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André Ventura teve uma campanha atípica com protestos da comunidade cigana que puseram a segurança mais alerta do que o habitual e como elemento central da campanha. A isso ainda se juntou a doença do líder do Chega, que também obrigou a ajustes na campanha. Na Iniciativa Liberal, Rui Rocha preparou ao detalhe cada palavra para tentar o deputado liberal que não existe em Leiria e Rodrigo Saraiva demorou uma hora e meia a cortar o cabelo (uma piada que se faz sozinha). No Bloco de Esquerda — onde Mariana Mortágua preferiu Super Bock em dia de dérbi (jogo ao qual não ligou nenhuma) — a campanha é controlada ao ponto de as associações escolhidas para abordar cada tema serem lideradas por militantes ou mesmo antigos candidatos. Já no PCP, Paulo Raimundo andou sempre de microfone na lapela, numa versão comunista 2.0. O Observador acompanhou as campanhas de Chega, IL, BE e PCP por dentro ao longo de duas semanas.
Quanto aos dois partidos (pelo menos para já, com menor representação parlamentar), o Livre também tentou expandir a sua presença no território, o que o levou Rui Tavares repetir apenas um único restaurante em toda a campanha: o Manjar do Marquês, em Pombal, conhecido pelos seus panados e arroz de tomate. No PAN, Inês Sousa Real procurou não passar muito tempo fora de casa porque o gato Mikas, do qual tem sempre saudades, mesmo está muito doente.
Chega. A segurança como elemento central, o motorista Matias e um recibo como desculpa
“Tapa, tapa, tapa!” A ordem surge no momento mais tenso da campanha eleitoral, quando André Ventura sente uma dor no peito, se agacha no palco onde estava a discursar, num jantar-comício em Tavira, e é acudido pela equipa de segurança. Quem o diz é Hélio Filipe, responsável pela segurança do Chega, com o intuito de proteger a privacidade de André Ventura no momento em que tinha todas as câmaras apontadas a si.
Há muito que André Ventura tem uma equipa de segurança privada que em momentos de campanha funciona com cinco homens e à qual se soma Luc Mombito — um dos melhores amigos de Ventura e o responsável por conduzir o presidente do Chega para todo o lado. É o único que não segue na bolha que protege Ventura nas ações de campanha de contacto com a população porque tem a missão de deixar o líder do Chega no início e de apanhá-lo no fim da arruada.
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Dias antes, a comitiva do Chega está em Braga, um grupo de pessoas da comunidade cigana vai lançando palavras de ordem. Aproximam-se e afastam-se dos apoiantes do Chega. Ventura está a chegar e é preciso retirá-lo rapidamente dali. Já está na bolha, foi atingido por cuspo e, de repente, quando ainda não há fumo, mas já se nota o cheiro, um grito: “Temos de sair daqui rápido.” São duas tochas a rebentar, uma branca e uma azul. A equipa de segurança apercebe-se de que a visibilidade pode ficar reduzida e quer retirar o líder do Chega dali. Corre tudo bem, não há mais tochas. A caravana segue.
Perante um presidente de partido que vai dizendo — e voltou a fazê-lo nesta campanha — que está constantemente a receber ameaças, a segurança do Chega foi, é e continuará a ser parte fundamental da vida de Ventura nas ruas. Estão todos em constante contacto através de auriculares e coordenados com a equipa de comunicação. As informações são constantes, os animais mantêm-se como nomes de código e servem para organizar a equipa. É Hélio Filipe que a lidera. Faz parte da equipa avançada de segurança que chega antes, organiza o terreno e prepara tudo para a chegada de Ventura. É o homem que abre a porta a Ventura e também quem o coloca dentro do carro no final da ação de campanha.
Quem também faz parte da equipa é Marco Fortes, conhecido por ter sido atleta olímpico português e especialista no lançamento do peso. O lançador tornou-se famoso pela frase “de manhã só se está bem é na caminha” — e até na comitiva se recorda esse episódio. É imponente. Alto e robusto. Foi um dos que socorreu Ventura no palco e o transportou para fora do pavilhão.
