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A partir da redação do Observador, Graça Freitas falou com 6 crianças, de vários pontos do país

A partir da redação do Observador, Graça Freitas falou com 6 crianças, de vários pontos do país

Quando vou poder brincar? Os mais novos infetam-se mais? E o vírus causa depressão? Graça Freitas responde a 6 crianças /premium

Numa conversa virtual a partir do Observador, 6 crianças fizeram perguntas à diretora-geral da Saúde. A maioria quis saber quando volta à escola e a brincar com os amigos. Mas também houve surpresas.

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Há mais de dois meses que a rotina de Graça Freitas é quase sempre igual. Acorda muito cedo, entra no carro — que, com os vidros escuros, mal lhe permite ver a rua — e dirige-se para o edifício da Direção-Geral da Saúde. Dali, só sai para reuniões de trabalho e para as conferências de imprensa, normalmente no Ministério da Saúde. É uma espécie de confinamento a uma rotina, enquanto a maior parte do país ficou confinada em casa.

Esta terça-feira, fez um desvio. Na redação do Observador, respondeu às perguntas de seis crianças, com idades entre os 5 e os 13 anos, de vários pontos do país. Logo à chegada, avisou que contava com uma “entrevista difícil”, por causa da imprevisibilidade de quem pensa em detalhes que, por vezes, escapam aos adultos. A mais inesperada terá sido sobre a relação entre o novo coronavírus e a depressão.

Deu sugestões de brincadeiras com distanciamento social e de truques para ocupar o tempo em casa, elogiou o conhecimento dos pequenos entrevistadores e antecipou o que acredita que vai ficar de mais e menos positivo no final da pandemia.

Graça Freitas conversou com seis crianças em videoconferências a partir da redação do Observador

CATARINA SANTOS/OBSERVADOR

Sobre o futuro, porém, diz que é preciso paciência e cautela. Não acredita que seja possível ter uma vacina até ao final do ano e lembra que há ainda muita incerteza sobre o vírus — o que explica que muitos estudos sejam tomados por verdades absolutas num dia e desmentidos ou questionados no dia seguinte. Diz que sabe que, quando fala, as pessoas esperam certezas e não querem ouvir que há coisas que os próprios especialistas ainda não sabem. “Como é que se convence alguém dizendo “tenha confiança em nós, no sistema, mas nós temos dúvidas, porque este vírus é muito novo, porque não sabemos ainda tudo e porque ainda há zonas que nós não percebemos bem?”, questiona.

Mesmo nessa incerteza, acredita que a maioria dos portugueses percebeu o risco e esse foi o segredo para evitar o descontrolo da doença. Para isso terá ajudado “a experiência dramática em Itália”. No início da pandemia costumava dizer que “somos todos italianos”, mas não era apenas por uma questão de solidariedade — era porque “poderia ter acontecido cá e em qualquer outro sítio”. E “pode sempre acontecer”: “Em qualquer momento da história deste vírus e até que haja uma adaptação nossa, por imunidade natural ou até que haja uma vacina ou um medicamento efetivo, nós podemos ser sempre todos italianos. Não podemos deixar isto de fora das nossas mentes”.

[Veja os melhores momentos da entrevista:]

É mais fácil responder a jornalistas, nas conferências de imprensa diárias, a decisores políticos, nas reuniões do Infarmed, ou a crianças de 5 anos?
Eu acho que a crianças de 5 anos, não tenha dúvida nenhuma de que vai ser uma entrevista difícil para mim, porque elas são desconcertantes e perguntam aquilo que nós ainda não ouvimos, muitas vezes, perguntar.

Imagino que já lhe tenha acontecido, perguntas de crianças que a deixam, assim, sem saber bem como responder.
No outro dia, uma perguntou-me se eu achava que era mais importante que o Sr. Presidente da República e o Sr. primeiro-ministro, logo dois ao mesmo tempo. A resposta é fácil, mas fica-se parado a pensar: “Mas o que é que passa pela cabeça desta criança para fazer esta pergunta?

