Na candidatura de António José Seguro existe a convicção de que o apoio oficial do PS veio tirar gás à ideia do candidato independente que o socialista queria explorar. Ainda assim, o candidato que se proclama “suprapartidário” conhece bem as valências da estrutura partidária num terreno de campanha e já ativou a máquina socialista, de norte a sul do país.

Alguns contactos foram feitos pela candidatura ainda durante o verão, com vários líderes distritais do PS a contarem ao Observador que existiram logo conversas para pedir ajuda na recolha de assinaturas necessárias para oficializar, junto do Tribunal Constitucional, a candidatura de Seguro a Belém. E a dinâmica manteve-se depois, com o ex-líder socialista a recorrer novamente ao partido para ajudar à mobilização nos distritos.

“A maioria, se não a quase totalidade, dos diretores de campanha locais são do PS”, confirma ao Observador o diretor de campanha de Seguro, Paulo Lopes Silva. A verdade é que é mesmo a totalidade dos representantes locais da candidatura que tem uma ligação ao partido.

O próprio diretor de campanha é deputado do PS, eleito pelo círculo de Braga, e dirigente do partido em Guimarães. Conheceu Seguro quando este foi o cabeça de lista do PS por Braga, o que aconteceu nas legislativas da era de José Sócrates no PS (nas eleições de 2005, 2009 e 2011). Ao Observador explica que — se na escolha de mandatários da candidatura a ideia foi procurar “perfis mais independentes”–, já no caso das estruturas operacionais a lógica é aproveitar a capacidade instalada no terreno — sobretudo com recurso a autarcas ou antigos autarcas, como se vê na lista de representantes locais da candidatura.

Em Aveiro, por exemplo, Seguro convidou Rodolfo Andrade, presidente da Junta de São João da Madeira, para dirigir a sua campanha no distrito. Em Faro, tem o deputado e vereador da Câmara, Paulo Neves, nessas funções. Em Évora, chamou o presidente da Câmara do Alandroal, João Grilo; no Porto, o presidente da Câmara de Santo Tirso, Alberto Costa; em Viana do Castelo o presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira. Algumas destas figuras estão na estrutura de campanha desde o início, de acordo com o diretor de campanha que entrou em funções em agosto passado.

A candidatura de Seguro pretende seguir o modelo tradicional no período da campanha oficial (de 4 a 16 de janeiro), ou seja, a ideia é ter o candidato a correr todos os distritos — sem passar pelas ilhas, onde esteve em pré-campanha. E com a aposta principal nos “contactos com a população, da forma mais abrangente possível e com o máximo número de pessoas”, diz Paulo Lopes Silva. Ora, rua e “sessões” com pessoas, são iniciativas que exigem mobilização local e é aqui que Seguro conta com os operacionais do PS no terreno.

Corrida contra o tempo perdido com “deriva”

“Se o PS se unir, mesmo não estando na sua melhor performance, bastará para António José Seguro passar à segunda volta”, acredita Hugo Oliveira, presidente do PS-Aveiro que espera, a partir de agora, “uma intensificação” do empenho do partido: “É o natural e desejável“. Em Portalegre, Luís Testa também nota um “crescendo assinalável na mobilização do partido nas duas últimas semanas”. Seguro “esteve bem nos debates e isso deu algum ânimo aos socialistas mais desconfiados”, assinala Luís Dias, que lidera o PS-Évora.

Mas também há o sentimento de um arranque tardio e de um certo empastelamento da máquina no terreno, para o qual deu um grande contributo “à deriva em relação a Seguro”, como lhe chama um dirigente do partido. O mesmo que defende, em conversa com o Observador, que “quer o PS quer Seguro terão chegado tardiamente à conclusão de que valia a pena um casamento sólido” e, agora, é preciso perceber que “não se ativa a estrutura por gatilho“. “Houve uma indiferença da parte do PS que não houve nos outros e isso prejudica o candidato”, acrescenta ainda outro dirigente local sobre esta mesma partida atrasada e pouco firme.

“Era preciso mais envolvimento do PS que levou muito tempo a tomar a decisão [sobre as presidenciais] e muito tempo a sublinhar que o timing era diferente. E agora tem-se menos tempo para a mobilização de eleitores e militantes”, conclui a mesma fonte num tom crítico face à estratégia de José Luís Carneiro. Mas há também quem, no PS, aponte o dedo a Seguro, garantindo que “o partido está disponível: não é o partido que está em falta, é preciso que o candidato queira ser ajudado”.

