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Quem é o rei da exploração espacial? "Ou a NASA investe ou a China vai passá-la à frente" /premium

Cinquenta anos após os EUA ter ganho a corrida espacial, a China ameaça a supremacia americana. Os chineses copiaram o melhor dos russos e evoluíram a partir daí. Vem aí outra guerra fria?

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O programa espacial chinês começou da ameaça vermelha nos Estados Unidos.

6 de junho de 1950. Qian Xuesen, engenheiro de naturalidade chinesa, fundador do Laboratório da Propulsão a Jato da agência espacial norte-americana, foi detido pelo FBI após dez anos de investigações por suspeitas de ser comunista e ter traído os Estados Unidos a favor do regime de Mao Zedong na China, conta o livro “The China Cloud” de O. Edmund Clubb. Duas semanas depois despediu-se da Caltech e anunciou que vai regressar ao país natal. Dan A. Kimball, sub-secretário da Marinha dos Estados Unidos, com quem Qian Xuesen mantinha uma amizade pessoal, chamou o cientista ao gabinete: “Eu não acho que tu sejas comunista. Não te vou deixar sair do país”, anunciou o militar. Qian Xuesen respondeu: “Eu sou chinês. Não quero construir armas para matar os meus conterrâneos. É tão simples quanto isso“.

Esquerda para a direita: Ludwig Prandtl (físico alemão), Qian Xuesen (com um chapéu de quando era coronel do Exército dos EUA) e Theodore von Kármán (físico que batiza a bacia onde Chang'e 4 alunou).

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Foram precisos cinco anos para que Qian Xuesen pudesse regressar à China. Enquanto os americanos e os chineses discutiam as questões diplomáticas em relação à transferência do engenheiro, Qian Xuesen vivia sob vigilância constante. A 4 de agosto de 1955, o cientista chinês viu levantada a proibição de viajar — provavelmente em troca de militares norte-americanos em cativeiro na China — e um mês depois saía de Los Angeles a bordo do SS President Cleveland. Quando chegou à China, foi recebido com grande pompa e circunstância.

Um ano depois lideraria os primeiros passos do programa espacial chinês. O mesmo programa que agora, 63 anos depois, “deve estar a mudar a linha de pensamento da NASA” desde que a China aterrou um rover no lado oculto da Lua — a Chang’e 4 — em janeiro. Foi o feito mais importante conquistado por humanos no espaço desde que o programa Apollo foi extinto, após ter levado a humanidade à Lua pela primeira vez.

É isso que Jorge Pla Garcia, investigador do Centro de Astrobiologia de Madrid — um afiliado à agência espacial norte-americana — e membro da página de divulgação científica Bit2Geek antevê em conversa com o Observador. “A chegada da China ao outro lado da Lua é importante, mas é sobretudo uma forma de dizer: ‘Olhem, estamos preparados. Estamos aqui. E vamos liderar a exploração espacial‘. A questão não é a importância científica, é o significado daquela missão. Nós já explorámos o lado oculto da Lua através de sondas. É verdade que esta foi a primeira vez que aterramos lá, mas a ideia chave aqui é que a China é a verdadeira líder da exploração espacial”, diz o astrofísico.

Certo é que os números falam por si: no ano passado, os Estados Unidos fizeram 31 lançamento de foguetes para o espaço. É um bom número, adjetiva o cientista espanhol, mas a China fez 39. Em 2017, só tinha feito 18. “Eles duplicaram o número em apenas um ano”, sublinha Jorge Pla Garcia.

"A chegada da China ao outro lado da Lua é importante, mas é sobretudo uma forma de dizer: 'Olhem, estamos preparados. Estamos aqui. E vamos liderar a exploração espacial'. A questão não é a importância científica, é o significado daquela missão. Nós já explorámos o lado oculto da Lua através de sondas. Mas esta é a primeira vez que aterramos lá. A ideia chave aqui é que a China é a verdadeira líder da exploração espacial"
Jorge Pla Garcia, investigador do Centro de Astrobiologia de Madrid

A China foi à Lua. E então?

O mundo virou de novo os olhos para as conquistas espaciais quando, às 02h26 de 3 de janeiro de 2019, a missão chinesa de exploração lunar Chang’e 4 aterrou no lado oculto da Lua — aquele que da Terra nunca conseguimos ver. Apesar de esse lado não ser completamente desconhecido para os cientistas — a China foi a primeira a alunar lá mas antes este local já tinha sido filmado por sondas — foi um feito fabuloso em termos científicos. O lado visível é quimicamente muito especial. Não é representativo de toda a composição da Lua. Os outros dados que foram obtidos por sondas sugerem que há uma dicotomia no interior da Lua e que há diferenças entre o lado visível e o lado oculto.

