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Na reta final da segunda campanha de Donald Trump, no comício no Madison Square Garden em Nova Iorque uma semana antes das eleições, Steve Miller foi o primeiro a falar. Habitualmente nos bastidores, o aliado do Presidente norte-americano saltou para a ribalta e abordou o tópico que defendeu acerrimamente durante o primeiro mandato: o combate à imigração. “Foram décadas de abuso que atingiram as boas pessoas dos Estados Unidos da América (EUA). Os trabalhadores foram roubados. Os seus empregos foram para o México, para a Ásia e para outros países. As vidas dos seus entes queridos foram roubadas por imigrantes ilegais, gangues e criminosos que não pertencem a este país.”
“A América é para norte-americanos e apenas para os norte-americanos”, declarou assertivamente Stephen Miller no comício. Apesar de estar normalmente afastado dos palcos, o agora conselheiro sénior para a segurança interna dominava o palco. Sabia como cativar o público e entusiasmá-lo. Não foi à toa que escreveu, durante anos, os discursos de Donald Trump, ao qual se juntou nos primeiros tempos da campanha do magnata durante as primárias republicanas de 2016.
Desde o final de 2015, Stephen Miller e Donald Trump têm sido inseparáveis. O homem de 39 anos, nascido no sul da Califórnia num ambiente de esquerda, tornou-se um dos principais braços direitos do atual Presidente. É extremamente leal e admira o chefe de Estado, mas também sabe como manipulá-lo para levar a sua avante, em particular num tópico: a política migratória. O conselheiro é defensor de políticas com tolerância zero na imigração; aliás, foi o cérebro de uma das medidas mais polémicas no primeiro mandato — a separação das famílias dos imigrantes nas famílias.
Controverso, carismático e provocador, o agora conselheiro sénior para a segurança interna desempenhará um papel muito importante nesta segunda administração Trump, ajudando a moldar a política norte-americana na imigração. Mesmo que não seja um rosto muito conhecido pelos norte-americanos, Stephen Miller já mostrou que desempenhará o papel de ideólogo do Presidente e continuará a ter uma grande preponderância no núcleo duro da presidência.
No segundo mandato, Stephen Miller prepara-se para avançar com a agenda anti-imigração que sempre o guiou. Tentará levar a cabo, por isso, o “maior programa de deportação da História norte-americana”. Vai igualmente continuar a construção do muro na fronteira com o México, tentar desmantelar as cidades-santuário, que contrariam as ordens federais sobre o acolhimento de milhares de imigrantes, e vai avançar com o fim do programa ‘catch and release (deter e libertar)’, que deixa em liberdade os migrantes à espera de uma audiência judicial.
Neste sentido, outro dos conselheiros de Donald Trump diz ao jornal Axios que o homem de 39 anos deverá ser o “não eleito mais poderoso na Casa Branca”. Outro senador republicano sugere à mesma publicação que é claro que “se se quiser aprovar uma lei, é preciso trabalhar com Stephen Miller”.
O jovem nascido num ambiente democrata que se converteu num conservador de linha dura
Praia, bom tempo e rodeado de celebridades. Foi em Santa Monica, no estado da Califórnia, que Stephen Miller nasceu em 1985 no seio de uma família judaica. Segundo o New York Times, o pai era advogado e investia no setor imobiliário e a mãe era doméstica. O casal vivia confortavelmente e era assumidamente democrata; naquela cidade, aliás, eram muito poucos aqueles que se identificavam com o Partido Republicano.
▲ Santa Monica, na Califórnia
Getty Images
Mas desde cedo que o jovem Stephen não se identificava com as ideias políticas mais progressistas com as quais cresceu. “Acho que é possível nascer com uma personalidade conservadora”, reconheceu em entrevista à revista Atlantic, lembrando-se que, desde muito cedo, as notícias sobre crime o irritavam e lhe causavam uma resposta “emocional”. “O meu instinto [em relação aos criminosos] era pô-los atrás das grades até que não fossem uma ameaça para mais ninguém.”