"Os meus dias são muito compridos, são todos muito ocupados, o que pouco que resta é para ler mais umas coisas, responder a mais uns emails e depois tentar dormir alguma coisa, portanto não me fui apercebendo dessa exposição."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Mas percebe que ganhou um destaque muito grande, que até põe as crianças a achar que se calhar é mais importante do que aquilo que nós pensávamos. 
Vou-lhe ser sincera, eu não tenho muito essa sensação porque tenho muito pouca disponibilidade temporal para acompanhar o que é que se passa na comunicação social. Perco até a noção de quão grande tem sido essa exposição. Há pouco tempo vi uma classificação do número de horas na televisão no mês de abril e para mim foi uma surpresa absoluta e total ter visto em que lugar é que eu própria aparecia. Isso tem sido um fenómeno que, para mim, não é muito fácil de lidar. Os meus dias são muito compridos, são todos muito ocupados, o pouco que resta é para ler mais umas coisas, responder a mais uns emails e depois tentar dormir alguma coisa, portanto não me fui apercebendo dessa exposição. Por isso é que não foi assim tão intuitivo para mim que uma criança me perguntasse isso e porque é que me estava a fazer essa pergunta. Claro que respondi “não, nunca, jamais, em tempo algum”.

E a criança acreditou?
Não sei, a criança tinha um ar muito engraçado, porque não era muito expressiva, ficava a olhar para mim sempre com um olhar semi-desconfiado. Não sei muito bem se acreditou ou não acreditou, porque tinha um olhar sempre cético, não era muito exuberante na sua expressão.

Leonor Paiva, 7 anos

Quando a escola começar, vou poder brincar com os meus amigos como dantes?
Boa tarde, Leonor! Já viste que gostamos as duas de amarelo? Não sei se estás a ver, mas eu também estou vestida de amarelo, é uma das minhas cores preferidas. Olha, a resposta à tua pergunta é: vais voltar a brincar, certamente. Não vais é brincar da mesma maneira que brincávamos antes. Nós estamos agora a passar, já percebeste, uma fase que é diferente. Tu és muito pequenina, mas é diferente na tua vida e na vida dos outros, portanto temos de inventar novas formas de brincar. Já sabes que temos de manter alguma distância uns dos outros, para nos protegermos a nós e aos nossos amigos, não devemos estar muitas pessoas juntas num espaço muito pequeno, temos de lavar mais vezes as mãos, não podemos nunca tossir ou espirrar para cima dos nossos amigos. Vamos ter de ser muitos imaginativos e encontrar novas formas de brincar. Estás a imaginar alguma forma de brincar com as tuas amigas e amigos que possa cumprir esta regra que eu disse, de ficares mais à distância e de poderes à mesma partilhar com eles coisas boas?

Hum… Ainda não sei.
Está bem. Tens tempo para pensar. Daqui até lá é um bom exercício, começares a fazer uma lista. Que brincadeiras é que eu posso fazer com os meus amigos quando voltar, em segurança, para não pôr nem a vida deles nem a minha em risco? Pode ser? Começas a fazer uma lista?

Sim.
Olha, achas que, por exemplo, duas pessoas sozinhas, cá fora num pátio, a atirar uma bola à outra, pode ser?

Sim…
Também acho. São duas, estão longe uma da outra, a bola convém não cair ao chão, se cair, paciência. Voltam depois a lavar as mãos antes de se tocarem ou de tocarem noutra pessoa. Como podes ver, há muitas maneiras de brincar sem ser como era antigamente, inventando novas formas. Até podes depois partilhar a tua lista com os teus amigos, para ver o que é que daí sai.

Observador: Esta é, provavelmente, uma das maiores preocupações das crianças, saber quando vão poder voltar ao convívio e a uma vida normal.
É, é. É a grande preocupação de toda a gente, acho eu. A nossa maior aspiração era podermos andar para dia 30 de dezembro, no dia antes de sabermos que este vírus existia, e voltarmos à nossa rotina despreocupada e habitual. Acho que é uma aspiração que todos temos, é normal que as crianças também, apesar da capacidade que eles têm de se adaptar.