Para entender porquê é preciso recordar como nasceu a Lua. A teoria mais aceite neste momento para explicar a formação do nosso satélite natural é a de que deve ter surgido há entre 50 e 100 milhões de anos. A Terra, já depois de formada e diferenciada em núcleo, manto e crosta, sofreu um impacto de um corpo celeste com o tamanho de Marte. O disco de poeira resultante da colisão juntou-se e formou a Lua, que estava praticamente toda derretida. Depois também ela foi arrefecendo e ficando sólida.

Acontece que a Lua não evoluiu toda da mesma maneira. A força das marés da Terra para com a parte fluida das rochas fez com que aquilo que era fluido ficasse na face mais perto da Terra por causa dessa atração. O que era sólido ficava mais para trás. Por isso, a crosta lunar na parte oculta é mais espessa do que na parte visível. Na parte visível tem mais ou menos 30 quilómetros de espessura. Na parte oculta tem mais ou menos 50 quilómetros.

Ao longo do tempo, a superfície lunar foi bombardeada com outros objetos formados no início do Sistema Solar. De um desses bombardeamentos nasceu o lugar onde o Chang’e 4 aterrou no início do ano: a bacia Von Kárman, que fica dentro de outra maior e mais antiga chamada South Pole Aitken, que, com 2.400 quilómetros de diâmetro, é a maior superfície de impacto do Sistema Solar. Porque é que a China escolheu esse sítio? Porque com esses impactos, a superfície foi sendo escavada e tornou-se ainda mais fina. O que faz com que a parte do manto que está fundida possa subir e dar origem a erupções vulcânicas que preenchem esses locais de impacto. Ou seja: a China pode estar prestes a analisar materiais vindos do interior da Lua.

Rui Moura, professor do Departamento de Geociências da Universidade do Porto, explica ao Observador que a missão Chang’e 4 é a prova de que os chineses estão de olhos postos no futuro. “As missões Apollo já tinham encontrado materiais desses, mas como a China está num processo inicial, esta missão é uma preparação para outra de retorno de amostras. Essa missão futura irá levar uma espécie de uma sonda que vai, em função do que esta missão encontrar, ver se tem os materiais que lhes interessa ou não. Se eles os encontrarem nesta missão e na 5, depois têm critérios para dizer que a missão 6 vai alunar naquele local porque, dentro dos locais que viram, o sítio ideal para recolher uma amostra com boa probabilidade de ter aquilo que se procura, é este”, conclui.

"As missões Apollo já tinham encontrado materiais desses, mas como a China está num processo inicial, este missão é uma preparação para outra de retorno de amostras. Essa missão futura irá levar uma espécie de uma sonda que vai, em função do que esta missão encontrar, ver se tem os materiais que os interessa ou não. Se eles os encontrarem nesta missão e na 5, depois têm critérios para dizer que a missão 6 vai alunar naquele local porque, dentro dos locais que viram, o sítio ideal para recolher uma amostra com boa probabilidade de ter aquilo que se procura, é este"
Rui Moura, professor do Departamento de Geociências da Universidade do Porto

China é “novo impulso para a exploração espacial”

Mas para Jorge Pla García, os objetivos chineses vão muito além disso: “A China é o novo impulso para a exploração espacial porque eles estão a crescer tão, mas tão rápido. Eles estão a tentar liderar a exploração espacial, não apenas no sentido de explorar novamente a Lua mas também para explorar novos planetas e novos mundos”, sublinha o astrofísico.

E essa missão é realista, considera o espanhol, tanto que “a linha de pensamento da NASA deve estar a mudar“: “Para a exploração humana de Marte, a NASA precisa de uma competição. É extremamente bom que a China esteja a pressionar a NASA a fazer coisas novas. Toda a gente diz que devemos chegar a Marte em 20 anos, mas isto é algo que o governo norte-americano já prometeu nos anos 90, em 2000, em 2010… A minha opinião é que só vamos ter uma pessoa em Marte quando a China decidir ir lá. No dia seguinte, a NASA terá lá alguém. Se não tivermos a China a pressionar a NASA, vamos ter de esperar mais 20 anos”, diz ele.

