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A unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar abriu portas em fevereiro de 2024 e já tem vários testemunhos de sucesso.
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Rodrigo Cabrita

Rodrigo Cabrita

“Temos de nos entregar a quem sabe”

A unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar abriu em fevereiro de 2024. Teresa e Olívia já beneficiaram deste apoio especializado e partilham a sua experiência.

Teresa (nome fictício) atravessa a porta da unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar de braço dado com a irmã mais nova, que a vem acompanhar. “Já voltámos do nosso passeio. O Dr. André ainda está por aí?”, pergunta. “Está sim, pode ficar tranquila”, confirma Pedro Freire, enfermeiro responsável pela unidade. “Que bom, estava com receio de me ter atrasado e de já não o apanhar. Assim ainda consigo falar um bocadinho com ele. Faz-me sempre tão bem, é muito bem disposto”, acrescenta Teresa, em referência a um dos psiquiatras da equipa que a tem acompanhado. Vem cansada e explica que, na verdade, está a regressar de uma sessão de eletroconvulsoterapia (ECT), uma terapia também conhecida por eletrochoques, um tratamento psiquiátrico no qual são provocadas alterações na atividade elétrica do cérebro, induzidas por meio de passagem de corrente elétrica, e que pode ser necessário em situações específicas de doença mais complexa.

Rodrigo Cabrita

Esta é apenas uma das muitas estratégias utilizadas pela equipa do Hospital do Mar que, em fevereiro de 2024, abriu uma nova unidade de internamento de Psiquiatria com o objetivo de dar uma resposta diferenciada e personalizada numa área onde persistiam carências para as situações agudas, em que a melhor resposta é o internamento. Perturbação depressiva ou perturbação de ansiedade grave, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, doença bipolar ou adições – das mais clássicas, como o álcool, às mais recentes, como os videojogos – são muitos os exemplos das situações que podem beneficiar deste internamento de 14 camas, criado na zona de Lisboa e que faz parte da rede Hospital da Luz.

Rodrigo Cabrita

Nenhum dos nomes das patologias ou dos tratamentos surpreende propriamente Teresa. Tem 62 anos e é psicóloga de formação. Trabalhou durante alguns anos com crianças e jovens em risco, uma realidade que considera “pesada”, mas acredita que fez a diferença nas vidas em que tocou. Mas muito do que estudou, começou também a vivenciar bastante cedo na primeira pessoa. Partilha que sempre sentiu alguma instabilidade emocional. Mas foi o divórcio, há mais de 30 anos, que fez o copo transbordar e que a conduziu ao primeiro internamento de psiquiatria num hospital público, situação que se foi repetindo, com a necessidade de ter sido também acompanhada de forma prolongada em contexto de hospitais de dia.

Comissão Europeia

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A saúde mental é uma parte integrante da saúde e uma prioridade para a Comissão Europeia, que tem apoiado ações e projetos nos últimos 25 anos para melhorar a saúde mental das pessoas na UE e além fronteiras. Em 7 de junho de 2023, a Comissão adotou a Comunicação sobre uma abordagem abrangente para a saúde mental, que ajudará os Estados-Membros e as partes interessadas a tomar ações rápidas para lidar com os desafios relacionados à saúde mental. Com esta nova Comunicação, a Comissão Europeia revela que a maioria dos europeus coloca a saúde mental no mesmo nível da saúde física. (1)

60 %

Europeus que consideram que os fatores mais importantes para uma boa saúde mental são as condições de vida (2)

53 %

Europeus que destacam a segurança financeira como essencial para a saúde mental (2)

35 %

Europeus que citam o contacto com a natureza e os espaços verdes como fundamentais para a saúde mental. Encontrou-se percentagem idêntica para o peso dos hábitos de sono, para a atividade física e para o contacto social (2)

