A última sondagem trouxe um detalhe que condicionou todo o debate desta terça-feira na SIC: o eleitorado do PS está partido ao meio entre Gouveia e Melo e António José Seguro. Embalados por esse detalhe, ambos orientaram o duelo para tentar conquistar a mesma dama, com a troika, encontros noturnos e até o fundador do Partido Socialista metido ao barulho.
António José Seguro foi o primeiro a piscar o olho ao PS, assente na teoria de não colocar os ovos todos no mesmo cesto, para dizer que para o sistema não estar desequilibrado é preciso que o “campo político” que representa esteja nos órgãos de soberania. Gouveia e Melo entrou logo ao ataque, a apontar à falta de liderança do adversário: “Portugal está à procura de um líder porque a Presidência é liderança. Seguro não é um líder para os tempos modernos. Mário Soares há 11 anos disse isso de forma clara: que era inseguro e que os seus eleitores não deviam confiar em si.” Chegou a definir o ex-líder socialista com um “candidato nem-nem: nem líder, nem independente”.
Antes ainda de responder à falta de apoio dentro do PS, Seguro atacou o estilo de liderança de Gouveia e Melo para dizer que a “grande diferença” entre ambos é que ele — ao contrário do almirante no caso NRP Mondego — não utiliza “o poder para humilhar os seus subordinados, o que o desqualifica para Presidente da República”. O ex-chefe de militar disse que o comentário de Seguro é que o desqualifica para Comandante Supremo das Forças Armadas e que o comportamento dos “revoltosos” colocava em causa a “disciplina nas Forças Armadas”. Seguro contra-atacou: “Não é o comportamento deles que está em causa, é o seu. O comportamento do almirante não respeitou a dignidade humana. Foi à Madeira, levou as televisões, fez humilhação em público sem que aqueles homens se pudessem defender.”
Gouveia e Melo não desistiria também de piscar o olho à ala não-segurista do PS, lembrando a famosa abstenção violenta de Seguro ao OE de Passos Coelho: “Tinha uma maioria absoluta que não precisava que o senhor se abstivesse num OE que passou leis inconstitucionais, que prejudicaram a população. E quando deputados da sua bancada tentaram levantar essas normas, o senhor opôs-se e até tentou levantar um processo disciplinar.” Seguro defendeu-se a dizer que colocou o “interesse nacional” acima de tudo e a atirar o almirante para um opositor do PS à esquerda, o BE: “Estava a ouvi-lo e parecia a Catarina Martins, que ela disse os mesmos argumentos” .
Mas António José Seguro também quis mostrar ao eleitorado do PS que Gouveia e Melo está mais próximo da direita do que dos socialistas. “Diz que é um candidato independente: quem foi reunir com o líder do CDS à noite num bar de Lisboa? O senhor. Quem foi almoçar num almoço secreto com o líder do Chega? O senhor. Quem escolheu como mandatário um ex-líder partidário do PSD? O senhor. CDS, PSD, Chega, todos juntos. É isso que o senhor representa.”
A provocação de Seguro levou o almirante a expor toda a sua estratégia de se aproximar ao PS e expor a falta de consenso que o ex-líder gera no partido: “Represento também outro campo político que é o PS. E sabe muito bem”. O ex-líder partidário disse atónito: “Ah, o senhor representa o PS?” Mas Gouveia e Melo continuou: “O senhor não representa uma fação do PS, nem consegue fazer o pleno no PS. Daí essa preocupação de me estar a atacar a mim.”
Seguro aproveitou a deixa para atacar o almirante noutra frente: a sua independência. “O Henrique Gouveia e Melo que dizia que era um candidato apartidário, acabou de dizer que representa o PS. Diz o que lhe apetece em cada momento. Transformou-se.”
No resto do debate foram também várias as vezes que Seguro tentou expor a inexperiência de Gouveia e Melo. Acusou-o de estar impreparado quando se referiu a “leis do Orçamento do Estado”, registando que o OE é, ele mesmo, uma lei. “Um pormenorzito“, defendia-se Gouveia e Melo. Também foi dizendo que o almirante é “uma aventura, um tiro no desconhecido“.