A história fala por si, considerou Neil DeGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden no Centro Rose para a Terra e o Espaço e investigador associado do departamento de astrofísica no Museu Americano de História Natural. “Nos anos 60 estávamos em plena Guerra Fria com os soviéticos. Tínhamos medo deles porque eles tinham lançado o Sputnik, que era o invólucro vazio de um míssil balístico intercontinental. Ou seja, era um míssil sem explosivos. Isso foi um sinal e nós entrámos em pânico na América. A NASA foi fundada pelo medo criado pelo Sputnik. Depois fomos à Lua com medo que os russos controlassem o espaço. Quando lá chegámos, os entusiastas disseram: ‘Se estamos na Lua em 1969, devemos estar em Marte daqui a dez anos’. Eles não compreenderam de todo porque é que realmente fomos à Lua: foi porque estávamos em guerra. Assim que percebemos que os soviéticos não tinham em mente ir à Lua, parámos de lá ir também”, disse ele no discurso “Parámos de Sonhar”.

"Para a exploração humana de Marte, a NASA precisa de uma competição. É extremamente bom que a China esteja a pressionar a NASA a fazer coisas novas. Toda a gente diz que devemos chegar a Marte em 20 anos, mas isto é algo que o governo norte-americano já prometeu nos anos 90, em 2000, em 2010… A minha opinião é que só vamos ter uma pessoa em Marte quando a China decidir ir lá. No dia seguinte, a NASA terá lá alguém. Se não tivermos a China a pressionar a NASA, vamos ter de esperar mais 20 anos".
Jorge Pla Garcia, investigador do Centro de Astrobiologia de Madrid

Nesse mesmo discurso, Neil DeGrasse Tyson recorda como o entusiasmo da chegada à Lua “estimulou a nação”: “Estimulou-nos a todos a pensar no amanhã. As casas do amanhã, as cidades do amanhã, a comida do amanhã. Tudo se referia ao futuro. Tudo isso era focado em permitir que o futuro viesse até ao presente. O programa espacial tinha trazido uma mentalidade cultural e deixou-nos colher os benefícios do crescimento económico por termos pessoas que agora queriam ser cientistas e engenheiras, que queriam permitir ao amanhã que existisse hoje”. “Isso é o pilar da economia do amanhã. Sem isso, bem podemos rastejar novamente para a caverna”, concluiu o astrofísico norte-americano.

Joana Neto Lima, astrobióloga do Centro de Astrobiologia de Madrid e também ela produtora de conteúdos da Bit2Geek, explicou ao Observador que essa “mentalidade cultural” perdeu-se no ocidente mas está a germinar na China: “Se olharmos para a altura em que foi a corrida espacial, essa foi uma época de boom científico e tecnológico. A China, neste momento, vê esse potencial. E essa é uma coisa que os países ocidentais perderam um bocadinho de vista. Ou não sabem comunicar às populações ou não sabem comunicar aos políticos ou os próprios políticos perderam um bocadinho de vista a importância da exploração espacial para o desenvolvimento político e tecnológico. A China, neste momento, tem essa capacidade de ver a importância enquanto os outros já perderam um bocado isso”, comenta ela.

ESA “arrumada”, NASA entre a espada e a parede

Perante os avanços chineses na exploração espacial, a Agência Espacial Europeia está “arrumada”, adjetiva a astrobióloga. “A China está à frente da Europa. O primeiro país a lançar gente para o espaço foi a Rússia, o segundo os Estados Unidos e o terceiro a enviar alguém sozinho para o espaço foi a China em 2003. Na Europa, nenhum país sozinho enviou alguém. Neste momento, tanto a Europa como a América só enviam pessoas para o espaço com a ajuda da Rússia, portanto nenhum vai lá sozinho. E neste momento a China consegue fazer isso sozinha. Quando a Roscosmos teve problemas com o Soyuz, enquanto os russos não podiam voar para o espaço, só os europeus é que podiam ir à Estação Espacial porque só eles podiam contar com a China”, recorda Joana Neto Lima.

Iuri Gagarin, o primeiro homem a viajar até ao espaço, com o vice-presidente dos EUA Hubert Humphrey, o primeiro-ministro francês Georges Pompidou e com os astronautas da Gemini 4 em 1965 em Paris.

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Talvez a maior desvantagem da ESA seja a falta de capacidade económica — algo que depende dos estados-membro. Ora, o dinheiro não é problema para a China: desde a revolução de Tiananmen Square [Praça da Paz Celestial em Pequim] que a China tem investido na formação científica. Com isso, acumulou muito dinheiro. E com ele comprou muitos instrumentos.

