lista dos montenegristas — vai remeter-se ao silêncio e à sua condição de militante de base –, mas alguém em seu nome o fará. União, nem pensar. Paz? Só se for podre.

Ao que o Observador apurou, também não será Hugo Soares (braço direito de Montenegro) a dar a cara nessa lista já que está demasiado colado à pele do ex-candidato, mas há outros nomes na calha: Paulo Cunha, que pôs Famalicão em massa a votar no candidato, é o mais provável cabeça de lista, havendo outros nomes que a podem vir a integrar como Pedro Duarte, Pedro Alves (que foi diretor de campanha) ou Margarida Balseiro Lopes, a líder da Jota que está prestes a terminar o mandato e que foi a mandatária nacional da candidatura de Montenegro nas diretas.

Certo é que, com uma luta tão fratricida que se prolongou durante todo o primeiro mandato de Rui Rio e culminou numas disputadas eleições diretas, não serão poucos os militantes que vão subir ao palco para lembrar que Luís Montenegro esteve a uma unha negra de ganhar o partido. O recado já tinha sido dado pelo próprio logo na noite da derrota: “(…) com a legitimidade de representar cerca de 47% dos militantes que se expressaram nestas eleições, devo pedir ao dr. Rui Rio e à nova direção política que sair do congresso que saiba interpretar os resultados eleitorais que o PSD teve no último ano, e que saiba interpretar aquilo que resulta dos que os militantes disseram hoje nas urnas”. Ou seja, o candidato derrotado é um opositor “legítimo”. Prepare o copo à palavra “legitimidade” e ao número “47%”.

Pinto Luz: no presente a pensar no futuro (após um pretério imperfeito)

Sempre que Miguel Pinto Luz disser a palavra “futuro” beba um shot

Miguel Pinto Luz

Miguel Pinto Luz conseguiu evitar um resultado Patinha Antão ou Castanheira Barros, mas também não se pode dizer que tenha tido um resultado estonteante nas diretas. A meta dos dígitos estava presente, e até podia ter sido atingida se a Madeira contasse, mas para a ata ficam os 9,55% dos votos oficiais à primeira volta (correspondentes a 3.030 votos). O que fazer com eles? Foi essa a decisão que Pinto Luz teve de tomar esta semana. Havia duas hipóteses: encabeçar uma lista ao Conselho Nacional (onde até admitia integrar apoiantes de Montenegro) ou simplesmente fazer uma intervenção no Congresso.

Na segunda-feira à noite Pinto Luz fez uma reunião com os delegados ao congresso, onde já foram dadas indicações de que o candidato não deveria ser o cabeça de lista. Na terça-feira ao almoço, o líder distrital de Lisboa, Ângelo Pereira, o líder distrital de Setúbal, Bruno Vitorino, e Rui Abreu (PSD/Madeira) — todos apoiantes de Pinto Luz — juntaram-se para gizar um plano para a lista ao Conselho Nacional. Bruno Vitorino é hipótese para o primeiro lugar. Vai assim existir uma lista para “aproveitar” os delegados do candidato, mas publicamente Pinto Luz já se demarcou dessa batalha.

“Na sequência das últimas eleições diretas do PSD, o candidato Miguel Pinto Luz entende que não faz sentido encabeçar, ou integrar, qualquer lista de candidatos ao Conselho Nacional, nas eleições que irão decorrer durante o próximo congresso”, garantia a estrutura de campanha de Pinto Luz numa nota emitida na quarta-feira. E confirmava o cenário de meter as fichas todas na prestação no palanque: “Neste sentido, Miguel Pinto Luz centrará a sua ação durante o Congresso na intervenção que irá realizar.”

Não será de estranhar que seja uma declaração virada para a frente, aludindo aos votos que conquistou, lembrando alguns pontos da sua moção e pedindo ambição para as autárquicas. O próprio Pinto Luz é um dos nomes falados no partido para candidato à câmara de Lisboa, mas seria um passo demasiado arriscado para quem quer a liderança do partido. Além de que ninguém espera — apesar da propensão de Rio para surpresas — que dirija o convite ao adversário a meio da reunião magna. E a opção não colhe entusiasmo no inner circle de Rio, como mostra a dureza do comentário de um dos dirigentes nacionais: “Se só teve 9% no PSD, o que leva a crer que tem mais junto do eleitorado de Lisboa?”

