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ANA MARTINGO/OBSERVADOR

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

Testes, mesas separadas e menos pessoas. Que medidas vão adotar este Natal 14 especialistas? /premium

Testes na véspera ou no dia 24, mesas separadas ou refeições com distanciamento físico, máscaras e redução no número de pessoas. As estratégias dos especialistas para um Natal em plena pandemia.

O Natal de Maria Mota este ano já iria ser diferente. Iria passá-lo pela primeira vez no Alentejo, na casa do seu companheiro, com toda a família: as duas filhas e as do seu companheiro, os pais, a irmã e o cunhado que vivem no Norte e a sobrinha que vive em Madrid. A pandemia, no entanto, acabou por lhe arruinar os planos. “A ideia era fazermos uma celebração todos juntos, na mesma casa, mas não foi possível. Será possivelmente para o próximo ano”, diz a diretora do Instituto de Medicina Molecular (iMM) João Lobo Antunes, em Lisboa, ao Observador.

Em vez disso os dois dias do Natal serão passados com diferentes pessoas e com as devidas regras para impedir a transmissão do novo coronavírus. No dia 24 de dezembro a investigadora, que lidera a equipa que desenvolveu um teste de diagnóstico para a Covid-19 recorrendo a reagentes existentes em Portugal, irá rumar até Vila Nova de Gaia para passar a ceia de Natal em casa da irmã e do cunhado com os pais. Nem as filhas da cientista, que passam a consoada com o pai biológico, nem a sobrinha e respetivo marido irão estar presentes.

Na véspera ou dois dias antes, Maria Mota e os familiares, à exceção dos pais que têm 82 anos, vão fazer um teste PCR para garantir que não estão infetados.
Maria Mota, diretora do iMM

O teste “made in Portugal” que começa esta segunda-feira a ser aplicado nos lares do país

Na véspera ou dois dias antes, Maria Mota e os familiares, à exceção dos pais que têm 82 anos, vão fazer um teste PCR para garantir que não estão infetados. “O teste rápido é bom para quem já tem sintomas e confirmar [a infeção], mas se a pessoa não tiver qualquer tipo de sintomas, a probabilidade de dar negativo é muito grande e pode já estar positivo.”

Ainda assim, refere a investigadora, não estão “completamente confortáveis”. “Não vamos estar ali aos abraços como normalmente e vamos manter o distanciamento.” Até mesmo durante a refeição: a mesa será aberta na sua máxima extensão, de um lado estarão Maria Mota, a irmã e o cunhado e do outro os pais.

Aliás, precisamente para garantir a segurança de todos nem a preparação da ceia de Natal será como nos outros anos: “Costumamos fazer bacalhau cozido e toda a gente tem de estar a ajudar na cozinha. Este ano, vai na mesma ser bacalhau, mas no forno para ser mais simples e para não estarmos uns em cima dos outros.”

Fora da refeição, irão estar de máscara. A diretora do iMM, especialista no estudo do parasita da malária, conta que tem tido “uma conversa de psicologia ao longo dos dias” com os pais para lhes explicar que o uso da máscara, apesar de irem ser testados, será para os manter protegidos e para “ter a certeza que nada corre mal”.

Maria Mota deverá passar a noite em casa dos pais e na manhã seguinte regressa a Lisboa para ir buscar as filhas e preparar o almoço do dia 25, que será passado com o companheiro e respetivas filhas. Serão sete no total e irão organizar-se por núcleo familiar. Todos serão testados à Covid-19, mas irão usar máscara quando não for possível manter o distanciamento físico.

“Até já pensámos na refeição para ser algo que uma pessoa pega e senta-se na mesa ou no sofá. Estamos todos juntos, mas não precisamos de estar todos à mesa a conversar uns para cima dos outros“, afirma a investigadora, acrescentando que os avós também irão estar presentes no almoço, através do Skype, para compensar o facto de não estarem com as netas no dia 25, como seria costume. “Já temos uma combinação: quando os meus pais forem vacinados, aí juntamos a família toda.”