Se a China ultrapassou a ESA, que posicionamento tem em relação à NASA e à Roscosmos? “São a terceira potência. Ponto final. E neste momento estão à frente dos Estados Unidos e da Rússia porque sozinhos conseguem fazer tudo sem precisar da ajuda de ninguém”, considera Joana Neto Lima. Isso incomoda os Estados Unidos, habituados a andar da dianteira da exploração espacial desde que passaram a perna à União Soviética com a chegada à Lua. “Não faz apenas mossa porque isto é mesmo uma competição. Até para a imagem da NASA, que é vista como uma fábrica de sonhos, é complicado gerir tudo isto. Sozinha, a NASA não consegue enviar ninguém para o espaço. Aliás, grande parte do treino dos astronautas é feito pela Roscosmos. Um dos pré-requisitos para se ser astronauta neste momento é falar e escrever russo fluentemente porque as naves Soyuz estão todas em cirílico. A China consegue”, recorda a astrobióloga.

"Não faz apenas mossa porque isto é mesmo uma competição. Até para a imagem da NASA, que é vista como uma fábrica de sonhos, é complicado gerir tudo isto. Sozinha, a NASA não consegue enviar ninguém para o espaço. Aliás, grande parte do treino dos astronautas é pela Roscosmos. Um dos pré-requisitos para se ser astronauta neste momento é falar e escrever russo fluentemente porque as naves Soyuz estão todas em cirílico. A China consegue".
Joana Neto Lima, astrobióloga do Centro de Astrobiologia de Madrid

Além disso, se o dinheiro não é um problema para a agência espacial chinesa, é-o para a NASA. De acordo com Neil DeGrasse Tyson, “o orçamento da NASA é de quatro décimos de um centavo num dólar fiscal“: “Se eu segurasse o dólar fiscal e o cortasse horizontalmente, quatro décimos de 1% da largura não chegaria sequer à tinta. Sabiam que o resgate bancário foi de 850 mil milhões de dólares americanos?… essa soma de dinheiro é maior do que todo o orçamento da NASA nos últimos 50 anos?”, comenta o divulgador científico. E desafia: “Se se duplicasse o orçamento da NASA para um centavo seria suficiente para levar pessoas a Marte em breve. Dava para comprar a estação espacial, os veículos espaciais, todos os centros da NASA, os robôs, o telescópio Hubble, todos os astronautas”.

O que é preciso para a NASA fazer isso, então? Tal como Jorge Pla García, também Joana Neto Lima acredita que os Estados Unidos precisam de ter medo dos chineses para impulsionarem mais o programa espacial norte-americano. “O que vai acontecer é que esta conquista da China vai forçar os americanos a irem para a Lua, mas todos juntos vão construir a base lunar. Com a Estação Espacial a dar as últimas, a única alternativa é ir para a Lua. E vendo os chineses a atirarem-se desta maneira para a Lua, acho que esta é a última oportunidade para se juntarem todos”, acrescenta ela.

"O que vai acontecer é que esta conquista da China vai forçar os americanos a irem para a Lua, mas todos juntos vão construir a base lunar. Com a Estação Espacial a dar as últimas, a única alternativa é ir para a Lua. E vendo os chineses a atirarem-se desta maneira para a Lua, acho que esta é a última oportunidade para se juntarem todos".
Joana Neto Lima, astrobióloga do Centro de Astrobiologia de Madrid

A origem da “guerra fria” entre EUA e China

Mas isso pode ser uma tarefa extremamente difícil: em abril de 2011, quando Barack Obama ainda era presidente dos Estados Unidos, os Estados Unidos assinaram uma emenda que proibia a NASA de entrar em acordos bilaterais com a China: “Nenhum dos fundos disponibilizados por esta lei pode ser usado pela Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) ou pelo Escritório de Política de Ciência e Tecnologia (OSTP) para desenvolver, projetar, planear, promulgar, implementar ou executar uma política bilateral, programa, ordem ou contrato de qualquer tipo para participar, colaborar ou coordenar bilateralmente de qualquer forma com a China”, diz a lei.

Essa alteração é agora conhecida como Wolf Amendment, batizada em nome do republicano Frank Wolf, que em 1999 negou uma parceria com investigadores chineses porque “eles são o império do mal”, recorda o Los Angeles Times. Em 2010, também John Culberson enviou uma carta a Barack Obama pedindo que proibisse por lei esse tipo de eventuais parcerias: “Tenho sérias preocupações sobre a natureza e os objetivos do programa espacial da China e oponho-me fortemente a qualquer cooperação entre os programas de voo espacial humano da NASA e da CNSA sem autorização do Congresso”.