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Na escola, cedo se rebelou contra as ideias de esquerda que alega que os professores lhe queriam impingir. “Ele estava numa escola muito liberal e muito diversa. Mesmo numa escola em que os nerds eram considerados fixes, ele era o tipo de que ninguém gostava”, conta à New Yorker uma das suas colegas de turma, Megan Healey. Foi na entrada no ensino secundário que Stephen Miller se recorda de se ter tornado um conservador. Um dos fatores que motivou essa viragem à direita foi o livro Guns, Crime, and Freedom (Armas, Crime e Liberdade), escrito por Wayne LaPierre, um dos principais defensores do direito ao uso e posse de armas nos EUA e antigo diretor da National Rifle Association, a principal organização de armeiros do país.
O 11 de Setembro de 2001 teve também um impacto na forma como o adolescente Stephen Miller ia maturando as suas ideias políticas: passou a defender de forma calorosa a administração Bush e criticava a entrada de muçulmanos nos EUA. Num artigo para o jornal da escola, o jovem de 16 anos reprovava a forma a direção do “politicamente correta que consumiu a escola secundária de Santa Monica”, dando o exemplo de que “Osama Bin Laden seria muito bem recebido na escola”.
Além da animosidade face aos muçulmanos, Stephen Miller também censurava, nesse artigo do jornal, que a escola usasse espanhol nos seus anúncios públicos. “Por mais politicamente correto que isso possa ser, isso retrata a população imigrante como incompetente e ridiculariza o ideal norte-americano de realização pessoal”, escreveu o jovem no jornal da escola.
Nas relações pessoais, estas visões contra a imigração também se manifestavam. À Atlantic, Jason Islas, um dos seus colegas de turma, recorda que Stephen Miller lhe telefonou e disse que deixava de ser seu amigo, entre outras coisas, por causa da sua “herança latina”. Ao New York Times, a Casa Branca desmentiu esta versão, alegando que os dois não eram amigos, mas antes “conhecidos”.
Tenham sido ou não amigos, Jason Islas salienta que, por muito paradoxal que possa parecer, Stephen Miller é fruto do ambiente que cresceu. “Foi uma rebelião de um adolescente contra o establishment de classe média alta que se metastizou”, caracteriza, acrescentando que tipo de conservadorismo “apenas podia sair de um local como Santa Monica” — um local onde o multiculturalismo era celebrado e os estudantes eram sensibilizados desde cedo para as diferenças culturais. O agora conselheiro de Donald Trump reconheceu que foi “rebelde”, mas culpava a falta de pensamento crítico dos seus pares: “Longe das imagens dos miúdos de 1960 que se rebelaram contra o poder, a maioria dos meus colegas de turma ficavam chateados pelas coisas que eu dizia”.
Stephen Miller's third-grade teacher: "He was a loner" and he ate glue https://t.co/nD97s9N50v pic.twitter.com/Gp3Uy9G0iJ
— The Hollywood Reporter (@THR) October 10, 2018
As palavras passavam aos atos, que chocavam muitos dos seus colegas. Na escola secundária, Stephen Miller, para provar a alegada superioridade atlética masculina, na reta final de uma prova de atletismo feminino, cruzou a linha de chegada. Em sua defesa, o agora conselheiro de Donald Trump sublinhou à Atlantic que estas e outras ações eram apenas uma forma de “controvérsia construtiva com o propósito de aclarar” as ideias dos seus pares.
Na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, onde estudou Ciência Política e continuava a escrever para o jornal da instituição de ensino, Stephen Miller manteve-se igual a ele mesmo: controverso, provocador e rebelde. Num artigo a que o Washington Post teve acesso, intitulado Peço Desculpa às Feministas, o universitário manifestou-se contra as leis de igualdade salarial. Noutro, atirava “contra um grande número de professores” na universidade, cuja função consistia em “doutrinar estudantes com as suas ideologias e preconceitos”.
Tal como acontecia na Califórnia, Stephen Miller organizou eventos considerados controversos. Coordenou, durante um semestre, “a semana da sensibilização contra o islamofascismo” para alertar a comunidade contra a “guerra sagrada” que estava a ser travada contra os EUA. Convidou membros conotados com a ala mais à direita do Partido Republicano para palestras na universidade. O que mais o celebrizou — e dita a sua entrada nos meios de comunicação social ligados ao Partido Republicano — foi a sua defesa de três estudantes brancos da equipa universitária de lacrosse que foram acusados de violar uma jovem negra. Os três jovens acabam absolvidos, o que deu ainda mais força a Stephen Miller.
STEPHEN MILLER 18 YEARS AGO WHEN A STUDENT AT DUKE.
