Um ano acabou e outro começou, o que significa que também uma temporada de ténis terminou para outra arrancar. O Open da Austrália marca o início da época e dá a pancada de saída já este domingo, trazendo duas semanas inteiras de ténis que culminam com a primeira final de um Grand Slam de 2026 em Melbourne.
E se os favoritos são os do costume, as circunstâncias são especiais – e até recordes podem ser quebrados. Jannik Sinner e Carlos Alcaraz partem naturalmente como os principais protagonistas do Open da Austrália, até porque mais ninguém que não os dois conquistou Grand Slams nos últimos dois anos, sendo que o italiano surge como bicampeão em Melbourne e o espanhol nunca disputou sequer a final do Major australiano.
Pelo meio, para além de existir sempre o fator Novak Djokovic, aparece também a primeira imagem da bomba que surpreendeu tudo e todos: a separação entre Carlos Alcaraz e Juan Carlos Ferrero, o treinador que o acompanhava há mais de sete anos. Ao Observador, Jim Courier faz uma breve antevisão do Open da Austrália, não atribui favoritismo a nenhum dos dois, lembra a “única vantagem” que Djokovic continua a ter e ainda defende que Nuno Borges é “um jogador perigoso”.
▲ Alcaraz e Sinner defrontaram-se recentemente no ATP Finals, com o italiano a vencer o espanhol
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Sinner e Alcaraz. Amigos, rivais ou um pouco dos dois?
O Open da Austrália tem sempre a entusiasmante característica de ser o primeiro Grand Slam do ano. Uma temporada fica para trás, a outra começa – e essa ideia de tábua rasa, de que todos os tenistas têm uma nova oportunidade para continuar o que iniciaram nos meses anteriores ou chegar onde não chegaram, alimenta grande parte da expectativa em relação a um Major que obriga a Europa a ter a televisão ligada durante a madrugada.
2026, naturalmente, não é exceção. Depois de um ano em que Carlos Alcaraz e Jannik Sinner dividiram os quatro Grand Slams entre si, com o espanhol a vencer em Roland Garros e no US Open e o italiano a ganhar em Melbourne e Wimbledon, o Open da Austrália surge como um novo capítulo na rivalidade dos novos tempos que promete ser a rivalidade dos próximos tempos – até porque, por ocuparem os dois primeiros lugares do ranking ATP, já têm a certeza de que só podem mesmo encontrar-se numa eventual final.
Jim Courier, tal como quase todos, defende que Carlos Alcaraz e Jannik Sinner são os dois grandes favoritos a vencer o primeiro Grand Slam do ano – mas lembra que ambos têm objetivos a cumprir e que é impossível antecipar quem poderá estar melhor já em janeiro. “No ano passado o Jannik esteve muito perto de entrar no US Open à beira de atingir um Grand Slam de calendário, esteve a três match points disso mesmo em Roland Garros. Tem tudo aquilo que é preciso e sabe que pode ganhar em todas as superfícies, isso é a coisa mais importante. Já o Carlos tem a grande oportunidade de completar o Grand Slam de carreira no Open da Austrália. O Rod Laver também lá chegou quando era muito novo, mas foi antes da era Open”, lembra o antigo tenista norte-americano em entrevista ao Observador.
Aos 55 anos, Jim Courier é agora comentador da Eurosport. Natural da Florida, foi líder do ranking ATP durante 58 semanas no início dos anos 90 e conquistou o Open da Austrália em 1992 e 1993, para além de também ter vencido Roland Garros em 1991 e 1992. Pelo meio, perdeu uma final em Wimbledon e outra no US Open, sendo ainda o tenista mais novo de sempre da chegar às quatro finais de Grand Slam na era Open, com apenas 22 anos e 319 dias. Se chegar à decisão do Open da Austrália daqui a duas semanas, um jogo que nunca disputou, Carlos Alcaraz rouba o recorde a Jim Courier.