Um Natal em família graças à internet, ao Zoom e ao Skype

A família do infecciologista Jaime Nina fará o mesmo na noite de Natal: “Vamos estar pendurados no Skype uma data de tempo na noite de dia 24“, conta ao Observador. Habitualmente a ceia de Natal em casa do médico é feita com seis pessoas: Jaime Nina e a mulher, os filhos e respetivos genros ou noras “se houver”. Este ano estarão na mesma todos juntos, mas à distância, uma vez que a filha do especialista, que está a viver em Londres, no Reino Unido, não virá a Portugal devido a “limitações nos voos” e à quarentena (agora agravada com a descoberta da nova mutação do vírus).

O jantar irá decorrer em mesas separadas com pelo menos dois metros de distância uma da outra e as várias pessoas irão usar máscara.
Jaime Nina, infecciologista do Hospital Egas Moniz, em Lisboa

Não é costume a família juntar-se para o almoço do dia de Natal, mas “é possível” que o médico e a mulher recebam o filho e a respetiva namorada para jantar nesse dia. “Ainda não está decidido, o hospital ainda não disse o que vai acontecer. Só espero que não me escalem no dia de Natal”, desabafa o infecciologista do Hospital Egas Moniz, em Lisboa.

O jantar, porém, irá decorrer em mesas separadas com pelo menos dois metros de distância uma da outra e as várias pessoas irão usar máscara, exceto durante a refeição, como aliás já acontece noutras ocasiões. “O meu filho quando vai lá a casa usa máscara desde que entra até que sai. E nada de beijinhos. À partida será a mesma coisa no dia 25”, diz o professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa.

"Seria complicado eles virem para cá e depois regressarem. Com todos esses aspetos logísticos das viagens, vamos fazer um Natal por Zoom"
Manuel Carmo Gomes, epidemiologista

Manuel Carmo Gomes também irá recorrer a uma plataforma para estar com os filhos, que vivem nos Estados Unidos e que não vêm a Portugal durante esta época festiva. “Seria complicado eles virem para cá e depois regressarem. Com todos esses aspetos logísticos das viagens, vamos fazer um Natal por Zoom“, explica o epidemiologista ao Observador, que irá passar estes dias na companhia da mulher, do cão e do gato, Toby e Snoopy.

As novas tecnologias também serão utilizadas na casa de António Diniz. O pneumologista, que pertence ao Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos, irá passar a consoada com a mulher e com dois dos quatro filhos que ainda moram na sua casa. Os restantes filhos e os três netos, bem como outros membros da famílias com quem por norma passaria a noite de Natal, irão fazê-lo à distância: “Vamos fazer uma edição especial via internet em que arranjamos forma de estarmos juntos.”

Esta foi uma decisão que foi sendo tomada em conversa “uns com os outros” e de forma a que “todos se sentissem à vontade”, garante o médico. Juntar todos os filhos e respetivas famílias implicaria estar “uma dúzia” de pessoas ao mesmo tempo e isso “já era demais”.

“Vamos ver-nos, vamos estar, vamos conversar uns com os outros, mas não é fundamental que o façamos à volta de uma mesa, a almoçar ou a cear“, explica o pneumologista do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, acrescentando que um Natal ‘normal’ em sua casa costuma ter entre 20 a 30 pessoas.

O encontro presencial com os diferentes membros da família irá acontecer nos dias seguintes em sua casa, mas sempre garantindo a máxima segurança de todos, isto é, no jardim, em grupos pequenos e com o uso de máscara, caso seja necessário e mesmo ao ar livre.
António Diniz, pneumologista do Hospital Pulido Valente, em Lisboa

O encontro presencial com os diferentes membros da família irá acontecer nos dias seguintes em sua casa, mas sempre garantindo a máxima segurança de todos, isto é, no jardim, em grupos pequenos e com o uso de máscara, caso seja necessário e mesmo ao ar livre. “Sendo certo que em ambientes arejados é mais difícil a propagação [do vírus], eu não arriscarei, especialmente quando se tem miúdos pequenos que correm e se agarram espontaneamente.”