Miller appears in 2006 with Bill O'Reilly to discuss the lacrosse rape scandal that turned out to be a hoax, as many had suspected.@StephenM pic.twitter.com/iYdwTYZOvr
— Citizen Free Press (@CitizenFreePres) December 14, 2024
Na universidade de Duke, Stephen Miller encontrou quem pensasse de forma mais ou menos parecida com ele. Uma dessas pessoas foi o seu colega Richard Spencer, um comentador político que atualmente é um dos principais defensores de ideias ligadas à supremacia branca. Stephen Miller recusou categoricamente ao Washington Post ter tido qualquer relação de amizade, ainda que tenha circulado o rumor de que Richard Spencer funcionou como o seu “mentor”: “Condeno as suas visões. Não tenho qualquer relação com ele. Ele nunca foi meu amigo”.
Quando terminou o curso, Stephen Miller já era um nome que circulava nos corredores do Partido Republicano por causa de toda a polémica relacionada com a alegada violação. Assim, consegue imediatamente trabalho no gabinete de comunicação da congressista republicana do Minnesota, Michele Bachmann, mudando-se para Washington. Mas a experiência dura pouco. Em 2009, vai trabalhar para junto de alguém que vai mudar a sua vida: o senador Jeff Sessions, do Alabama, que chegou a procurador-geral norte-americano durante o primeiro mandato de Donald Trump.
O “mestrado em migrações” e o início da carreira política de Stephen Miller
Havia algo que unia Jeff Sessions e Stephen Miller: os dois eram abertamente contra uma política aberta de migrações. O senador do Alabama estava bastante preocupado com a entrada de imigrantes no seu estado e consciencializa a sua equipa para a problemática. Neste sentido, o licenciado em Ciência Política, na altura com 24 anos, ficou ainda mais interessado no tema. Tanto que, conta um republicano à New Yorker, chegava a enviar emails a vários republicanos sobre o assunto: “Comecei a apagá-los quando via o seu nome. Toda a gente fazia isso”.
▲ Jess Sessions e Stephen Miller
CQ-Roll Call, Inc via Getty Imag
O senador do Alabama gostava de trabalhar com Stephen Miller e foi promovendo-o, tendo chegado a diretor de comunicação. Mas as suas funções iam além desse domínio, ajudando Jeff Sessions e outros republicanos a impedir a aprovação de um acordo bipartidário na área das migrações em 2013. À New Yorker, um membro do Partido Republicano conta que o agora conselheiro sénior de Donald Trump “fez um mestrado em política migratória durante esse processo”. “Antes disso, ele não tinha grande experiência política. Era tudo sobre comunicação.”
Escrevendo para meios de comunicação sociais de direita e relacionando-se com republicanos influentes, Stephen Miller foi ganhando influência entre os seus correligionários. Pela experiência que ganhou em 2013 e pela defesa acérrima das suas ideias anti-migração, muitos viam-no como um “intelectual” da ala mais radical do Partido Republicano. Em resultado disso, captou o interesse de nomes como o de Steve Bannon, que viria a ser o estrategista da campanha de Donald Trump.
Quando Donald Trump anunciou que se candidataria à presidência, Stephen Miller gostou logo da ideia. Admirava o magnata, corporizando o que pretendia ver na presidência: alguém contra o politicamente correto, com disponibilidade para adotar políticas anti-imigração e alguém que viesse alterar o sistema. À Atlantic, conta que sempre se impressionou com os “dotes naturais como comunicador” do magnata e pela sua “habilidade de manter a audiência atenta durante uma hora e meia”. “É capaz de mudar rapidamente da comédia para assuntos sérios. É o seu entendimento do drama.”
▲ Stephen Miller sempre admirou Donald Trump
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Apesar de muitos republicanos considerarem nulas as hipóteses de Donald Trump vencer as eleições primárias republicanas, Jeff Sessions identificava-se com as suas mensagens políticas. Mostrou-se, no entanto, bastante reticente em apoiar o magnata. Só após uma conversa com Steve Bannon é que mudou de ideias. O senador do Alabama tornou-se o primeiro a endossar a candidatura do empresário norte-americano — e Stephen Miller não podia ter ficado mais satisfeito.