O avanço da candidatura de António José Seguro esteve, desde início, envolto em controvérsia, com parte do partido (sobretudo a ala costista) a rejeitar que fosse uma boa solução para Belém. Muitos mantêm posição, como Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva ou Pedro Delgado Alves, e dificilmente mudarão esta linha até à data das eleições.

A divisão interna fez com que José Luís Carneiro empurrasse o assunto para a frente, para depois das autárquicas, e também fez com que a oficialização acontecesse numa base mínima: uma reunião da Comissão Nacional sem história e sem chama e uma declaração minimalista à porta. O que é certo é que também ninguém parecia muito preocupado em puxar pelo assunto, nem o partido, nem o candidato que, pelo meio, ainda se embrulhava em hesitações sobre o seu esquerdismo.

Nas duas últimas semanas, o líder do PS apareceu mais em público em defesa da candidatura de Seguro, como o candidato apoiado pelo PS — nomeadamente depois do debate televisivo onde Gouveia e Melo reclamou para si apoios no partido. Mas Carneiro não se limitou a isso e pediu mesmo a mobilização dos socialistas, o que ainda não tinha feito até agora, já que a proclamação do apoio oficial se tinha mantido a uma distância higiénica do candidato que se queria “suprapartidário”.

Na candidatura de Seguro, o apoio oficial do PS é hoje referido como um momento que acabou por prejudicar a ideia do candidato acima dos partidos, que o antigo líder socialista vinha a tentar protagonizar. O debate com Gouveia e Melo (objetivamente independente, ao contrário de Seguro que continua a ser militante do PS) foi, por isso mesmo, colocado como um momento decisivo para a afirmação do candidato. No confronto, Seguro procurou puxar para si o eleitorado PS, mas também desacreditar a independência do almirante, com referências ao mundo partidário que o rodeia e aos encontros que este manteve com os líderes do CDS e do Chega, na preparação da sua candidatura a Belém.

Seguro e Gouveia e Melo travaram duelo para conquistar uma dama chamada PS

Mesmo com uma leitura que pode ser tendencialmente positiva sobre a prestação de Seguro nos debates televisivos, no terreno socialista descreve-se uma “fraca adesão” geral das pessoas às eleições que aí vêm, pelo menos até agora. “Com ou sem partidos, não há uma adesão visível”, comenta um dirigente do norte do país. E João Portugal, do PS-Coimbra, alerta ainda para a especial dificuldade em “mobilizar estruturas partidárias” numas presidenciais, “quando não há tanta campanha feita porta-a-porta e depende mais da presença do candidato no território”.

E o ponto de partida do candidato, não tem ajudado a animar as hostes — só esta semana surgiu uma sondagem (da Pitagórica) onde se aproxima da frente. “Percebe-se pelas sondagens que o tempo que o PS demorou a assumir o apoio faltou para a mobilização de pessoas”, volta a comentar um dirigente socialista de dedo apontado à estratégia socialista.

O lugar do PS tem estado condicionado ao terreno, embora a candidatura esteja a contar com a presença de alguns notáveis do partido durante a campanha. Um dos nomes que António José Seguro espera que venha a apoiá-lo publicamente nos próximos dias é o ex-líder do PS Pedro Nuno Santos. No quadro da escassez de antigos líderes do partido ao seu lado, o apoio de Pedro Nuno será o menos surpreendente, tendo em conta que foi ele mesmo que, ainda enquanto líder, acabou por lançar a candidatura presidencial de António José Seguro.

Já Eduardo Ferro Rodrigues, outro dos poucos ex-líderes em condições de prestar este apoio (Costa e Guterres, por exemplo, estão no exercício de cargos internacionais) mantém o silêncio sobre o assunto e a última declaração que fez foi recuada qb em relação a Seguro.

Apesar de tudo, a lista de apoios vindos do partido tem engrossado, e ainda na semana passada, num almoço com apoiantes, Seguro teve ao seu lado nomes socialistas relevantes — sobretudo quando se fala no futuro do partido — como Duarte Cordeiro, Fernando Medina e ainda Alexandra Leitão, que mantinha a sua posição sobre as presidenciais reservada até agora. E ainda no final de outubro considerava poucochinha a afirmação de Seguro à esquerda, ao dizer, no programa da CNN Portugal “O princípio da incerteza”, que “às vezes, em algumas respostas, António José Seguro passa uma imagem contraditória a quem se considera um eleitor de centro-esquerda”. “Era importante que António José Seguro, como em 1986 fez Mário Soares, ocupasse o espaço do centro-esquerda, que é o seu espaço natural e de uma forma clara”, disse então. Pouco mais de um mês depois destas declarações, parece estar convencida.