Salvador, o nadador: do bar da praia a presidente da câmara (até ser braço direito de Rio)

26 Janeiro 2018339

Foi nadador-salvador em Esmoriz. Fez-se engenheiro. Investigou para a Renault. Ganhou a câmara de Ovar. Ajudou a eleger um líder do PSD. É suspeito de favorecimento. Afinal, quem é Salvador Malheiro?

“Se um dia perder isto vou fazer outra coisa qualquer! Vou ser nadador-salvador ou outra coisa qualquer, não me importo”, desabafava Salvador Malheiro, no final de uma entrevista ao Observador na Câmara Municipal de Ovar. O diretor da campanha de Rui Rio para a liderança do PSD começava a dar sinais de irritação. O tema não era fácil: suspeitas de favorecimento. Uma parte da conversa tinha sido sobre os contratos-programa de 2,2 milhões de euros que a autarquia estabeleceu com os clubes da terra, quase todos adjudicados à Safina, uma empresa de Pedro Coelho, líder da concelhia do PSD e posteriormente vereador no executivo do próprio Salvador Malheiro.

Naquele dia, sexta-feira, 19 de janeiro, o presidente da câmara ainda não sabia que o Ministério Público de Aveiro tinha aberto um inquérito ao caso dos relvados sintéticos, depois de uma denúncia anónima que o visava, ao seu vereador Pedro Coelho e a um adjunto da câmara, Henrique Araújo — que foi um dos operacionais na organização da campanha interna de Rui Rio. A denúncia relaciona o alegado favorecimento com o financiamento de campanhas eleitorais. O Observador sabe que Rui Rio — que se apresentou a dizer que a política precisa de um “banho de ética” — tem estado preocupado com este assunto.

Salvador Malheiro podia dizer que se deixasse a política voltaria a exercer engenharia, que lhe deu dinheiro e prestígio académico, antes de ser presidente de uma câmara. Mas preferiu dramatizar com o regresso à praia como nadador-salvador. Por trás da secretária a que o autarca está sentado, no seu gabinete, um quadro mostra dois pescadores num plano apertado, abraçados. “É do anterior presidente e eu deixei-o ficar”, explica Salvador Malheiro. Camisa branca apertada até ao último botão, gravata escura, às pintas brancas: à primeira vista, só os longos cabelos disfarçadamente penteados revelam a figura que, ainda adolescente, passava o verão de olhos postos no mar de Esmoriz, atento aos banhistas. Foi ali, como nadador-salvador, que se lançou à vida.

No seu conjunto, o percurso de Salvador Malheiro é pouco habitual na classe política atual: vem de uma família numerosa e humilde, formou-se em engenharia, doutorou-se e deu aulas em universidades, chegou a fazer investigação em França, tinha uma profissão onde ganhava bom dinheiro como consultor, e só depois decidiu dedicar-se à causa pública. Foi uma paixão tardia. Não frequentou a escola de caciques das jotas. Mas teve de aprender os truques todos quando a ambição cresceu. Nas eleições internas do PSD, que deram a vitória a Rui Rio, teve ao seu serviço a carrinha de uma associação recreativa — financiada pela autarquia — para transportar militantes de um bairro pobre à mesa de voto. O resultado esmagador de quem joga em casa ficou evidente ao fim da noite: dos 476 votantes do PSD de Ovar, 409 puseram a cruz em Rui Rio.

Na campanha interna do PSD, acompanhou Rui Rio por todo o lado. Era o diretor de campanha. Embora não fosse íntimo do ex-presidente da câmara do Porto — é um conhecimento recente — foi um dos principais operacionais para a mercearia partidária: votos, apoios, transportes e mobilização para salas cheias de gente. A partir de setembro, coordenou a máquina com outros líderes de aparelho: Rui Rocha, de Leiria, Carlos Peixoto, da Guarda, Bruno Coimbra, de Aveiro, Luciano Gomes, do Porto, Fernando Campos, de Boticas. O seu braço direito para o terreno foi Henrique Araújo, seu adjunto na câmara de Ovar.

