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Uma vida sem Covid-19? Só daqui a um ano poderemos (saber se vamos) regressar à normalidade /premium

Diminuição dos números na primavera e verão podem impedir especialistas de perceber se a vacina está a funcionar. Normalidade chegará só no inverno, mas a Covid-19 continuará a ser uma ameaça.

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Só no outono e inverno do próximo ano é que os países com planos de vacinação contra o novo coronavírus poderão recuperar um estilo de vida semelhante ao que tinham antes da pandemia de Covid-19. Semelhante mas possivelmente não igual, porque só nessa altura saberemos se as vacinas resultaram mesmo e se permitem um relaxamento total das medidas de restrição impostas ao longo deste ano.

Esta é a realidade que Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular, projeta para 2021. Em entrevista ao Observador, o bioquímico disse acreditar que, ao longo do próximo verão, o país poderá ter atingido os 60% a 70% de vacinação da população, o necessário para construir a imunidade de grupo essencial para esse tal regresso à normalidade (possível). No entanto, só depois no inverno poderemos confirmar de facto o impacto da vacinação e então perceber se poderemos apagar de vez a forma como vivemos este ano e vamos viver seguramente ainda grande parte do próximo.

Outros especialistas, noutros países, são mais otimistas. Moncef Slaoui, conselheiro científico principal da Operação Warp Speed (o programa governamental norte-americano que procura acelerar o desenvolvimento e distribuição de uma vacina contra a Covid-19) apostou que a vida iria regressar ao normal em “maio ou qualquer coisa perto disso” do próximo ano. O epidemiologista Arthur Reingold, da Universidade da Califórnia, também afirma que deve demorar até ao início do verão para que a vida volte à normalidade nos Estados Unidos. Mas que normalidade é essa? Será mesmo a mesma que tínhamos antes da pandemia, há um ano?

Que normalidade esperar em 2021

Portugal tem contratos assinados com seis fabricantes de vacinas contra a Covid-19. O primeiro acordo foi o da AstraZeneca, com a Universidade de Oxford, assinado a 14 de agosto, que garante 300 milhões de doses de vacinas para a União Europeia, 6,9 milhões das quais virão para o nosso país.

Mas a primeira a chegar a Portugal será a vacina da Pfizer com a BioNTech: o contrato foi assinado a 11 de novembro com a UE e assegura 4,5 milhões de doses para Portugal. Susana Castro Marques, diretora médica da Pfizer Portugal, revelou que elas podem chegar a território nacional logo a 1 de janeiro de 2021, três dias depois da aprovação pela Agência Europeia do Medicamento (EMA).

A vacina da Moderna foi garantida contratualmente a 25 de novembro e deve chegar logo a seguir, no início do próximo mês, mas depende ainda também da autorização daquela entidade reguladora. Das 80 milhões de doses prometidas à União Europeia, 1,8 milhões delas serão para os portugueses.

Segue-se então a AstraZeneca/Universidade de Oxford (6,9 milhões de doses), a Johnson&Johnson, que será de toma única (4,5 milhões de doses), e a CureVac (entre quatro e cinco milhões de doses), a mais atrasada, pois está na fase dois dos ensaios clínicos e pode tardar a estar disponível.

O sexto contrato — que, na verdade, foi o segundo a ser acordado –, é com a Sanofia/GSK, mas ainda não foram definidos os números de doses para cada país.

Assumindo que a vacinação contra o SARS-CoV-2 arranca de facto logo no início de janeiro de 2021 quando chegarem as primeiras vacinas aprovadas pela EMA, como está previsto acontecer, a vida para a generalidade das pessoas nos primeiros meses do ano não mudará em relação ao que tem sido ao longo deste ano. “O impacto será zero, absolutamente nada”, enumera mesmo Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia e investigadora no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

Assumindo que a vacinação contra o SARS-CoV-2 arranca em janeiro de 2021, a vida para a generalidade das pessoas nos primeiros meses do ano não mudará em relação à que se tem tido ao longo deste ano e "o impacto será zero, absolutamente nada"
Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia e investigadora no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto

Mas como se tenciona administrar a vacina em primeiro lugar nos idosos que vivem em lares e nos profissionais de saúde que contactam diretamente com eles, essas comunidades podem sentir mudanças drásticas: a porta das residências podem abrir-se para receber visitantes mais livremente; e os idosos poderão conviver com os familiares sem necessidade de cumprir isolamento a seguir aos encontros.