Manuel Inverno, 13 anos

Acha que estamos a lidar bem com a Covid-19?
Olá, Manuel! Muito gosto em conhecer-te! Olha, eu acho que sim, sabes? Tu ainda és muito novo, mas tens já experiência na tua vida e já tinhas a tua rotina. Nós, seres humanos, estamos a demonstrar a nossa capacidade de aprender. Encontrámos nas nossas vidas um vírus, que é uma partícula, mas é uma partícula que se propaga de umas pessoas para as outras, precisa das nossas células para se replicar, para se auto-copiar, e é por isso que ele nos invade, digamos assim. E nós, nestes pouco mais de quatro meses em que lidamos com esta ameaça — deixa-me cá ver: fevereiro, março, abril e uma parte de maio —, aprendemos muitas coisas. Aprendemos que existe, aprendemos que ele tem uma forma de entrar dentro do nosso organismo, aprendemos que ele tem uma forma de nos infetar, mas também aprendemos a defender-nos. Aprendemos a fazer tudo para contrariar a ação deste vírus e demos uma grande prova da nossa sabedoria. Ficámos em casa quando foi preciso ficar em casa, mantemos agora regras de higiene diferentes, brincamos de forma diferente, trabalhamos de forma diferente. Portanto, a resposta é sim, acho que estamos a aprender a lidar bem. É óbvio que, às vezes, não fazemos tudo certinho, porque é uma forma de aprender — é como um bebé que está  a aprender a caminhar pela primeira vez. Mas todos os dias fazemos um bocadinho melhor e vamo-nos habituando. E um dia, quando estivermos adaptados a este vírus ou quando houver uma vacina ou um bom tratamento, vamos outra vez aprender a ser como dantes e voltar à nossa vida como era anteriormente — ou se calhar um bocadinho diferente, uma mistura das duas coisas. Vamos ver o que é que nos espera. Mas animados!

Observador: Surpreendeu-a o facto de os portugueses terem sido capazes de respeitar as ordens, as regras, confinar, ficar em casa. Houve algum momento em que temeu que as pessoas não o fizessem?
Não fiquei muito surpresa, estava à espera. Há aqui uma questão que, para mim, é muito importante, que é a perceção do risco. Se nós não percebermos o risco, dificilmente mudamos. Creio que houve uma boa perceção do risco por parte da maior parte das pessoas. Uma vez esse risco percecionado, entendeu-se que eram necessárias determinadas medidas e que essas medidas tinham de ser levadas muito a sério. Houve muitos fatores importantes. Se calhar, aquela experiência dramática de Itália — e também de Espanha, mas sobretudo Itália —, que era um país aqui tão perto, fez com que todos nós percebêssemos que existia um risco, que a ameaça era real.

"Em qualquer momento da história deste vírus e até que haja a tal adaptação nossa, por imunidade natural ou até que haja uma vacina ou um medicamento efetivo, nós podemos ser sempre todos italianos. Não podemos deixar isto de fora das nossas mentes."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Observador: Ver essa realidade ajudou?
Ajudou. Infelizmente houve um grande sofrimento por parte, nomeadamente, dos italianos e de Itália. Mas isso fez com que nós percebêssemos que isto não era apenas ficção ou não era uma coisa que só podia acontecer aos outros. Eu disse no início uma frase que continuo a dizer: nós somos todos italianos. Em qualquer momento da história deste vírus e até que haja a tal adaptação nossa, por imunidade natural ou até que haja uma vacina ou um medicamento efetivo, nós podemos ser sempre todos italianos. Não podemos deixar isto de fora das nossas mentes.

Observador: A ideia de que poderia ter acontecido cá e pode sempre acontecer cá…
Poderia ter acontecido cá e em qualquer outro sítio. Pode sempre acontecer. Um colaborador da Direção-Geral da Saúde e meu amigo, Manuel do Carmo Gomes, explicou no início que o vírus era como uma mola e as molas tendem a expandir-se e até a saltar. E o que nós temos de fazer é pôr a nossa mão em cima da mola para ela não se descontrolar e não nos infetar de forma demasiado intensa. Acho que foi isso que nós percebemos, que se não puséssemos a mão em cima da mola que constituiu o vírus, ele ia propagar-se como se propagou em Itália e depois em Espanha. Foi uma aprendizagem que nos levou a tomar atitudes muito acertadas.

Ricardo Silva, 11 anos

As crianças do 1.º ano até ao nono podem infetar mais do que as crianças da creche, do pré-escolar e do secundário?
Não, meu querido. O que pode determinar que uns se infetem mais do que outros são os nossos comportamentos, sabes? Até é mais difícil para os meninos muito pequeninos terem cuidados — um menino de dois ou três anos não consegue fazer o que tu já consegues fazer, o que eu e as pessoas mais crescidas conseguem fazer, que é protegerem-se a elas próprias. Então o que é que nós fazemos para os meninos mais pequeninos? São os adultos, as pessoas mais velhas, que têm de ter comportamentos para tomar conta deles. Nós, os maiores, como tu, já somos capazes de decidir por nós próprios determinadas regras. Diz-me uma regra que tens de fazer todos os dias quando vens para a rua. O que é que tu fazes habitualmente?

Espirrar para o ombro e tapar sempre a boca.
Muito bem. E em relação a pessoas que tu não conheces, que não são da tua família, que não vivem na tua casa: tu aproximas-te delas como antes, sentas-te ao lado delas, abraças-te a elas?