O candidato do futuro, que se lançou com um palco 360º, tem assim como grande desafio do congresso evitar completar uma volta de 360º, em que no fim do dia é apenas vice-presidente da câmara de Cascais e o delfim de Carlos Carreiras.

Núcleo duro mantém-se. Rio não dispensa fiéis

Beba um shot de cada vez que ouvir pedidos de paz interna, caso contrário a culpa de futuros desastres eleitorais também será dos críticos.

O núcleo duro de Rio

Não espere grandes surpresas ao nível de cargos de topo da direção do PSD. Não é expectável que Rui Rio faça mudanças bruscas no seu inner circle, porque, lá está, é o seu inner circle. Com mudanças pontuais, como a saída de Elina Fraga e José Manuel Bolieiro dos cargos de vice, ou a saída de David Justino da coordenação do Conselho Estratégico Nacional para dar essa pasta a Joaquim Sarmento (o chamado Centeno de Rio), a direção deverá manter-se mais ou menos intacta. Salvador Malheiro não é dispensável, David Justino também não deverá ser, apesar de afirmar regularmente que o seu lugar está à disposição, e também nada indica que Nuno Morais Sarmento esteja de saída.

Mesmo que Rio queira dar um sinal de rejuvenescimento e renovação, e algum deles saia para dar lugar a outro rosto mais fresco, a génese mantém-se: José Silvano mantém-se como secretário-geral (devendo manter também os dois atuais adjuntos), Maló de Abreu deverá manter-se como vogal da comissão política (não sobe a vice nem é despromovido), e Florbela Guedes mantém-se como a responsável pela comunicação.

Da mesma forma que os rostos se vão manter, os argumentos também não deverão sair um milímetro do guião: se Rui Rio já tinha legitimidade antes para ir a votos, e só não teve um resultado mais robusto nas legislativas por causa da contestação interna que houve durante o seu primeiro mandato, agora está ainda mais reforçado para iniciar este segundo mandato sem obstáculos. Se a contestação interna continuar, então a culpa de eventuais desaires eleitorais também será dos contestatários. Vai uma aposta? Um shot de cada vez que este argumento for usado.

Todos os nomes. Surpresas ‘à la Rio’ e evitar ‘efeito Elina’

Beba um shot sempre que houver uma vaia no Congresso

Quem entra, quem sai e quem se mantém na nova direção?

Há dois anos Rui Rio não contava, mas a escolha de Elina Fraga — que tinha feito críticas duras ao governo de Passos Coelho — caiu como uma bomba no Congresso, com muitas vaias à mistura. Na sequência disso, na eleição para a Comissão Política Nacional houve 35% dos votos brancos ou nulos, com a direção Rio a ter uma votação abaixo de qualquer uma das de Passos Coelho (mesmo quando enfrentou Rangel e Aguiar-Branco). Desta vez, Rio quer evitar esses erros. Para começar, Elina Fraga deve sair da direção. O mesmo deve acontecer com José Manuel Bolieiro — ele que serviu para substituir outro erro de casting de Rio, Castro Almeida — que vai ser o candidato a presidente do governo regional dos Açores.

André Coelho Lima, atual vogal da comissão política, é um dos nomes falados para subir a vice-presidente. José Manuel Fernandes, eurodeputado que está prestes a terminar o último mandato à frente da distrital de Braga, é outro dos nomes em cima da mesa. Mas nunca poderão ser os dois vice-presidentes, pois são ambos de Braga. Rio deverá continuar a apostar na renovação e há sempre que contar com o fator surpresa porque, como o Observador apurou, os nomes da futura direção estão apenas na cabeça do líder. Além disso, o presidente social-democrata já demonstrou (nos cabeças de lista para as legislativas) que faz escolhas “fora da caixa”.

