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Os serviços secretos da Ucrânia são conhecidos como SBU. Num jogo de palavras em ucraniano, vários responsáveis designam aquela agência de segurança como Serviço de Deus, relata o The Guardian. E isso deve-se ao facto de estarem em todo o lado, de não serem vistos e, sobretudo, fazerem justiça divina em nome de Kiev. Nos últimos tempos, a forma de atuarem foi assassinando altos dirigentes russos — três só nos últimos dez dias. O último foi morto esta terça-feira de madrugada quando saía de casa, em Moscovo: o tenente-general e comandante das forças russas de defesa radiológica, química e biológica, Igor Kirillov.
Desde o início da guerra da Ucrânia, Igor Kirillov está longe de ser o único alto dirigente russo que acabou morto pelos serviços de informações ucranianos. Ao reconhecer que assassinou o tenente-general, o SBU justificou que a “retaliação por crimes de guerra é inevitável”. “Kirillov era um criminoso de guerra e era um alvo completamente legítimo, dado que deu ordens para usar armas químicas banidas contra os soldados ucranianos”, justificaram as secretas de Kiev, sentenciando: “Todos o que mataram ucranianos esperam por um fim sem glória”.
Com estas operações secretas que acabam por evidenciar os falhanços dos serviços de segurança da Rússia, a Ucrânia pretende desestabilizar a elite russa — e mostrar que, nem mesmo em Moscovo, nenhum dirigente ou alta patente militar está a salvo. Como diz o analista militar John Foreman ao New York Times, os assassínios enviam uma “mensagem clara a todos aqueles políticos e responsáveis por planear, dirigir e apoiar a guerra da Rússia na Ucrânia”.
Neste sentido, Mark Galleoti, académico e autor de dezenas de livros sobre a Rússia de Putin, expõe, num artigo na revista The Spectator, que a Ucrânia pretende “desmoralizar os rostos” de quem a guerra depende para continuar. Ou seja, o objetivo é criar um clima de insatisfação nas Forças Armadas russas. “A esperança é encorajar mais [membros das Forças Armadas] a oporem-se à guerra, ou, pelo menos, a evitar que se envolvam”, afirma, ressalvando, contudo, que estas operações das secretas não vão parar a guerra.
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Esperando criar um clima de medo entre a elite política e militar na Rússia, o SBU conta com uma rede extensa de colaboradores, de que fazem parte alguns que terão nacionalidade russa. De acordo com o The Guardian, são motivados por questões ideológicas — são assumidamente contra o regime de Vladimir Putin e contra a guerra na Ucrânia. Apesar da mão firme com que o Kremlin governa a Rússia, estão dispostos a integrar operações perigosas.
Nos últimos tempos, a Ucrânia parece estar a intensificar estas operações secretas. Igor Kirillov foi morto esta terça-feira. Mikhail Shatsky, um dos cientistas responsáveis por desenvolver o programa de mísseis da Rússia, foi assassinado a tiro na passada quarta-feira, 12 de dezembro. Na região ucraniana de Donetsk, Sergei Yevsyukov, que no passado geria uma prisão, morreu num ataque à bomba no seu carro segunda-feira, dia 9 de dezembro.
▲ Rua em que a scooter explodiu e matou Igor Kirillov
Anadolu via Getty Images
Igor Kirillov, o plano sofisticado e as teorias sobre como o SBU levou a cabo a operação
Quando saía do apartamento onde morava, na avenida Ryazanskiy, uma bomba escondida numa scooter explodiu. Foi assim que Igor Kirillov e um dos seus assistentes morreram esta terça-feira, às 6h12 (menos três horas em Lisboa). De acordo com um jornalista da AFP no local, as janelas de vários apartamentos ficaram estilhaçadas pela explosão.
A operação foi sofisticada e planeada ao ínfimo pormenor. Os serviços secretos ucranianos souberam as horas em que Igor Kirillov sairia de casa para detonar bomba e souberam onde a colocar para o assassinar. Na imprensa russa, existem várias teorias a circular sobre como o SBU orquestrou esta campanha numa zona residencial da capital russa.
