“Nos nossos corações os ucranianos já venceram.” Sanna Marin protagonizou o debate “This is Europe”, no Parlamento Europeu, e focou-se na Ucrânia, nos valores mais altos da União Europeia que o país acompanha e na necessidade de travar a Rússia e a invasão, dando não só continuidade às sanções, como abrindo a possibilidade de as tornar mais duras.
A “coragem” e “determinação” com que o povo ucraniano tem enfrentado a guerra levaram a primeira-ministra finlandesa a pedir mais para a Ucrânia, a exigir que se mantenha o espírito de “união” e a notar que Vladimir Putin está a usar a energia como uma “chantagem” para mudar a postura dos países ocidentais que estão ao lado de Volodymyr Zelenksy.
E a resposta, prometeu, será a oposta: se a “Rússia está a usar a energia como arma contra a Europa”, “a atual crise energética só vai acelerar a transição da Europa para longe dos combustíveis fósseis”.
Marin está certa de que é em tempos como estes, em que a União Europeia é “posta à prova”, que se demonstra que a “unidade” é o único caminho. Se aos olhos da Rússia “a diversidade, a democracia e o respeito pelos direitos humanos” tornam a UE “fraca”, Marin quer provar que são exatamente esses valores que fazem da aliança um espelho de “união”, que é a “força” desses compromissos que prova a “capacidade de um trabalho em conjunto” em que o resultado da unidade é um “vibrante debate democrático e uma compreensão mútua”.
Num momento que descreve como “sombrio” para a União Europeia, a primeira-ministra finlandesa admite a necessidade de “sanções mais duras” para a Rússia. “Não é correto que, enquanto a Rússia mata civis na Ucrânia, turistas russos viajem livremente pela Europa”, notou a governante, realçando que é preciso que as sanções tenham um reflexo na “vida quotidiana dos russos comuns”.
“A suspensão completa do acordo de facilitação de vistos entre a UE e a Rússia justifica-se, mas não é suficiente”, alertou. Marin não especificou, nem no debate, nem na conferência de imprensa, mas remeteu para o debate sobre o tema que é feito pela Comissão Europeia, com esperança de que se possa avançar para mais medidas que isolem a Rússia.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“A Rússia pode chantagear-nos e ameaçar-nos, mas não vamos ceder.” Sanna Marin recorda que a invasão da Rússia à Ucrânia espoletou a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO e sublinhou que essa decisão significa um “reforço” na segurança do Norte da Europa, mas também da própria aliança. Aos olhos da primeira-ministra da Finlândia, “as ações da Rússia uniram o Ocidente como nunca e a Rússia está mais isolada do que nunca”.
No final do debate, já depois das várias perguntas que lhe foram dirigidas, Sanna Marin foi mais longe para deixar uma pergunta no ar: “Será que poderíamos ter evitado a guerra na Ucrânia se tivéssemos agido de forma mais firme, teríamos evitado se Rússia tivesse compreendido que não tinha condições de atacar um Estado soberano?”
E perante as consequências da guerra que já estão a lesar os países e os cidadãos, a governante da Finlândia centrou-se na economia — dizendo que com um mercado da energia a viver tempos de “incerteza” e com a subida da inflação como resultado da guerra, é preciso ter atenção quanto à possibilidade de uma “desaceleração económica” —, mas também no ambiente, ao usar os exemplos da seca e dos incêndios deste verão como prova de que as alterações climáticas estão a progredir. “Se não agirmos a tempo – se não agirmos imediatamente – será tarde demais. Não haverá uma segunda oportunidade”, frisou.
“É preciso eliminar os combustíveis fósseis russos o mais depressa possível” e, para Marin, “a única solução para a crise energética é um investimento forte na produção de energia renovável e sem emissões”.