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Mas nem só de seguranças se faz a segurança de Ventura. A chamada bolha que o rodeia conta com mais contributos, desde logo os repórteres de imagem que, se é verdade que prejudicam a visibilidade do presidente do Chega, também é verdade que acabam por servir como escudos à entrada de quem se quer aproximar. A atenção é muita, qualquer pessoa que levante suspeitas é abordada. A realidade é dinâmica e muda de segundo para segundo. E é preciso agir. Há muitos simpatizantes que querem chegar perto. Ventura é dado, está sempre pronto para o beijinho, às vezes até para o abraço (se bem que parece mais desconfortável quando são desconhecidos a tentá-lo). Prefere as selfies. É um profissional do fenómeno popularizado na política portuguesa por Marcelo Rebelo de Sousa — até porque são muitos os jovens que querem uma recordação da rockstar do TikTok nacional.
Voltando à bolha, nos momentos de mais confusão, até a posição dos jornalistas, sempre com os microfones apontados a Ventura ajuda a tornar essa bolha mais densa e a complicar a vida a quem quer furar. Mas há mais: a comunicação é fundamental no processo. Além de tudo ser coordenado entre os dois setores, Filipe Duarte, assessor de imprensa do Chega, é uma espécie de guia para os repórteres de imagem que caminham de marcha atrás, em perigo iminente. Está constantemente colado a eles. Dirige-os, dá ordens, organiza. O processo conta também com a deputada e diretora de comunicação, em tempos assessora, Patrícia Carvalho. A esmagadora maioria das vezes, Hélio, Filipe e Patrícia são a equipa avançada no terreno.
O sol já se está a pôr na Praia da Rocha, em Portimão, e Ventura segue numa arruada por ali fora. Patrícia Carvalho chega-se perto do presidente do Chega, segreda-lhe ao ouvido. Metros depois percebe-se o motivo: o casino da Solverde está mesmo ali e há quem aproveitar o embalo para uma crítica a Montenegro e à Spinumviva, até porque o lema da campanha tornou-se: “Deixa o Luís trabalhar para o Ventura governar.”
O cântico é mais um dos muitos em que deputadas do Chega se transformam em cheerleaders, desde logo pelas várias melodias inspiradas em claques futebolísticas. Vão desde “Portugal é nosso e há-de ser” até “uma equipa belíssima, deputados fantásticos, és a nossa fé, força Ventura, allez”. Uma após outra, em várias arruadas acompanhadas por bombos, principalmente Rita Matias e Madalena Cordeiro são das mais dedicadas a puxar por quem acompanha Ventura. Mas mérito seja dado à carrinha mágica cheia de jotas que o partido leva atrás — e das colunas e megafones que usam. A carrinha conduzida por Manuel Matias é tão requisitada que a maioria dos jovens (quase todos assessores) foram rendidos a meio da campanha, para todos terem a oportunidade de acompanhar André Ventura.
Aliás, o contacto com Ventura é tão relevante para os mais jovens que alguns dos que já não tinham lugar na carrinha fizeram questão de regressar para um convívio com jovens, em Faro, marcado pela comitiva da campanha à última hora. Na verdade, o convívio foi mesmo só com jovens do Chega e não um um copo mais alargado, até porque não foi convocado nas redes sociais — e a segurança agradece.
E nem só de jovens se enchem as carrinhas do Chega. Como é habitual, pelo país anda sempre a carrinha da comitiva mais próxima, recheada de dirigentes e deputados — e onde também houve pessoas rendidas a meio, desde logo para que os candidatos façam campanhas nos seus círculos eleitorais. Nessa mesma carrinha viajam também o fotógrafo e o videógrafo do Chega, fundamentais para as redes sociais alimentadas ao segundo. Seja Rita Matias, Marta Miranda, Pedro Santos Frazão, Rui Paulo Sousa, Pedro Pinto ou Ricardo Regalla, a carrinha vai tendo sempre os lugares ocupados.
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A esses juntam-se sempre as distritais, que distribuem bandeiras de Portugal e do Chega mesmo antes de André Ventura chegar. Foi das mãos de um desses elementos que saíram 80 euros diretos às mãos de André Ventura.