Os dois também pareceram atirar às próprias equipas. Luís Bernardo, que lidera a comunicação do almirante, conhece bem as fragilidades de Seguro, sendo natural que Gouveia e Melo tenha tentado explorar algumas. Também utilizou frases para soundbite (que Seguro classificou de “slogans vazios”), o que levou o ex-líder do PS a questionar: “Disseram-lhe para vir cá dizer isso?”
Sobre a legislação laboral, a Justiça e a Defesa os candidatos não discordaram muito, mas a primeira parte do debate já tinha sido definidora das diferenças de estilo e da estratégia de ambos. Os dois queriam muito conquistar o voto do PS e também encararam o debate como uma espécie de combate final. Resta saber — e isso fica para os comentadores — quem saiu mais amassado.
O diálogo revelador
António José Seguro (JS): O senhor não vai para Belém dar ordens aos partidos. O senhor tem que dialogar. Que experiência é que tem de diálogo com os partidos? Que experiência é que tem de diálogo com os governos? O que é que o senhor conhece do sistema de governo e do sistema político? Votar em si é uma aventura, é um tiro no desconhecido. Mais, que experiência é que o senhor tem das instituições europeias, que são fundamentais, que são cruciais? Aliás, um dos exemplos da sua de experiência, até de sensibilidade, foi que anuncia a sua candidatura numa semana de campanha eleitoral para as legislativas. Nem o tempo do Presidente o senhor sabe qual é. É isso que não o qualifica. Com todo o respeito, é isso que eu lhe quero dizer, olhos nos olhos.
Henrique Gouveia e Melo (HGM): Isto, mais uma vez, são argumentos que eu concedo de pequena política. Na realidade…
AJS: Mas porquê é que é de pequena política? Porquê é que é de pequena política?
HGM: Na realidade, eu vivi também do meu salário, e portando isso, estamos perfeitamente nas mesmas circunstâncias. Nunca me retirei perante um desafio. Fui sempre um líder respeitado. Pelos vistos, os seus parceiros não o respeitaram da mesma forma.
AJS: Portanto, isso é a grande política?
HGM: Não, não é a grande política, não é a grande política. Eu concretizei coisas muito complexas, negociei coisas muito complexas. Não julgue que tem mais experiência de negociar do que eu.
AJS: Mas o que é que negociou? O que é que isso qualifica?
HGM: Acordos internacionais, operações complexas com diversos países.
AJS: Não tem razão absolutamente nenhuma. Eu fui líder num momento difícil da vida do nosso país, quando o país estava sob assistência financeira. E mesmo quando era fácil tomar opções que me pudessem proteger, opções de natureza partidária, eu defendi sempre o interesse nacional. E isso custou-me muitas incompreensões, mas estive sempre do lado do serviço do nosso país (…) Eu sei o valor do compromisso. Liderar em democracia não é dar ordens. Liderar em democracia é fazer compromissos, alianças, promover consensos.
HGM: Eu estou [à altura do desafio], mas quem não está é o senhor. Porque o senhor é um líder para a estagnação.
AJS: Disseram-lhe em casa para dizer isso? O senhor só apenas diz slogans vazios que eu gostava que provasse. Por que é que eu sou um líder para a estagnação?
HGM: Eu vou tentar explicar. No momento da troika, o senhor tinha, do outro lado da governação, uma maioria absoluta que não precisava que o senhor se abstivesse no Orçamento de Estado que passou leis inconstitucionais, que prejudicaram a população.
AJS: O Orçamento de Estado não tem leis. Está a ver. O Orçamento de Estado é uma lei. Você não está preparado. Não, desculpe lá. O Orçamento de Estado é uma lei, não são várias leis.
HGM: Lá está outra vez a atacar com o promenorzito.
AJS: Não é o promenorzito. É que o senhor não está qualificado para ser candidato.
HGM: A lei do Orçamento de Estado, da altura, passou normas inconstitucionais que foram reprovadas no tribunal. E mais, o senhor, quando deputados da sua bancada quiseram colocar em questão essas normas, o senhor o opôs e até tentou levantar um processo disciplinar. Portanto, o que eu lhe posso dizer é que o senhor é um líder para a estagnação. Portugal precisa de um líder para a mudança.
AJS: E esse é o slogan que o senhor traz de casa. Sabe quando eu estava a ouvir com atenção o que é que me parecia? A Catarina Martins. Porque ela disse precisamente aqui os mesmos argumentos.
HGM: Então, se calhar é porque são verdade.