1244,5kWh poupados 1244,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

Igor Martins

Igor Martins

Tudo o que queríamos ouvir, ouvimos no Coliseu: a noite em que o Porto abraçou os GNR

A festa dos 45 anos da banda teve os filhos em palco, acrobacias aéreas, os êxitos de sempre e muita devoção. Assim foi o primeiro de quatro concertos especiais, entre o Porto e Lisboa.

Rui Reininho pode ter feito 70 anos em fevereiro passado, mas a sua voz continua inconfundível, a sua presença magnética, o talento para os trocadilhos refrescantes intacto. Quando lhe perguntamos sobre o que andam a preparar, se há algum projeto novo na calha, quiçá um disco de originais, é evasivo e responde, elegante: “Prefiro cantar do que contar”.

Estamos no Coliseu do Porto, é sábado à tarde e, dentro de poucas horas, arranca o primeiro de quatro concertos especiais com que os GNR assinalam os 45 anos de carreira: dois marcados para este fim de semana, no Porto; os outros dois para 6 e 7 de novembro, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Todos com lotação esgotada. E há quem tenha garantido lugar tanto a norte como a sul.

A agenda dos GNR mantém-se bastante preenchida (basta pensar que o espetáculo projetado para o Teatro Municipal de Bragança, no próximo sábado, também já não tem lugares disponíveis). E o coletivo continua bem oleado, com o dom da palavra (e da voz) de Rui Reininho a aliar-se aos talentos de Jorge Romão, no baixo, e de Toli César Machado, na guitarra, nas teclas e no acordeão. Ao vivo, o trio é apoiado por Ben Monteiro nas teclas e na guitarra e por Samuel Palitos na bateria.

Com Operação STOP – Somos Todos Obrigados a reParar, os GNR assinalam os 45 anos de um percurso recheado de êxitos que formam parte da memória pop coletiva, distribuídos por 12 álbuns de originais, quatro coletâneas e dois discos ao vivo. Um percurso que prima pelas pedradas no charco (não foi à toa que se tornaram na primeira banda portuguesa a atuar em estádios de futebol: Alvalade, em 1992; e Antas, em 1993), com doses significativas de criatividade, crítica mordaz e humor.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

A banda fundada no Porto, em 1980, deu nas vistas desde a estreia, com o EP Portugal na CEE a ser lançado no ano seguinte. Num longo trajeto — em que se destacam discos como Psicopátria (1984), Os Homens Não se Querem Bonitos (1985) ou Rock in Rio Douro (1992), entre outros —, os GNR cruzaram influências de diversos géneros, do rock à pop, do punk à new wave. E receberam múltiplas distinções, uma delas atribuída, em 2005, pelo então presidente da República, Jorge Sampaio: a Medalha de Mérito Cultural. Na primeira noite de festa no Coliseu do Porto, a maior homenagem há de vir do público.

Tudo em família

Pouco passa das 21h30 horas, como consta do bilhete, quando o espetáculo arranca. Primeira surpresa da noite: as cortinas abrem-se, soam os primeiros acordes e, no lugar dos três membros da banda, estão os filhos: na voz, em vez de Rui Reininho, António Braga (o único que não é músico); no baixo, no lugar de Jorge Romão, Lopo Romão (vocalista e guitarrista dos Lucki Lou); e na guitarra, onde costuma estar Toli César Machado vemos António César Machado (também ele músico, baterista dos donaranha e dos Mangualde).

Espelho Meu é o tema escolhido para dar início à festa, que se há de manter em tom familiar. Afinal, o desfile de canções que se segue faz parte da banda sonora da vida de quase todos na plateia – mesmo as das das crianças que por ali se veem, algumas já fazem dos concertos dos GNR rota habitual.