Recuemos na fita do tempo. O Chega está no mercado de Vila Real, que está longe de estar cheio de feirantes e clientes porque não é o principal da semana. O presidente do Chega vai fazendo o que faz sempre: tira fotografias, cumprimenta, faz curtas perguntas, promete a vitória e segue em frente. Mas parou mesmo em frente a uma banca com pinturas feitas à mão. O líder do Chega gostou de uma. É a filha da feirante que desenha. Nem é muito comum, mas Ventura quer levar para casa. Tira do bolso o cartão multibanco. Mas o pagamento só pode ser em dinheiro. Ventura promete voltar mais tarde, “quando?”, questiona a mulher.
Há um burburinho atrás. E há quem já esteja de notas na mão para safar Ventura, que resolve perguntar o valor é o quadro. Eram 100, faz 80. Na cara de Ventura transparece que o preço está bem mais caro do que esperado. Mas as notas já voaram de mão em mão até ali chegarem. Não há volta a dar, se há dinheiro não há motivo para dizer que não. Ou talvez haja. Pediu um recibo, a senhora disse que não passava. “Tem de ser com recibo, senão não pode ser”, atira o ex-inspetor da Autoridade Tributária. Safou-se e ficou com os 80 euros no bolso. Tudo para não desmarcar a tese de que é dos que cumprem. Mais um cântico, siga a banda.
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Iniciativa Liberal. Provar em Leiria que o voto útil não existe, o corte de cabelo de Rodrigo Saraiva e a fuga ao termo radical
Rui Rocha mastiga pensativamente a sua torrada. Enquanto o faz há toda uma sessão de brainstorming a decorrer, também alimentada a pastéis de nata e néctar de frutas. É hora do lanche e os principais responsáveis da IL que andam na estrada estão reunidos em volta de uma mesa, numa pastelaria pombalense, para trocar ideias para os discursos noturnos. É uma noite importante: os liberais apostam as suas fichas numa eleição inédita pelo círculo de Leiria e têm marcado para dali a duas horas um dos maiores jantares-comício na cidade, pelo que o cabeça de lista, André Abrantes Amaral (colunista do Observador até à campanha), também integra o grupo. Além da torrada, Rocha está munido de um bloco onde vai apontando ideias. Primeiro ouve e pede contributos, mas vai ficando cada vez mais interventivo — e depressa se percebe que já tem na cabeça uma ideia bem definida para o discurso da noite, da qual não se desviará muito.
O primeiro passo é saber “do que é que o André vai falar”, para que se possam coordenar os discursos. São sempre rápidos, num modelo que se repete todas as noites: menos de dez minutos para o cabeça de lista do distrito, dez a quinze para Rocha, ouve-se a “We will rock you” dos Queen a aquecer a sala no início dos discursos e a “Free from desire”, adaptável a cânticos de clubes ou de partidos, a marcar o final e a libertar os comensais para começarem a comer a sopa. Abrantes Amaral menciona temas nacionais e críticas à “irresponsabilidade” dos partidos que deixaram cair o Governo, mas Rocha está convicto de que é preciso que foque o discurso em temas que toquem especificamente o distrito, pedindo que a mensagem seja “concreta”.
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Batem-se bolas, dão-se novas dentadas nas torradas e nos pastéis, lembram-se casos de falhanço no distrito (em 1952 a viagem de comboio até Lisboa demorava 1h39, agora 1h35, só se ganharam quatro minutos, conta o cabeça de lista), e o secretário-geral, Miguel Rangel, de computador à frente, sugere que se “dê o salto”: depois de apontar problemas, é preciso apontar propostas concretas para os resolver. “Podemos salientar a crítica da visão curta, mas convém ter proposta”, nota Rocha. “Sendo eleito em Leiria vais ser o campeão de quê? Temos de dar sentido ao voto”.
O assessor, Vítor Lopes, concorda que é preciso “aproveitar a oportunidade para dizer porque é que é importante eleger em Leiria”. A insistência não surge do nada, como Lopes recorda logo a seguir: a IL nunca estabelece, nesta campanha, fasquias numéricas — depois de na última ter falhado as que estabeleceu — mas é clara no desejo de passar a eleger em Leiria, porque acredita que essa eleição está mesmo ao seu alcance. “Sem pressão”, graceja o assessor.
