António José Seguro saiu de casa e foi a pé até ao Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, onde várias centenas de pessoas o esperavam sentadas e de pé, num auditório a rebentar pelas costuras, para ouvir o seu primeiro discurso como candidato à Presidência da República. Numa plateia cheia, não contava com nenhum dos membros da atual direção do PS — de onde já saíram críticas duras a esta candidatura — mas a ausência serviu precisamente um dos propósitos de Seguro: dizer que a candidatura é apartidária, “livre” e sem amarras, num tempo em que ter currículo partidário parece uma desvantagem eleitoral.
Contou, ainda assim, com muitas figuras de proa da ala mais centro-direita do PS. E fez questão de frisar, enquanto falava da forma como desempenhará, se chegar ao Palácio de Belém, o papel de Comandante Supremo de Forças Armadas, que contava com patentes dos três ramos (Marinha, Exército e Força Aérea) na plateia, para lembrar que não será só o oponente Gouveia e Melo a contar com militares nas fileiras de apoiantes.
Num discurso longo — se Gouveia e Melo tinha discursado durante 16 minutos na sua apresentação, Seguro tinha 16 páginas de discurso para ler, também a partir de um teleponto colocado perto do púlpito onde se lia “Seguro Portugal” — o candidato socialista que a maioria da direção do PS não quer deixou mensagens sobre a sua postura “ética” na política, a necessidade de promover consensos interpartidários e os problemas que é preciso resolver para combater os populismos e a frustração de muitos portugueses que se sentem “excluídos”.
Na sala encontravam-se antigos apoiantes, que se levantaram com entusiasmo quando fez uma referência ao passado de guerra com António Costa, lançando o soundbite do dia: “Afastei-me quando podia dividir. Volto agora para unir”. Não seriam só elementos do PS, garante a candidatura, que garantiu que nas cadeiras se sentaram apoiantes de base que irão do Chega ao PCP.
Os apoiantes começaram por ouvir versos de Miguel Torga — num momento teatral, um ator subiu ao palco para fazer de Rafael Bordalo Pinheiro, que tal como Seguro escolheu as Caldas para viver; depois, elementos do público, incluindo a filha do candidato, Maria Seguro, leram o poema “Sísifo”: Recomeça…/ Se puderes/ Sem angústia/ E sem pressa./ E os passos que deres,/ Nesse caminho duro/ Do futuro/ Dá-os em liberdade./ Enquanto não alcances/ Não descanses./ De nenhum fruto queiras só metade”. E Seguro recomeçou assim, dez anos depois de ter desaparecido do mapa político.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Nas filas da frente, Seguro sentou figuras de quadrantes diferentes. Logo na ponta esquerda é possível ver o segurista Álvaro Beleza, que já tinha declarado o apoio ao amigo e dito até considerar estranho se a maioria dos socialistas não viesse a apoiar o antigo líder. José Abraão, socialista e vice-presidente da UGT, também estava em lugar de destaque. Na primeira fila estava, naturalmente, a mulher de Seguro, Margarida Maldonado Freitas, com quem entrou na sala a quem agradeceu — bem como à família — por lhe reforçar o “sentir solidário, o olhar fraterno o valor de bem comum”.
Nesta fotografia aparecem também o ex-secretário de Estado António Lacerda Sales e o ex-eurodeputado Carlos Zorrinho. Na ponta da direita está João Soares, que tem sido um dos mais vocais apoiantes de Seguro — e tem defendido que o candidato está a sofrer uma campanha de “bullying” dentro do PS.
Estava também o diretor-geral da empresa de Luís Bernardo (a WLP), António Galamba, que se afastou da atividade do PS no fim do segurismo, depois de ser deputado e dirigente socialista, e veio agora defender que “a República e a democracia precisam de alguém como António José Seguro, sem telhados de vidro, sem ser verdadeiramente do sistema vigente, com experiência política nacional e internacional (partidária e pública)”. Isto enquanto a sua empresa faz a comunicação da candidatura concorrente, de Gouveia e Melo.
