Portugal é “o país mais vulnerável da Europa” às alterações climáticas. A localização a sul do continente torna-o num dos primeiros territórios a sentir as altas temperaturas que hoje se sentem nos trópicos e que nas próximas décadas vão subir em direção aos pólos; e o posicionamento junto ao agressivo Oceano Atlântico transforma-o num dos mais suscetíveis de sofrer com o aumento do nível do mar e com os fenómenos extremos que têm origem no aquecimento dos oceanos e consequente disrupção das correntes marítimas. A estes dois fatores juntam-se as características sociodemográficas do país: uma população cada vez mais envelhecida (que sofre muito mais com o calor) e ainda numa considerável pobreza energética, incapaz de mitigar o desconforto térmico nas suas casas. A jornalista e escritora Isabel Lindim, que nos últimos anos se tem dedicado a retratar o impacto da crise climática em Portugal, descreve estes cenários num novo livro publicado em abril.

Com o título Portugal, Ano 2071, o livro passa das ideias à prática e, através de entrevistas com 29 cientistas e protagonistas de algumas das principais soluções de adaptação às alterações climáticas, traça um retrato concreto do que pode ser Portugal dentro de cinquenta anos — e quais as soluções que podem ser desde já postas em marcha para mitigar os efeitos da crise e, sobretudo, para nos adaptarmos aos efeitos que já estão dados como garantidos.

Algumas das previsões são bem demonstrativas de como os efeitos da crise climática poderão ser sentidos ainda no tempo de vida das gerações atuais: em 2071, os dias mais quentes do verão em Beja poderão rotineiramente chegar aos 50ºC; a esmagadora maioria das praias deverão desaparecer e dar lugar a arribas; povoações particularmente próximas do mar (como a Trafaria, em Setúbal) terão obrigatoriamente de encontrar novos lugares de assentamento; os grandes empreendimentos hoje construídos junto à linha de água serão ruínas semi-inundadas, e até o novo aeroporto do Montijo, se for construído, estará parcialmente submerso dentro de pelo menos trinta anos.

Numa entrevista ao Observador a pretexto do lançamento do livro, Isabel Lindim ajuda a retratar o Portugal que nos encaminhamos para ser, mas alerta essencialmente para as soluções e os bons exemplos: a agricultura terá de deixar de gastar 75% dos recursos hídricos do país, adotando a lógica da agrofloresta (ou seja, múltiplas culturas em simultâneo sem exploração intensiva dos ecossistemas); as soluções clássicas, que passam pela redução das emissões de gases com efeito de estufa, são fundamentais; porém, o grande desafio é mesmo o da adaptação. Há efeitos que já são irreversíveis, mesmo que as emissões abrandem, e a população terá de se adaptar a eles — e os principais atores dessa adaptação serão as autarquias da linha costeira. Segundo Isabel Lindim, todos os municípios portugueses têm atualmente informações detalhadas sobre o impacto das alterações climáticas nas suas regiões, que indicam que é urgente acabar com a construção junto à costa e imperativo que as câmaras municipais adaptem os seus planos de longo prazo à realidade em mudança. Alguns já o estão a fazer, outros poderão fazê-lo em breve. Daí que, apesar do cenário negro, a autora termine a entrevista assumindo-se “otimista tendo em conta a quantidade de informação que existe e que está ao alcance dos decisores”.

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