"Nenhum dos fundos disponibilizados por esta lei pode ser usado pela Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) ou pelo Escritório de Política de Ciência e Tecnologia (OSTP) para desenvolver, projetar, planear, promulgar, implementar ou executar uma política bilateral, programa, ordem ou contrato de qualquer tipo para participar, colaborar ou coordenar bilateralmente de qualquer forma com a China".
Wold Amendment

Eram preocupações tão sérias que a Comissão de Revisão Económica e de Segurança Estados Unidos-China, uma comissão parlamentar do governo norte-americano, pediu ao Instituto Projeto 2049 um relatório sobre “as implicações para os interesses dos Estados Unidos” do “progresso da China nas capacidades espaciais”. Nas conclusões, o relatório assume que “a República Popular da China tem feito avanços significativos no seu programa espacial e está a emergir como um potência espacial”. E que isso era um problema porque “além de reforçar o prestígio da China, os avanços para o espaço vão desencadear mais operações militares eficazes a distâncias cada vez maiores da costa chinesa”.

“Apesar do nível da sua tecnologia espacial não se comparar à dos Estados Unidos e de outras nações exploradoras do espaço, os avanços relativos da China são significativos”, diz o relatório. E termina: “Apesar de as colaborações no espaço poderem ser benéficas tanto para os Estados Unidos como para a China, a falta de transparência de Pequim quanto a orçamentos militares, os potenciais riscos associados com as aplicações militares da tecnologia do espaço continuam a ser causa de preocupação”.

A falta de transparência tem sido um dos argumentos dos Estados Unidos para evitar ligações científicas à China, recorda o astrofísico Jorge Pla García: “Toda a gente sabe todos os avanços científicos tecnológicos que os outros países estão a fazer, exceto a China. Eles fazem quase tudo sozinhos. Mas eu julgo que isto também é uma questão cultural”. Segundo ele, quando algum colaborador da NASA diz que tem oportunidade de trabalhar com cientistas chineses, a NASA “diz logo que não, que não querem ter nada a ver com isso e que querem liderar a própria exploração”: “Acho que os americanos não estão completamente abertos”, considera ele.

De facto, quando alguém concorre a fundos da NASA, no formulário — que é um documento de natureza federal — surge a indicação que esse eventual colaborador não pode trabalhar com chineses. Não é assim que os chineses querem gerir as relações internacionais de índole científico, acredita o astrofísico: “Eles acreditam que, quando se tem prosperidade, ela tem de ser partilhada. Isso para as nossas gentes é difícil de transmitir, porque a realidade não parece ser essa”.

Ciência “made in China”

Estamos então perante um preconceito contra os chineses? Sim, acredita Joana Neto Lima. E com raízes profundas. A astrobióloga explica ao Observador que a tecnologia chinesa é fortemente inspirada nas tecnologias dos russos, só que um passo mais avançadas: “Copiam, melhoram e vão sempre um pouco mais à frente. O programa deles começou quando os americanos e os russos estavam a reabilitar mísseis balísticos, os V2. E os chineses conseguiram arranjar um para testar. É um programa já com muitos anos mas que ficou em queima lenta a tentar sozinho ir buscando a tecnologia que os outros tinham”.

"Copiam, melhoram e vão sempre um pouco mais à frente. O programa deles começou quando os americanos e os russos estavam a reabilitar mísseis balísticos, os V2. E os chineses conseguiram arranjar um para testar. É um programa já com muitos anos mas que ficou em queima lenta a tentar sozinho ir buscando a tecnologia que os outros tinham".
Joana Neto Lima, astrobióloga do Centro de Astrobiologia de Madrid

Ou seja, não é que os chineses tenham imitado tudo o que, tecnologicamente, as outras agências espaciais têm feito. Só que “não estão para reinventar a roda”, compara Joana Neto Lima. “Se as coisas já existem, eles querem desenvolver dali para a frente. O que eles pensam é: vamos todos aprender até este nível, tudo o que já existe, e depois seguir em frente. São mais pragmáticos nisso. E o orgulho deles é o conseguirem avançar a seguir. É o terem aprendido”, conclui.

Demorou até que isso acontecesse, mas os pequenos passos para a China têm-se tornado em grandes passos para o programa espacial do país. À Science Magazine, é o próprio Qian Xuesen — o fundador do Laboratório de Propulsão a Jato que, após ter sido expulso dos Estados Unidos, deu início ao programa espacial chinês — que explica que a filosofia de “dar passos pequenos mas firmes” começou logo nos anos 50.

Tal como os Estados Unidos, também a China se sentiu ultrapassada quando, a 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançou o Sputnik 1 para o espaço, o primeiro satélite artificial da Terra. A China tencionava tê-lo feito primeiro, mas nem sequer tinha um foguetão capaz de levar instrumentos para o espaço. Só que em vez de se assumir como um inimigo da Roscosmos, como os americanos fizeram, pediram aos soviéticos que lhes ensinassem aquilo que sabiam.

A parceria não durou muito tempo porque, ao fim de poucos meses, o regime chinês decidiu reformar completamente o programa espacial para se concentrar no desenvolvimento de mísseis guiados. Só em 1965, já Iuri Gagarin tinha ido ao espaço e John F. Kennedy tinha transmitido a intenção de colocar um Homem na Lua antes do final da década, é que Qian Xuesen propôs outra alteração de planos. Num relatório enviado aos líderes políticos, o engenheiro argumentou que o programa espacial deveria ser reabilitado para desenvolver satélites para espionagem militar e comunicações. Só que já era tarde demais para voltar a pedir ajuda à União Soviética: “Os chineses não estavam a falar com ninguém. Não falavam com os soviéticos e certamente não com os americanos. É por isso que a maior parte do programa espacial da China foi desenvolvido domesticamente“, explica Qian Xuesen.

Tal como os Estados Unidos, também a China se sentiu ultrapassada quando, a 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançou o Sputnik 1 para o espaço, tornando-se no primeiro satélite artificial da Terra. A China tencionava tê-lo feito primeiro, mas nem sequer tinha um foguetão capaz de levar instrumentos para o espaço. Só que em vez de se assumir como um inimigo da Roscosmos, como os americanos fizeram, pediram aos soviéticos que lhes ensinassem aquilo que sabiam.

E assim foi. A 24 de abril de 1970 os chineses tornaram-se no quinto país a colocar um satélite no espaço. Dongfanghong 1 tinha um metro de comprimento, pesava tanto quanto os primeiros satélites soviéticos, americanos, franceses e japoneses juntos, transmitiu a canção “O Mundo É Vermelho” para a Terra e servia para fazer medições na ionosfera. Qian Xuesen admitiu que, após essa conquista, houve uma tendência dentro da agência espacial para pensar numa verdadeira corrida para apanhar os americanos e os russos, mas foi Zhou, líder do Partido Comunista Chinês, que convenceu os engenheiros a não entraram nessa guerra fria. O conselho era que se concentrassem em aprender a desenvolver satélites. Foi isso que a China fez.

Dongfanghong 1 .

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“Ou a NASA começa a tentar investir ou a China vai passá-la à frente muito rápido”

Um dos motivos para a China ter tomado essa estratégia foi o problema dos foguetões. Rui Moura, o professor da Universidade do Porto que é considerado um dos portugueses mais preparados para ir ao espaço, explica porquê: “Uma coisa é enviar um míssil para órbita, outra é enviarmos um míssil com maior alcance. Quando temos um veículo que seja capaz de ir para além da órbita terrestre, isso implica que a tecnologia dos propulsores seja um degrau mais acima. Todos esses graus de propulsão obrigam a um estado de evolução. Por isso é que não tinham a mesma capacidade que a Rússia e os Estados Unidos até agora”, explica.

Mas a China queria esforçar-se, tanto que em 2003 o país se tornou o terceiro com um programa espacial tripulado bem sucedido ao enviar um astronauta ao espaço a bordo do Shenzhou 5. “A partir daí ninguém os parou. Ou a NASA começa a tentar investir ou a China vai passá-la à frente muito rápido“, garante Joana Neto Lima. “Neste momento, o prazo de validade da Estação Espacial Internacional já foi ultrapassado. O tempo médio de vida dela estava previsto para até 2020, mas como ninguém tem possibilidade económica de estar a fazer alguma coisa de novo, aumentaram-no até 2025. Isso significa que todos os intervenientes têm de começar a pensar no futuro. O que nós começamos a ver é que estão todos a acertar agulhas independentemente. Se estamos todos a acertar agulhas, vamos acabar por nos juntar porque ninguém consegue fazer isso sozinho. Só que os chineses foram os primeiros a perceber a necessidade de acertar agulhas“, acrescenta ela.