As denúncias de caciquismo, porém, são mais antigas. Há dois anos, em fevereiro de 2016, quando venceu a distrital de Aveiro, hoje a quarta maior do PSD — decisiva nas disputas eleitorais internas — Malheiro já era acusado de viciação de dados. Ulisses Pereira, o seu adversário, que perdeu aquela estrutura para o homem de Ovar, chegou a enviar uma carta para o Conselho de Jurisdição do PSD a denunciar “indícios de irregularidades graves e eventual falsificação de dados”, como 16 militantes que viviam na mesma morada e 77 que tinham o mesmo telemóvel. Em causa estava a inscrição de 418 militantes. Pedro Coelho, o mesmo envolvido no caso dos relvados sintéticos, que liderava a concelhia, acusava Ulisses Pereira de querer “ganhar na secretaria”.

Para ganhar a câmara com o apoio do anterior presidente, do PS, ter-se-á comprometido em manter o filho e a nora do ex-presidente em cargos dirigentes, assim como a chefe de gabinete do executivo socialista. Cumpriu. Não tocou em nenhuma destas pessoas desde 2013, apesar da mudança de partido na gestão da autarquia.

O senhor engenheiro “ratinho”

O pai, Albertino Silva, tem uma enorme coleção de uísques. Era um comercial que andou a vender pelas antigas colónias portuguesas, em África, e foi dele que herdou o amor ao Sporting e a admiração por Sá Carneiro. Foi um “militante da primeira hora” do PPD. Salvador nasceu em 1972 (tem hoje 45 anos) e foi a mãe quem o criou, com a ajuda dos filhos mais velhos. Naquela família de poucos recursos, Salvador Malheiro, o penúltimo dos 10 irmãos, percebeu cedo que teria de fazer o seu próprio caminho. “Houve ali períodos complicados, mas nunca passámos fome”, recorda ao Observador, sentado no gabinete que ocupa desde 2013, o presidente da Câmara Municipal de Ovar.

“Sempre tive uma atividade muito intensa, desde as primeiras horas que trabalhei na praia, trabalhei nos bares à noite, fui nadador-salvador” em Esmoriz, e o passar dos anos apenas apenas reforçou a “ligação intensa” à terra que marcaria o seu percurso. Até completar o ensino básico, Salvador Malheiro andou por ali. “Os meus pais sempre fizeram questão, mesmo com todas as dificuldades, de permitir a quem gostasse da escola, quem tivesse potencial na escola, que nada lhe faltasse”.

Entre os “ratinhos”, alcunha pela qual a família é conhecida na terra, o percurso dos vários irmãos acabaria por ser diferente. Uma irmã tornar-se-ia médica; outro irmão, jogador de futebol; outro é quadro do grupo empresarial criado por Américo Amorim. Ainda miúdo, Salvador destacava-se como um dos melhores alunos da turma. De tal forma que, aos 24 anos, era licenciado em Engenharia, com especialização em fluídos e calor e uma média de 16 valores – “fui o melhor aluno da minha opção” — e nunca perdeu um ano.

Antes de completar 25 anos já era mestre, com uma equivalência pelo curso que frequentou em Paris, patrocinado pela União Europeia, em que estudou o desenvolvimento da tecnologia usada em motores de combustão interna. Em 1996, no primeiro regresso do geek das engenharias a Portugal, começou a dar aulas a alunos do 5º ano do curso de Engenharia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. “Mais de 90% dos meus alunos eram mais velhos que eu”, lembra.

O doutoramento veio a seguir. Durante três anos voltou a viver em França, mas dessa vez para trabalhar no centro de investigação da Renault, onde desenvolveu um “projeto altamente confidencial” para “reduzir ao máximo o consumo e a poluição” dos motores automóveis. “Consegui colocar em combustão um rácio quase 10% inferior, completamente em rutura com estado da arte da altura”, conta Salvador Malheiro, perdido entre as memórias de um percurso que acabaria por abandonar por completo quando decidiu que todo o seu empenho seria dedicado à atividade política.

