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Crianças do pré-escolar e até ao sexto ano de escolaridade estão a aprender numa aula da disciplina de Educação Tecnológica (ET), o segredo secular de transformar o papel em flores para que a tradição das Festas do Povo tenha o futuro assegurado, tradição reconhecida em 2021 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Património Cultural Imaterial da Humanidade, no Centro Escolar Comendador Rui Nabeiro, em Campo Maior, 18 de janeiro de 2023. As Festas do Povo de Campo Maior, conhecidas por apresentarem dezenas de ruas, sobretudo no centro histórico, ‘engalanadas’ com milhares de flores de papel, feitas pela população de forma voluntária, realizaram-se pela última vez em 2015, mas o seu futuro parece assegurado graças ao “empenho” na aprendizagem dos mais novos. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 22 DE JANEIRO DE 2023). NUNO VEIGA/LUSA
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▲Os dados recolhidos pela Fenprof e pelo blog de estatística na Educação de Arlindo Ferreira não apresentam diferença significativa

NUNO VEIGA/LUSA

▲Os dados recolhidos pela Fenprof e pelo blog de estatística na Educação de Arlindo Ferreira não apresentam diferença significativa

NUNO VEIGA/LUSA

Professores do pré-escolar e 1.º ciclo "em fuga": fazem formações em Educação Especial e concorrem a outros ciclos de ensino

Segundo os dados recolhidos no concurso para 2025/2026, cerca de 136 professores do pré-escolar concorreram ao Ensino Especial. E cerca de 1879 docentes de 1.º Ciclo concorreram a áreas de 2.º Ciclo.

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Em setembro de 2024, Isabel Santos tomou uma decisão: “Sou professora do 1.º Ciclo, é a minha formação base e o que sempre lecionei. Mas quero mudar de ciclo” de ensino. Inscreveu-se num mestrado em Matemática e Ciências da Natureza e o objetivo era passar para o segundo ciclo. A formação “não é em horário pós-laboral e é muito desgastante, mas faço-o com a ideia de que é algo que me vai ajudar mais tarde; vai compensar”, explica ao Observador. A professora não é a única a querer “fugir” — também Natacha Pedro fez uma especialização durante meio ano para poder largar o ensino pré-escolar e refugiar-se numa nova área: a da Educação Especial.

Isabel Santos e Natacha Pedro estão entre as centenas de professores que, no último concurso interno (para o ano letivo 2025/2026), decidiram candidatar-se a grupos de recrutamento do 2.º ciclo ou ainda à Educação Especial, uma área de ensino que é transversal a todos os ciclos.

De acordo com o blog de Arlindo Ferreira, professor especialista em estatísticas da Educação, no concurso para o ano letivo que se inicia em setembro, 136 professores do pré-escolar concorreram a um lugar na Educação Especial (mais 128 que no ano letivo 2024/2025). É importante ressalvar que estes números se referem à fase de concurso — e não às colocações finais.

Os dados em questão não são oficiais nem foram validados pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação — cujos últimos números, relativos ao ano 2023/24, apontavam para 17.642 docentes no pré-escolar (a maioria, 10.617, no público) e para 31.579 professores no 1.º Ciclo (27.978 no setor público). No entanto, ao comparar o levantamento apresentado no blogue de Arlindo Ferreira com os dados obtidos pela Fenprof, a diferença é ligeira: a Federação Nacional dos Professores aponta que foram 140 (e não 136) os professores do ensino pré-escolar que concorreram à Educação Especial.

Uma formação de mais de 6 meses para deixar o pré-escolar para trás

“Neste momento, o grupo mais envelhecido de todos é o pré-escolar. Até 2030, vão reformar-se 60% dos educadores de infância“, aos quais se vão juntar aqueles que querem deixar este ciclo de ensino em busca de melhores condições noutros, alerta Paula Costa Gomes. Segundo a porta-voz do Movimento de Professores em Monodocência, muitos docentes “tiram a especialização” que lhes é obrigada e “concorrem ao 910”, o grupo de recrutamento da Educação Especial. “Neste momento, há muita falta de professores neste grupo e cada vez temos mais crianças com necessidades”, pelo que é fácil conseguir colocação, acrescenta.