Haverá ainda visitas a casa dos pais e do sogro de António Diniz, que por norma passam esta época em sua casa, mas não só serão curtas, como serão com poucas pessoas e não irão envolver refeições. “Isto tem de ser adaptado à realidade e às dimensões físicas das casas das pessoas, porque juntar quatro pessoas pode ser uma coisa que respeite as regras, mas noutra situação pode ser uma confusão.”

Testes rápidos podem dar “uma falsa sensação de segurança”: “É o pior de tudo”

Quanto à possibilidade de realizarem testes à Covid-19 para estarem todos juntos, António Diniz, que já esteve infetado com o novo coronavírus, sublinha o problema da validade dos testes rápidos. “Teríamos que fazer testes 18 horas, no máximo 24 horas, antes para estarmos todos no dia seguinte. Dois dias depois já é questionável”, explica o médico. “O meu receio é que as pessoas assumam que pelo facto de fazerem um teste isso garanta a quadra natalícia toda e como não garante, arriscamo-nos a ter problemas desnecessariamente.”

Já Fernando Maltez, que também tem uma família numerosa (cinco filhos e três netos), diz que “provavelmente” uma das filhas e o respetivo marido, com quem vão estar no Natal, farão o teste. Ainda assim, garante que não vai juntar “de maneira nenhuma” todo o seu agregado familiar. Em sua casa não vão estar mais do que seis pessoas, sendo que o normal seria ter cerca de 17, o que inclui a sua irmã e os pais de um genro e de uma nora.

“Não vou estar com os meus netos. Vou estar só com os meus dois filhos solteiros, que vivem comigo, e uma filha que é casada, mas não tem filhos [e o genro]. Esse vai ser o meu agregado familiar no Natal”, indica o diretor do serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa.

As refeições dos dias 24 e  25 serão feitas à mesa, que é grande o suficiente para permitir uma distância de um metro a um metro e meio entre cada pessoa. Além de manterem a etiqueta respiratória, a higiene pessoal e a lavagem frequente das mãos.
Fernando Maltez, diretor do serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa

“Desconfinámos depressa demais”. Diretor do Serviço de Infecciologia do Curry Cabral pede medidas mais restritivas.

As refeições dos dias 24 e  25 serão feitas à mesa, que é grande o suficiente para permitir uma distância de um metro a um metro e meio entre cada pessoa. Além de manterem a etiqueta respiratória, a higiene pessoal e a lavagem frequente das mãos.

A estratégia de Roberto Roncon, caso a família opte fazer ceia de Natal, será recorrer aos vários espaços da casa dos seus pais para espalhar os diferentes elementos da família. “Em vez de estarmos todos à mesa, podemos estar quatro numa mesa e as crianças noutra mesa, numa sala ao lado. Estaremos separados, com contacto visual, mas não tão próximos uns dos outros”, diz o coordenador do Centro de Referência de ECMO  (Oxigenação por Membrana Extracorporal) do Hospital de São João, no Porto, ao Observador.

Estarão no máximo sete pessoas em cada um dos dias, quando noutros natais seriam entre oito a nove pessoas do seu lado e entre 30 a 40 do lado da família da mulher.
Roberto Roncon, coordenador do Centro de Referência de ECMO do Hospital de São João, no Porto

No dia 24 de dezembro, o médico intensivista irá juntar apenas o seu agregado familiar, que inclui a mulher, a filha de 13 anos e os filhos gémeos de 11, com os seus pais. O encontro com os avós maternos irá realizar-se no dia seguinte e pelo menos para Roberto Roncon só à noite, uma vez que estará a trabalhar durante o dia. Neste caso provavelmente os avós não irão partilhar refeições com os netos.

Estarão no máximo sete pessoas em cada um dos dias, quando noutros natais seriam entre oito a nove pessoas do seu lado e entre 30 a 40 do lado da família da mulher, e serão encontros “sem grande confraternização”, garante o intensivista. “A duração também vai encurtar. Se houver jantar no dia 24, é jantar e ir para casa.” Estas incursões ficam sem efeito se alguém tiver sintomas respiratórios e uma coisa é certa: não serão feitos testes rápidos. Para o médico, estes testes podem dar “uma falsa sensação de segurança”, o que “é o pior de tudo”.