Parece é haver cada menos dúvidas sobre quem será o novo líder parlamentar, sucedendo ao próprio: Adão Silva. Na prática, já é este vice-presidente da bancada quem está a assumir a parte de gestão do grupo parlamentar (como ir às conferências de líderes, decidir quem fala quando e afins), ficando Rio com a exposição pública. O problema de Adão Silva é não ser conhecido por ser carismático ou um grande tribuno, mas conhece bem o Parlamento e Rui Rio poderá continuar a enfrentar António Costa nos debates quinzenais.

Paulo Mota Pinto, um aliado de Rui Rio na tentativa “golpe de estado” de janeiro de 2018, deverá continuar como presidente da Mesa do Congresso.

Hugo, o Boss da fação Montenegro, a defender uma marca em queda

Beba um shot sempre ouvir uma crítica a Rui Rio feita por Hugo Soares

Hugo Soares

Só há uma pessoa que criticou mais Rui Rio ao longo dos últimos dois anos do que Luís Montenegro: Hugo Soares. Mesmo que o candidato derrotado decida fazer de polícia bom, Hugo Soares fará, necessariamente, de polícia mau. Mas medalhado: quando Rui Rio o deixou fora das listas à Assembleia da República, o antigo líder parlamentar disse que esse veto é uma “medalha” que carrega ao peito.

Quando Luís Montenegro ficou no sofá, foi Hugo Soares a dar o corpo às balas no célebre Conselho Nacional de janeiro de 2018, onde Rui Rio levou a melhor e se manteve no cargo. E se Hugo Soares foi sempre uma voz crítica do líder, não é desta que vai deixar de o ser. Hugo Soares, sabe o Observador, não deverá integrar nenhuma lista ao Conselho Nacional, mas fará questão de ir ao palanque. O que se espera? Críticas a Rui Rio. Já não tem muito a perder: perdeu o Conselho Nacional de 2018, perdeu o lugar no Parlamento e perdeu as diretas. Quem está mais desprendido, por norma, é mais corrosivo. Hugo era o Boss da fação Montenegro e deverá continuar a defender a marca M. Ou o que resta dela.

Com Soares de fora, a lista ao Conselho Nacional da fação Luís Montenegro deverá assim ser encabeçada pelo presidente da câmara municipal de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha (só a concelhia dele leva 14 delegados). Paulo Cunha está sempre do lado contrário ao de Rio e já tinha apoiado Pedro Santana Lopes no primeiro embate do atual líder. Desta vez, levou ao colo a vitória de Luís Montenegro (949 votos só de Famalicão) no distrito de Braga e quererá agora ficar com alguns dos despojos que ficaram do lado derrotado da barricada. Pedro Duarte, que também apoiou Montenegro, mas praticamente não tem tropas, deve integrar os lugares cimeiros da mesma lista.

E depois de Rio?

Beba um shot de cada vez que ouvir as palavras “esperança” ou “renovação

Quem se posiciona para o futuro?

Não há melhor momento para estudar a sucessão na liderança dos partidos do que os congressos. É lá que se dá posse a uma direção para um mandato de dois anos, mas é também lá que se fazem as contas para os anos seguintes. Rui Rio ganhou mais dois anos, certo. Mas e depois? O próprio presidente do PSD já tem dito, em entrevistas, que o seu objetivo é “chegar a primeiro-ministro” mas que, se não o conseguir, então também tem de fazer o caminho paralelo de “preparar pessoas para [lhe] suceder” na liderança. Numa entrevista à Antena 1 na véspera da segunda volta das diretas recusou ter já alguém em mente ou ter algum delfim em preparação, mas a verdade é que, com Rui Rio legitimado, a chamada “resistência” vai ficar encostada às boxes até ao pós-Rio.

Aqui entra quase toda a chamada geração de 70 (atualmente na casa dos 40 anos) cujos nomes são sempre invocados quando se põe a questão da liderança, mas que agora foram forçados a um exílio: é o caso de Miguel Pinto Luz, que deu o corpo às balas e ficou com o carimbo dos 9% a 12%; de Pedro Duarte, que abdicou cedo em favor de Montenegro; de Miguel Morgado, que ameaçou avançar com uma candidatura mas não teve meios para o fazer; de José Eduardo Martins, que se pôs na linha da frente de apoio a Miguel Pinto Luz; ou de António Leitão Amaro, que, depois de ter apoiado Rio numa primeira fase, se afastou da vida política ativa para se dedicar à vida profissional, mas não sem antes fazer questão de picar o ponto nas diretas para apoiar Luís Montenegro. Ou seja, todos podem dizer que não faltaram à chamada, que estiveram lá a escolher um lado e um projeto político. Agora vão recuar, mas mantêm algum capital político para uma próxima oportunidade depois da era Rio.

