Conhecidos os resultados da primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior, milhares de famílias de todo o país enfrentam agora um desafio que poderá ser ainda mais difícil para muitas delas: encontrar alojamento a preços comportáveis para os novos universitários nas cidades onde vão estudar.
Como todos os anos, os preços dispararam para valores que já rondam os 400 euros mensais por quarto, fora as restantes despesas, com Lisboa e Porto a registarem as maiores subidas. Por isso, meses antes da divulgação dos resultados, eram já muitos os estudantes que começavam a procurar alojamento nas cidades onde esperavam vir a ser colocados. As federações académicas de Lisboa e do Porto dizem, de resto, que o elevadíssimo custo da habitação é um dos principais fatores a afastar os jovens do ensino superior, num ano em que se registou um número significativamente mais baixo de candidatos às universidades e aos politécnicos.
Nove em cada dez alunos entraram no Ensino Superior. Veja aqui se é um dos 43.899 colocados
Um pouco por todo o país, a Igreja Católica tem procurado mitigar esta crise habitacional, aproveitando algum do seu património edificado para o colocar à disposição dos alunos e das instituições de ensino superior, muitas vezes caso a caso mas sempre mediante preços mais reduzidos. Seminários desocupados convertidos em residências estudantis, apartamentos alugados a preços acessíveis e residências universitárias criadas de raiz pelas dioceses e congregações religiosas são algumas das soluções existentes no terreno, de acordo com um levantamento feito pelo Observador junto das várias dioceses portuguesas. Em vários casos, as próprias universidades têm-se virado para a Igreja Católica em busca de soluções para mitigar o problema.
O caso da diocese de Bragança-Miranda, que corresponde genericamente ao território do distrito de Bragança, é um exemplo paradigmático de reaproveitamento de um enorme edifício eclesiástico que estava, atualmente, maioritariamente livre: o seminário de São José, na cidade de Bragança, o amplo palacete onde vivem os seminaristas até ao 12.º ano, alguns sacerdotes mais idosos e o bispo da diocese — e onde há também muito espaço desocupado. No ano passado, a diocese assinou um protocolo com o Instituto Politécnico de Bragança para acolher naquele espaço até 20 alunos do ensino superior, que fossem mais carenciados (bolseiros) e que estivessem deslocados da sua área de residência. Ao Observador, fonte da diocese explicou que todo o processo de admissão de alunos na residência é feito pelos serviços académicos do IPB — sendo que o seminário se limita a ceder o espaço e a acolher os estudantes.
Também na cidade de Coimbra, coração do ensino universitário em Portugal, a Igreja Católica coloca alguns espaços à disposição dos estudantes. O padre Nuno Santos, reitor do seminário da cidade e capelão da Universidade de Coimbra, explica ao Observador que na diocese existem várias ofertas a custos controlados para estudantes que necessitam de alojamento na cidade. No Instituto Universitário Justiça e Paz, instituição da diocese que se dedica à pastoral universitária, tem um alojamento onde acolhe até cinco estudantes. O seminário, por seu turno, também acolhe pequenos grupos de estudantes durante o ano letivo, a que se juntam duas residências universitárias femininas — o Lar do Sagrado Coração de Maria (gerido pelas religiosas do Sagrado Coração de Maria, que também têm duas residências universitárias em Lisboa) e a residência de Santa Teresa (gerida pelas Irmãs Teresianas).
Em Viana do Castelo, onde as necessidades de alojamento de estudantes se prendem essencialmente com o Instituto Politécnico de Viana do Castelo (mas também com a Escola de Hotelaria e Turismo da cidade), há também vários espaços da Igreja colocados à disposição de estudantes universitários, com especial destaque para o seminário dos espiritanos — que em tempos chegou a alojar quase 300 alunos em camaratas e que hoje contribui de forma importante para o alojamento dos alunos do IPVC mais carenciados. O convento do Carmo e um antigo convento ligado à Ordem Terceira Franciscana também têm algum espaço para alojamento que é usado para apoiar estudantes universitários na cidade, mas também médicos em formação que fazem o internato no hospital de Viana do Castelo, explicou ao Observador fonte da diocese.