Quando Seguro saiu do palco, João Soares ajudou a lançar o cântico “Seguro é fixe”, imitando o clássico “Soares é fixe” — e Seguro, que tinha nomeado Nelson Mandela, Salgueiro Maia, Mário Soares e António Guterres como referências durante o discurso, respondeu: “Não, isso é o teu pai!”.
Na fila da frente encontra-se ainda Vítor Marques, presidente da câmara das Caldas da Rainha, atualmente independente (depois de ter sido eleito para a junta, durante dois mandatos, pelo PSD). Na sala estava também o histórico do PSD Fernando Costa, antigo autarca das Caldas (foi convidado para ser candidato do partido à Assembleia Municipal nas eleições deste ano).
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mesmo sem contar com a direção do PS, Seguro contou com outros nomes: desde logo com a antiga candidata presidencial Maria de Belém, que concorreu em 2016 sem o apoio do partido (dividido mas com um apoio oficioso maior à candidatura de António Sampaio da Nóvoa). Também se encontrava na plateia o ex-ministro Alberto Martins, que anunciou o apoio a Seguro pela sua “idoneidade cívica, experiência política e integridade”.
O ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes, que chegou a estar incluído em conversas para preparar uma candidatura de Mário Centeno e lançou o seu nome como possível candidato presidencial, esteve nas fileiras de Seguro (com Centeno fora da corrida por auto-exclusão). Já tinha, de resto, criticado as “elites” do PS que atacam a candidatura do ex-líder, recusando acreditar em “castas e predestinados”.
Também Francisco Assis, próximo de Seguro, se sentou no auditório em lugar de destaque. O eurodeputado já tinha defendido publicamente que há uma “campanha organizada” a decorrer no PS contra Seguro, mas disse que o ex-líder não precisaria do apoio do partido: “Não creio que a posição do PS apoiar ou não seja neste momento determinante em relação à decisão que ele vai tomar. E acho bem”, defendia em janeiro.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Durante o discurso, Seguro improvisou ainda, quando falava do seu eventual-futuro papel como Comandante Supremo das Forças Armadas, uma referência a “altas patentes” do Exército, Marinha e Força Aérea que se encontravam na plateia, dizendo-se honrado por contar com estas presenças. Ao Observador, fonte da candidatura indicou dois nomes: Alfredo Cruz, tenente general da Força Aérea, e Augusto Pinto, almirante (curiosamente, foi professor de Gouveia e Melo).
Na plateia encontravam-se ainda socialistas como os deputados e dirigentes locais Pedro do Carmo, Pedro Sousa e Hugo Costa, ex-deputados como Joaquim Raposo e Ricardo Gonçalves, o antigo eurodeputado Manuel dos Santos, Manuel Tito de Morais — neto de Tito de Morais –, o social democrata Nuno Miguel Henriques, o presidente da Câmara de Idanha-a-Nova, Armindo Jacinto, ou o secretário-geral da ANMP, Rui Solheiro.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Foram assim muitos e constantes os aplausos na sala abafada do auditório, acabando o discurso com o hino nacional e com um passeio de Seguro para cumprimentar os apoiantes. O cumprimento estender-se-ia por várias horas: depois de ser apertado por abraços de dezenas de pessoas (e algumas palmadas bem intencionadas, mas extremamente vigorosas, nas costas), de ter beijado crianças e cumprimentado velhos amigos, Seguro continuava a circular.
Horas depois, ainda estava a beber uma cerveja no café do centro de congressos, fazendo uns minutos de conversa ou tirando algumas fotografias com quem se ia aproximando e deixando os seus cumprimentos. Dez anos depois de ter sido afastado por António Costa e de sair da política, remetendo-se a um silêncio quase absoluto, o regresso a essas lides pareceu natural.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR