Sob a luz do expositor, o rosto de Tutankamon brilha. O outro que cobre a máscara é uma lembrança da extravagância da arte funerária egípcia e da riqueza incalculável da civilização do Nilo, que, durante mais de três mil anos, dominou os destinos da região. O objeto que abre a nova exposição do Museu Gulbenkian, em Lisboa, é, naturalmente, uma réplica, mas não deixa de deslumbrar. Produzida na década de 1970, em França, a peça em porcelana é ligeiramente mais pequena do que a original que está no Museu Egípcio do Cairo, mas é muito semelhante. As características distintivas, como o rosto, os olhos e a coroa azul e dourada, que se tornou um símbolo do rei do Egito depois da descoberta do túmulo de Tutankamon em novembro de 1922, estão todas lá. Apenas a cor da barba é ligeiramente diferente.

Abrir uma exposição sobre faraós com a máscara funerária de Tutankamon parece uma escolha óbvia, mas que outro rei egípcio poderia servir como porta de entrada para o mundo do Egito Antigo e das suas estrelas? “É uma imagem muito familiar. Está impressa no nosso cérebro”, começou por explicar Frédéric Mougenot, curador de Faraós Superstars, que inaugura esta sexta-feira, 25 de novembro, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, e que conta com peças da Coleção do Fundador e da Biblioteca Nacional de Portugal e de outras instituições europeias, como o Louvre, o British Museum ou o Ashmolean Museum. “Podemos não identificar Tutankamon, mas [a máscara] grita Egito e os reis do Egito. É uma boa peça para introduzir a exposição, porque é sobre isso que fala — sobre estes reis e rainhas de que ouvimos falar, que conhecemos mais ou menos, que talvez já vimos, como Tutankamon e Nefertiti, mas sobre os quais sabemos pouco. Não sabemos exatamente o que fizeram e porque é que são tão famosos. É por isso que a exposição se chama Faraós Superstars, porque eles são como superstars. São como a Beyoncé, o Elvis Presley ou a Marilyn Monroe. Já ouvimos falar deles e, pelo menos, conhecemos os seus nomes.”

Tutankamon, Nefertiti e Cleópatra são nomes conhecidos do grande público, mas há centenas e centenas de outros faraós cujos nomes nada dizem a quem não estudou Egiptologia. É sobre o porquê de apenas alguns reis terem sobrevivido ao teste do tempo na memória coletiva que a exposição se concentra. O que é que uns tinham que os outros não tinham? Alguns faraós eram celebrados na Antiguidade e continuaram a sê-lo em tempos modernos, mas outros foram rapidamente esquecidos, mas recuperados posteriormente. Para o curador do museu Palais des Beaux-Arts de Lille, que guiou o Observador numa visita à mostra, essa é a grande “ironia”: “A exposição mostra a ironia da História, porque é que alguns faraós que eram muito famosos deixaram de fazer parte da nossa consciência histórica e outros, que não eram muito comemorados pelos egípcios, se tornaram superstars, como Tutankamon. Por isso é que é importante começar com ele”, destacou. “Porque ele é a maior estrela. E também porque o seu túmulo foi descoberto há 100 anos.” Uma feliz coincidência, uma vez que a exposição começou a ser preparada em 2019. As preparações foram interrompidas devido à pandemia de Covid-19. “Estamos em novembro. Foi quando descobriram os primeiros degraus [para o túmulo]. A entrada foi descoberta no final do mês. “Por isso é que é importante começar por Tutankamon”, repetiu Frédéric Mougenot. “Ele nem sempre foi uma superstar.”

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