“Na altura as coisas eram diferentes e muito pesadas. Talvez as pessoas ainda tenham essa ideia da psiquiatria e por isso tardam em pedir ajuda. Mas é muito importante pedirmos ajuda e pedirmos ajuda cedo, sendo certo que nem sempre nos apercebemos de como estamos. Muitas vezes é quem convive connosco que percebe que estamos demasiado tristes ou eufóricos e isso não é nem bom nem normal”, assume, recordando períodos que não quer que voltem, em que vagueava na rua sem destino e em que tinha dificuldade em tomar decisões financeiras de forma consciente. “Sou psicóloga, mas sempre soube que santos da casa não fazem milagres. Temos de nos entregar a quem sabe e aqui, no Hospital do Mar, sinto que estão a par do que melhor se faz e são muito inovadores”, reforça. No seu caso, veio referenciada pela psiquiatra assistente.

“É muito importante pedirmos ajuda e pedirmos ajuda cedo, sendo certo que nem sempre nos apercebemos de como estamos. Muitas vezes é quem convive connosco que percebe que estamos demasiado tristes ou eufóricos e isso não é nem bom nem normal.” 
Teresa

No Hospital do Mar não há rótulos ou respostas iguais para todos. O objetivo é trabalhar com cada doente e com cada família para encontrar o melhor caminho e a resposta que mais se adapta às necessidades e expetativas de quem aqui chega. “Pretendemos que o doente venha e permaneça o mínimo de tempo possível, mas tendo naturalmente acesso a todos os cuidados de que necessita, para que não haja readmissões no futuro. Um dos aspetos muito importantes na nossa forma de trabalhar é o Plano Individual de Cuidados, que traçamos num contexto de equipa multidisciplinar e reunindo contributos de toda a equipa”, explica Maria João Heitor, psiquiatra e uma das mentoras do projeto da nova Unidade do Hospital do Mar no grupo Luz Saúde.

Além da equipa de psiquiatras, enfermeiros e psicólogos, a nova unidade beneficia muito ao estar integrada num hospital com quase 20 anos de vida e que conta com uma equipa muito oleada e completa. Médicos de família, médicos de medicina interna, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, assistentes sociais, entre outros, completam a resposta proporcionada pelo novo internamento e permitem de forma muito rápida acionar todos os meios necessários para traçar o plano individual preconizado para cada pessoa. É com esta oferta acessível que se constrói o melhor plano para cada doente, com a vantagem de se promover também uma ligação entre os vários serviços do Hospital do Mar, onde já existiam respostas em áreas como geriatria, cuidados paliativos, demências e reabilitação, com uma unidade dedicada ao Acidente Vascular Cerebral (AVC) e outra à reabilitação ortopédica traumatológica.

“Um dos aspetos muito importantes na nossa forma de trabalhar é o Plano Individual de Cuidados, que traçamos num contexto de equipa multidisciplinar e reunindo contributos de toda a equipa.” 
Maria João Heitor

Dependendo do dia da semana e da hora do dia, será possível encontrar Olívia (nome fictício) entretida a fazer malha, decorações adaptadas às efemérides mais próximas ou a jogar dominó com os amigos que tem feito no Hospital do Mar e com quem se cruza nas atividades. Tem 74 anos e o seu quarto dista poucos metros do quarto de Teresa. Porém, para Olívia esta é a primeira experiência de internamento. Ao longo da vida foi precisando de apoio para dormir e para conseguir lidar com as contrariedades de forma mais tranquila, mas encontrou essa resposta sempre junto do médico de família. Porém, nos últimos tempos a situação foi ficando mais complicada de gerir.

Rodrigo Cabrita

Foi após uma ida à urgência do Hospital da Luz que foi encaminhada para uma avaliação no Hospital do Mar e acabou por concordar em ficar internada para poderem perceber melhor o seu caso e adaptar a medicação. Um dos mitos ou estigmas que o Hospital do Mar pretende ajudar a desfazer é precisamente a ideia de que é preciso chegar ao limite para ser internado. O internamento pode ser uma resposta muito importante para aferir diagnósticos e encontrar, em segurança, as melhores respostas para cada pessoa.