E a verdade é que a temporada que agora começa tem essa particularidade: em 2026, tanto Carlos Alcaraz como Jannik Sinner podem atingir o chamado Grand Slam de carreira, ou seja, garantir que já venceram os quatro Majors pelo menos uma vez. O espanhol pode chegar lá já em Melbourne, acrescentando o tal recorde das quatro finais que ainda pertence a Jim Courier, enquanto que o italiano tem de esperar por Roland Garros e ganhar pela primeira vez em Paris.
Protagonistas absolutos da grande rivalidade do ténis contemporâneo, Carlos Alcaraz e Jannik Sinner tornaram-se ainda mais assunto de conversa nos últimos dias e por terem viajado juntos, no mesmo jato privado, de Seul para Melbourne. Os dois tenistas disputaram um jogo de exibição na capital da Coreia do Sul e acabaram por aparecer em conjunto na Austrália, num cenário pouco habitual para os dois grandes favoritos à conquista do Grand Slam. Jim Courier, porém, esvazia a possível polémica.
▲ Juan Carlos Ferrero e Carlos Alcaraz trabalhavam juntos há mais de sete anos e separaram-se em dezembro
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“Não acho que seja um erro. Acho que as amizades ou são reais ou não são e acredito que eles têm uma amizade enquanto também têm uma rivalidade. Tal como também se dão bem com muitos dos outros tenistas com que se cruzam no balneário. O ténis não é como muitos outros desportos, onde estamos em equipas ou em balneários separados e os adversários não passam tempo juntos. O ténis é um circo itinerante e os jogadores viajam juntos, seja num jato privado ou num voo comercial. Não é pouco comum, mas percebo que as pessoas queiram ver alguma animosidade entre rivais. A Chris Evert e a Martina Navratilova são um ótimo exemplo de como se pode ter uma rivalidade extraordinária sem animosidade, tal como o Roger Federer e o Rafa Nadal. Acho que podemos ter um respeito saudável e até uma amizade com alguém e, ao mesmo tempo, entrar no court com vontade de lhes arrancar a cabeça”, explica o norte-americano.
Certo é que há dois anos consecutivos que Alcaraz e Sinner dividem todos os Grand Slam – o último que não um dos dois a ganhar um dos quatro principais torneios do Tour foi Novak Djokovic no US Open de 2023. Ou seja, espanhol e italiano dominaram os últimos oito. Jim Courier não esconde que seria “mais picante” contar com um terceiro elemento no topo do ténis mundial, à semelhança do que Novak Djokovic acabou por fazer quando se intrometeu na rivalidade entre Roger Federer e Rafael Nadal, mas lembra que a realidade atual já é impressionante.
“Não seria mau ver alguém aparecer e desafiá-los, já vimos isso com os Big Three e até os Big Four com o Andy Murray. Foi um tempo mágico no ténis. Mas acho que ter estes dois a dominar da maneira que têm dominado é fantástico. Eles estão a fazer coisas que não víamos desde o Roger e o Rafa, jogar cinco finais de Grand Slam consecutivas. Estamos em território muito raro. O que não queremos é ter um jogador que domina tudo e todos, em que se torna desinteressante porque já sabemos quem vai ganhar. Ter uma rivalidade entre dois jogadores é fantástico. Se acrescentarmos uma terceira pessoa, uma quarta pessoa, seria ainda mais picante, mas acho que já temos de nos dar como agradecidos pelo que temos agora”, sublinha.
O breakup do ano que surpreendeu tudo e todos
Jannik Sinner à parte, a verdade é que a pré-época foi absolutamente dominada por uma notícia que surpreendeu tudo e todos: depois de mais de sete anos de uma parceria muito bem sucedida que levou o espanhol ao topo, Carlos Alcaraz separou-se de Juan Carlos Ferrero e mudou de treinador, sendo agora orientado por Samuel López, que já estava integrado na equipa técnica.