Social-democrata convidado por socialista

Essa descoberta só veio mais tarde, já depois de completar 30 anos. Depois da viragem do milénio, o engenheiro regressou em definitivo a Portugal, por não conseguir resistir àquilo que descreve como um chamamento – da terra e da família. Em 2003, casado “com uma lisboeta” e com a família a crescer (o primeiro dos três filhos, dois rapazes e uma rapariga, nasceu quando estava em França), recusou “muitas oportunidades” que lhe apresentaram para cruzar o Atlântico e ir dirigir centros de investigação da Renault no Brasil.

É no ano seguinte que Malheiro nasce para a política. “São aqueles chamamentos que existem”, conta, ao recordar a forma como se inscreveu no PSD. “Estava a navegar na internet, a trabalhar num projeto para a UTAD [Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro], talvez, entro no site do PSD e surge a ficha de militante. Decidi espontaneamente inscrever-me”, recorda ao Observador. “Saquei a ficha, preenchi-a e chegou-me o cartão a casa”, diz. “Sem padrinhos”, sem batismos. “Foi mesmo anónimo”, garante.

Daí à Câmara Municipal de Ovar, que conquistou pela primeira vez em 2013, foi um salto. Em 2009, Álvaro Santos (PSD) candidatou-se à autarquia e chamou o cristão-novo Salvador Malheiro para número dois nas listas. “Há dois polos importantes no concelho, Ovar e Esmoriz. Para haver uma lista forte, naturalmente [um candidato] precisa de representação de Esmoriz e eu sou uma pessoa muito conhecida lá, porque o que era antes mantive depois da formação que fiz, mantive sempre ligação à cidade”, explica Malheiro ao Observador. Apesar de o PSD ter conseguido uns 300 votos a mais face às autárquicas de 2005, o resultado não permitiu aos sociais-democratas ganhar no concelho.

"Há poucos meses, tornei-me militante do PSD, seria incapaz de ir numa lista pelo PS, gosto muito de si, mas tenho de dizer que não", respondeu Salvador Malheiro ao convite de Manuel Oliveira para que o acompanhasse numa candidatura a Ovar, em 2005.

Esta experiência abriria caminho para uma ascensão meteórica dentro do partido, mas um convite feito por um antigo professor, quatro anos antes, podia ter empurrado Salvador Malheiro para um percurso partidário diferente.

Nas autárquicas de 2005, Manuel Oliveira foi a aposta dos socialistas para garantir que a Câmara de Ovar se mantinha no partido. Para as suas listas, Oliveira pensou numa figura com que se tinha cruzado antes. E fez o convite. “O candidato do PS à câmara, que tinha sido meu professor de Filosofia em Espinho, convidou-me para ser número dois dele à câmara, e eu disse-lhe: ‘Há poucos meses, tornei-me militante do PSD, seria incapaz de ir numa lista pelo PS, gosto muito de si, mas tenho de dizer que não’”, conta Salvador Malheiro. Mas esta amizade seria importante em 2013. Oliveira, o socialista, havia de ser uma figura determinante para a ascensão do social-democrata.

Apoiante de Rangel, passista e crítico de Passos

Manuel Oliveira venceu as eleições em Ovar no mesmo ano em que José Sócrates deu a maioria absoluta ao PS. Quatro anos depois, em 2009, o autarca revalidou a vitória socialista no concelho. Depois de perder a corrida à autarquia ovarense, Álvaro Santos seria convidado para chefiar o gabinete de Almeida Henriques, antigo secretário de Estado Adjunto da Economia e Desenvolvimento Regional. Com a saída de Santos, quatro anos depois de preencher a ficha de inscrição, Malheiro saltava para frente do combate político no concelho.

Apesar de ter apoiado Paulo Rangel na disputa interna contra Passos Coelho e Aguiar-Branco, rapidamente Salvador Malheiro iniciou a aproximação ao novo líder social-democrata. "Telefonei-lhe e disse que podia contar comigo a 100%, e defendi-o, porque ele me surpreendeu pela positiva logo nos primeiros meses à frente do PSD."

A carreira partidária estava a começar mas, nessa fase, o ex-nadador salvador já sabia onde queria chegar. Fonte do PSD que trabalhou de perto com Malheiro em Ovar conta que, nesse período, Bruxelas era o objetivo. “Eu quero é o Parlamento Europeu”, admitia aos mais próximos, deixando transparecer um traço marcante na sua personalidade. Malheiro faz sempre planos a longo prazo, não dá um passo sem calcular onde vai assentar o pé a seguir. São várias as fontes a dizer que tinha a ambição de ser eurodeputado. Outro objetivo que lhe apontam é chegar a ministro do Ambiente.

Mas os primeiros tempos na concelhia foram duros. À sua volta, o PSD – que há quase 20 anos estava afastado do poder local – era um deserto de militância partidária. “Fiquei a liderar a oposição à câmara, com uma concelhia vazia. Por pressão do engenheiro António Topa, constituo uma lista à concelhia de Ovar”. Concorreu com uma lista única e o resultado não podia trazer surpresas. Começou, nesse momento, um “grande esforço de congregação, de união” e reaproximação dos militantes a uma concelhia desfalcada. A concelhia começa a crescer.

Em 2010, Pedro Passos Coelho, Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco disputaram a liderança do partido. Nesse ano, “ainda sem qualquer maturidade política, sem saber como estas coisas funcionavam”, apostou no cavalo errado. “Apoiei o Paulo Rangel por pura convicção. Estou na política por pura convicção, sou incapaz de seguir estereótipos anunciados ou previstos com antecedência, sigo a minha cabeça”, garante ao Observador.

No mesmo dia em que Passos ganhou o partido, começou a aproximação àquele que se tornaria o próximo primeiro-ministro português. “Telefonei-lhe e disse que podia contar comigo a 100%, e defendi-o, porque ele me surpreendeu pela positiva logo nos primeiros meses à frente do PSD”. Esse apoio convicto – “tornei-me um passista”, diz ainda hoje – não o impediu de, a 2 de outubro de 2017, quando o PSD mal começava a digerir o resultado das autárquicas, dizer que Passos não tinha “as mesmas condições” para continuar à frente do partido. Antes disso, era dos poucos líderes distritais a criticar Passos Coelho em público. Nesse momento, Rui Rio já tinha em marcha o seu plano de conquista da liderança, que atiraria Malheiro para um novo patamar no partido.

O caminho para lá chegar, fê-lo a partir da Câmara de Ovar. Na autarquia, o então vereador ia-se adaptando ao seu novo fato. “Houve muitas casos em que votei ao lado do presidente, e defendendo essas decisões lá fora, estudava muito bem reuniões de câmara”. Participava, propunha, debatia. Mas o mandato era exercido em regime de não permanência e, para “ganhar a vida”, continuava a fazer consultoria para empresas portuguesas e estrangeiras. “Ganhava muito dinheiro nessa altura”, revela.

Durante esses quatro anos de mandato, entre 2009 e 2013, Ulisses Pereira, presidente da distrital de Aveiro e deputado à Assembleia da República, começou a reparar em Salvador Malheiro. “Desempenhou um trabalho exemplar no grupo de estudos, na área do mar e ambiente”, recorda ao Observador Vítor Martins, presidente da concelhia de Aveiro do PSD e primeiro vice-presidente da distrital, liderada por Salvador Malheiro. “Era uma pessoa dinâmica, que se dedicava de alma e coração ao que se envolvia e criou simpatia, algo que era raro”, diz Martins.

Os intocáveis: o filho e a nora do ex-presidente socialista

Líder da concelhia, elemento destacado na distrital, Malheiro não se dedicou apenas ao trabalho interno no partido. Fora da estrutura dirigente, o líder da concelhia também foi reforçando a sua base de apoio, e reaproximou militantes ao partido. O PSD cresceu no concelho e Salvador Malheiro abriu o caminho para o seu primeiro salto.

Foi a pensar nas autárquicas de 2013 que Ulisses Pereira validou o nome do candidato com que o partido ia tentar fazer frente ao poder instituído. Há 20 anos que o PS governava Ovar e o desafio lançado a Salvador Malheiro passava por conseguir fragilizar o reduto socialista, aproximando o concelho do partido que o liderou entre 1976 e 1989. O resultado ficou muito acima desse patamar. “Quando foi o chamamento do PSD, pensei um bocado, falei em casa e disse que sim, sabendo que ia ser uma guerra muito complicada, sobretudo – sentia isso no povo –, pela qualidade do trabalho feito por Manuel Oliveira, que estava a ser valorizado pela população”, recorda Malheiro.

De certa forma, as dificuldades que Malheiro tinha sentido quatro anos antes, quando ganhou a concelhia, estavam, agora, no lado oposto. Depois de deixar a autarquia numa situação financeira segura, o presidente socialista, Manuel Oliveira, não se quis recandidatar, considerando que tinha chegado a altura de dar por terminada a sua tarefa no poder local. O PS vacilou, demorou a definir o plano B e, quando o fez, faltou união à volta da escolha pelo candidato Vítor Ferreira. “Aproveitei um pequeno problema no PS, porque a concelhia não deu a importância que devia ter dado ao presidente da câmara [cessante], tiveram uma escolha que senti que não era consensual.”

O candidato social-democrata aproveitou a brecha na frente inimiga. Oliveira afastou-se da candidatura do seu partido e deu a mão à do PSD. O apoio nunca foi explícito, mas, nas inaugurações e eventos da câmara, era o vereador laranja quem surgia frequentemente ao lado do ainda presidente.

Ele não me apoiou declaradamente, mas só o facto de não ter apoiado claramente a lista do PS constituiu-se quase um apoio à minha”, assume Malheiro.

Esse apoio velado terá tido um preço, segundo várias fontes ao Observador. Em troca do apoio ainda que velado, Manuel Oliveira tratou de assegurar a estabilidade de alguns elementos seus na câmara: a sua chefe de gabinete da presidência, que ainda se mantém no cargo, e o seu filho e nora, responsáveis pelos serviços financeiro e de recursos humanos.

Quando Salvador Malheiro chegou à concelhia de Ovar, o PSD tinha 100 militantes. Quatro anos depois, já eram 700, diz o agora presidente da distrital de Aveiro. A vitória nas eleições de 2013 reforçariam essa adesão. "Fez com que, logo no primeiro ano de mandato, o número de militantes começasse a crescer.”

Salvador Malheiro terá acedido, tanto que nunca tocou nestes elementos chave da direção camarária (embora outras fontes sociais-democratas não ponham em causa a competência deles). Venceu as eleições com maioria absoluta. Nesse momento, percebe, “há aqui um clique”. “Isso fez com que, logo no primeiro ano de mandato, o número de militantes começasse a crescer.” Quando Malheiro chegou à concelhia, o PSD tinha 100 militantes em Ovar; quando saiu, quatro anos mais tarde, já eram 700. O autarca deixou então a estrutura local de Ovar alegando que as duas funções – presidente de câmara e presidente da concelhia – eram inconciliáveis. Para o seu lugar foi eleito Pedro Coelho, o empresário, dono de uma empresa que produz relvados sintéticos e que Malheiro chamaria para seu vereador nas autárquicas de 2017 — protagonista da história polémica revelada pelo Observador.

Mas o discurso do autarca não estava alinhado com a ação. E a contradição saiu reforçada em 2016, quando lançou uma candidatura à distrital de Aveiro, sem nunca ter abdicado da vice-presidência naquele órgão do partido.

Nessa disputa do partido contra Ulisses Pereira, recorda Vítor Martins, Salvador Malheiro arrancou “a maior vitória que a distrital teve”, afastando do caminho o até então presidente e subindo um patamar na ascensão interna. Surgiram, então, as primeiras suspeitas de que nem tudo teria sido feito como mandam as regras. O candidato derrotado havia de recorrer para o Conselho Nacional de Jurisdição social-democrata com denúncias de irregularidades na inscrição de militantes e alegações de caciquismo no momento da votação. Salvador Malheiro seria ilibado do processo pelos órgãos internos.

“As pessoas já perceberam que a importância de concelhias junto das estruturas distritais e nacionais mede-se pelo número de militantes que tem”, disse ao Observador no final da semana passada, numa entrevista concedida no gabinete da Câmara Municipal, já depois de o Observador ter publicado uma investigação em que Malheiro surge associado a práticas suspeitas de representar condicionamento de votos dos militantes, na eleição que deu a vitória de Rui Rio nas internas do PSD.

O homem que ajudou Rio a conquistar o partido

O trabalho em Aveiro, como presidente de câmara mas, também – e sobretudo, talvez – a dinâmica que revelou enquanto líder local do PSD chamaram a atenção de Rui Rio. A aproximação entre o antigo e o atual autarca aconteceu entre o final de 2016 e o início de 2017, através de “amigos comuns”.

Começámos gradualmente a trocar algumas impressões. A minha concentração era a câmara municipal, mas fomos estreitando ligações e criámos uma empatia grande e sentimos que o ciclo de Pedro Passos Coelho estaria para terminar”, diz Salvador Malheiro ao Observador. As autárquicas que ditaram a queda de Passos estavam a muitos meses de distâncias, mas Rio e Malheiro já preparavam o day after do momento em que o presidente do PSD deitasse a toalha ao chão.

Malheiro foi o estratega da campanha de Rio na disputa pela liderança do PSD

Há meses que o terreno estava a ser preparado. Alguns dos encontros foram registados – como o almoço em Anadia, no início de dezembro de 2016, em que Salvador Malheiro e Rui Rocha (distrital de Leiria) participaram, apresentando-o como um “jantar de Natal”. Outros episódios passaram mais despercebidos. Foi o caso dos vários encontros entre Rui Rio e Malheiro nas instalações do Aqua Hotel, em Ovar, durante os quais o círculo mais próximo de Rio foi preparando um programa, analisando estratégias, desenvolvendo contactos para estar a pronto quando chegasse o momento de avançar.

A derrota para o PS, em outubro de 2017, foi o momento. Malheiro, aliás, foi dos poucos líderes distritais que apareceu em público a fazer a despedida de Passos, quando o PSD ainda não tinha olhado com distância para o resultado da noite de 1 de outubro. Na prática, o líder do PSD/Aveiro procurou uma sentença de morte política para o presidente do partido, ao declarar que Passos não tinha “as mesmas condições” para se manter na liderança do PSD. “Fui daqueles que olharam para Rui Rio como uma alternativa para o período pós-Pedro Passos Coelho”, afirma ao Observador.

Na noite em que reforçou a sua posição na câmara, Salvador dividiu-se entre a sede do PSD, no centro de Ovar, e a sua sede de campanha, com vista para a Praça da República. Nessa noite, um dos adversários políticos de Salvador Malheiro aproximou-se do autarca para cumprimentá-lo. “A seguir é o Parlamento Europeu, não?”, desafiou Fernando Camelo de Almeida, eleito para a Assembleia Municipal pelo CDS. “Parlamento? Não, já não quero isso. Agora, é para ministro”, gracejou o autarca. Resta saber agora se Rui Rio lhe dá um cargo importante no partido ou o deixa cair no congresso. É uma das pequenas intrigas que vai atravessando o PSD por estes dias.

Com Vítor Matos

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