Residências universitárias católicas complementam oferta privada
Além do reaproveitamento de património antigo desocupado, há também dioceses e congregações religiosas a construir as suas próprias residências universitárias, para complementar a oferta privada. Um dos casos de maior destaque é o da arquidiocese de Braga, que tem em funcionamento duas residências universitárias na cidade de Braga — servindo primordialmente os estudantes da Universidade do Minho. O padre Jorge Miguel Rodrigues, responsável pelos projetos universitários da arquidiocese de Braga, explica ao Observador que uma das residências, o Centro Pastoral Universitário, tem capacidade para 30 estudantes e “situa-se na Rua de Vilar, mesmo junto da Universidade do Minho, possuindo inclusive um acesso direto à mesma”.
No ano passado, a arquidiocese abriu uma nova residência, batizada com o nome do beato Carlo Acutis (que será canonizado este mês e se tornará o primeiro santo da geração millennial). Esta residência, com capacidade para 54 estudantes, está no centro da cidade. As residências, explica o sacerdote, têm salas de estudo, cozinhas, espaços de refeição, capela e funcionários que asseguram a limpeza e o funcionamento das casas.
“Durante o ano letivo procuramos incentivar os nossos residentes a participarem em momentos espirituais semanais para que o seu percurso académico seja também pautado pela reflexão e pela abertura a novas realidades e ideias”, sublinha Jorge Miguel Rodrigues, acrescentando que a arquidiocese procura promover a participação dos estudantes em iniciativas de voluntariado e nas celebrações anuais da Páscoa, bem como em “momentos de convívio e amizade entre residentes”. O sacerdote sublinha que qualquer aluno se pode candidatar a estas residências universitárias, que custam entre 200 e 400 euros por mês, consoante a tipologia do quarto — um preço que já inclui luz, água, aquecimento, internet e pode também incluir a lavagem da roupa da cama.
▲ O centro pastoral universitário, da arquidiocese de Braga, tem uma residência de estudantes
Também em Évora, a arquidiocese tem “um programa de apoio a estudantes deslocados”, explica ao Observador o padre Manuel Vieira, sublinhando que se trata de um projeto desenvolvido numa parceria entre o departamento da pastoral universitária da arquidiocese, a Cáritas de Évora e a Universidade de Évora. O projeto inclui uma residência universitária — a Residência de São José —, que tem seis camas “destinadas prioritariamente a estudantes vindos dos PALOP”, sublinha o sacerdotal. Ao mesmo tempo, a arquidiocese tem em vigor um programa de apoio económico direto aos alunos mais carenciados. Este ano letivo, a arquidiocese tem uma dotação orçamental de 20 mil euros para estes apoios, que têm origem na renúncia quaresmal: as ofertas extraordinárias dadas pelos fiéis à Igreja durante o período da Quaresma, que antecede a Páscoa.
Além das dioceses, também as congregações e ordens religiosas têm um grande número de residências académicas no país. Em Lisboa, um dos principais destinos dos universitários que precisam de mudar de cidade para acederem ao curso que querem nas múltiplas instituições de ensino superior que existem na capital, o patriarcado de Lisboa não tem nenhuma estrutura para alojamento de estudantes. “Está em estudo um projeto, mas ainda não houve avanços”, revela ao Observador o diretor de comunicação do patriarcado, padre Ricardo Figueiredo, sublinhando que a diocese habitualmente encaminha os estudantes que a contactam com este propósito para “estruturas já existentes e que são geridas por movimentos ou congregações”. Exemplos conhecidos são a residência de Montes Claros (do Opus Dei), o Colégio Pio XII (dos Claretianos), duas residências para rapazes, ou a residência Maria Imaculada, para raparigas, gerida pelas Religiosas de Maria Imaculada.
O mesmo acontece no Porto, onde a presença da Igreja Católica no campo das residências universitárias é essencialmente composta por congregações e ordens religiosas.