Distância. 
Exatamente! Nesses casos, com essas precauções, é pouco provável que nós nos infetemos. Nos meninos mais pequeninos, alguém tem que fazer isso por eles, porque eles não são capazes de fazer sozinhos.

"O que aconteceu é que nós fomos todos para confinamento ao mesmo tempo, mas o desconfinamento deve ser gradual para vermos até o efeito: de cada vez que um grupo de pessoas, ou grupo etário ou pelo grupo de escolaridade, se desconfina, o que é que acontece ao vírus."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Observador: A dúvida aqui, muito provavelmente, também tem a ver com o facto de algumas crianças verem outras a voltar — as crianças da creche, os irmãos mais velhos — e pensam: mas será que é mais perigoso para mim do que para eles?
O que acontece é que nós não podemos ir todos ao mesmo tempo para a rua, porque isso ia levar a que houvesse uma grande movimentação e uma grande aglomeração de pessoas. Tal e qual como para outras circunstâncias em que nós devemos voltar gradualmente à vida — às vezes acontece com medicamentos, nós começamos a tomar uma medicação e depois é preciso fazer aquilo a que se chama o desmame ou desabituação —, aqui é a mesma coisa. O que aconteceu é que nós fomos todos para confinamento ao mesmo tempo, mas o desconfinamento deve ser gradual para vermos até o efeito: de cada vez que um grupo de pessoas, ou um grupo etário ou pelo grupo de escolaridade, se desconfina, o que é que acontece ao vírus? Ou seja, nós temos a mão na mola e vamos tirando. E é melhor tirar devagarinho. Levanto a mão e o que é que acontece quando começam as creches? Depois levanto a mão mais um bocadinho, o que é que acontece quando levanto para o 11.º e para o 12.º? Depois abrem-se os cinemas ou outra coisa qualquer. Levantamos a mão mais um bocadinho e vamos ver o que acontece. Isso também faz parte da nossa aprendizagem com o vírus.

Gonçalo Silva, 8 anos

O vírus causa depressão?
Muito bem perguntado, Gonçalo. Olha, o vírus, diretamente, não causa depressão. Ele causa uma infeção nas nossas vias aéreas, como tu sabes: começa por entrar pelo nariz, pela boca, depois desce, vai até os nossos pulmões. O que acontece é que, para nós nos defendermos do vírus, primeiro temos um bocadinho de medo; segundo, quase todos nós tivemos de ficar em casa. Tu ficaste em casa quanto tempo?

Uma média de dois meses.
Pronto, são essas coisas que nos podem deprimir um bocadinho. Não vemos os nossos amigos, não vemos os nossos avós, não saímos à rua, nem brincamos tanto como brincávamos antes. O vírus diretamente não causa depressão. O bocadinho de medo do vírus que a gente tem, o ter que ficar em casa e ter que não fazer a nossa vida normal, isso é que pode, não digo causar sempre depressão, mas deixar-nos um bocadinho mais tristes.

Mas eu estava a falar das pessoas que têm o vírus, se ficam mais deprimidas que as outras. 
Uma coisa que este vírus faz é que não dá doença igual a toda a gente. A maior parte das pessoas tem a sorte de ter a doença e de a doença ser muito ligeira. Em cada 100 pessoas, para teres uma ideia, mais ou menos 80, a grande maioria, tem uma doença muito ligeira. É como se tivessem gripe, passam pela doença e não ficam nem muito frágeis nem muito deprimidas nem muito tristes. Outras pessoas, como tu sabes, podem ir para o hospital e essas já podem ficar um bocadinho mais frágeis, porque estiveram internadas e a ser tratadas. E ainda há um outro grupo de pessoas que tem de ir para unidades de cuidados intensivos, que é um sítio onde se recebe muito tratamento, portanto essas ficam assim um bocadinho mais frágeis.

Para Graça Freitas, uma das coisas positivas é a forma como a população — e até as crianças — aprendeu rapidamente o que era necessário saber sobre o vírus

CATARINA SANTOS/OBSERVADOR

É porque essas pessoas ou são mais velhas ou têm outra doença ou já tiveram outra doença que os deixou fracos e com esta doença ficaram ainda mais fracos, por isso precisam de ir para os cuidados intensivos.
Muito bem, meu querido! Vamos trocar de lugar? Queres vir aqui e eu vou para aí? Pode ser, tu sabes tudo! É assim mesmo, é exatamente isso. À partida, estas pessoas já são mais frágeis e depois ainda ficam um bocadinho mais frágeis. Mas depois, sabes, muitos de nós superamos e ultrapassamos a fragilidade, voltamos a criar ânimo. Mas já percebi que tu percebes disto, parabéns!