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Paulo Rangel, que falou em nome do PPE, deixou claro que a Finlândia “deve saber que os Estados europeus estão com o país em qualquer desafio que a guerra provoque”, tendo em conta a proximidade com a Rússia e as ameaças que Putin foi fazendo, nomeadamente devido ao pedido de adesão do país à NATO.
Para o social-democrata, “a entrada da Finlândia na NATO é um dos factos geopolíticos mais relevantes do século XXI”. Apesar dos elogios ao posicionamento da Finlândia, o eurodeputado deixou algumas perguntas à primeira-ministra finlandesa (a maioria ficou sem resposta) que garantiu que o país está a “trabalhar numa política de apoio aos cidadãos” devido à inflação, mas sublinhando que são precisas “decisões comuns a nível europeu”.
O debate que teve espaço para a vida pessoal nas entrelinhas
A primeira-ministra finlandesa esteve debaixo de fogo por ter aparecido a dançar num vídeo durante uma saída à noite. Entre críticas e defesas, Sanna Marin veio defender-se dizendo que não tinha nada a esconder e fez até um teste de drogas para provar que não tinha feito nada ilegal.
O tema não tinha espaço num debate do Parlamento Europeu, mesmo quando a governante finlandesa era protagonista, mas houve quem aproveitasse o momento não só para sair em defesa de Marin como para pedir igualdade para as mulheres — alertando para a dificuldade de uma mulher se afirmar politicamente.
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Iratxe Garcia Perez, eurodeputada espanhola, foi a primeira a deixar um pormenor sobre o tema e fê-lo logo depois de ter dito que “não se deve permitir” que Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e “parceiros que não são pró-europeus” tornem os defensores da UE “reféns”.
No seguimento, esclareceu que uma “transição verde e digital só será possível através de uma base social e de melhor igualdade, desde logo igualdade de género”, Iratxe Garcia Perez dirigiu-se diretamente a Sanna Marin deixando uma garantia: “Viemos para ficar, é assim que teremos mais mulheres jovens dispostas a escrever o futuro.”
Estava dado o primeiro passo e aberto o espaço necessário para o que viria a seguir. Assita Kanko, jornalista, ativista e eurodeputada desde 2019, dedicaria os minutos no debate para falar sobre feminismo e sobre a necessidade de normalizar casos como os de Sanna Marin.
Começou por dizer que “os políticos são pessoas normais, que usam a casa de banho, que se assustam, que fazem amor”. “Somos pessoas normais, não robots, mas alguns fazem de conta que desconhecem este facto, sobretudo com as mulheres”, realçou, frisando que é pago um “preço muito elevado” por se ser uma pessoa comum,
“Não nos podemos dar ao luxo de cometer erros ou de viver como uma jovem mulher”, disse, referindo-se claramente ao caso da primeira-ministra finlandesa, alargando o espetro da intervenção ao dizer que “não fácil ser-se político quando as pessoas se riem”. “Estamos na Europa, não estamos no Afeganistão, pelo menos na teoria homens e mulheres são iguais”, prosseguiu.
Para a política belga, cada mulher que desista da política pela forma como é rebaixada em relação a um homem está a “abandonar um futuro” de igualdade para “as raparigas e os rapazes” do dia de amanhã.
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Num regresso à polémica sobre Marin, disse ainda que as tentativas de “desestabilizar” a primeira-ministra da Finlândia acabaram por torná-la num “ícone”. “As jovens mulheres deverão conduzir um país a aderir à NATO [como é o caso da Finlândia] e continuar dançar.”
Já na conferência de imprensa, onde o tema surgiu, ainda que de forma curta, Roberta Metsola admitiu que “é difícil ser uma mulher na política” e recusou que seja “condenável” qualquer atitude de um político na sua vida pessoa.
Marin não se alongou sobre o caso, mas deixou uma palavra de força às mulheres: “Somos capazes, fortes, conseguimos mudar o mundo, façam-no.”
Inês André Figueiredo e Tomás Silva em Estrasburgo, França, que viajaram a convite do Parlamento Europeu.