Os estragos provocados pelo mau tempo entraram pela campanha, com ambos os candidatos presidenciais a mostrarem vontade de visitarem alguns dos locais afetados, durante o período eleitoral. O tema é delicado, sobretudo quando o atual Presidente da República tem sido tantas vezes criticado por poder prejudicar as operações no terreno quando acorre rapidamente aos locais de acidentes. Tanto André Ventura como António José Seguro garantem dar prioridade aos trabalhos de socorro, mas a passagem eleitoral está pré-agendada na mesma.
André Ventura, antes de qualquer outro assunto do dia, mostrou-se solidário com as vítimas da tempestade Kristin, lamentando as mortes e as perdas de património por todo o país. “Espero poder, sem atrapalhar o trabalho das forças de Proteção Civil, visitá-los nos próximos dias e ver pessoalmente o que aconteceu e estar ao lado destas famílias”, antecipou o candidato presidencial que, minutos antes, tinha enviado a agenda de campanha para os próximos dias e onde se prevê uma passagem por Leiria, o distrito mais afetado.
Na época dos incêndios, André Ventura foi criticado após a partilha de um vídeo em que surgia a apagar pequenas chamas junto a uma árvore, quando se deslocou ao Fundão para distribuir bens aos bombeiros e estar junto da população. Questionado sobre o porquê de estar presente quando as chamas ainda deflagravam, o líder do Chega vincou que se deve “estar sobretudo quando as coisas começam a ficar descontroladas” e que “os políticos devem estar ao lado da população e mostrar, sem atrapalhar, que não estão sozinhos”. No mesmo sentido, criticou a gestão de Luís Montenegro e o facto de não ter ido logo ao terreno.
Agora, em plena campanha presidencial, no dia seguinte à passagem da tempestade Kristin, Ventura deve mesmo aproveitar a passagem por Leiria, esta quinta-feira, para colocar em prática o plano de perceber os estragos no terreno.
▲ Ventura esteve hoje num encontro promovido pela Universidade Lusíada
TIAGO PETINGA/LUSA
Também António José Seguro assumiu esta quarta-feira estar “a ponderar” visitar os locais atingidos pela intempérie. Em declarações aos jornalistas, à margem do almoço em Lisboa com personalidades da cultura que apoiam a sua candidatura, Seguro enviou condolências às famílias das vítimas do temporal desta noite e disse que tem estado em contacto com autarcas dos municípios afetados: “Tenho seguido com atenção o que está a acontecer no país e já falei com alguns presidentes de Câmara das regiões mais afetadas. Infelizmente já há cinco vítimas mortais a lamentar”, registou.
Numa altura em que tem trabalhado a postura presidencial — com uma agenda menos intensa do que na primeira volta e mais focada em temas concretos –, Seguro disse que vai “continuar a acompanhar a situação”. Já sobre se a presença de um Presidente atrapalha as operações, o candidato disse estar convencido de que “a Proteção Civil e os autarcas estão, neste momento, só focados em proteger as suas populações e proteger aquilo que é o património e rapidamente criar condições para que se volte à normalidade. Portanto, devem fazer o trabalho”.
Quanto ao Presidente, considerou que “deve ser responsabilidade acompanhar ao minuto, ao segundo, esta situação e pôr-se à disposição para poder ajudar a contribuir para que, de facto, exista uma rápida regularização.” A postura será diferente da que tem sido adotada pelo atual Presidente? Aí Seguro empurra para o exercício do cargo, se lá chegar: “Isso vamos ter que esperar.”
Debate. Adversários concordam que confronto permitiu traçar diferenças
O que Seguro acredita que ninguém precisa de esperar para perceber é aquilo que o separa do adversário na segunda volta. No dia que se seguiu ao debate entre os dois, o socialista acredita que “o país percebeu as diferenças” entre ele e André Ventura e declarou mesmo que “os portugueses não são extremistas. Os portugueses não são divisionistas.”
Até aproveitou o quadro que tinha reunido, no hub do Beato, em Lisboa, para entrar sobre o adversário. Tinha acabado de almoçar com cerca de 50 personalidades da cultura, que assinaram o Manifesto “Cultura Segura”, de apoio à sua candidatura. Na sala, estavam figuras como Manuel Alegre, com a filha e cantora Joana Alegre, o cantor Agir, a cantora Milhanas, Luís Represas, João Gil, Manuel Faria, Inês Pedrosa ou Rui Vieira Nery. Estava criado o contexto para dizer que “a cultura é precisamente um dos melhores antídotos contra o extremismo” e também que “reforça as condições para que os seres humanos consigam lidar com essas tentativas de manipulação que vêm para dividir e para lançar ódio na sociedade”.
▲ Seguro esteve a almoçar com apoiantes da área da cultura
JOSÉ COELHO/LUSA
Na mira do candidato apoiado pelo PS continuava o confronto da noite anterior, onde diz ter ficado “claro” que “há um candidato a Presidente da República [ele mesmo] e um líder partidário”. É para esse plano que sempre tenta remeter André Ventura e é também nessa condição que o quer ver a 9 de fevereiro, o dia seguinte à segunda volta das eleições. Se for Seguro o vencedor, garante que vai “manter intactas as relações institucionais com os atores políticos”, mesmo depois do clima quente eleitoral.