“Um teste rápido negativo diz que eu não tenho replicação vírica que me permita transmitir a doença a outro, mas posso estar numa fase assintomática, ter um teste negativo e no dia seguinte ter um positivo. Se eu fizer um teste no dia 23 [de dezembro] e for negativo, isso não me garante que dia 24 não possa ser um agente de transmissão e de disseminação da infeção“, explica Roberto Roncon, admitindo que prefere assumir que tem Covid-19 e tomar as devidas precauções nesse sentido.

Apesar de o jantar de Natal ainda não ser algo garantido, o uso de máscara será regra, com exceção para a refeição, sempre que não for possível manter uma distância de mais um metro e meio. O médico assume que com crianças o risco nunca é “zero”, pelo que será necessário gerir a situação “com o maior bom senso possível”.

“Eu como vou estar presente vou tentar ser o árbitro, alguém tem que fazer a figura do mau da fita“, diz o médico do São João ao Observador. “Isto não é fácil. Não adianta ser radical demais, porque pode gerar uma reação má. Eu ficava contente com visitas aos avós de um lado e do outro, estarmos pouco tempo, sem abraços e com uma troca de presentes a mais discreta possível.”

“Se as coisas aumentarem a pique a responsabilidade é direta do Governo”

O intensivista não deixa, contudo, de apontar o dedo ao Governo, referindo que teria sido preferível dar “indicações claras” sobre o Natal, à semelhança do que fez a chanceler alemã, Angela Merkel, que “teve a coragem de assumir a sua posição”. “A responsabilidade dos portugueses é importante, mas também é importante saber o que um Governo recomenda. O Governo podia ter uma pedagogia diferente de dar uma maior latitude às famílias e não ser tão impositivo.”

Miguel Guimarães também tece duras críticas ao Executivo e lamenta que o primeiro-ministro não tenha aproveitado o aumento das restrições para a Passagem de Ano, divulgadas esta quinta-feira, para definir um número limite para os ajuntamentos no Natal: “É mais um erro grave. Vamos ter festas de Natal com 30, 40, 50 pessoas e se as coisas aumentarem a pique, a responsabilidade é direta do Governo”, afirma o bastonário da Ordem dos Médicos.

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Este ano o urologista do Hospital de São João, no Porto, está de prevenção à Cirurgia de Transplantação nos dias 25, 26 e 27 de dezembro, pelo que é “quase garantido” que terá de trabalhar em algum momento. Resta-lhe o dia 24, cujo jantar não terá mais de quatro pessoas, incluindo o bastonário e a mulher, para assegurar um distanciamento de segurança entre todos e a máscara será utilizada fora da refeição.

No dia 24, o jantar não terá mais de quatro pessoas, incluindo o bastonário e a mulher, para assegurar um distanciamento de segurança entre todos e a máscara será utilizada fora da refeição.
Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos

Ainda não tem planos definidos, mas certamente, ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, não irá estar com a família da mulher em Aveiro. “Uma das coisas que estaria programado para este ano era irmos a Aveiro, onde somos mais de 20 pessoas, e isso não vai acontecer.”

À semelhança de Roberto Roncon, Miguel Castanho, docente de bioquímica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e Margarida Tavares, infecciologista no Hospital de São João, no Porto, irão separar as visitas aos respetivos lados da família por dias.

Miguel Castanho deverá passar a ceia de Natal em casa dos pais, com o seu núcleo familiar — a mulher e as duas filhas com idades na casa dos 20 anos —, mas ainda não está definido se a sua irmã também estará presente. A refeição não deverá ser feita na mesma mesa: “Ou ficamos numa mesa mais espaçados, o que é de algum risco, ou então não comemos à mesa“, refere o investigador principal do iMM, acrescentando que, por norma, costumam ser o dobro das pessoas na noite de Natal.