A televisão da pastelaria liga-se de repente, espantando o grupo, ao mesmo tempo que o dirigente Rodrigo Saraiva volta do barbeiro — indicaram-lhe uma barbearia onde “só há liberais” e parece que era mesmo verdade, Rui Rocha até improvisou uma incursão para cumprimentar simpatizantes — e se junta à mesa. “Como é que demoraste uma hora e meia para cortar o cabelo? Nota-se uma grande diferença…”, brinca Rocha, fazendo rir a mesa toda (uma vez que Saraiva não terá muito cabelo para cortar).
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É neste momento que a conversa passa para Rocha, a quem Lopes pergunta “qual é o feeling” do dia. Rangel recorda: durante o dia registaram-se referências “em barda” do PS a rotular a IL como radical (“e novidades?”, atira Saraiva), Margarida Balseiro Lopes apelou ao voto útil em Leiria, disseram-se “mentiras” sobre o alegado programa extremista da IL. É esse um dos pontos que os liberais precisam de combater com mais vigor, conscientes de que essa imagem pode passar com eficácia.
“O apelo ao voto útil é natural. Já não é tão normal mentir sobre o programa dos outros partidos”, sentencia Rocha, acrescentando que existe a preocupação de que, “pela insistência, a ideia de radicalismo possa estar a colar-se” à IL. “Mentiras”, vai garantindo a equipa, que é também composta pelos dirigentes Pedro Almeida e Jorge Teixeira, e que também vai discutindo soluções para esse risco — será preciso voltar a insistir que as soluções dos liberiais não são um devaneio e que já foram testadas noutros países?
Depois de o assessor avisar que Rui Tavares voltou, como tem sido frequente, a lançar uma provocação aos liberais (ambos os partidos tiveram ações que envolveram pedalar em bicicletas nesta segunda semana, mas Tavares diz que a sua “anda mais” do que a da IL), Rangel remata — “mais um dia com toda a gente a falar da IL” — e Rocha graceja: “Está bem, Rui, leva lá a bicicleta”. A entourage ri-se. Mas é hora de entrar na substância do discurso de Rocha.
E essa parece estar mais ou menos alinhada na cabeça do líder, ainda que este peça contributos e reaja de forma ora mais afirmativa, ora silenciosa — e aponte alguns no seu bloco. A conversa passa a centrar-se na resposta que deve ser dada ao PS. O assessor pede um “soundbite“, alguém atira que a IL é “radical na defesa das suas propostas”, mas Rocha não gosta: isso seria estar a assumir o termo “radical”, usado por Pedro Nuno Santos. Quer “manter o pingue-pongue” com o PS, mantendo-se no centro da campanha, mas pensar no que é preciso transmitir agora, a “48 horas” (wishful thinking, falta mais um bocadinho até domingo) das eleições.
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Rocha desvenda o seu pensamento: “Falta derrotá-lo na resposta”. “Ele” é Pedro Nuno Santos. É preciso colocá-lo na posição de derrotado, dar o passo em frente e assumir que a direita vai mesmo governar, aproveitando a dinâmica de vitória de que goza nesta altura. “Desafiá-lo a dizer o que fará na posição de derrotado. Vai ser oposição responsável ou de bloqueio? Isso já é consumar a derrota. Agora que estamos a chegar ao dia…”. Alguma discussão sobre cenários eleitorais depois, e sempre com Rocha a conduzir a conversa e a puxar pelos intervenientes (“Como é que dizias isso? Como é que defendias isso?”), a conversa é dada por concluída. Rocha já tem o fio condutor do discurso definido na sua cabeça, como se comprovará horas depois, quando os cerca de 180 participantes estiverem a minutos de optar entre as bochechas de porco e o risotto de cogumelos. Abrantes Amaral foca-se, de facto, na mensagem que quer deixar a Leiria, prometendo que vai “fazer a diferença” se for eleito.