Nesta segunda volta da campanha, António José Seguro tem tido uma agenda bem diferente do seu adversário, com um menor número de ações de campanha por dia (sempre apenas uma) e sobretudo feita de encontros com especialistas de áreas concretas (como defesa, segurança e corrupção), mas esta quinta-feira o socialista vai acelerar e rumo ao norte do país, onde passará o último fim de semana antes da decisão final.
“What the fuck?” ou “Jesus“: a reação de Ventura à resposta de Seguro
André Ventura, que foi tendo agenda nos últimos dias, apesar de mais reduzida do que em período oficial de campanha, já colocou o motor a trabalhar e regressou esta terça-feira às duas ações por dia, modelo que marcou a primeira volta das presidenciais. Aproveitou o rescaldo do debate para concordar com António José Seguro num ponto em específico: “Ficaram claras duas visões do país muito diferentes e o debate cumpriu a sua função de mostrar dois candidatos com uma perspetiva muito diferente de país, de vida, de futuro.”
Insistindo no guião de que Seguro reflete uma “absoluta falta de ideias em relação a todos os assuntos”, Ventura recordou o momento em que o rival foi questionado sobre a regularização extraordinária de imigrantes para provar que Seguro “não faz a menor ideia do que está a fazer” e para criticar o adversário. Dentro de uma das sala da Universidade Lusíada, longe de estar cheia apesar do apoio de elementos jovens do Chega, o candidato a Belém foi mais longe nas palavras quando, de modo mais descontraído, contou o que lhe passou pela cabeça:
“Até foi o jornalista que lhe respondeu [que] pode promulgar, pode vetar, pode mandar de volta para o Parlamento. (…) Eu estou a pôr a questão teórica. Quer dizer, como dizem os ingleses, what the fuck? A pessoa pensa… que diabo, o que é que eu estou aqui a fazer, meu? Foi mesmo o que eu pensei, acreditem, não foi em inglês, foi… Mas passou-me assim esta expressão em português, tipo… Jesus!” Ventura usou o momento para assegurar que não se trata de respeito pela pessoa, mas que se trata de “falta de qualificação, de preparação, em relação àquilo que se quer fazer e à função de Presidente da República”.
Além das críticas sobre a alegada impreparação, o candidato apoiado pelo Chega acusou o socialista de achar que “já ganhou” e que “pode espezinhar, humilhar e fazer o caminho até à Presidência da República dizendo as generalidades porque supõe que pessoas não estão a votar por ele, mas contra” Ventura. “Podia estar no boletim André Ventura e anti-André Ventura”, exemplificou. Mais do que isso, disse aos jovens que ali estavam que “há quem diga que António José Seguro não é bem socialista, é uma coisa assim híbrida”, e alertou que “os piores socialistas são esses porque são aquela coisa morna que ninguém sabe o que defendem, mas depois vão fazer tudo aquilo que o livro de instruções manda”.
Ventura acabou mesmo por dizer que “António José Seguro não vai descansar enquanto o Partido Socialista não estiver de volta ao governo de Portugal” e alertou que é isso “que o centro-direita e a direita têm que perceber”, por considerar que “esta não é uma luta só circunstancial, é uma luta dos próximos anos do regime português”.
Por falar em centro-direita, Ventura tirou partido de uma pergunta para se atirar novamente aos adversários, mais especificamente a João Cotrim Figueiredo para dizer que “às vezes o ego é tão grande” que há a “incapacidade de ver que a luta transformou-se” e que “podemos gostar mais ou menos, mas só há dois candidatos, não há outro”. “No meio de uma luta presidencial, numa segunda volta, primeiro não ia apoiar ninguém, porque os votos são livres e não endossa votos a ninguém; depois, afinal, já não ia votar em mim, dando a entender que vai votar no outro candidato. E depois ainda foi criar um movimento no meio das eleições presidenciais, que ninguém quer saber porque estamos no meio de umas eleições presidenciais. É puro egocentrismo. Os portugueses não gostam de egocentrismo, não gostam de vaidade exagerada e tendem a penalizar aqueles que metem os seus interesses à frente dos interesses do seu espaço político.”
Antes de arrancar em força para outras partes do país, Ventura procurou esclarecer uma ideia que estreou no debate — que a nomeação do procurador-geral da República fosse feita “dentro da corporação do Ministério Público” — e defendeu que se deve “refletir” sobre o tema para se dar “à justiça a independência de não estar condicionada, limitada e permanentemente a tentar ser atropelada pelos partidos políticos e pelos políticos nas suas nomeações”. Notou que a ideia é “parecida com a que há em Itália, que é uma democracia” e deu o exemplo norte-americano em que “há uma eleição que não é também nomeada pelos políticos”.
Foi ainda a outro tópico para pedir que mudar a Constituição deixe de “ser um tabu”. Ventura considera que a Constituição “não está adaptada” aos tempos que se vivem e pretende que esta seja adaptada ao “país moderno, democrático e evoluído que queremos ser”. Para o tal “salto” que acredita ser possível dar e para o “romper” com o sistema, Ventura chamou Sá Carneiro à discussão, não por se considerar ser “herdeiro”, mas porque é “esse espírito reformista” que quer “trazer para a política portuguesa”.