Uber dececiona na bolsa como o Facebook em 2012. A reviravolta pode repetir-se? /premium

27 Maio 2019

Em 2012, Facebook teve estreia miserável na bolsa. O arranque foi difícil, mas desde então o valor da ação multiplicou-se. A Uber pode revelar-se outro ótimo investimento ou caminha para o "desastre"?

Foi a estreia em bolsa mais aguardada nos últimos anos. Finalmente, qualquer investidor podia ser dono de uma parte da Uber, a empresa cujo nome já se tornou sinónimo de disrupção (é comum perguntar-se qual é a próxima indústria a ser “uberizada“)? A euforia da estreia foi, porém, rapidamente substituída por “um filme de terror“, diz ao Observador um analista em Wall Street. As ações perderam um quinto do valor em poucos dias. Desde então — já passaram duas semanas — recuperaram até perto dos níveis da estreia, mas acredita-se que para isso esteja a ser decisiva a intervenção do Morgan Stanley, o principal gestor da operação, que tem a incumbência (como é normal neste tipo de operações) de procurar estabilizar o preço da ação nos primeiros tempos.

Só graças a esse mesmo “apoio” dos bancos de investimento é que, há sete anos, não foi maior o descalabro na estreia de outra empresa de renome, em torno da qual havia tanta euforia (ou mais, até): o Facebook. Em maio de 2012, a empresa de Mark Zuckerberg decidiu avançar para a estreia em bolsa — muito a contragosto do fundador da empresa que controla as redes sociais mais usadas em todo o no mundo. As coisas não correram bem, inicialmente: “o primeiro ano foi uma desgraça“, recorda Steven Santos, gestor do BiG, em Lisboa, lembrando que vários clientes, que tinham investido, foram ficando cada vez mais desconfortáveis à medida que os títulos derraparam dos 38 dólares por ação originais até menos de metade desse valor.

Quando o Facebook era apenas uma empresa privada, antes de maio de 2012, a pressão dos investidores para que se abrisse o capital era tanta que houve várias empresas a aproveitar a onda para (essas, sim) vender as ações em bolsa, sabendo que iam encontrar investidores desejosos de ganhar exposição a qualquer coisa que “cheirasse” a Facebook. Um exemplo? Quem se lembra da estreia da Zynga, a pequena produtora do Farmville, em tempos um jogo tremendamente popular no Facebook? A Zynga navegou a onda, os seus fundadores e acionistas originais encheram os bolsos vendendo títulos na bolsa, mas hoje a ação vale uma fração do preço a que foi vendida — até porque nunca mais conseguiu replicar o sucesso efémero de Farmville. Desde que o Facebook foi para a bolsa, a Zynga tornou-se numa empresa perfeitamente irrelevante: porquê investir em ações proxy quando a empresa em que realmente todos queriam entrar já estava na bolsa?

Todos queriam entrar — ou, pelo menos, todos falavam nisso — mas a realidade é que o Facebook teve uma estreia miserável na bolsa. Não só nos primeiros dias (sobretudo o primeiro, onde nem problemas técnicos graves faltaram) mas, também, nos meses seguintes.

No dia da estreia do Facebook no Nasdaq, o entusiasmo inicial rapidamente deu lugar a um sabor azedo na boca dos investidores. Foto: EMMANUEL DUNAND/AFP/GettyImages)

Na véspera da estreia, a gigante General Motors decidiu divulgar um relatório onde se mostrava muito dececionada com os resultados comerciais das campanhas publicitárias que tinham sido feitas através do Facebook. Um balde de água fria, com um timing intrigante, que foi apontado como uma das razões que levaram à estreia desinspiradora da rede social nos mercados. É certo que uma estreia em bolsa — ainda mais uma tão marcante como esta — tem sempre uma forte componente de western spaghetti, com informação e contra-informação a circular em vários sentidos, mas esta oferta pública inicial (IPO, na sigla anglo-saxónica) foi especialmente caótica, até pelos problemas técnicos, na conciliação informática das ordens, que afetaram a bolsa do Nasdaq (e obrigaram a uma abertura quase uma hora depois do previsto).

Depois de uma sessão bolsista em modo montanha russa, no final do dia, ficou um sabor azedo na boca dos analistas. As ações tinham sido vendidas a 38 dólares, saltaram para os 42,05 dólares logo na abertura, escalaram até aos 43 dólares mas o rumo virou, subitamente, para perto dos 38 originais. A certa altura, tornou-se óbvio para toda a gente que os bancos gestores da operação estavam a intervir (disparando ordens de compra significativas) para evitar, pelo menos, que a primeira sessão bolsista não acabasse com “sinal vermelho”.

Conseguiram — a ação fechou o primeiro dia a subir apenas 23 cêntimos. Mas valeu-lhes de pouco. As semanas e os meses seguintes foram de agonia, à medida que os analistas mais pessimistas em relação à empresa reagiam às quedas na bolsa agravando, ainda mais, as suas recomendações pouco animadoras para o Facebook. A firma BMO Capital Markets, por exemplo, viu as ações do Facebook a caírem para menos de metade do valor inicial e atirou mais achas para a fogueira: baixou o preço-alvo de 25 para 15 dólares. O analista responsável pela nota divulgada no final de agosto dava conta dos grandes receios em torno da capacidade da empresa em transformar pares de olhos e likes em dólares, através das receitas da publicidade. E, nessa altura, questionava-se até que ponto é que o Facebook conseguiria dar o “salto” dos computadores para os dispositivos móveis (sim, isso foi um tema).