No Open da Austrália, o tenista de 22 anos vai participar no primeiro Grand Slam sem Juan Carlos Ferrero ao lado – sendo até difícil imaginar a box do espanhol sem a presença do antigo jogador, que acabava por ter uma postura de aparente e total serenidade mesmo quando as coisas corriam muito bem ou muito mal. Jim Courier não esconde que foi surpreendido “pelo timing“, mas lembra que este tipo de separações tem sempre razões muito específicas.
“Acho que toda a gente que não fazia parte do entorno do Carlos Alcaraz ficou surpreendida com a separação. Até porque estavam a ter imenso sucesso e não parecia existir qualquer razão para mudar. E eventualmente, com mais tempo, tenho a certeza de que vamos saber mais sobre as verdadeiras razões da separação. Historicamente, e todos sabemos isto, as razões para um treinador e um jogador se separarem são: 1) os resultados não estão a aparecer e esse não era o caso aqui; 2) uma batalha por controlo e isso podia esta a acontecer com a família, com o jogador, com a gestão, mas eles pareciam ter uma boa relação; 3) claro, dinheiro. Por isso, a razão para a separação talvez esteja nestas últimas duas opções. Não sei. O que sei é que foi estranho e vai ser muito interessante assistir a este ano para perceber se tudo isto tem algum impacto no Carlos Alcaraz ou se ele segue só em frente”, atira o agora comentador.
▲ Nuno Borges vai arrancar o Open da Austrália contra o canadiano Félix Auger-Aliassime
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Ainda assim, Courier lembra que a equipa de Carlos Alcaraz é “muito grande” e que, apesar de Juan Carlos Ferrero ser naturalmente “uma peça chave”, o espanhol continua a beneficiar de “continuidade” por trabalhar com Samuel López, que já era o braço-direito do treinador. Sobre a dinâmica que o tenista tinha atualmente com Ferrero, o norte-americano não se alonga – mas explica que as relações profissionais, tal como as pessoais, evoluem com o tempo.
“Alguns jogadores precisam mesmo de um boss, de um chefe, e acho que alguns jogadores querem esse boss. Outros jogadores querem ser o boss. É muito único. Quando um treinador vai trabalhar com um novo jogador tem de aprender as necessidades dele e perceber a melhor maneira de lhe dar aquilo de que precisa. Por vezes, muitas vezes, o treinador está a manipular as situações sem que os jogadores sequer se apercebam. É esse o papel do treinador, perceber que psicologia pode funcionar, perceber a melhor maneira de dar as informações que o jogadores precisa de receber. É impossível saber exatamente que dinâmica é que o Juan Carlos e o Carlos tinham, como é que funcionava a relação deles, mas acho que podemos imaginar porque o Carlos começou muito novo e quando ainda sabia muito pouco, comparado com o que sabe agora. De certeza que, no início, o Juan Carlos dizia-lhe muitas vezes o que fazer e o Carlos não questionava. Não sei se continuou a ser o caso. Até porque essas dinâmicas mudam quando um jogador começa a ser mais bem sucedido, a ter mais experiência, a ficar mais confortável e mais confiante em relação ao que já sabe. É como uma relação amorosa, evolui e nós temos de evoluir com ela”, afirma.
Com quatro Grand Slam no currículo e um recorde de juventude que continua sem ser quebrado ao fim de três décadas, a verdade é que Jim Courier nunca enveredou pela carreira de treinador — e garante que nunca o considerou. “Sou casado, tenho dois filhos pequenos com nove e 11 anos. E adoro o facto de conseguir estar em casa e ser muito presente como pai. Se fosse treinador, para o fazer da maneira certa, tinha de estar a trabalhar todos os dias do ano, 24 horas por dia, tinha de estar sempre a pensar em maneiras de tornar o meu jogador melhor. Isso iria obrigar a alguns sacrifícios familiares e não estou disposto a fazê-los nesta altura da minha vida”, defende.