Há ainda outros dois nomes fora do rioísmo que também podem estar na reserva: Carlos Moedas e Jorge Moreira da Silva, que ficaram de fora desta vez, mas manifestaram alguma vontade de jogar. Não têm anti-corpos, mas também não movem montanhas.

A chave, contudo, pode até estar no espaço político partilhado com Rui Rio, e não no espaço político anti-Rio. Tudo depende do desfecho do rioísmo. É aqui que entra Paulo Rangel, que apesar de não ser particularmente próximo de Rio, sempre se posicionou estrategicamente ao lado dele (ou melhor, não se posicionou contra ele). Não é segredo para ninguém que o eurodeputado (que ainda tem pelo menos mais quatro anos em Bruxelas) tem outras ambições. Essas ambições podem passar por uma eventual candidatura à câmara do Porto, nas próximas autárquicas (mas isso será decisão de Rio), ou podem passar por uma candidatura à liderança do partido, se Rio vir as suas tentativas de chegar a primeiro-ministro frustradas e não aguentar mais um mandato na oposição a Costa. Ao que o Observador apurou, Paulo Rangel deverá manter-se como cabeça de lista de Rio ao Conselho Nacional, sendo que já tinha sido ele a primeira escolha de Rio há dois anos, mas acabou por ir em segundo lugar devido ao acordo que Rio acabaria por fazer com Pedro Santana Lopes, na altura candidato derrotado.

Na verdade, Rangel foi o único social-democrata que, depois de se ter candidatado a umas diretas e ter ficado em segundo lugar (em 2010), não voltou a fazer nova tentativa. Há dois anos, antes de Santana avançar contra Rio, tinha tudo para se lançar, mas borregou à última hora. Já perdeu todas as vidas, ou ainda tem uma para gastar? É a dúvida que vai persistindo.

Está a ouvir passos? O coelho saiu da toca

Beba um shot de cada vez que vez que alguém invocar o nome de Pedro Passos Coelho (em vão).  Ou ‘troika‘. Ou ‘bancarrota‘.

Pedro Passos Coelho

Não, Pedro Passos Coelho não vai ao congresso do PSD deste fim de semana. Pelo menos não vai lá estar presencialmente. Mas nas últimas semanas já mostrou que vai condicionar de alguma forma a reunião magna do partido, mais não seja porque está cada vez mais presente no debate político, depois de dois anos de interregno. Por isso não será descabido ouvir por lá o nome dele (se for em surdina, livra-se do shot).

Tudo começou em plena campanha para as diretas: pesos pesados como Carlos Carreiras e Miguel Relvas (que na segunda volta apoiavam Luís Montenegro), começaram a lançar a semente do regresso de Passos Coelho — que apelidaram de o “líder natural do centro-direita” e o tal que seria capaz de “unir o partido”. Talvez o “único”. Podiam ser só desabafos inocentes, mas semanas mais tarde a realidade provava que onde há fumo, geralmente há mesmo fogo.

Afastado dos palcos desde fevereiro de 2018, não foi por acaso que Passos Coelho, uma semana depois das diretas e quinze dias antes do congresso, tenha aceitado o convite de um velho amigo do PSD de Ponte da Barca (Viana do Castelo, curiosamente o mesmo distrito onde o congresso vai ter lugar), para discursar na apresentação dos novos órgãos locais. Foi a sua primeira intervenção política no espaço de dois anos, e o conteúdo também não foi inocente: Passos lembrou que os velhos protagonistas do tempo da troika (tanto no PSD, como no CDS) já tinham saído de cena, por isso aconselhou Rui Rio e o novo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que não têm anti-corpos desse calibre, a unirem esforços contra a esquerda.