Steve Bannon teve também um papel preponderante em promover Stephen Miller dentro da entourage de Donald Trump. O antigo diretor de comunicações do senador do Alabama converteu-se, assim, no homem que escrevia os discursos do republicano durante a campanha, sendo que também ainda animava os comícios antes de o empresário discursar. E, naturalmente, que as políticas anti-imigração ganharam grande destaque na campanha política do magnata.
Em novembro de 2016, Donald Trump venceu as eleições presidenciais. Foi um momento de consagração para Stephen Miller, como definiu ao Washington Post; foi uma batalha ganha “contra probabilidades mínimas, contra forças poderosas e pela procura de justiça”. Durante a campanha, os dois tinham tido uma boa relação. E não era de estranhar que, apesar de ainda ter 31 anos, o republicano lhe quisesse dar um cargo importante na sua administração. Não obstante, Stephen Miller não queria nenhum cargo específico; aspirava, em vez disso, a ser conselheiro.
▲ Vitória de Donald Trump em 2016 foi um momento de consagração para Stephen Miller
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O Presidente norte-americano fez-lhe a vontade, atribuindo-lhe o cargo de conselheiro sénior da presidência. Inicialmente, Stephen Miller trabalhou com o procurador-geral Jeff Sessions e com Steve Bannon, elaborando políticas anti-imigração bastante restritivas. Uma das primeiras, numa ordem executiva assinada nas primeiras semanas de Donald Trump na Casa Branca, passa pela proibição da entrada nos Estados Unidos de cidadãos oriundos de sete países com maioria muçulmana.
Em 2018, ocorreu a maior polémica do conselheiro: a aplicação da medida que separava famílias imigrantes na fronteira, que foi recebida com desagrado pela maioria do público norte-americano. Stephen Miller defendia-a, contudo: “Foi uma decisão simples, de uma administração que tem uma política de tolerância zero para entradas ilegais. A mensagem é que ninguém é um exemplo da lei da imigração”.
Porém, face à pressão pública, Donald Trump viu-se obrigado a recuar na medida. Mas não foi Stephen Miller quem ficou com as culpas. Foi antes Kirstjen Nielsen, antiga secretária da Segurança Interna, quem teve que lidar com as críticas, em particular as do Presidente. “Não tenho nem ideia como é que Miller conseguiu escapar. Ele sabe como e quando desaparecer”, confidenciou um dirigente republicano à New Yorker.
“O canivete suíço de Trump”. O regresso de Stephen Miller à Casa Branca
Vários dos membros da administração Trump entraram em rota de colisão com o Presidente durante o primeiro mandato. Stephen Miller não. Em declarações ao New York Times, Kevin McCarthy, o antigo líder da Câmara dos Representantes, definiu o conselheiro sénior como o “cérebro” de Donald Trump. “O Presidente confia totalmente nele. Trump queixa-se sobre quase toda a gente. Nunca sobre ele.”
Não é de estranhar, portanto, que tenha desempenhado um papel na campanha para as presidenciais de 2024, mas não tanto na dianteira. Ao longo dos anos, o republicano foi optando por essa estratégia: ser uma presença nas sombras, que consegue influenciar Donald Trump. Isso deverá continuar neste segundo mandato. Um membro da equipa do magnata caracterizou Stephen Miller como “o canivete suíço de Trump”: “Faz as políticas, cumpre as políticas e trata da relação com os meios de comunicação sociais”.
“Ele é um dos confidentes mais próximos do Presidente e um dos quais que ele mais confia”, confirma fonte da administração Trump ao Politico. O motivo? Donald Trump já teve provas de que Stephen Miller lhe é fiel. Charlie Kirk, ativista conservador, refere ao New York Times que “algumas pessoas no mundo de Trump estão lá por vantagens na carreira ou razões transacionais”. “Mas o Stephen acredita profundamente na agenda do Presidente” — e o atual chefe de Estado pressente isso.
▲ Stephen Miller é um dos principais confidentes de Donald Trump
ROBYN BECK/AFP/Getty Images
O conselheiro não só acredita na mensagem de Donald Trump, como também a molda e a influencia. Mas sempre nos bastidores; aliás, durante os últimos meses, foi-se aproximando discretamente do vice-presidente J.D. Vance e até do homem mais rico do mundo, Elon Musk. Nesta segunda administração, longe do jovem rebelde que desafiava professores, Stephen Miller parece continuar a ser uma presença forte e assídua, mas discreta, na Casa Branca.