Uma das teoria aponta para que a bomba foi detonada à distância, mas isso obrigaria a que um colaborador estivesse nas redondezas. A segunda hipótese é que quem colocou a bomba estaria num carro ou num apartamento perto da casa do tenente-general russo e que vigiou atentamente os seus passos com recurso a uns binóculos. Uma terceira possibilidade (e mais sofisticada) seria que o SBU tivesse acesso às câmaras de segurança da avenida Ryazanskiy, de modo a explodir a scooter, vigiando à distância Igor Kirillov.
▲ Igor Kirillov
AFP via Getty Images
Independentemente dos contornos do plano, certo é que foi bem-sucedido. Cerca de 24 horas depois do ataque, o SBU acusou Igor Kirillov de ser o responsável pelo “uso massivo de armas químicas” na Ucrânia. O objetivo dos russos era repelir as tropas ucranianas das trincheiras, ainda que Kiev alegue que isso seja proibido à luz da Convenção sobre as Armas Químicas, que a Rússia subscreve.
Mikhail Shatsky, o cientista morto a tiro
Na passada quarta-feira de madrugada, dia 12 de dezembro, Mikhail Shatsky foi morto a tiro perto da sua casa, em Kuzminsky, nos subúrbios de Moscovo. O corpo deste cientista — um dos responsáveis por modernizar o programa de mísseis da Rússia — foi encontrado num parque, no meio da neve.
Secretas ucranianas assassinam a tiro cientista que desenvolvia programa de mísseis russo
Os serviços de informações ucranianos, em concreto o pertencente ao Ministério da Defesa, reivindicaram à imprensa ucraniana o assassínio do cientista, que trabalhava no Gabinete Experimental de Design Mars, que pertence à Rosatom, agência estatal de energia nuclear. Mikhail Shatsky estaria a modernizar os mísseis de longo alcance Kh-59 e Kh-69 que foram usados pelas tropas russas para atacar território ucranianos.
“Qualquer pessoa que esteja envolvida no desenvolvimento do complexo militar industrial russo e que apoie a agressão russa na Ucrânia, de uma forma ou outra, é um alvo legítimo das Forças de Defesa”, justificaram os serviços de informações ucranianos.
▲ Mikhail Shatsky
Sergei Yevsyukov, o líder de uma prisão morto numa explosão
Sergei Yevsyukov chefiou em tempos o campo prisional de Olenivka, na província de Donetsk, região que está dividida entre forças pró-russas e pró-ucranianas. Naquela prisão, controlada por forças pró-Moscovo, ocorreu o que Kiev diz ser um massacre que matou, num ataque aéreo, cerca de 60 prisioneiros de guerra, quase todos oriundos da fábrica siderúrgica de Azovstal, o último reduto da resistência ucraniana na cidade de Mariupol.
Ex-líder russo de uma prisão violenta do Donbass morto num ataque à bomba em Donetsk
Na passada segunda-feira, no que parece ter sido um ato de retaliação, Sergei Yevsyukov morreu numa explosão, após ter sido colocado um dispositivo explosivo debaixo do seu carro. O SUV do antigo líder da prisão foi destruído. Segundo a BBC, vários bloggers ucranianos relataram que a sua mulher também terá ficado ferida com gravidade.
Oficialmente, a Ucrânia nunca reivindicou o ataque, mas, tendo em conta o que aconteceu na prisão (havendo relatos de tortura e crimes de guerra), Kiev tinha interesse em assassinar Sergei Yevsyukov. De acordo com os canais de Telegram russos, as autoridades ucranianas ofereciam uma recompensa de 21 mil dólares (cerca de 20 mil euros) para quem liquidasse o antigo chefe da prisão.
▲ Sergei Yevsyukov
Valery Trankovsky, a alta patente da Marinha acusado de crimes de guerra morto na Crimeia
O modus operandi foi o mesmo utilizado com Sergei Yevsyukov. Valery Trankovsky, alta patente da Marinha russa, responsável pela 41.ª brigada de Mísseis da frota da Marinha Russa no Mar Negro, foi morto, a 13 de novembro de 2024, após o carro onde ia ter explodido na cidade de Sebastopol, na península da Crimeia.