Mas como em Portugal a vacinação não incluirá os mais velhos que não estejam institucionalizados logo na primeira fase — em algumas vacinas os ensaios clínicos poderão revelar insegurança ou ineficácia nessas faixas etárias ou até serem específicas para determinados grupos, há ainda muitas incertezas sobre algumas delas e até sobre os efeitos adversos que podem causar — continuará a ser necessário proteger as pessoas mais vulneráveis. E se as vacinas forem menos transversais, mais direcionadas a pessoas com determinadas características, a chegada à normalidade pode demorar ainda mais.

No entanto, já se sabe que a vacinação em Portugal terá três fases, dando prioridade aos profissionais de saúde mais expostos ao vírus, aos funcionários e residentes em lares, e à população com mais de 50 anos com doenças de risco, além dos elementos das várias forças de segurança. Como estes tendem a ser os indivíduos que mais contactam com os idosos, isso ajudará a protegê-los de forma indireta.

Francisco Ramos durante a sessão pública de apresentação do Plano de Vacinação português

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

O que acontecer depois dependerá da quantidade de vacinas disponíveis no mercado, das características desses fármacos e do ritmo a que o país receberá mais doses. Tiago Correia, professor de Saúde Internacional do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, diz que quanto mais vacinas houver no mercado, quanto mais transversais forem (isto é, mais apropriadas a mais grupos sociais de pessoas) e quanto maior for a capacidade de vacinação das autoridades de saúde, mais rápido será o regresso a uma certa normalidade.

Grupos prioritários, locais de vacinação, prazos. Conheça o plano do Governo ponto por ponto

No plano de vacinação apresentado na quinta-feira passada, 3 de dezembro, pelo Governo, em que foi anunciada a compra de 22 milhões de doses de vacinas, a ministra da Saúde admitiu que pode haver alguma escassez no início — por isso é que o plano está dividido em fases, com cada pessoa a receber duas doses. A primeira, onde entram os grupos prioritários, ocorrerá de janeiro a abril; a segunda fase pode estender-se de abril a julho; e a terceira, para o resto da população, será feita a partir de julho consoante o ritmo da entrega das vacinas. Para os especialistas, isso terá efeitos na transmissão do vírus ao longo do tempo, mas só é possível tirar conclusões objetivas no final do próximo ano.

O que falta no Plano de Vacinação contra a Covid-19?

À medida que cada vez mais pessoas forem vacinadas contra a Covid-19, menos restritivas se vão tornando as medidas para a contenção do vírus, que vai encontrar mais dificuldades em circular na comunidade. Mas será cedo para tirar conclusões se a imunidade se deve às vacinas (que têm anunciado um elevado e duradouro grau de imunização) ou ao cada vez maior contacto das pessoas com o vírus (mais de 1,5 milhão de portugueses já terá sido contagiado, segundo os especialistas) que as deixou imunes (os casos de reinfeção são raros).

Ao longo da primavera e do verão, tal como aconteceu após a primeira vaga de Covid-19, os números de novos casos de infeção pelo novo coronavírus vão recuar porque esse é o comportamento natural de um agente patogénico que atinge o sistema respiratório, uma vez que tem mais dificuldade em perdurar em ambientes mais secos e quentes. Por isso, enquanto a vacinação da população ocorrer e as temperaturas estivais se estabelecerem, mesmo com a chegada à imunidade de grupo, “não conseguiremos distinguir o efeito da vacinação com o efeito de sazonalidade”, descreveu Miguel Castanho.

Só quando o tempo húmido e frio regressar — um ambiente em que o vírus tem mais facilidade em proliferar — é que poderemos comparar a situação epidemiológica nessa altura com a que se está a viver neste momento. E saber se a vacina funcionou.

Enquanto a vacinação da população ocorrer e as temperaturas estivais se estabelecer, mesmo com a chegada à imunidade de grupo, "não conseguiremos distinguir o efeito da vacinação com o efeito de sazonalidade". Só quando o tempo húmido e frio regressar — um ambiente em que o vírus tem mais facilidade em proliferar — é que poderemos comparar a situação epidemiológica nessa altura com a que se está a vivenciar neste momento.
Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular

Mas não basta que os números de infeção pelo novo coronavírus diminuam para confirmar o sucesso do plano de vacinação. O propósito da vacina contra a Covid-19 não é necessariamente evitar a infeção por SARS-CoV-2, mas sim o desenvolvimento de uma doença com um quadro clínico grave que possa colocar a saúde do infetado em risco e comprometer a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. Serão precisos estudos para compreender a resposta imunitária induzida pela vacina e o que significa para a epidemia em Portugal.

Perante a incerteza, mesmo com uma vacina ou mais no terreno e os números de novos casos a baixarem, será necessário manter “as mesmas precauções que temos de viver até agora”, acrescenta Tiago Correia, apesar de as medidas de restrição à mobilidade e à atividade económica que têm sido impostas pelo governo aquando do agravamento da pandemia poderem ser minimizadas ou levantadas. As máscaras, que só entraram no quotidiano do mundo ocidental em grande escala com a Covid-19, deveriam “continuar a fazer parte dele”. Mas “com o tempo sairão do nosso dia-a-dia”, acredita a epidemiologista Elisabete Ramos.

“Ninguém esteja convencido que depois de vacinado pode tirar a máscara”

Ainda assim, por não sabermos neste momento a durabilidade da imunidade que a vacina ou a infeção pelo novo coronavírus cria — como, aliás, frisou a ministra Marta Temido na apresentação do plano de vacinação, sublinhando as muitas dúvidas que ainda persistem — é preciso manter um ritmo acelerado de vacinação “ou corremos o risco de ver reinfeções nas primeiras pessoas imunizadas antes de vacinarmos as últimas”, sublinha Miguel Castanho. Por enquanto, os casos de reinfeção pelo novo coronavírus são muito raros e ainda estão em estudo. Só o tempo dirá o que podem significar para a evolução da pandemia.

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Em Espanha, segundo um comunicado publicado na última sexta-feira na página do Ministério da Saúde, Consumo e Bem Estar Social, o governo de Pedro Sanchez tenciona vacinar os grupos prioritários — residentes e funcionários de lares para idosos e para pessoas incapacitadas, profissionais de saúde e adultos dependentes não institucionalizados — entre janeiro e março. Dois milhões e meio de pessoas serão inoculadas ao longo desses três meses.

Numa segunda e terceira fases, entre março e início de junho, serão vacinados os espanhóis com mais de 64 anos, as pessoas com doenças de risco, quem trabalha em ambientes fechados, a população social e economicamente vulnerável, os trabalhadores em setores essenciais, professores, crianças, adolescentes e jovens com mais de 16 anos, adultos, pessoas que vivem em áreas com alta incidência de casos ou surtos, grávidas e mães lactantes e a população infetada.

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A ordem pela qual estes grupos vão ser vacinados ainda não foi definida e dependerá também das características dos próprios fármacos e das informações trazidas reveladas pelos ensaios clínicos. Depois, ao longo do verão, a vacina chegará progressivamente à restante população espanhola que não pertence a nenhum desses grupos, dependendo também do ritmo a que mais doses chegarem ao país.

Em França, Dominique Le Guludec, presidente da Alta Autoridade de Saúde, publicou uma nota que indica que os grupos prioritários são idosos que vivem em lares e profissionais de saúde e das residências para idosos que contactem diretamente com possíveis casos de infeção pelo novo coronavírus. Emmanuel Macron, o primeiro-ministro francês, apontou o fim deste mês de dezembro ou início de janeiro para colocar em prática o plano de vacinação para estes grupos.

Numa segunda fase, serão vacinadas os franceses com mais de 75 anos, depois os que têm entre 65 a 74 anos que sofrem de doenças de risco para a Covid-19 e, em seguida, outras pessoas com entre 65 e 74 anos e outros profissionais de saúde, sobretudo os que têm pelo menos 50 anos ou têm risco de desenvolver uma doença grave caso sejam infetados pelo novo coronavírus.

A terceira fase do plano de vacinação francês prevê inocular “pessoas visadas nas fases anteriores que não puderam ser vacinadas” antes, todas as outras pessoas em risco de doença grave e os profissionais de setores essenciais ao funcionamento do país, nomeadamente do setor da educação e segurança. Na fase seguinte, a vacina chegará a pessoas altamente expostas ao vírus e, a seguir, a cidadãos com mais de 18 anos que não apresentem nenhum risco.

Mas tal como em Espanha, também ainda não foi publicado um cronograma com as datas previstas para a vacinação em cada fase em França. Questionado sobre quando poderá o país regressar a um estilo de vida semelhante ao que se vivia antes da pandemia, o epidemiologista Arnaud Fontanet apostou que isso não acontecerá antes do outono de 2021, quando 80% a 90% da população ficar imunizada.

Mas tal como em Espanha, também ainda não foi publicado um cronograma com as datas previstas para a vacinação em cada fase em França. Questionado sobre quando poderá o país regressar a um estilo de vida semelhante ao que se vivia antes da pandemia, o epidemiologista Arnaud Fontanet apostou que isso não acontecerá antes do outono de 2021, quando 80% a 90% da população ficar imunizada.
Arnaud Fontane, epidemiologista francês

Nos Estados Unidos, onde a Moderna anunciou esta segunda-feira que iria pedir uma autorização especial às autoridades de saúde norte-americanas e europeias para administrar com carácter de urgência a vacina que desenvolveu, e que terá 94,5% de eficácia segundo o comunicado publicado pela empresa, a primeira inoculação pode acontecer ainda este ano, a 21 de dezembro, apontou Stéphane Bancel, o diretor executivo da farmacêutica.

As autoridades de saúde nos diversos Estados americanos já esperavam que por esta altura e até ao fim do ano, tanto a Moderna como a Pfizer endereçassem à Food and Drug Administration (FDA), a agência que gere os produtos alimentares e de saúde nos Estados Unidos, pedidos especiais para utilização das vacinas com resultados promissores nos ensaios clínicos. A decisão deverá ser tomada num prazo de uma a duas semanas.

De acordo com as declarações de Moncef Slaoui, conselheiro-chefe da Operação Warp Speed, à Business Insider, confiando na aprovação de pelo menos uma delas, a administração das vacinas aos quatro grupos prioritários definidos pelas autoridades norte-americanas — profissionais de saúde, trabalhadores considerados essenciais, pessoas com mais de 65 anos e a população com comorbilidades — arrancará em dezembro e arrastar-se-á até abril do próximo ano. Trinta milhões de pessoas serão vacinadas mensalmente nos Estados Unidos.

Ao longo da primavera, entre abril e junho do próximo ano, as autoridades de saúde norte-americanas contam que a vacina fique amplamente disponível aos cidadãos mais jovens e mais saudáveis. A partir de julho e até setembro, antes da entrada no outono, a maior parte dos adultos terão acesso à vacina.

Dependendo do ritmo a que a população for vacinada, é expectável que os Estados Unidos atinjam a imunidade de grupo entre outubro e dezembro de 2021. Para isso, é necessário que pelo menos 75% da população seja vacinada contra o novo coronavírus e que receba as duas doses com uma diferença de quatro semanas, como exigido pela maior parte das vacinas em desenvolvimento neste momento.