Observador: Quando tiver de olhar para este período, esta vai ser uma das coisas que mais a vai deixar satisfeita, apesar do contexto, com o que aconteceu, o facto de as pessoas terem feito várias aprendizagens em relação a esta doença?
É verdade. Quando se olhar para trás, isso vai ficar como uma grande coisa positiva. Ver, por exemplo, esta criança, que conseguiu em tão pouco tempo apreender tantas coisas sobre o mecanismo da doença, sobre o que é ser mais frágil, mais vulnerável e o que a doença vai acrescentar em termos de vulnerabilidade. É a prova de que há uma imensa capacidade de adaptação.

"Não foi tudo bom. Nós aprendemos, nós adaptámo-nos, essa é a parte positiva, fizemos tudo para sobreviver, para contrariar a ação da dinâmica normal do vírus. Mas também houve aqui bastante irracionalidade, a nível planetário, nem todas as nossas atitudes foram tão racionais como gostaríamos, tão solidárias como poderiam ter sido."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Observador: E o que vai recordar como coisa menos positiva ou menos bem conseguida?
Isto tem causado sofrimento, é uma doença, uma epidemia e, à partida, nós temos medo. Quer queiramos quer não, todos temos medo de adoecer, todos temos medo de que as pessoas de quem nós gostamos muito adoençam, os nossos familiares, os nossos amigos. Houve aqui uma interrupção da nossa vida habitual, que já é cheia de riscos, cheia de problemas, mas são aqueles com que nós estamos habituados a lidar. E sobre tudo isto que já nos acontece habitualmente ainda nos aconteceu esta coisa nova, que é uma doença que se contagia — e há um medo ancestral do contágio e o medo de perdermos alguém a quem estamos muito ligados. O que vai ficar sempre como negativo vai ser, pelo contrário, a capacidade também desproporcionada que a humanidade tem de responder a ameaças. Não foi tudo bom. Nós aprendemos, nós adaptámo-nos, essa é a parte positiva, fizemos tudo para sobreviver, para contrariar a ação da dinâmica normal do vírus. Mas também houve aqui bastante irracionalidade, a nível planetário, nem todas as nossas atitudes foram tão racionais como gostaríamos, tão solidárias como poderiam ter sido.

Observador: Também em Portugal ou está a falar a nível planetário?
Foi uma coisa que se viu à escala mundial. Há aqui fragilidades, sobretudo no domínio da capacidade de tomarmos decisões um bocadinho mais racionais do que aquelas que tomámos. Mesmo assim, acho que tomámos — mais uma vez, a nível global, mas também nacional — boas decisões com o nível de incerteza que tínhamos. Mas, se calhar, quando olharmos para trás podemos pensar, por exemplo, nos mecanismos de solidariedade. De um modo geral, nestas alturas e sobretudo entre países, as pessoas tendem a tratar cada uma de si e não ser tão solidárias como deviam ser. Isso creio que vai ser uma coisa que vai ficar como uma má memória. Não que não tenham havido exemplos de grande ajuda: os profissionais de saúde, os profissionais do setor social, todas as pessoas que, tenho aqui de dizê-lo, mantiveram a cadeia alimentar, não tivemos quebras. Nós estávamos com aquele receio inicial de  que pudesse faltar comida nos supermercados, mas não faltou, nunca nos faltou rigorosamente nada. Isso quer dizer que houve uma cadeia produtiva a funcionar e é um bom exemplo. Vai ser feito um balanço de coisas boas e coisas menos boas, acho que no fim o balanço vai ser francamente positivo.

Gonçalo Botelho, 5 anos

Quando é que as escolas abrem? Se já podemos ir ao Jumbo, ao shopping, à praia… porquê?
Porque primeiro decidiram que a gente tem de fazer as coisas um bocadinho de cada vez. O primeiro bocadinho é ir ao shopping, o segundo bocadinho é ir à praia, o terceiro bocadinho pode ser ir passear no jardim com os teus pais, com a tua família. E depois vais estar descansado que daqui a um bocadinho vais voltar para a escola. Isto agora não vão ser férias para sempre! Um dia destes vais dar por isso e vai dizer “Ai, agora vou voltar para a escola…”. É uma coisa de cada vez. Os meninos muito pequeninos já foram para a creche, agora vão outros mais crescidos. Vamos fazer as coisas à vez.