É o momento de deixar Rocha pensar — costuma ter um bocadinho sozinho, depois destas reuniões de equipa, para organizar as ideias, enquanto o grupo vai discutindo a melhor hora para conseguir entrar nos diretos das televisões. Os discursos só costumam passar em direto se forem proferidos depois das 21h, coisa que nem sempre acontece, mas também não é necessariamente dessa forma que a campanha é pensada: habitualmente, numa campanha cujo lema é “acelerar”, mas cujo ritmo é soft para os parâmetros dos períodos eleitorais, a manhã é aproveitada para ações TV-friendly (Rui Rocha a fazer ovos moles, Rui Rocha a andar de barco e por aí fora); à tarde costuma visitar empresas de vários setores e tamanhos, e à noite é a vez dos comícios e de algumas ações com jovens, com direito a distribuição de cerveja gratuita e música de discoteca emitida a partir das colunas do autocarro azul que segue a comitiva. Há visitas a um hospital privado ou a uma escola com contrato de associação, mas pouca rua — muito poucas arruadas ou visitas a mercados — e mais contacto com militantes do que com a população no geral.
Pelo meio, antes das declarações aos jornalistas, Rocha rodeia-se deste grupo para definir a mensagem que deve passar em cada momento. Dependendo do dia, tem a companhia de responsáveis e candidatos do partido como Mariana Leitão (mais frequente), Carlos Guimarães Pinto ou João Cotrim Figueiredo. E vai seguindo na sua carrinha preta, rodeado pelo núcleo duro, sem conseguir dormir — só dorme em viagem quando está mesmo muito cansado — e a ler coisas leves. Até 18 de maio não haverá cabeça para muito mais.
BE. A preferência pela Super Bock, as associações ‘controladas’ e a impressora dispensada
O pequeno auditório do Theatro Circo, em Braga, tem espaço para cerca de 240 pessoas. O Bloco de Esquerda escolheu o espaço para aquele que seria um dos maiores da campanha para as legislativas de 18 de maio — a noite dedicada ao regresso de Franciso Louçã. Mais vale um pequeno auditório cheio do que uma grande sala a meio gás, especialmente quando as televisões estão presentes. E quando as estimativas falham, é precisa criatividade.
As longas filas que se formavam à porta do Theatro Circo eram o sinal que não caberiam todos na sala que o Bloco tinha escolhido para o evento da passada terça-feira. Quando a organização do evento se apercebeu da falta de lugares, arranjou rapidamente uma solução: em vez de um apenas um, o Bloco faria dois comícios na mesma noite.
Antes do comício que estava na agenda partidária começar, Mariana Mortágua e Francisco Louçã discursaram para aqueles que ficaram de fora, sem os que de dentro se dessem conta. O número inesperadamente elevado de pessoas que queriam assistir ao comício com o antigo coordenador do partido é atribuído às pessoas encontradas na campanha porta-a-porta do distrito de Braga. Um elemento presente tinha uma coluna e um microfone consigo e Mortágua e Louçã ensaiaram com aqueles que ficaram de fora algo próximo do que diriam aos que já os esperavam dentro do auditório.
Também na corrida em Lisboa, que o Bloco de Esquerda realizou no passado sábado, o número de participantes ultrapassou as expectativas. Numa iniciativa para exigir maior justiça fiscal, Mariana Mortágua seria novamente a protagonista. O percurso tinha 3,5 quilómetros. A coordenadora do Bloco de Esquerda terminou a corrida antes sequer dos jornalistas das televisões, que se deslocavam da partida à meta de carro chegarem ao destino para a filmar. Chegando à meta refez o percurso para trás, foi ao encontro do corredor que estava na última posição e acabaria a corrida com essa pessoa.
À tarde do mesmo sábado, no Porto, Mortágua não tomou partido no dérbi que parou a campanha. Depois da presença numa entrevista com o humorista Guilherme Geirinhas, tornou-se pública a capacidade que a líder bloquista tem de identificar vários tipos de cervejas, às vezes, sem mesmo ter de as provar ou sequer ver. Nessa tarde, diante de uma câmaras de uma televisão que a acompanhou as suas reações a todos os momentos do jogo, Mortágua acabaria mesmo por pedir uma Super Bock, mas sem álcool.
Estes episódios mostram que a coordenadora do Bloco conseguiu manter os bons hábitos durante a campanha eleitoral, mantendo a abordagem em tudo parecida ao que o partido procurou estas eleições. Muitas das atividades realizadas pela caravana bloquista foram realizadas com pessoas ou grupos e associações com o quem já existiam e são mantidas relações políticas. Ou seja: as pessoas expostas ao contacto com os jornalistas foram sendo controladas.
No Porto, a caravana do Bloco parou para visitar a associação de moradores do Bairro do Aldoar. Assustados pelas câmaras, foram poucos os residentes daquela área que acabaram por ficar naquele espaço durante a visita de Mariana Mortágua. Quem não teve problema em falar com a imprensa foi a ‘dona Esmeralda’, a presidente da associação que distribui refeições e acolhe os moradores que precisa. Pormenor: era também militante do Bloco de Esquerda e já sabia previamente que iria estar com jornalistas. E não seria a única próxima do partido a merecer uma visita durante a campanha.
Noutro dia, em Loulé, a caravana parou à frente da câmara municipal para acompanhar o protesto de um grupo de cidadãos chamado “Não derrubem as casas”, que luta contra as demolições planeadas pelo município de casas pré-fabricadas que alguns habitantes instalaram nos seus terrenos privados. Um deles, Tiago Grosso — que foi apresentado à imprensa como porta-voz do movimento — explicou que esta era a única opção para muitos habitantes da zona, devido ao aumento dos preços das casas e rendas. Já após o fim daquele encontro que os jornalistas ficaram a saber que Grosso, não só era porta-voz daquele movimento independente como, em 2021, tinha sido candidato bloquista à câmara contra a qual naquele dia protestava. O “cidadão” era afinal um antigo candidato bloquista.
Os contextos mais pequenos que marcaram a campanha destas eleições tornaram injustificada a impressora no carro que Mortágua utilizava (em 2024) para imprimir os seus discursos, durante as viagens. Ainda assim, o carro continua a ser um espaço de trabalho, onde são discutidos e escritos os discursos, desta vez, manuscritos num bloco de notas. A comitiva do Bloco é composta apenas por três viaturas: uma para a equipa de produção, outra para a da comunicação e uma para Mortágua e o seu núcleo duro. Nesta última, viaja sempre acompanhada pelo seu diretor de campanha João Curvêlo, pelo condutor Luís Costa, que fica também encarregue de questões logísticas da caravana, e, dependendo da zona do país, por algum elemento da direção do partido que esteja mais presente nas ações de campanha do dia.
CDU. A campanha a régua e esquadro que tem um novo microfone de lapela e enfrentou um furo no pneu
O dia é 8 de maio. A campanha da CDU faz (mais um esticão) na estrada para ir almoçar ao quartel dos bombeiros voluntários de Beja, depois de ter terminado a noite anterior em Espinho. O dia apenas terminaria no Algarve, em Faro, durante a noite.
Quando a agenda é apertada, não é raro que a comitiva que acompanha Paulo Raimundo se desdobre pelas mais variadas ações. Foi o que aconteceu. Depois de o almoço em Beja, parte da comitiva arrancou mais cedo para chegar ao Algarve (onde Paulo Raimundo iria participar no programa Prova Oral de Fernando Alvim para a Antena 3) antes do comício noturno. Mas só metade da comitiva chegou a tempo da entrevista (um dos carros ficou encostado, à berma da autoestrada, com um pneu furado).
É um dos (muito) escassos exemplos de algum incidente que fuja ao controlo de quem comanda a campanha de Paulo Raimundo. O secretário-geral apresenta-se mais à vontade, nas arruadas e nos discursos, e este ano tem uma novidade. Em todas as arruadas, Raimundo desfila com um microfone de lapela preso nos botões da camisa (algo que não aconteceu em 2024). É um exemplo do foco que o PCP está a dar às redes sociais. Além do microfone, seguem o líder comunista uma equipa de fotógrafos e videógrafos do partido (em todas as arruadas, mas principalmente as que envolvem um possível eleitorado mais jovem, como foi o caso na secundária António Arroio e na Universidade de Lisboa).