Mas não vai ficar por aqui. Para o dia 18 de fevereiro, uma semana depois do congresso, Passos Coelho vai ter outra intervenção pública, desta vez em Lisboa, na apresentação do livro de Carlos Moedas. Ao aparecer nesta altura, Passos parece estar a dar um sinal aos sociais-democratas descontentes com Rio de que ainda é cedo para se decretarem órfãos. Mesmo ausente, já está a condicionar o congresso de Viana.

Marcelo, o tabu e a ambição moderada nas autárquicas

Sempre que alguém disser a palavra “Marcelo” ou “Presidenciais” beba um shot

Marcelo Rebelo de Sousa

O apoio à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa é um potencial ‘não-assunto’ no Congresso. É verdade que há Presidenciais dentro de menos de um ano, que são as próximas eleições no país, mas do que depender de Rui Rio o tema não será falado. O líder do partido nem sequer colocou o tema na moção, alegando depois que “é de propósito, porque nas eleições presidenciais não são os partidos que indicam candidatos, são os candidatos que se propõem e depois os partidos apoiam ou não apoiam”.

O cariz apartidário não significa, no entanto, que os partidos não possam ter uma orientação e que o assunto não seja normalmente abordado nas moções de estratégia global dos líderes. Mas Rio não quer e fará do assunto tabu, até porque não morre de amores por Marcelo Rebelo de Sousa (contra quem pensou concorrer como candidato da direita em 2016).

Já sobre autárquicas, Rio deve, pode e quer falar sobre elas. A tónica ficará sempre no nível de ambição. Os candidatos que derrotou propunham como meta conseguir mais um presidente de câmara do que o PS em 2021 e, como consequência disso, recuperar a liderança da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses). O candidato Rio nunca assumiu essa ambição e até fez chacota das intenções dos adversários: “Eu, muito caladinho, sou capaz de me entusiasmar e voto no outro”. Mas na sua moção de estratégia global apontou a um “resultado vitorioso” no poder local. Apesar disso, dificilmente Rio vai assumir como meta mais do que recuperar câmaras ao PS e conquistar o maior número de eleitos possível (para ter mais vereadores espalhados pelo país, mesmo que na oposição).

Outro desafio é que nomes escolher para as grandes cidades do país. Lisboa e Porto são grandes problemas para resolver. É muito cedo, mas já circulam várias teses, com diferentes graus de probabilidade: de que pode ser Filipa Roseta em Lisboa (utilizando parte da rede da mãe, dos Cidadãos por Lisboa) que somaria aos votos do PSD e Paulo Rangel no Porto (uma via alternativa para chegar mais tarde à liderança no partido). De resto, Rio vai tentar fazer as pazes com independentes, resolver algumas “birras” com Passos e para isso vai contar com José Silvano (coordenador autárquico) e com Salvador Malheiro (o novo ‘rei’ do aparelho social-democrata).

Sá Carneiro, pai de todos

Beba um shot de cada vez que ouvir o nome de Francisco Sá Carneiro. E beba dois se o busto de Sá Carneiro for colocado no palco do congresso.

Francisco Sá Carneiro

Quem é mais herdeiro de Sá Carneiro? O jogo é recorrente. Na campanha das diretas, não havia intervenção em que Rui Rio não repetisse o número. Olhava para a plateia que tinha à sua frente e dizia algo como: Há sempre tanta gente a falar em Sá Carneiro, mas eu tenho aqui na fila da frente a pessoa x e a pessoa y que, eles sim, trabalharam lado a lado com Sá Carneiro e sabem do que falam. O próprio Pinto Balsemão, militante número 1 do partido, apoiou Rio nas diretas e Rio não se cansou de puxar por essa medalha. Rodeia-te de sá carneiristas e sá carneirista serás? Mais ou menos isso. A defesa dos princípios da social-democracia é sempre um momento incontornável dos discursos políticos, por isso, prepare o copo. Sá Carneiro vai andar por lá.

Nota: Se leu este artigo, não conduza. Assista antes aos Carpool e mini-entrevistas especiais do Observador durante o 38º Congresso do PSD.