Maria Castro, 9 anos

Porque é que as creches já abriram e a primária não?
Olá, Maria! Olha, porque nós estivemos todos em casa durante muito tempo e agora temos de sair aos bocadinhos, para não sairmos todos ao mesmo tempo e criar uma grande confusão. Começámos a ficar todos em casa mais ou menos ao mesmo tempo para nos protegermos contra o vírus e agora vamos poder sair. Mas em vez de sairmos todos ao mesmo tempo para a rua, para a nossa vida, para a escola, vamos saindo aos bocadinhos. E ficou decidido que os primeiros meninos a irem eram os das creches. Não é por nada, foi só porque eram os mais pequeninos, os pais deles precisam de voltar também a trabalhar, as educadoras podem tomar conta delas… mas, aos poucos e poucos, vamos todos! As férias não vão durar eternamente e, daqui a uns tempos, vai chegar a vez de tu voltares à escola, de voltares a ver os teus amigos, de as pessoas que ainda não estão a trabalhar fora de casa neste momento, que ainda estão em teletrabalho, voltarem também ao seu emprego. Tem custado muito estar aí em casa ou tens encontrado maneira de passar o tempo?

Eu passo o tempo a fazer muitas coisas, não dá para fazer muita coisa, mas sim.
Diz-me uma coisa que não fazias antes e que fazes agora?

Não sei.
Então? Olha, começaste a tratar das plantas aí de casa, começaste a cozinhar?

Nem sempre.
Mas aproveita! Aproveita para aprender a cozinhar, que é giro. Duas coisinhas, pelo menos.

Observador: Nós tivemos aqui algumas crianças que não se conseguiram ligar. Uma delas tinha aquela que será “a pergunta do milhão de dólares”: quando é que isto acaba?
É mesmo a pergunta do milhão de dólares. Ninguém sabe quando é que acaba. Nós temos dito isto muitas vezes. Esta é uma situação nova, é um vírus novo. Nós não sabemos qual é que vai ser o comportamento deste vírus e qual vai ser também o comportamento a médio/longo prazo dos seres humanos e a capacidade da ciência de fazer uma vacina ou tratamentos. A resposta que eu posso dar é que sinto que isto é uma maratona e nós temos de estar preparados para a percorrer. Dia após dia, semana após semana, sem saber exatamente quando acaba. Ao contrário das maratonas que se fazem nas provas de atletismo, em que se sabe quanto duram, quanto é que medem em quilómetros, aqui nós não sabemos. Mas temos de nos preparar para isso, para passar bastante tempo. Agora, também temos de aprender uma coisa: conforme as fases em que estiver o vírus, conforme temos uma primeira onda ou uma segunda onda, maior ou menor, focos diferentes, as nossas atitudes também vão mudando. Isto não vai ser um comportamento absolutamente uniforme. Às vezes digo que isto compara-se com alguém que parte uma perna acidentalmente, por exemplo, e tem depois um longo período de aprendizagem à frente. Passa por uma cirurgia, fica no hospital, depois fica em recuperação, faz fisioterapia, depois sai para a rua, anda com canadianas e umas pessoas recuperam mais facilmente do que outras. E depois, um dia, quando se dá por isso, está-se praticamente a andar como antes. Vai ser isso que vai acontecer. Quanto é que este período de convalescença vai durar, isso nós não sabemos de todo.

"Eu sei que o que esperam de nós são certezas e isto também é uma aprendizagem que se tem de fazer. Quando nós dizemos às pessoas que ainda há muitas coisas que nós próprios não sabemos, sabemos que isso não é o que as pessoas querem ouvir."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Observador: Uma das coisas que pode impactar essa diferença de comportamento das pessoas podem ser coisas como a que aconteceu esta semana: alguém na OMS diz que uma segunda vaga é improvável, depois outra pessoa na OMS diz que provavelmente vamos ter segunda vaga, mas não tão intensa. Este tipo de informações em dois dias seguidos não pode deixar as pessoas a pensarem “nem eles se entendem”?
Nós também temos de nos habituar a viver com as imperfeições da incerteza. Não há muita sustentabilidade científica, não há tempo, não há cinco meses desta nova realidade no planeta. Há teorias, algumas vão estar mais certas do que outras. Isto é como os jogos, só no fim vamos saber quais eram os estudos mais certos, quais eram os estudos mais robustos, quais foram as melhores teorias. Certamente, alguma vai acertar. Ainda hoje [terça-feira] nos perguntaram sobre um estudo em Singapura que dizia que, afinal, só se fica infeccioso durante 11 dias. Até agora, temos tido sempre 14. É ótimo que sejam 11, quanto menos melhor. Mas é apenas um estudo, temos de ver se mais estudos, noutros sítios, feitos com outras populações, dão o mesmo resultado. Temos também de ter alguma paciência porque a ciência não é instantânea. Estas coisas têm que se produzir com calma, com cuidado. Temos de ter muita cautela e não tirar conclusões precipitadas.