Foquemo-nos, para início de festa, na prestação de parte da descendência dos GNR, com António Braga a brilhar, literalmente, no centro do palco, num fato de Rui Reininho. Assim vestido, torna-se mais fácil ver as parecenças. Partilham a figura imponente e António não dá mostras de nervosismo, embora horas antes, no ensaio da tarde, tivesse comentado quão assustador era estar naquele papel. Logo ele, que trabalha rente ao computador e nada tem a ver com os palcos. O único ponto comum entre uma coisa e outra será, porventura, o microfone de que também faz uso na secretária, graceja (e vemos logo ali uma herança do pai). Quando lhe lançaram este desafio, o primeiro instinto foi dizer que não. Mas depois pensou: “Como é ser, um dia, o senhor meu pai?”. E como é? “Não sei como é que ele faz isto. Eu fico desconfortável quando me cantam os parabéns, então como vai ser estar em palco com isto cheio?”

Ao lado, António César Machado, que se prepara para assumir o posto de guitarrista atribuído ao pai, Toli, partilha da ansiedade, à mistura com uma certa adrenalina: “Tenho experiência como baterista, nunca toquei guitarra fora do meu sofá”. Apesar de tudo, “disse logo que sim”. E Lopo Romão completa, também em tom bem-humorado: “É uma escala grande, para começar”. Não é que estejam nas Caldas da Rainha a tocar para 50 pessoas, exemplifica. Sentido de humor extensível a todos, portanto.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

No ensaio, quando chega a vez de os filhos irem para o palco, Rui Reininho senta-se na plateia, de olhar atento, bem como Toli. Este último de telemóvel em punho, a registar o momento, até concluir, em jeito de brincadeira: “Vocês tocam melhor do que nós! Vou ficar sem emprego!”. A seguir, há de explicar que proceder àquela substituição temporária foi ideia que lhe ocorreu e teve logo acolhimento. Ora a noite, que começa tímida, mostra que estavam todos à altura. Prova superada. Entre sorrisos, aplausos e olhares embevecidos. Os dos pais, primeiro. Mais tarde, outros olhos, no público, se comoveram o gesto de ternura. Nós vimos.

Atirem-lhes água benta

Um concerto de rock e lugares sentados são coisas que não casam muito bem. Mas podemos sempre ignorar as cadeiras. Foi o que fez a maior parte do público, ali chamado, afinal de contas, para festejar. Mal a descendência do trio protagonista deixa o palco e os GNR assumem os seus lugares, começa o movimento— sentar-levantar; sentar-levantar — de que muitos abdicam com o avançar do alinhamento (mais de uma vintena de canções).

Rui Reininho, Jorge Romão e Toli César Machado tomam conta da área logo ao segundo tema, Bem-vindo ao passado. O que se segue é um espetáculo com forte carga visual perfeitamente enquadrado no tempo presente, apesar dos mergulhos consecutivos em álbuns de edição já longínqua, à boleia de temas que qualquer pessoa sabe de cor. O entusiasmo fez-se notar, todo boa cara, sem rugas nem achaques, na plateia multigeracional: miúdos com protetores de ouvidos ao colo; casais a ondular ao som da música, abraçados; até gente a dançar, de braço dado, nas galerias.

Em suma, alegria sem esforço, emoções ao rubro, sobretudo perante clássicos como Vídeo Maria, que inclui a exibição do marcante teledisco que mostra a (à data) manequim Ana Isabel na pele de uma mulher sensual a passar água no corpo, véu na cabeça, a contrastar com a atmosfera de santidade de uma igreja. E a letra, malandra, a acompanhar: “Por ela assalto a caixa de esmolas / Atirem-me água fria”.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

É um dos primeiros temas responsáveis pela dança nas cadeiras até ao fim do espetáculo, com alguns momentos de acalmia pelo meio. Acontece com Asas (Elétricas), canção integrada na banda sonora do telefilme Amo-te Teresa, de 2000, que leva muitos braços a serpentear acima das cabeças e a erguer telemóveis iluminados como velhos isqueiros. Também acontece com Voo Doméstico, em que Toli passa da guitarra para o piano.