"Neste momento, o prazo de validade da Estação Espacial Internacional já foi ultrapassado. O tempo médio de vida dela estava previsto para até 2020, mas como ninguém tem possibilidade económica de estar a fazer alguma coisa de novo, aumentaram-no até 2025. Isso significa que todos os intervenientes têm de começar a pensar num futuro. O que nós começamos a ver é que estão todos a acertar agulhas independentemente. Se estamos todos a acertar agulhas, vamos acabar por nos juntar porque ninguém consegue fazer isso sozinho. Só que os chineses foram os primeiros a perceber a necessidade de acertar agulhas".
Joana Neto Lima, astrobióloga do Centro de Astrobiologia de Madrid

Questionado sobre se isso significa que a China pode ser a próxima a pisar a Lua, Rui Moura lembra que para isso é preciso tecnologia que os chineses ainda não apresentaram. Para chegar à Lua, é preciso construir um foguetão que seja capaz de escapar à força gravítica do planeta, ou seja, que tenha propulsores ligados ao veículo que o permitam acelerar até aos 11 ou 12 quilómetros por segundo, que é a velocidade de escape da órbita terrestre. “Basta uma pessoa olhar para aquele que neste momento leva os astronautas e cosmonautas à Estação e colocá-lo ao lado do Saturn V [que levou a tripulação do Apollo 11 à Lua]. O Soyuz TMA tem entre 40 e 50 metros. O Saturn V tinha mais de 100 metros de altura. É uma bomba. A maior parte daquilo é combustível altamente inflamável, o próprio motor de foguete é um conjunto de explosões controladas. É um acidente à espera de acontecer”, descreve Rui Moura.

Apesar desse obstáculo, Rui Moura concorda que, se a China estabelecer alguma regularidade de exploração lunar, os Estados Unidos “poderão começar a sentir-se um pouco apertados no sentido de corresponder” a esses objetivos. E, na verdade, isso já começou a acontecer, conta-nos o professor. Rui Moura esteve no Canadá em outubro a fazer formações para se tornar astronauta sub-orbital e contactou com uma navegadora da Força Aérea que lhe transmitiu como as políticas de Donald Trump estão a direcionar a NASA para um regresso à Lua, para fazer dela “uma estação de serviço” no caminho até Marte. “De tanto querer fazer as coisas ao contrário do Obama, Trump fez aquilo que algumas das pessoas da NASA acharam mais sensato: em vez de estarmos a pensar em Marte, regressar à Lua e lá praticar para depois ir a Marte”.

Mas e a economia? A China continua (e continuará) a nadar em dinheiro?

Seria errado, porém, presumir que a China continua a nadar em dinheiro infinito, com taxas de crescimento económico anual de dois dígitos, como aquelas que se registaram entre meados da década de 90 e meados da primeira década do novo milénio. Há vários anos que deixaram de se verificar tais taxas, que antes se basearam nas exportações e no investimento. Isto não é necessariamente um mau sinal, porque o próprio governo chinês passou a definir crescimentos entre 6% e 7% como o ritmo ótimo (mais moderado), numa fase em que quer reduzir a dependência das exportações e dinamizar um pouco mais a procura interna por parte da classe média emergente.

A realidade, porém, é que ninguém no Ocidente sabe, com toda a certeza, se a economia chinesa está, realmente, a crescer a estas taxas entre 6% e 7%, dado que há muita falta de transparência na publicação de dados oficiais por parte do governo. Há alguns anos, um analista de mercados causou algum controvérsia nas bolsas quando publicou o “seu” modelo de estimativa para o crescimento chinês a partir dos dados sobre o consumo de eletricidade no país — o modelo indicava que, na realidade, a economia chinesa não estaria a crescer mais do que 1% ou 2%.

A perceção que continua a ser predominante entre os analistas é que, apesar de tudo, o governo chinês tem capacidade para, basicamente, crescer aquilo que quiser — isto é, tem instrumentos suficientes para tentar calibrar o crescimento que considera “desejável” nesta fase de transformação da economia, através de ferramentas como a intervenção no mercado cambial e a injeção de liquidez no mercado bancário. Não é uma missão fácil, porque, por um lado, há uma consciência de que um “sobreaquecimento” da economia poderia levar, a prazo, a problemas graves e, por outro lado, é necessário garantir uma taxa de crescimento minimamente saudável para que não se gerem receios de uma contração forte (ou mesmo de uma recessão).