Observador: Quantas vezes teve de dizer isso em reuniões com decisores políticos, teve de pedir paciência e teve de explicar coisas como se tivessem cinco anos? Explicar esses detalhes e alertar para o facto de não poder ser amanhã.
Esse é o papel das pessoas mais ligadas ao lado científico da questão. Voltamos à mesma história: estas são doenças que se transmitem de acordo com uma determinada dinâmica. Cada vírus, cada doença, cada microorganismo tem uma história e um comportamento, alguns nós conhecemos e conseguimos prever o que vai acontecer. No caso concreto deste, não sabemos ainda tudo sobre a história natural do vírus, nós nem sequer temos a certeza de qual foi a origem do animal para a pessoa, a certeza ainda não temos nem sei se algum dia teremos. Há aqui muitas incógnitas e cabe também muito, não a mim apenas, mas muito à comunidade científica, explicar isto. Eu sei que o que esperam de nós são certezas e isto também é uma aprendizagem que se tem de fazer. Quando nós dizemos às pessoas que ainda há muitas coisas que nós próprios não sabemos, sabemos que isso não é o que as pessoas querem ouvir. As pessoas esperam que a gente diga o que se diz do vírus da gripe ou de outras doenças que já se conhecem ou medicamentos que já sabemos qual é o seu comportamento. Isso também é difícil, dizer às pessoas “confiem em nós apesar de nós termos dúvidas”. Como é que se convence alguém dizendo “tenha confiança em nós, no sistema, mas nós temos dúvidas porque este vírus é muito novo, porque não sabemos ainda tudo e porque ainda há zonas que nós não percebemos bem”? Mas eu creio que não há como ser verdadeiro, transparente, haver esta partilha e saber que nós todos os dias tentamos aprender mais e saber mais e fazer melhor com o que sabemos naquele momento. E acho que isso faz parte do movimento global de responsabilizar todos por combater este vírus. Não há maneira de dizer isso de outra forma: nós não podemos dizer que é preto e branco, que vão ser duas semanas, quatro semanas, uma onda grande, uma onda pequena. Temos de ter humildade e dar tempo ao tempo para perceber as coisas. E temos de ter a transparência de partilhar com as outras pessoas que há aqui uma margem de incerteza e uma margem de risco que temos de assumir, que é assim mesmo porque não há como ser tudo em tão pouco tempo. E também nunca, nunca, nunca na história da humanidade foi tão rápido o avanço da ciência e do conhecimento. Se isto tivesse sido há 30 ou 40 anos, nem sequer ainda nos tínhamos apercebido de que estamos perante uma situação destas. Só percebíamos que estávamos a ter mais mortalidade ou menos mortalidade, por uma coisa qualquer que ainda não sabíamos bem. Lembro-me dos anos 1980, quando apareceu a sida como doença. Nós levámos muito tempo até saber que era um vírus e qual era o vírus. Aqui é tudo muito rápido, mas esta rapidez não pode iludir-nos de que já sabemos tudo.

"Eu gostaria de dizer que sim, quem me dera a mim chegar ao inverno e ter já uma vacina descoberta, testada, segura e eficaz, de qualidade e com uma capacidade de produção para os milhões e milhões de seres humanos que nós somos. Mas não acredito que vá ser assim."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Observador: Acha possível que surja uma vacina até ao final do ano?
Não. Vou ser muito sincera: eu trabalho em vacinas há muitos anos e sei quão difícil é fazer uma vacina porque tem de, primeiro, ser segura, não pode fazer mal; tem de fazer efeito, ser efetiva, senão não vale a pena; e tem de ter qualidade nos seus componentes. Isto é um produto de biotecnologia, uma vacina imita o comportamento do vírus, mas sem nos dar doenças, dá-nos a vantagem da imunidade sem termos a desvantagem de adoecer. Isto é difícil de fazer, mimetizar um vírus ao ponto de ele não nos fazer mal e fazer bem. Não é fácil. Se fosse fácil, havia vacinas para praticamente tudo e não há, infelizmente. E mesmo depois de passar estas fases todas, nós não nos podemos esquecer que as empresas vão ter de entrar em modo de produção e que essa produção tem elevadíssimos padrões de qualidade. Tem que ter características de biossegurança e de termos a certeza de que o produto que chega finalmente a nós, a toda a humanidade, é bom e chega a todos de forma equitativa. Eu gostaria de dizer que sim, quem me dera a mim chegar ao inverno e ter já uma vacina descoberta, testada, segura e eficaz, de qualidade e com uma capacidade de produção para os milhões e milhões de seres humanos que nós somos. Mas não acredito que vá ser assim. Pode acontecer, mas não é plausível.

Observador: Ficaria mais surpreendida ou mais feliz se um dos segredos de Portugal na evolução deste surto tiver sido a vacinação para, por exemplo, a BCG?
Há alguns estudos que vão nesse sentido, mas não são conclusivos por si só. Descrever estudos descritivos, que descrevem a realidade, nem sempre nos leva a boas conclusões. O que nos leva a boas conclusões são estudos comparativos, em que nós conseguimos ter um grupo que comparamos com o outro grupo e vemos em que é que eles são semelhantes e em que é que eles são diferentes. Neste momento, o que nós temos muito são estudos descritivos e essas descrições às vezes podem induzir-nos numa conclusão que não é a mais acertada. Temos de ter calma e ver se isso corresponde ou não a alguma coisa, que não é mera coincidência no espaço e no tempo — mesmo que eu gostasse muito que, de facto, a vacina BCG, que eu própria, na minha idade, levei várias doses, fosse protetiva, porque estava aqui feliz da vida. Vamos ter cautela mesmo em relação à BCG. Dava imenso jeito que fosse assim, mas não está comprovado que assim seja.

"A experiência sueca é um bom exemplo porque criou-se uma grande expectativa e, quando se cruzaram os primeiros estudos serológicos, os resultados não corresponderam à expectativa — que, se calhar, também era demasiado otimista — que se criou à volta daquele modelo. Não que haja um modelo mais certo que o outro, é a tal aprendizagem, mas parecia que ia ser um milagre e não aconteceu."
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde

Observador: Os inquéritos serológicos estão a começar. Acha que é possível que uma percentagem significativa da população portuguesa tenha já anticorpos ao novo coronavírus?
Neste momento, eu não sei dizer, honestamente. Não sei dizer porque nós também ainda não sabemos de forma robusta qual é a proporção numa determinada população de pessoas assintomáticas. Essas pessoas assintomáticas também estão infetadas e também produzirão, à partida, anticorpos. Portanto, não sabendo o que é que está debaixo da ponta do icebergue, eu não posso fazer uma estimativa. Por isso é que o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge está agora a fazer o estudo piloto para ficarmos com uma ideia. Mesmo nos outros estudos serológicos que já fizemos, de microorganismos que conhecemos, partimos de uma base sólida de conhecimento para fazer uma projeção de que quantidade de pessoas vão estar imunizadas. Neste momento é muito difícil dizer. E, como digo, há variações geográficas, há variações conforme há maior ou menor concentração de densidade populacional, nos grupos etários. Não sabemos o que é que está debaixo da água — e pode ser muito grande ou uma massa mais pequena. Vamos esperar pelos dados do INSA para ficarmos com uma ideia e obviamente, falando em esperança, quanto mais tivéssemos, melhor.

Observador: Em países como a Suécia, em que se imaginava que essa presença de anticorpos seria muito mais generalizada, afinal não é. O que também foi um balde de água fria para quem defendia o modelo da imunidade de grupo.
Por isso é que é melhor não acharmos grande coisa. Eu acho que temos de ser mesmo cautelosos e esperar para ver dados objetivos, de estudos robustos, e o resto é pensar sempre em jogar à defesa. Na dúvida, é melhor termos precauções. Na dúvida, é melhor adotarmos comportamentos que não nos ponham em risco, nem a nós nem aos outros. A experiência sueca é um bom exemplo porque criou-se uma grande expectativa e, quando se cruzaram os primeiros estudos serológicos, os resultados não corresponderam à expectativa — que, se calhar, também era demasiado otimista — que se criou à volta daquele modelo. Não que haja um modelo mais certo que o outro, é a tal aprendizagem, mas parecia que ia ser um milagre e não aconteceu.

[A entrevista na íntegra:]

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