Outra surpresa surge pela mão – na verdade, pelo corpo todo – de Saulo Roque, ou Snake Man, contorcionista que já pusera a sua arte ao serviço dos GNR no teledisco de Eu Não Sou Assim, tema do ano 2000 que a banda decidiu revisitar em 2023. Se aí Saulo faz contorcionismo diante de pessoas sentadas à sua volta, desta feita presenteia-nos com acrobacias aéreas, suspenso numa rede que pende lá do cimo. O artista nasceu numa família ligada ao circo há várias gerações e começou cedo a aventurar-se nesse mundo. “Quando tinha uns quatro anos, vi uma pessoa a dobrar-se e comecei, sozinho, a puxar as pernas para aqui e para ali”, lembra ele, que é natural do Porto, mas entretanto foi viver para Lisboa, onde dá aulas no Chapitô.

À margem do espetáculo, Saulo (que os fãs de concursos de talentos devem reconhecer, pela participação no programa de televisão Got Talent Portugal) conta como passou a fazer parte da história mais recente dos GNR. Recebeu o convite para participar no vídeo de Eu não Sou Assim com surpresa, e considerou-o uma honra. Lembra-se de, nas filmagens, passar muitas horas em contorcionismos (para captar os várias planos, era preciso filmar muitas vezes); e de evitar fixar-se na música em causa ouvindo outra bem diferente, “uma coisa muito soft”, para melhor se concentrar nos movimentos. Nesta noite, deixa-se ver no quinto tema, embora os espetadores nem suspeitem de que está lá em cima, escondido, a uns dez metros do chão, desde o princípio.

O público levanta-se das cadeiras, a cantar em coro, em vários momentos. Basta ouvir soar canções como Mais Vale Nunca, Efetivamente, Bellevue, Morte ao Sol, Sexta-Feira (Um Criado Seu), Sangue Oculto ou a incontornável Dunas. Mas o ponto alto mais alto talvez seja Pronúncia do Norte, hino que bate mais forte no coração do Porto — e servido em dose dupla.

[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]

Oração dos fiéis

Ainda durante a tarde, Toli César Machado havia dito que o primeiro concerto da banda tivera lugar no Salão Paroquial da Igreja do Carvalhido, no Porto. Rui Reininho nem fazia parte do coletivo (só entraria em 1981), quem estava na voz era Isabel Quina. E, na noite deste sábado, devoção foi palavra de ordem para muitos fãs que acompanham a banda desde o início e não perdem uma oportunidade de assistir a mais um concerto.

Após o fim do espectáculo, continuam lá fora já depois de encerradas as portas do Coliseu. “Hoje foi muito especial. Hoje foi um concerto para os GNR. Eles foram abraçados pelo público; a cidade, finalmente, abraçou os GNR como eles merecem”, defende Cátia Pombo, para rematar: “Isto foi a banda sonora da minha vida, desde os 14 anos!”.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

Cátia está acompanhada por outros admiradores, facilmente identificáveis pelas T-shirts personalizadas e pelos cachecóis. Entre eles, Sónia Veiga e o filho Matias, de 11 anos, vindos de Lisboa para assistir a este espetáculo. “Tentamos ir a um concerto [dos GNR] uma vez por mês”, diz ela, garantindo que não há fastio possível, até porque “nenhum concerto é igual ao anterior”. Isabel Mendes, “fã dos GNR ainda o Reininho não fazia parte da banda”, confere. E agita um velho cachecol comemorativo dos 35 anos da banda, assinado.

Quem também por ali anda com os olhos húmidos da emoção, depois de ter assistido ao concerto de pé, na terceira fila, é Cristina Cortez, tripeira que é “fã dos GNR desde sempre”: “Quando eles começaram, estava na minha adolescência. A primeira coisa que me prendeu foi a letra, que achava genial. A partir daí, acompanharam-me até hoje. É um privilégio poder seguir a carreira deles”. Para ela, este espetáculo teve outro sabor, muito devido às surpresas: “O início, com os filhos deles, matou-me o coração. Achei uma coisa de uma ternura, de um amor… Uma coisa fora de série”.

Cristina, que pertence ao grupo Super Fãs GNR, nascido no Facebook, já viu mais de uma centena de concertos do coletivo portuense e tenta ir a todos, em todo o lado. Tanto, que os próprios membros da banda já lhe conhecem o nome. Teve a prova quando deu a assinar o livro Soñetos, publicado neste ano por Rui Reininho, e o viu escrever a dedicatória, personalizada, sem precisar de perguntar como se chamava.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.