Dioceses cedem apartamentos para alojar estudantes universitários
Noutros pontos do país, a Igreja Católica tem colocado à disposição de famílias e universidades soluções de menor dimensão. É o caso de Setúbal, onde, logo no dia em que foram conhecidas as colocações no ensino superior, o cardeal Américo Aguiar anunciou publicamente que “a diocese de Setúbal colaborará com o Instituto Politécnico de Setúbal no alojamento de alguns alunos”. Ao Observador, o cardeal destacou que este apoio passará pela cedência ao IPS de um “apartamento em Setúbal com quatro ou cinco quartos”, que é propriedade da diocese. Caberá, depois, ao IPS alugar aqueles quartos “aos alunos consoante os valores das respetivas bolsas sociais que cada aluno recebe do Estado”, diz ainda Américo Aguiar, destacando que “é pouquinho, mas é o possível e de boa vontade”.
O caso da diocese de Angra, que corresponde ao arquipélago dos Açores, é paradigmático de outra realidade, ao focar-se também no apoio aos estudantes que saem dos Açores para estudar no continente. A diocese açoriana tem duas residências na cidade de Coimbra — duas casas T7, uma para raparigas e outra para rapazes — destinadas prioritariamente a alojar estudantes oriundos dos Açores. A mensalidade é de 300 euros, mas inclui todas as despesas de água, luz, internet, ar condicionado e limpeza dos espaços comuns. De acordo com a diocese, trata-se de um preço abaixo dos preços praticados no mercado privado na cidade. Paralelamente, a diocese acolhe também no seminário de Angra do Heroísmo alguns estudantes do campus de Angra da Universidade dos Açores, por uma mensalidade de 200 euros.
“Os preços praticados numa e noutra situação estão abaixo dos praticados por outras instituições similares e isso funciona como uma forma de apoiar as famílias açorianas que precisam de alojamento para os filhos enquanto estudam”, diz ao Observador o gabinete de comunicação da diocese. “A receita do arrendamento permite, por outro lado, manter as casas em bom estado, evitando que fiquem devolutas ou se degradem. Esse modelo cria um equilíbrio entre autossustentabilidade patrimonial e missão social, já que a Igreja, além de cuidar do seu património, contribui para aliviar os encargos financeiros das famílias.”
A diocese do Funchal, por seu turno, diz que já teve no passado “dois projetos para a criação em parceria com a Universidade da Madeira de residências universitárias mas que ainda não foram concretizadas”. Para já, explica ao Observador fonte oficial da diocese madeirense, são feitos apoios “em situações pontuais” a “alguns estudantes madeirenses no continente com alguma ajuda para as despesas”. A diocese diz, por outro lado, ter várias iniciativas para o “acompanhamento espiritual dos jovens” na Madeira — e acrescenta que criou também um espaço com salas de estudo que está à disposição dos universitários que vivem no Funchal.
Universidades pedem ajuda à Igreja para alojar estudantes
Conscientes do muito património que a Igreja Católica tem pelo país — incluindo edifícios antigos e desocupados —, as próprias universidades têm procurado contactar as dioceses para pedir ajuda no alojamento de estudantes. É o caso de Vila Real, onde fica a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. De acordo com o padre João Batista Curralejo, daquela diocese, neste momento não existe qualquer estrutura da Igreja à disposição dos estudantes. No entanto, acrescenta, já “houve contactos da UTAD com a diocese, mas os custos de adaptação e/ou restauro não justificaram, tendo a UTAD preferido investir nas suas residências”.
O mesmo sucede em Santarém, onde existem algumas casas religiosas que acolhem estudantes, mas nenhum projeto residencial de maiores dimensões gerido pela diocese. Ao Observador, fonte do gabinete de comunicação da diocese ribatejana explicou que a diocese foi “recentemente contactada pelo Instituto Politécnico de Santarém, para saber se havia possibilidade de acolher os estudantes, dado que têm limitações com as residências”. No entanto, uma vez que a diocese não tem disponíveis edifícios “minimamente adequados para acolher os estudantes (…), não foi possível responder favoravelmente ao pedido”.