Natacha Pedro conta que, no verão de 2024, “surgiu a oportunidade” de se “candidatar e fazer uma especialização para concorrer para o 910”. E assim foi: durante seis meses e meio, em regime pós-laboral, a docente que atualmente leciona no Algarve investiu numa formação extra, paga do seu próprio bolso.

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Foi uma das pessoas que tentou mudar para a Educação Especial “já neste concurso”, conta. “Só que ainda concorro como externa, porque estou como contratada. Este ano, finalmente, consegui vinculação [a entrada nos quadros do Estado] no ensino pré-escolar. No próximo ano tenho de ficar neste grupo imperativamente, mas em 2026/2027 já posso pedir mobilidade para a Educação Especial. Será um escape”, admite.

A professora está confiante de que a Educação Especial irá permitir “uma redução da carga letiva e também uma redução do contacto direto com os pais”. “O professor de Educação Especial tem um pouco esse papel, mas a responsabilidade recai toda no professor titular ou no diretor de turma. Os horários são também mais flexíveis, o que me permite ter mais tempo para mim”, diz. “Não escolho o ciclo onde fico a lecionar, mas esta é também uma oportunidade de crescimento profissional, uma forma diferente de trabalhar e de dar um contributo a uma área que acho que não tem sido devidamente valorizada”.

"A minha fuga do 1.º Ciclo já se tornou um desespero e confesso que nos últimos anos já tirei alguns cursos para poder mudar de profissão"
Paula Correia, professora em mobilidade estatutária na Escola Portuguesa de Luanda

Governo quer mais vagas em creches privadas, mas educadores estão a migrar para o público

Segundo Paula Costa Gomes, do Movimento de Professores em Monodocência, no caso do pré-escolar há ainda outro fenómeno a assinalar: ao mesmo tempo que os professores desse ciclo no setor público procuram “fugir” para a Educação Especial, aqueles que estão no setor privado, tentam voltar para o público. Natacha Pedro foi um desses casos.

Passou 18 anos a dar aulas em instituições privadas, mas quis voltar para o Estado. E não se arrepende: “Estive muitos anos sem ser aumentada nem um cêntimo. O meu vencimento, quando saí, há três anos, estava quase ao nível do atual ordenado mínimo. O ambiente de trabalho degradou-se e comecei a procurar alternativas. O ensino público foi uma oportunidade para evoluir profissionalmente, a nível de horários e compatibilidade vida pessoal/profissional foi um salto enorme. E também ao nível do vencimento”, conta.

Apesar de o número de professores estar a diminuir de ano para ano, o ensino do pré-escolar, mesmo assim, tem conseguido aumentar o número de candidatos nos últimos concursos, diz o dirigente da Fenprof João Pereira. Isto deve-se ao facto de “muitos docentes do privado estarem a voltar a concorrer para o público, pelo que há mais elementos a concorrer ao concurso externo”.

Esta movimentação choca com a ideia do Ministério da Educação de “abrir salas [de infantário] no privado”, aponta o sindicalista, referindo-se ao facto de, em abril deste ano, o Governo de Luís Montenegro ter decidido assinar contratos com creches do ensino privado e social, de forma a aumentar a rede do pré-escolar para crianças entre os 3 e 5 anos, avançou o jornal Público. O objetivo era abrir 200 novas salas já a partir de setembro, dando cobertura a 5 mil crianças.

“O que os números dizem é que os professores do privado querem vir para o público, por isso a aposta do Governo devia ser no setor público”, argumenta João Pereira. Paula Costa Gomes, do Movimento de Professores em Monodocência, concorda e lembra que, mesmo abrindo vagas, “se não há pessoas para as ocupar, coloca-se o mesmo problema”. “A curto prazo, muitos privados ver-se-ão em dificuldades para contratar novos profissionais, até porque não estão a ser formadas pessoas ao ritmo que é necessário.”

Primary School Class

▲ "Trabalhamos o equivalente a mais 11 anos que os outros colegas. Porque não beneficiamos de reduções horárias", diz porta-voz do Movimento de Professores em Monodocência

Universal Images Group via Getty

Professores de 1.º Ciclo e pré-escolar trabalham o equivalente a mais 11 anos

No 1.º Ciclo, a tentativa de fuga tem sido ainda mais visível. Há cerca de duas décadas que o dia a dia de Isabel Santos é passado com o mesmo grupo de crianças durante todo o ano letivo. Todas as semanas, tem uma “carga letiva de 25 horas com a turma”, algo que “só acontece no 1.º Ciclo e no pré-escolar”, conta. De acordo com a professora — que diz ter feito “contas por alto” — esta carga letiva significa que, “no final de uma carreira, os professores de 1.º Ciclo e pré-escolar têm mais 11 anos de trabalho, que é uma diferença muito grande”.

O valor é confirmado por Paula Costa Gomes, do Movimento de Professores em Monodocência: “O nosso horário completo é de 35h, mas em termos letivos é de 25h, o que significa que trabalhamos o equivalente a mais 11 anos letivos que os outros colegas  [que não são do ensino pré-escolar nem do 1.º Ciclo]. Tudo isto porque não beneficiamos da redução horária com a idade e também não temos reduções horárias para desempenho de cargos (como direção de turmas, apesar de acabarmos por ser diretores de turma).”

A porta-voz deste movimento cívico de professores acrescenta que o seu trabalho acaba por ter “uma componente de desgaste psicológica e física muito grande”. “Ao fim de 40 anos já tenho lesões ao nível de joelho e coluna, por estar sempre a baixar-me, a carregar as crianças e a sentar-me em cadeiras demasiado pequenas”.

Tudo isto contribuiu para que cada vez mais professores tentassem deixar o 1.º Ciclo do ensino básico, refugiando-se noutras áreas de ensino do 2.º Ciclo. Segundo dados do blogue de Arlindo Ferreira, no ano letivo que agora termina (2024/2025), apenas 189 professores de 1.º Ciclo nos quadros concorreram a grupos de recrutamento diferentes do seu, número que aumentou para 1.870 no concurso do ano letivo que se inicia em setembro. A área de ensino para a qual os professores de 1.º Ciclo mais tentam fugir é, tal como no pré-escolar, a Educação Especial. Segue-se Educação Física e Matemática e Ciências da Natureza.

Face aos números da Fenprof, não se regista, uma vez mais, uma diferença vincada. O total de professores do 1.º Ciclo que procurou fugir para outros grupos de recrutamento foi 1.890 (ao invés de 1.870), sendo que as áreas para as quais os docentes mais concorreram foram: Educação Especial (544 candidatos), Educação Física (386 candidatos) e Matemática e Ciências da Natureza (382 candidatos).

Fome e violência, compra de manuais para oferecer e turmas com 7 idiomas: professor de 1.º Ciclo “vê de tudo”

Classificando o seu quotidiano como “desgastante”, a professora, que dá aulas em Vila Nova de Gaia, explica que o motivo pelo qual quer dar aulas a alunos mais velhos tem também que ver com o calendário escolar, que no 1.º Ciclo e pré-escolar “é muito alargado”. “A partir de maio, os meninos já não estão ali, estão cansados e não dão lucro nenhum. Neste calendário, os mais pequeninos saem mais prejudicados, sendo que há meninos com 10 anos que passam 12h na escola, das 7h30 às 19h30”.

Como é o dia a dia de uma criança de 1.º Ciclo?

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Os horários aplicados no 1.º Ciclo podem variar de escola para escola, mas naquela em que Isabel Santos leciona, em Vila Nova de Gaia, o dia a dia de um aluno entre o 1.º e 4.º ano decorre com base no seguinte horário:

  • 7h30 às 9h: CAF (Componente de Apoio à Família), período criado para acompanhar e dar apoio os alunos do 1.º ciclo antes e ou depois das componentes letivas;
  • 9h às 12h: início do horário letivo com o professor titular;
  • 12h às 13h30: hora de almoço;
  • 13h30 às 15h30: horário letivo o professor titular é retomado;
  • 15h30 às 16h: recreio;
  • 16h às 17h30: atividades de enriquecimento curricular (que são gratuitas e não têm caráter obrigatório);
  • 17h30 às 19h30: CAF (Componente de Apoio à Família)

Ao longo calendário junta-se “a sobrecarga disciplinar”, explica. Um professor de 1.º Ciclo dá “Português, Matemática, Cidadania e Desenvolvimento, Apoio ao estudo, Expressão Plástica… No total, são oito domínios, o que nos obriga a ter uma grande preparação”. “Somos os únicos responsáveis por aquelas crianças, por isso, o peso da responsabilidade é também muito maior, porque estão a aprender coisas básicas de leitura, escrita e cálculo”, diz Isabel Santos.