"Ou ficamos numa mesa mais espaçados, o que é de algum risco, ou então não comemos à mesa".
Miguel Castanho, docente de bioquímica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Uma vida sem Covid-19? Só daqui a um ano poderemos (saber se vamos) regressar à normalidade

As celebrações com o outro lado da família, o da sua mulher, ainda estão a ser combinadas, mas deverão acontecer entre a noite de dia 24 e o dia 25 de dezembro. Apesar de tradicionalmente se juntarem para partilhar uma refeição, é possível que este ano isso não aconteça. ” [Este ano] Vamos ver menos pessoas e durante menos tempo.”

Já Margarida Tavares irá visitar os pais no dia de Natal, numa altura diferente dos dois irmãos e da respetiva família, mas não irá almoçar com eles. Isto para não “replicar mais contactos”, já que a noite de Natal será passada com oito pessoas do lado da família do marido. Serão três agregados familiares diferentes, que irão incluir pessoas com cerca de 90 anos e crianças, e todos vão ser testados.

“Vamos fazer testes de antigénio na manhã do dia 24 ou no final do dia 23”, diz a infecciologista.

Miguel Castanho confessa que não pensou em fazer um teste à Covid-19 antes do Natal, mas é da opinião que não se justifica já que as pessoas têm tido precauções persistentes. “Não creio que valha a pena ter uma atitude muito diferente dias antes, uma vez que o contágio e o período assintomático é bastante maior do que alguns dias. O que nos pode valer é o que temos feito para não haver problemas no Natal.

"Vamos fazer testes de antigénio na manhã do dia 24 ou no final do dia 23".
Margarida Tavares, infecciologista no Hospital de São João, no Porto

Filipe Froes e os familiares não vão fazer testes, mas vão optar por uma “maior restrição de movimentos” nos sete a dez dias que antecedem o Natal para reduzir o risco de exposição ao novo coronavírus.

Vamos minimizar todo o tipo de idas a sítios onde há maiores aglomerados, evitar compras desnecessárias e privilegiar a compra de bens online, evitar viagens desnecessárias e quando saímos [à rua] mantemos as medidas de segurança, nomeadamente a máscara”, conta o pneumologista do Hospital Pulido Valente ao Observador. “Vamos assegurar que o melhor presente que podemos dar este Natal é zelar pela saúde e pela segurança de cada um e de todos.”

Este ano, ao contrário do aconteceu no anterior, vai passar esta época com a sua família em casa, sendo que o primeiro dia do ano será com “a família do trabalho”. “Fazer bancos, serviços de urgência nestes dias festivos faz parte do código genético dos profissionais de saúde. Acho que sou um privilegiado, porque tenho duas famílias.”

E se uma noite de Natal ‘normal’ em sua casa poderia reunir entre 14 a 18 pessoas, este ano deverão ser entre seis a oito, isto é, mais duas ou três pessoas além daquelas que vivem com o médico. A refeição em si será de menor duração, à mesa, mas garantindo uma distância de segurança de um metro a um metro e meio entre todos. Não vão, contudo, utilizar máscara.

A refeição em si será de menor duração, à mesa, mas garantindo uma distância de segurança de um metro a um metro e meio entre todos. Não vão, contudo, utilizar máscara.
Filipe Froes, pneumologista do Hospital Pulido Valente, em Lisboa

“Vamos tentar manter o distanciamento sempre que possível, a higienização das mãos, não nos vamos cumprimentar como nos cumprimentávamos antigamente e vamos pedir às pessoas para se tiverem sinais ou sintomas não irem”, afirma o coordenador do Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos acrescentando que para o dia 25 não estão planeadas celebrações, a não ser um eventual jantar que será limitado aos coabitantes de Filipe Froes.

“A mesa é o pior sítio para se transmitir o vírus”

Ao contrário dos restantes especialistas, a pandemia pouco vai afetar o Natal de Gabriela Gomes, como aliás tem pouco tem afetado o seu dia a a dia. A matemática especialista em Epidemiologia explica ao Observador que apenas sai da sua casa no Porto, onde vive atualmente apesar de o seu trabalho ser na Escócia, no Reino Unido, quando precisa de alguma coisa essencial, pelo que tem poucos contactos sociais.