“Aqui sinto-me até melhor do que em casa. Não preciso de me preocupar com nada. Acompanham-me com carinho.” 
Olívia

Olívia não sabe explicar exatamente o que tem, mas reconhece que sempre teve muita dificuldade em parar. Sempre trabalhou por contra própria com o marido, contando em diferentes fases também com os filhos nos negócios da família. “Eu, se não vejo uma coisa logo feita, fico nervosa. Nunca soube estar parada. Vou daqui para ali e dali para aqui. Isto de ter negócios é sempre muito complicado, só dão chatices, tanto que fomos mudando de ramo”, explica, adiantando que tem sempre uma casa cheia de pessoas a entrar e a sair. Gosta assim, mas a verdade é que isso também se traduz em mais afazeres domésticos, em horas intermináveis a cozinhar e a cuidar de tudo para que todos estejam bem. “Todos ajudam nas tarefas, mas sabe como é, uma pessoa prefere sempre as coisas à sua maneira”, diz.

Eurobarómetro

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O Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental revelou que nove em cada dez inquiridos (89 %) consideram que a promoção da saúde mental é tão importante como a promoção da saúde física. Ao mesmo tempo, só menos de metade dos inquiridos consideram que as pessoas com problemas de saúde mental recebem o mesmo nível de cuidados que as pessoas com uma doença física. (2)

45 %

Europeus que consideram que a União Europeia poderia dar um maior contributo para melhorar a saúde mental dos cidadãos europeus ao melhorar a qualidade de vida em geral nos vários países (2)

37 %

Europeus que consideram “melhorar o acesso e o apoio ao diagnóstico, ao tratamento e aos cuidados de saúde mental” uma das áreas em que a União Europeia devia investir (2)

“Grande parte das situações de doença mental gerimos nos cuidados de saúde primários e muitos desses problemas são resolvidos. Contudo, há bandeiras vermelhas que estão devidamente identificadas, e em que faz sentido haver uma referenciação e coordenação de cuidados com a psiquiatria”, explica João Sequeira Carlos, coordenador da área de medicina geral e familiar do Hospital da Luz. “Esses sinais de alerta são, desde logo, a falência terapêutica. O agravamento de um quadro clínico na área da psicopatologia, que já está sob terapêutica e gerido na medicina geral e familiar, mas em que não há resultados ou há mesmo um agravamento desses sinais e sintomas é um primeiro critério de referenciação para a psiquiatria”, acrescenta, reconhecendo que há hoje uma necessidade maior de respostas na área da saúde mental.

Luís Duarte Costa, especialista em Medicina Interna e da equipa do Atendimento Urgente do Hospital da Luz Lisboa, também identifica um aumento das situações que chegam à urgência e que precisam de apoio especializado da psiquiatria. “Felizmente, o nosso serviço de urgência está bem preparado para isso e temos todas as condições logísticas e de equipa médica e de enfermagem para o fazer”, explica, adiantando que a abertura da nova unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar está a ser crucial para a continuidade de cuidados. Até agora, quando recebiam um doente que precisava de internamento tinham de o referenciar para o Serviço Nacional de Saúde. “Agora temos esta possibilidade de mantermos os cuidados dentro da rede Hospital da Luz, com o mesmo corpo clínico, com o mesmo corpo de enfermagem, com a mesma ideia que todos temos sobre tratar os doentes”.
“O agravamento de um quadro clínico na área da psicopatologia, que já está sob terapêutica e gerido na medicina geral e familiar é um primeiro critério de referenciação para a psiquiatria” 
João Sequeira Carlos

“Para o encaminhamento e para a referenciação de doentes para o internamento no Hospital do Mar, para lá do psiquiatra, qualquer médico pode encaminhar um doente para uma primeira avaliação, seja ou não acompanhado na rede Hospital da Luz. Recebemos maioritariamente doentes encaminhados por colegas psiquiatras, mas também através da urgência do Hospital da Luz ou mesmo através da Linha de Apoio LUZ 24”, reforça Maria João Heitor.