A vida de Djokovic dava um filme, mas o 25.º Grand Slam já é mais sonho do que objetivo
Apesar de todas as conversas irem naturalmente parar a Carlos Alcaraz e Jannik Sinner, é impossível fugir a um nome obrigatório: Novak Djokovic. De acordo com o sorteio realizado esta quinta-feira, o sérvio de 38 anos pode cruzar com o italiano nas meias-finais, sendo que até lá terá de eliminar Pedro Martínez, que defronta logo a abrir, ou até Lorenzo Musetti, que pode encontrar nos quartos de final.
Para Jim Courier, a grande vantagem de Djokovic face a Alcaraz ou Sinner continua a ser “a mentalidade”, sendo que a condição física é “o grande ponto de interrogação” face à possível prestação do sérvio no Open da Austrália. “Acho que tudo vai parar ao momento físico em que ele está e acho que ele próprio tem essa noção. Ele disse claramente depois do US Open que sente que já é muito difícil enfrentar o Alcaraz ou o Sinner à melhor de cinco sets. Claro que acho que o jogo dele continua lá, o jogo dele não envelheceu como o corpo vai envelhecendo, não teve lesões ao longo do tempo. O facto de ter chegado a quatro meias-finais no ano passado, com a idade que tem, é ridículo. É completamente absurdo e acho que tem capacidade para ainda ganhar outro Grand Slam, acho que vai tentar chegar ao 11.º na Austrália. Ele adora jogar lá, joga muito bem em em Melbourne, está fresco, só temos de ver se está em boa forma”, começa por dizer, antes de defender que Djokovic é “o G.O.A.T.”.
▲ Novak Djokovic chegou às meias-finais de todos os quatro Grand Slam em 2025
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“É o melhor de todos os tempos. Acho que é bastante simples. Alcançou mais do que qualquer outro e ainda tem a oportunidade de alcançar mais com a idade que tem, é incrível. O Novak apareceu na pior altura de sempre para se ser um grande jogador, porque o Federer já lá estava e o Nadal apareceu antes dele. E depois conseguiu, de alguma maneira, através do seu talento, da sua perseverança, da sua mentalidade, ultrapassar os outros dois em títulos e ter um registo superior em confrontos diretos. Tem sido notável assistir à evolução dele como jogador, como pessoa e como líder tanto dentro como fora do court. Todas essas lutas, todos esses desafios… Um dia vão dar um ótimo filme”, atira o norte-americano sobre o sérvio, que já conquistou 24 Grand Slam na carreira e que na temporada passada chegou às meias-finais de todos os Majors.
Em conversa com o Observador, para além de garantir que Aryna Sabalenka é a grande favorita a vencer em Melbourne e que seria “surpreendente” ver Madison Keys repetir o feito de há um ano, Jim Courier aproveitou ainda para falar sobre Nuno Borges. O tenista português, atual 46.º do ranking ATP, já sabe que vai defrontar o canadiano Félix Auger-Aliassime na primeira ronda do Open da Austrália depois de chegar aos quartos em Hong Kong, enquanto que Jaime Faria vai cruzar com o francês Arthur Cazaux.
“Acho que o Nuno Borges é uma potência. Adoro a forehand dele, é uma pancada monstruosa. A área onde gostava de o ver melhorar um bocadinho, e ele provavelmente já tem isso em mente, é na defesa. O movimento dele é bom, mas há outros jogadores que se mexem melhor e, quando tens uma arma como a que ele tem, tens de ter mais oportunidades de a usar ao jogar bem a defender e a voltar à posição neutra. Se fizer isso vai ser muito melhor. Essa é a área onde gostava de o ver tornar-se 1% melhor. Isso já faria uma diferença gigantesca para ele. Mas já é um jogador perigoso”, disse o norte-americano sobre o português, que na temporada passada alcançou a maior vitória da carreira ao derrotar Casper Ruud na segunda ronda de Roland Garros.