Os EUA estão só à espera de aprovação da FDA para começar a vacinação

Anadolu Agency via Getty Images

O “maior plano de vacinação massiva da história do Reino Unido” — palavras do primeiro-ministro Boris Johnson — arrancou esta terça-feira, dia 8. Numa primeira fase serão vacinados os residentes e os trabalhadores em lares para idosos, as pessoas com 80 anos ou mais e os profissionais de saúde. Seguem-se os britânicos com 75 anos ou mais, depois os que têm entre 70 e 74, a seguir os de 65 a 69 anos, os adultos de alto risco com menos de 65 anos, os adultos de risco moderado com menos de 65 anos, as pessoas com entre 60 e 64 anos, os que têm entre 55 a 59 anos e depois os que têm entre 50 a 54 anos.

São considerados adultos de risco aqueles que sofram de cancro no sangue, diabetes, demência, problemas cardíacos, dificuldades respiratórias (como asma severa ou bronquite, por exemplo), problemas renais, doenças no fígado, imunidade reprimida por medicamentos ou por uma doença (como a sida ou os tratamentos por quimioterapia), artrite reumatoide, lúpus e psoríase, pessoas transplantadas, com historial de acidentes vasculares cerebrais ou acidentes isquémicos transitórios, problemas neurológicos ou de fadiga muscular, dificuldades profundas de aprendizagem, problemas de tiroide, obesidade severa ou doença mental grave.

Numa segunda fase, a vacina chegará aos socorristas, militares, trabalhadores do sistema jurídico, professores, trabalhadores dos transportes e funcionários públicos considerados essenciais durante a resposta à pandemia. Só depois é que a vacina chegará ao “resto da população” — que ainda poderá ser dividida em mais subgrupos.

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Na Bélgica, a vacinação vai arrancar a 5 de janeiro. “Assim que as vacinas estiverem prontas, o país está pronto”, anunciou o primeiro-ministro belga Alexander de Croo. As declarações surgem após um comité belga ter avaliado favoravelmente a vacina da Moderna, uma das que vai ser distribuída à população, assim como a da AstraZeneca/Oxford, a da Johnson & Johnson, a da Pfizer/BioNTech e da CureVac. Mas até ao verão, a maior parte das pessoas ainda não terá recebido a vacina, avisou desde logo o governo belga.

Tal como noutros países, a vacinação ocorrerá em três fases. Na primeira, serão vacinados os residentes e trabalhadores de lares de idosos. Na segunda, a vacina chegará às pessoas com mais de 65 anos, pacientes de risco entre 45 e 65 anos, e pessoas com funções sociais e económicas consideradas essenciais. E na terceira fase serão protegidas os outros doentes de risco e a restante da população adulta.

em Itália, a população pode ter de esperar até à primavera para ser vacinada — numa altura em que, no Reino Unido, e de acordo com a previsão anunciada por Boris Johnson, a normalidade já deverá estar à vista. Numa primeira fase, 1,4 milhões de profissionais de saúde e 570 mil residentes em lares de idosos vão ser vacinados. Na segunda será a vez das pessoas com mais de 80 anos, indivíduos com 60 a 79 anos e os que sofrem de pelo menos uma doença crónica. Numa terceira fase, as vacinas serão distribuídas aos trabalhadores essenciais, como professores, polícias e guardas policiais. A seguir, chegarão à restante população.

“Não vai ser como regressar a dezembro de 2019”

Mas “a normalidade não vai voltar a acontecer, não vai ser como se regressássemos a dezembro de 2019”, alerta Tiago Correia. Há dois aspetos que permanecerão na mira das autoridades de saúde: o comportamento das vacinas administradas na população e as alterações que o novo coronavírus vai sofrer.

O último relatório do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), publicado a 21 de agosto, dizia que, após estudar as 1.785 sequências do genoma vírus obtidos de amostras colhidas em instituições portuguesas, foram reportadas, em média, oito mutações por cada genoma. Embora o número varie entre apenas uma mutação e 20 alterações, o INSA assevera que esta é a “taxa de mutação prevista para este vírus”.