Rodrigo Cabrita

Aqui, no Hospital do Mar, Olívia sente-se em casa. “Ou até melhor do que em casa. Sabe? Eu aqui não preciso de me preocupar com nada. Tenho este quarto muito bom, tratam das refeições todas por mim. Quando é hora de ir a algum exame ou atividade acompanham-me com carinho. Não fossem estas dores que ainda tenho nas pernas e até achava que estava de férias num hotel, não é? Já viu bem o jardim que temos aqui fora e as oliveiras, é uma maravilha podermos sair e ir dar um passeio”, acrescenta, lembrando que tem sido acompanhada pelo enfermeiro Pedro Freire em alguns passeios ao jardim, espaço pensado de forma especial para ter também benefícios terapêuticos. Aprender a desacelerar e a organizar o dia de uma forma mais sustentável e previsível está a ser uma das vantagens deste internamento.

Rodrigo Cabrita

“Com o novo internamento no Hospital do Mar, temos esta possibilidade de mantermos os cuidados dentro da rede Hospital da Luz, com o mesmo corpo clínico, com o mesmo corpo de enfermagem, com a mesma ideia que todos temos sobre tratar os doentes” 
Luís Duarte Costa

Teresa não partilha o mesmo gosto pelas várias atividades, como Olívia, e aprecia a capacidade de individualizarem as respostas proporcionadas. Prefere aproveitar os espaços mais tranquilos, ler um livro e ir vendo quem da equipa vai passando pelo corredor para dois dedos de conversa. Mas corrobora o mesmo sentimento pela qualidade da resposta e pelos espaços. “Este é um hospital bonito, não é pesado, e acredite que eu sei o que digo, já vi muito. Reparou bem nestes jardins que temos aqui? Isto ajuda muito na nossa recuperação. Uma pessoa por vezes até se esquece de onde está”, diz Teresa.

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De quando em vez, Teresa desvia os olhos para uma moldura que decora o seu quarto – um pormenor de personalização que pretende tornar a passagem por este internamento mais familiar, mas sem descurar fatores de segurança, pelo que a moldura não tem vidro. Na fotografia estão os sobrinhos. “Sou doida por estes miúdos. Agora são grandes, já têm as suas vidas, mas sempre me dediquei muito a eles”, garante. Alimenta-se das memórias das tardes passadas na sua casa ou no apoio que chegou a dar a ir levar e buscar à escola. Em breve, espera poder estar de novo com eles.

Para Teresa não há palavras para descrever o caminho que tem feito no Hospital do Mar e que espera conseguir prosseguir no regresso a casa. Mas, tendo de definir este serviço e esta equipa em apenas três palavras, é perentória na escolha: fantástica, autónoma e moderna. Olívia acrescenta que são “excelentes, humanos e atenciosos” e admite que no dia da alta vai sentir falta de todos. Quem sabe, um dia voltará apenas para dar uma volta no jardim e ver se continua a ser cuidado de forma irrepreensível. Nessa altura, é possível que se cruze com o enfermeiro Pedro Freire a explorar o espaço de braço dado com um novo doente que venha a beneficiar desta mesma resposta.

Fontes utilizadas

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1 – Council of the European Union. (2023). Council conclusions on mental health. 15971/23 SAN 699 SOC 823 EMPL 590 RECH 529 JEUN 275 EDUC 463 CULT 170 DIGIT 279 ENV 1378 ECOFIN 1280 FIN 1240. Adopted at the EPSCO Council (Health) meeting, 30 November 2023, Brussels.

2 – European Commission. (2023). Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions on a comprehensive approach to mental health. Brussels: European Commission, Brussels.

Este texto faz parte do conjunto de reportagens “Por detrás dos cuidados”, no âmbito do projeto “Redes Mentais”.

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