O governo chinês vai conseguir ter sucesso? Mesmo com o dirigismo e a planificação centralizada que caracterizam a economia chinesa, riscos acumulados no passado — entre os quais os excessos de investimento e endividamento (muitas vezes junto da chamada “banca paralela”, desregulada) — levam, frequentemente, os economistas a temerem uma derrapagem na China, que facilmente desestabilizaria a economia mundial. Porém, a realidade é que, apesar de todos os vaticínios, essa crise nunca aconteceu.

Recentemente, o Nobel da Economia Paul Krugman sintetizou na perfeição o problema desses vaticínios: conta que “no outro dia” lançou um alerta generalizado sobre a economia chinesa, defendendo que esta estava a “emergir como um foco perigoso numa economia mundial que, neste momento, não precisa nada, mesmo nada, disso”. O problema, rematou Krugman, é que esse “no outro dia” já tinha sido há mais de seis anos. Ou seja, já se tornou um cliché dizer que a economia chinesa está na iminência de uma crise — mas como esta nunca se confirma, alguns economistas já começam a hesitar antes de voltarem a alinhar nesta aparente história do Pedro e do Lobo, depois de tantos anos consecutivos a serem desmentidos pela realidade (pelo menos, o que se conhece da realidade).

Como define a Lei de Dornbusch, porém, “uma crise demora muito mais tempo a formar-se do que tendemos a pensar, mas, depois, quando acontece, acontece muito mais rapidamente do que se poderia pensar”. Outro economista de renome internacional, Kenneth Rogoff, escreveu recentemente (para o Project Syndicate) que “uma desaceleração significativa da economia chinesa já poderá estar a ocorrer. “A guerra comercial com o Presidente Trump abalou a confiança, mas esta não terá sido mais do que mais um empurrão numa economia que já estava a abrandar, à medida que se faz a transição de um crescimento à base de exportações e investimento para um crescimento mais apoiado no consumo”.

“Quanto a economia chinesa vai abrandar é uma questão em aberto”, concluiu Rogoff, “mas, tendo em conta a contradição inerente entre um sistema político cada vez mais centralizado [no partido] e a necessidade de um sistema económico mais descentralizado, baseado no consumo individual, temo que o crescimento a longo prazo na China possa cair de forma bastante dramática”.

E daqui para a frente?

A curto prazo, a China quer concentrar-se nas missões Chang’e. O objetivo final do programa da China é ver se há condições para se conseguir instalar nos anos 30 uma base lunar no polo sul. Já a missão Chang’e 4 — a que chegou à Lua este mês de janeiro — levava a bordo um cubo selado e hermético com bichos da seda e sementes de batata para testar se, levando os ingredientes necessários, eles germinam com a pouca luz que recebem e conseguem crescer. Assim, no futuro, este tipo de plantas pode servir tanto para a renovação do oxigénio numa estação espacial ou numa base, como para alimentar astronautas.

"De tanto querer fazer as coisas ao contrário do Obama, Trump fez aquilo que algumas das pessoas da NASA acharam mais sensato: em vez de estarmos a pensar em Marte, vamos regressar à Lua e lá praticar para depois ir a Marte".
Rui Moura, professor do Departamento de Geociências da Universidade do Porto

Essa aventura começou em 2007 quando a China conseguiu levar a primeira e a segunda Chang’e à orbita terrestre. Agora estamos na segunda fase da missão, cujo objetivo é alunar. O objetivo foi cumprido, primeiro com a Chang’e 3 que aterrou no lado visível da Lua e até descobriu um novo mineral; e agora com a Chang’e 4, que chegou ao lado oculto. A seguir vem a terceira fase, cujo objetivo é não só alunar nas duas faces da Lua como também trazer amostras lunares de regresso à Terra. Tudo isso deve acontecer já a partir deste ano até 2020.

No meio de tudo isto, Portugal também está na rota do programa espacial chinês. Os dois países juntaram-se para criar um laboratório conjunto de investigação e desenvolvimento tecnológico para o espaço e para os oceanos. O desenvolvimento STARLab vai arrancar em março e deve demorar cinco anos a ser terminado, após um investimento de 50 milhões de euros. Diz  Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que este projeto “possui metas a nível científico que passam pelo estudo de fenómenos naturais e os seus potenciais impactos sistémicos e ambientais”, tudo graças a constelações de microssatélites.

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