Não é por causa da pandemia, as medidas não estão a modificar o meu dia a dia, é o meu modo de vida. Estou a trabalhar com os dados da pandemia, em casa, não tenha razão para sair e naturalmente tenho poucos contactos”, diz a docente de Matemática e Estatística na Universidade de Strathclyde, na Escócia.

Matemática especialista em epidemiologia. “Podemos ter mais 4 ‘ondinhas’. Mas basta 10 a 15% para a imunidade de grupo até ao inverno”

São precisamente esses poucos contactos que a permitem estar frequentemente com a mãe, de 76 anos e que tem asma. Além da mãe, costuma conviver com o irmão e a sua família, mas com pouca regularidade, e será com eles que irá passar o Natal. Não estará com as três filhas, que vão passar esta época festiva com as famílias dos companheiros, algo que à partida já iria acontecer independentemente da pandemia. “Nós passámos [o Natal juntos] no ano passado. As pessoas quando se casam um ano tentam satisfazer a família dela e no ano seguinte a família dele. Estamos mais ou menos assim coordenados.”

Os planos para os dias 24 e 25 de dezembro ainda não estão totalmente definidos, mas à partida o Natal será passado na casa do irmão de Gabriela Gomes: “A minha mãe faz sempre as rabanadas e eu faço a aletria. Cada um faz as suas coisas e juntamos tudo.” Irão jantar e almoçar juntos, mas ainda não pensaram se irão manter algum distanciamento à mesa ou se irão fazer testes à Covid-19 mais próximo da data.

Tendo em conta que o irmão e a cunhada da matemática estão a trabalhar a partir de casa, o maior problema em termos de contactos seria em relação aos três sobrinhos, que têm entre 11 e 20 e poucos anos, mas as férias irão ajudar.

Tendo em conta que o irmão e a cunhada da matemática estão a trabalhar a partir de casa, o maior problema em termos de contactos seria em relação aos três sobrinhos, que têm entre 11 e 20 e poucos anos, mas as férias irão ajudar.
Gabriela Gomes, docente de Matemática e Estatística na Universidade de Strathclyde, na Escócia

“A redução de contactos vai acontecer naturalmente quando terminarem as aulas. A partir daí eles ficam mais por casa. Se houvesse alguma coisa, a grande probabilidade é dar alguns sintomas antes do Natal, antes de nos juntarmos“, refere a especialista em Epidemiologia da Escola Superior de Medicina Tropical de Liverpool.

Já o virologista Pedro Simas irá ter um Natal totalmente diferente do habitual. Vai passar o Natal com o filho mais velho em Estocolmo, na Suécia, onde está a fazer Erasmus, e que decidiu não vir a Portugal devido aos trabalhos do curso — está no último ano do curso de Inteligência Artificial, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

Vou estar com ele de 23 a 27 de dezembro num hotel. Do meu ponto de vista vai ser interessante ver como as pessoas se comportam e ver como as medidas estão a funcionar lá”, refere o investigador do iMM, garantindo que irá manter os “devidos cuidados”: vai usar máscara e vai ser testado antes de viajar para garantir a segurança do filho, de 23 anos.

As refeições, tanto do dia 24 como do dia 25, serão feitas no hotel, que reduziu o número de pessoas no restaurante, e estarão apenas os dois à mesa. Fora das refeições terão de usar máscara.
Pedro Simas, virologista

As refeições, tanto do dia 24 como do dia 25, serão feitas no hotel, que reduziu o número de pessoas no restaurante, e estarão apenas os dois à mesa. Fora das refeições terão de usar máscara. Não fosse a sua ida à capital sueca, passaria o Natal também com o seu filho mais novo, de 21 anos e que estará com a mãe. Faria ainda uma visita aos pais nos dias anteriores ao Natal — apesar de o pai fazer anos no dia 24 de dezembro — , mas não partilharia uma refeição com eles.

“Ia lá dizer ‘olá’, conversava um bocadinho com máscara e com as devidas distâncias, mas não me sentaria à mesa com eles, tirando a máscara“, explica Pedro Simas, sublinhando que “a mesa é o pior sítio para se transmitir o vírus”.