E destaca que, para agravar a situação, surge a necessidade de lidar com os pais e famílias de cada aluno: “Os pais são muito complicados. E nós acabamos por ser também assistentes sociais, pais, psicólogos, professores.”

Segundo esta professora do norte, um docente de 1.º Ciclo “vê de tudo, desde casos de violação (que reportamos às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens), a casos de falta de higiene, casos em que as refeições não são feitas em casa…”. “Este ano comprei manuais para três alunos, por exemplo. Os meninos não tinham manuais e os pais tinham falhado os prazos [para pedir os vales que lhes permitiam receber manuais gratuitos]. Às vezes até chegamos a dar roupa às crianças, como aconteceu com uns meninos da Argélia”, continua a relatar a professora. E lembra que quando essa família chegou, há cerca de três anos, teve nas mãos “uma turma de 1.º ano com alunos de sete idiomas diferentes: cheguei a falar francês, inglês e português, além do ‘portunhol’. Foi um ano muito exigente”.

“Concorri a escolas de todo o país, tal era o desespero. Neste momento estou em Luanda”

Isabel Santos está confiante que “ao mudar para o 2.º Ciclo vai ser mais fácil”, em parte por serem menos horas letivas, por ter direito a uma redução horária de acordo com a idade de serviço e porque a pressão parental diminui. A mesma expetativa tem Paula Correia, também professora do 1.º Ciclo (pelo menos por agora).

A professora de Viseu está atualmente a lecionar em Luanda, “em mobilidade estatutária na Escola Portuguesa, há três anos”, conta. E admite que ir para Luanda, em Angola, “foi uma estupidez enorme”. “Estava a tentar fugir ao 1.º Ciclo e às suas leis, mas vim para uma escola portuguesa, que tem exatamente as mesmas leis. Foi uma tentativa de fugir… mas não foi melhor”.

Mas antes de mudar de continente, Paula Correia assume ter concorrido “a vagas em escolas de todo o país, tal era o desespero” para deixar de dar aulas no 1.º Ciclo. “Sou professora do 1.º e 2.º Ciclos, de Educação Visual e Tecnológica. Já estive em Educação Visual no 2.º Ciclo, mas efetivei no 1.º e nunca mais consegui voltar”, diz.

Desde que chegou a Luanda que pede mobilidade para “o grupo 240 [Educação Visual Tecnológica], mas nunca aconteceu”. “A minha fuga deste ciclo já se tornou um desespero e confesso que nos últimos anos já tirei alguns cursos para poder mudar de profissão, mas não é assim tão simples”, desabafa a professora.

Tal como Isabel Santos, Paula Correia critica a elevada carga burocrática, a exigência (e extensão) do programa, o facto de não haver redução de horário mesmo quando os professores estão envolvidos em projetos e aponta o dedo ainda ao facto de “cada vez as crianças serem mais imaturas”. “Tudo o que os miúdos dizem é lei, os pais confiam imediatamente na palavra do aluno”, diz.

“Sinto mesmo que não aguento nem mais um ano no 1.º Ciclo. É esgotante e com uma carga burocrática absurda. Fui coordenadora de ano este ano e senti que tinha tanto trabalho como se fosse Presidente da República. Este ciclo é muitíssimo maltratado”, remata.

Assumindo que começa a “não gostar da professora de 1.º Ciclo” que está a tornar-se, a docente de Viseu diz precisar “de paz” na sua vida. E, apesar de não saber o que a espera nos próximos tempos,  Paula Correia assume ter esperança: “Continuo a concorrer para o 2.º Ciclo, todos os anos vou fazendo isso. E aqui, como posso concorrer para os dois ciclos, aproveito e concorro para várias escolas em Moçambique e São Tomé. Penso que terei hipótese.”

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