A questão, aponta o especialista em saúde internacional, é que não sabemos como é que o novo coronavírus se vai comportar com as vacinas em circulação e se, a certa altura, alguma dessas mutações não será suficiente para obrigar a uma nova onda de imunizações, como acontece com o vírus da gripe (que quase todos os anos obriga a uma nova vacina). Isso é “um cenário possível” também para o novo coronavírus, acredita Tiago Correia.

A questão é que não sabemos como é que o novo coronavírus se vai comportar com as vacinas em circulação e se, a certa altura, alguma dessas mutações não será suficiente para obrigar a uma nova onda de imunizações, como acontece com o vírus da gripe. Isso é "um cenário possível" também para o novo coronavírus
Tiago Correia, professor de Saúde Internacional do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa

Também não sabemos os efeitos da vacina para saúde, como eventuais efeitos adversos, ou sequer quão prolongada será a imunização que ela provoca. Elisabete Ramos aponta que, pelas características das doenças e segundo o que já foi descrito na literatura científica sobre a forma como o sistema imunitário responde, é provável que ela seja “de longo prazo”. Mas “poderemos chegar a um momento em que teremos conviver com a Covid-19 como com outra patologia em que se define quem são os grupos a vacinar”.

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Mas erradicar a Covid-19 “não é realista”, explica a epidemiologista. Apenas uma doença capaz de atingir os humanos foi considerada erradicada: a varíola, provocada por duas estirpes de um vírus, foi dada como eliminada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1980, após três anos sem registo de qualquer caso. A erradicação desta doença, que tinha 30% de letalidade (ou seja, 30 em cada 100 pessoas infetadas morria), deu-se graças a um intenso trabalho de rastreio de contactos e a uma vacinação em massa com a vacinação de uma forma atenuada do vírus da varíola bovina, que conferia imunidade contra o agente patogénico que infetava humanos.

Apesar da pouca esperança em erradicar a Covid-19, “não é um problema grave que o novo coronavírus continue a circular entre nós se encontrarmos uma boa ferramenta que nos permita proteger os mais suscetíveis”, prossegue Elisabete Ramos. De resto, o mais provável é mesmo que a doença se torne endémica em alguns locais do globo, nomeadamente naqueles que não coloquem em prática um plano de vacinação contra a doença, como pode ser o caso de alguns países em desenvolvimento.

Havemos de voltar às multidões à frente dos palcos nos concertos, aos casamentos com dezenas de pessoas e às mesas cheias de amigos nos restaurantes, mas Elisabete Ramos não aposta que isso vá acontecer já no próximo ano. "Vamos estar mais descontraídos quando a população estiver imunizada, mas parece-me pouco prudente prometer a alguém que vamos regressar ao normal de antigamente": "Há um novo vírus no mundo em circulação e não contem que ele vá desaparecer".
Tiago Correia, professor de Saúde Internacional do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa

Mas, por cá, desde que a imunidade de grupo seja mantida, a vida pode progressivamente regressar ao normal e, desde que esteja protegido contra o vírus, será possível viajar como antigamente e lidar com a doença provocada pelo SARS-CoV-2 como se lida com a malária ou com a febre amarela — através de profilaxia ou, no caso de algumas outras patologias, com vacinação específica contra ela: “Não será preciso esperar pelo mundo inteiro”, adianta a especialista.

Havemos de voltar às multidões à frente dos palcos nos concertos, aos casamentos com dezenas de pessoas e às mesas cheias de amigos nos restaurantes, mas Elisabete Ramos não aposta que isso vá acontecer já no próximo ano. “Vamos estar mais descontraídos quando a população estiver imunizada”, acrescenta Tiago Correia,”mas parece-me pouco prudente prometer a alguém que vamos regressar ao normal de antigamente”: “Há um novo vírus no mundo em circulação e não contem que ele vá desaparecer”.

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