Desta vez, a Ucrânia reivindicou o ataque, explicando que Valery Trankovsky era um alvo “legítimo” por “crimes de guerra” que tinha cometido no passado. Os serviços secretos ucranianos acusam-no de ter ordenado o ataque que atingiu alvos civis na cidade de Vinnytsia em julho de 2022, no centro da Ucrânia, onde morreram 28 pessoas.
Uma semana depois do ataque, as autoridades russas revelaram que um casal acabou detido por alegadamente ter orquestrado a morte de Sergei Yevsyukov. A mulher teria sido responsável por monitorizar os passos deste homem com alta patente militar, enquanto o marido teria construído e colocado o explosivo debaixo do carro.
▲ Valery Trankovsky
Ilya Kiva, o ucraniano “traidor” morto em Moscovo
Tem nacionalidade ucraniana, nasceu na cidade de Poltava, mas era considerado, no seu país natal, como um “traidor”. Em dezembro de 2023, o antigo deputado ucraniano e ex-líder do Partido Socialista Ilya Kiva foi morto a tiro num parque nos subúrbios de Moscovo.
Ex-deputado ucraniano pró-Rússia apelou a Putin que usasse armas de destruição massiva
As secretas ucranianas admitiram que estiveram por detrás do ataque. Andriy Yusov, porta-voz dos serviços de informações ucranianos, reconheceu que os serviços de informações tinham morto Ilya Kiva e avisou que o “destino de outros traidores da Ucrânia e fantoches do regime de Putin” seria o mesmo.
Assumidamente pró-russo, Ilya Kiva apoiava publicamente a invasão russa à Ucrânia nos meios de comunicação social, deixando duras críticas à liderança ucraniana. Fugiu para Moscovo um mês antes da guerra e, quando morreu, esperava ver aprovado um pedido de asilo para ficar a viver permanentemente na Rússia.
▲ Ilya Kiva
NurPhoto via Getty Images
Vladlen Tatarsk, o blogger morto num café
Este blogger pró-russo defendia afincadamente a guerra na Ucrânia, ainda que também deixasse críticas às Forças Armadas russas. A 2 de abril de 2023, Vladlen Tatarsk estava no café Street Food Bar No.1, em São Petersburgo, onde discursava numa mesa redonda.
Sem que nada fizesse prever, o café foi palco de uma explosão, que acabou por matar Vladlen Tatarsk. Este era uma estrela no Telegram — tinha uma conta com mais de 560 mil seguidores — e usava aquela rede social para divulgar vídeos e partilhar as suas opiniões sobre o conflito.
Ainda que inicialmente tivesse negado a autoria do ataque, os serviços secretos ucranianos acabaram por reconhecer que estiveram por detrás da explosão do café. “Todos os criminosos de guerra, assassínios e apoiantes dos russos são alvos legítimos. São responsáveis por mortes, terror e repressão que os ocupantes levam a cabo em territórios ucranianos ocupados”, afirmaram.
▲ Vladlen Tatarsk
Darya Dugina, a filha do ideólogo de Putin morta numa explosão
Agosto de 2022. A guerra estava ainda no início, mas a Ucrânia já estava a organizar a contraofensiva que teria lugar no final do verão. Separadamente, Kiev tinha em marcha um plano que incluía matar um dos homens mais influentes do núcleo do Presidente russo: o cientista político e um dos ideólogos de Vladimir Putin, Alexandr Dugin.
O alvo dos serviços secretos ucranianos era Alexandr Dugin, mas quem acabou por morrer foi a sua filha, Darya Dugina, jornalista e comentadora política alinhada com o Kremlin. O SBU colocou um dispositivo no carro da mulher de 29 anos, que explodiu na região de Moscovo quando esta regressava a sua casa.
A Ucrânia afastou inicialmente responsabilidades, mas vários jornais norte-americanos — como o Washington Post ou New York Times — apuraram que as secretas ucranianas estiveram por trás do ataque contra a filha de um dos homens mais próximos da presidência russa.
▲ Darya Dugina
Facebook/Alexandr Dugin