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Quando se esquece do dito microfone, como aconteceu por exemplo no Barreiro, um assessor apressa-se a entregá-lo ao secretário-geral. Resumindo, não há uma arruada sem o dito microfone de lapela. Nos ditos “contactos com a população” e “desfiles”, Raimundo é seguido por dois homens, sempre atentos, vestidos com blazers e com auriculares transparentes nos ouvidos (é parte da comitiva que ajudou a afastar o homem que exigiu a Paulo Raimundo que condenasse a invasão da Ucrânia) , mas não são descritos como seguranças: são antes “camaradas” que dão “apoio na articulação logística” das ações de rua. Ou seja, seguem o secretário-geral e recebem informação de outros pontos da comitiva.
Nas pausas das ações de campanha, Raimundo é acompanhado pelo seu círculo duro. Não há um cigarro que fume sem um camarada de partido, nem uma viagem de carro que faça sozinho. Nos discursos, há sempre alguém atento ao copo de água do secretário-geral (quer seja de cartão ou de vidro) e o vai encher, (quase sempre) mais que uma vez.
A campanha, em si, é organizada a régua e esquadro. Além de pequenos e pontuais atrasos na partilha do roteiro com os jornalistas (os locais exatos, muitas vezes apenas eram comunicados na véspera), a comitiva apenas teve como percalço (e ainda antes de se fazer à estrada) o apagão. Obrigou a alguns atrasos, já na agenda de pré-campanha do principal candidato, desde logo uma visita aos Açores que acabou por não acontecer, assim como uma entrevista — prevista para esse dia — que teve de ser adiada e obrigou a atrasar outras ações de campanha.
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Livre. Uma campanha feita na rua, as deslocações de transportes e o único restaurante a ser repetido
É a primeira vez que o Livre volta à estrada desde que conseguiu eleger o primeiro grupo parlamentar nas eleições legislativas do ano passado. Nesta campanha, o partido aposta em fazer comícios e foca-se em realizar ações maioritariamente na rua, como visitas a mercados ou feiras. A estratégia não é nova, mas, anteriormente, existia uma maior intercalação com visitas a empresas ou associações. “Desta vez, como tínhamos muito maior mobilização e mais pessoas, fizemos mais campanha na rua do que tradicionalmente”, afirma Tomás Cardoso Pereira, assessor do Livre, em conversa com o Observador.
Uma campanha maior, com mais contacto com a população, requer também mais “materiais de propaganda”, como panfletos. Mais quantidade e mais investimento, mas os mesmos desafios (ainda que numa “escala maior”): planear com antecedência e garantir que os fornecedores não se atrasam. O dia do apagão, que afetou Portugal e Espanha, fez com “algumas das coisas se atrasassem um ou dois dias”. Ainda assim, o Livre conseguiu ter todos os materiais prontos “até com mais antecedência do que é costume”.
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Na estrada é difícil manter uma rotina, tanto que a caravana do partido apenas conseguiu almoçar duas vezes no mesmo restaurante ao longo dos últimos dias. O Manjar do Marquês, numa estrada nacional paralela à A1, em Pombal, foi o eleito. As noites foram mais constantes, a maioria por Lisboa para que Rui Tavares conseguisse dormir em casa e ver os dois filhos pequenos, Elias e Helena.
Para as ações do Livre pela capital, o porta-voz recorre às bicicletas Gira, ao metro ou ao comboio. Este último meio de transporte também foi utilizado em algumas das vezes que a caravana rumou ao Porto. O carro só foi utilizado em último recurso, quando as deslocações não podiam ser feitas com a ‘ajuda’ dos transportes públicos. O condutor de serviço era Tomás Cardoso Pereira. E a banda sonora? Não há.
“Gostamos de ir a conversar nas viagens, portanto não ouvimos propriamente muita música. Ouvimos alguma música brasileira, mas vai sendo muito interrompida por chamadas e por conversas”, explica o assessor, que adianta que Rui Tavares “consegue sempre ler”. Ainda que, admite, o próprio pudesse discordar e dizer que não, se a pergunta lhe tivesse sido feita diretamente. “Não está a ler efetivamente tanto quanto gostaria e conseguiria numa altura normal, mas vai sempre lendo. É uma coisa que, para ele, é essencial todos os dias.”
Além das leituras, Rui Tavares encontrou também espaço para continuar a escrever para a Folha de São Paulo, jornal brasileiro em que mantém uma crónica. Fora isso, o foco está exclusivamente na campanha, em que a Iniciativa Liberal tem sido um dos alvos preferenciais das críticas. Ao longo dos últimos dias, o Livre tem insistido na ideia de que a IL é o partido “do motosserismo” porque, considera Rui Tavares, pretende “cortar cegamente os direitos” dos cidadãos. Existiram ainda acusações de que os liberais são “extremistas” por quererem uma revisão constitucional.
O porta-voz também não tem escondido que quer disputar o quarto lugar destas legislativas com o partido liderado por Rui Rocha. Se não for possível já no dia 18 de maio, que seja no futuro. “É uma questão de tempo esse objetivo, o caminho está a ser feito”, afirmou Rui Tavares em Setúbal, um dos vários distritos a que levou a campanha do Livre.
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PAN. Dos snacks saudáveis (e ocasionais fugas à dieta) ao desejo pós-eleitoral de “mais tempo” para hobbies
Com uma campanha eleitoral convocada com menos antecedência do que a anterior, o PAN aposta as fichas todas nos distritos onde acredita que pode resgatar o grupo parlamentar que perdeu há três anos. Por isso, e apesar de a caravana já ter rumado a Braga, Setúbal, Aveiro, Faro, Famalicão ou Coimbra, o grande foco tem estado em Lisboa e no Porto, distritos onde habitualmente alcança melhores resultados.
Com a correria típica destes dias, Inês Sousa Real não descura os snacks. “Ando sempre com a minha lancheira atrás”, confessa ao Observador. Iogurtes líquidos vegetais, frutos secos, fruta, barritas ou bolachas são as escolhas de eleição, mas nem sempre é possível manter a “dieta”, principalmente quando passa por “algum sítio que possa ter sobremesas veganas”. A porta-voz do PAN mantém uma alimentação livre de produtos de origem animal, mas isso não tem sido um problema na estrada.
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“Tem sido fácil alimentar-me. Felizmente, temos hoje muito boas opções no país todo. Só se torna difícil e recorremos a fast food quando efetivamente o tempo de campanha aperta ou quando, às vezes, alguma ação demora mais tempo do que o previsto”. Foi precisamente o que aconteceu no dia em que falou com o Observador, em que teve de recorrer a uma pizza vegana para almoço, mas mantinha a esperança de jantar uma refeição caseira (possivelmente uma carbonara vegetariana).
De uns distritos para os outros, Inês Sousa Real viaja num carro com uma equipa fixa composta por três pessoas (a que se junta, depois, uma comitiva que vai variando e que a acompanha nas diferentes ações) e mantém-se em contacto com quem está na rua, desde os outros cabeças de lista às pessoas que entregam panfletos ou até origamis, em que o partido começou a apostar nesta campanha.
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No meio da azáfama, “as saudades do Mikas apertam sempre”. O gato, fiel companheiro da porta-voz do PAN, já tem 15 anos e, para além da idade, está “bastante doente”. “Felizmente, tem uma tutora que o cuida e que se preocupa com ele, mas sabemos que essa não é a realidade de todo o país”, afirma, lembrando que tem visitado várias instituições que têm animais a seu cargo. Apesar de uma das grandes bandeiras do PAN ser a defesa da criação de um SNS animal, não só disso se tem feito a campanha.
Inês Sousa Real tem encontrado espaço para defender as vítimas de violência doméstica, pedindo o alargamento do prazo de denúncias desses crimes, o referendo à tauromaquia ou uma licença parental alargada a seis meses e remunerada a 100% ou para denunciar as falhas nas políticas para a habitação. Sem tempo para os hobbies a que habitualmente se dedica, deixa um desejo pós-eleitoral: “Espero depois do dia 18 de maio, depois de já ter o grupo parlamentar, ter mais tempo para os meus hobbies, não só ler, como ouvir música e correr. Gosto muito de praticar desporto. Espero ter mais tempo para me voltar a dedicar um bocadinho mais àquilo que é a minha vida pessoal.”