E uma situação são pessoas que moram na mesma casa e que se sentam à mesa sem máscara, outra são agregados familiares diferentes: “Uma pessoa pode andar de máscara oito horas por dia, mas não serve de nada se depois se senta numa mesa e tira a máscara”, considera o virologista.

Para o investigador, o facto de existirem muitas regras e não haver nada que diga as pessoas que não se podem sentar à mesa e tirar as máscara cria alguma confusão, pelo que é necessário informar as pessoas “como funciona a máscara, porque funciona”. “Qualquer pessoa que saiba isso é claro que quando se senta a uma mesa não vai tirar a máscara.”

“É a primeira vez na vida que vou passar o Natal sem a minha mãe”

No caso da bastonária da Ordem dos Enfermeiros, a pandemia vai fazer com que passe pela primeira vez o Natal sem a mãe, que se está há vários anos a viver na Casa de Saúde da Idanha, em Sintra. Aliás, desde março que deixou de poder levar a mãe a almoçar, lanchar ou passear e as visitas, desde que voltaram a ser autorizadas, são muito condicionadas. Os familiares têm de estar numa ponta de mesa oposta ao utente, sempre com máscara e sem se poderem tocar.

“É a primeira vez na vida que vou passar o Natal sem a minha mãe”, diz Ana Rita Cavaco, considerando que fazer um teste rápido à Covid-19 “não é solução” uma vez que não é garantia de que não surjam sintomas mais tarde, além de que a instituição não teria espaço suficiente para posteriormente isolar todos os utentes que estivessem com a família nesta quadra.

A bastonária vai passar o Natal com a família nuclear, à exceção do pai que vive há vários anos nos Açores: o tio de 70 anos — “é como se fosse meu pai” — , duas primas e os respetivos filhos. Numa época ‘normal’ juntar-se-iam outros familiares, mas esta ano serão cerca de seis pessoas, além do seu labrador, e todos têm restringidos os contactos sociais desde o início da pandemia.

Os dois dias serão passados em casa de uma das primas, que tem uma vivenda com jardim e uma mesa grande para poderem fazer as refeições separados uns dos outros, e usarão máscara sempre que não possível manter essa distância de segurança.

Os dois dias serão passados em casa de uma das primas, que tem uma vivenda com jardim e uma mesa grande para poderem fazer as refeições separados uns dos outros, e usarão máscara sempre que não possível manter essa distância de segurança
Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros

“Eu até quando estou sozinha na rua a passear o cão ando de máscara”, diz a bastonária, que aproveita para criticar o alívio das medidas na época de Natal. “Eu percebo que as pessoas precisem de afetos, se calhar percebo mais do que o resto das pessoas pela situação pessoal que vivo, mas não concordo que [as medidas] seja aliviadas perante este cenário em que ainda continuamos a ter um número de mortes diário assustador, com projeções de uma eventual terceira vaga muito por causa das festividades.”

Tal como Ana Rita Cavaco, Ricardo Mexia também irá passar o Natal sem a avó que está num lar. “Não vamos fazê-la correr esse risco. Espero para o ano passar o Natal com ela, mas este ano não”, diz o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, que ainda não tem planos definidos para esta época.

Irá juntar o seu agregado familiar, que inclui a mulher e os três filhos de três, seis e sete anos, com os seus pais e irmão. À partida só farão uma refeição juntos, mas separados: de um lado da mesa a “bolha” do médico e do outro lado os restantes familiares.

À partida só farão uma refeição juntos, mas separados: de um lado da mesa a "bolha" do médico e do outro lado os restantes familiares.
Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública

Além de Ricardo Mexia, também a sua mulher, mãe e irmão são médicos e acabam por ter uma “exposição ocupacional significativa” e ainda que tenham contactos sociais reduzidos, estão a ponderar fazer testes à Covid-19 antes da época festiva, inclusive as crianças. “Não é uma garantia, é um complemento. É mais uma camada de proteção, além daquelas que estamos a adotar.

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