O The Wall Street Journal escrevia, a 30 de maio, duas semanas depois da estreia, que o IPO tinha sido um “fiasco” — “as novas ações estão a perder, em média, um dólar por dia de negociação bolsista. Se isto continuar a este ritmo, no final de junho a empresa não vai valer nada”.

Este era o tom do debate, apesar de, ao contrário da Uber (e de vários outros, incluindo a Amazon), quando o Facebook foi para a bolsa já era uma empresa lucrativa — em 2011 tinha realizado mil milhões de dólares em lucros. Não é coisa pouca, mas o que se discutia era se algum dia serão tão lucrativa ao ponto de justificar a avaliação superior a 100 mil milhões de dólares com que se estreou na bolsa (era mais valiosa do que a própria Amazon mas e a McDonald’s).

“O primeiro ano foi uma desgraça. Foi bastante assustador para os clientes que tinham investido”, recorda Steven Santos, gestor do BiG ,que diz ao Observador ter memória de vários clientes a telefonar, dizendo “eu não quero isto”, sobretudo investidores de retalho que tinham pedido para investir no IPO mas que não estavam muito convictos sobre as perspetivas de futuro do Facebook.

Mas a maré mudou. Os meses e os anos seguintes provaram que o Facebook estava a conseguir, de facto, transformar-se na máquina de fazer dinheiro que os mais otimistas suspeitavam. E isso refletiu-se na bolsa.

Quem alinhou no pessimismo perdeu uma ótima oportunidade de investimento. Alguém que, por hipótese, tenha comprado ações do Facebook no verão de 2012, quando os títulos se aproximaram dos 17 dólares, hoje já teria multiplicado o seu investimento em cerca de 10 vezes. Quem comprou no IPO (e nunca vendeu) tem lá hoje cinco vezes mais do que nessa altura — cada ação está a valer mais de 180 dólares neste momento.

Com todas as controvérsias sobre a privacidade e as polémicas ligações a escândalos como o da Cambridge Analytica, que levaram a movimentos como o #deletefacebook, a realidade é que a cotação continua de vento em popa. Os programas de compra de ações próprias (no fundo, o uso de lucros para comprar ações no mercado, suportando o valor das que restam) e a disponibilidade demonstrada em rapidamente engolir a concorrência — como o Whatsapp e o Instagram — têm ajudado a manter o alto astral do Facebook na bolsa.

Cotação do Facebook no Nasdaq desde a estreia bolsista

Fonte: MacroTrends

A história pode repetir-se? Falamos em deceção nas primeiras semanas de negociação da Uber, será que é provável que daqui a sete anos alguém escreva sobre a empresa de “boleias” e sobre mais uma oportunidade de investimento perdida? Obviamente, só o futuro dará essa resposta. A literatura académica dos mercados indica que, historicamente, as primeiras semanas de negociação bolsista não são um indicador fiel sobre aquilo que a empresa vai ser a prazo — mas o que é inegável é que a Uber precisa de estabilizar (ou, idealmente, crescer) em bolsa para conseguir continuar a atrair novos investimentos (incluindo a venda de mais ações em bolsa). ”

“Se eles queimam a reputação nos mercados, isso pode ser complicado”, comenta Steven Santos.

“O nosso caminho será o mesmo [do Facebook e da Amazon]”

A avaliação oficial no momento da venda das ações, que fica para a História, foi de 82,4 mil milhões de dólares. Mas, logo na primeira sessão bolsista, as ações derraparam 7,6% — fazendo com que a empresa, na sua totalidade, já passasse a valer cerca de 76 mil milhões de dólares. No segundo dia, a coisa não melhorou, pelo contrário: a desvalorização no segundo dia foi de quase 11%, para fechar nos 37,10 dólares — isto é, uma avaliação total que já caía para os 62,5 mil milhões, cerca de 20 mil milhões de dólares que se esfumaram em dois dias no valor da empresa (afastando-a, cada vez mais, dos 100 mil milhões de dólares que se acreditava que ela poderia valer, quando se começou a falar na ida para a bolsa).

“Obviamente, a nossa ação não está a ser transacionada, neste pós-IPO, da forma que esperávamos”, escreveu o presidente da empresa, Dara Khosrowshahi, num e-mail aos colaboradores após o segundo dia de negociação. A comparação com as dececionantes estreias do Facebook e da Amazon serviu para tentar tranquilizar os colaboradores — os IPOs dessas empresas foram “incrivelmente difíceis e, agora, olhem para como eles cumpriram, desde então. O nosso caminho será o mesmo“, prometeu Dara Khosrowshahi.

O Observador falou com Daniel Ives, analista da Wedbush Securities que acompanha a ação da Uber, que tem palavras mais fortes para descrever o que foram as primeiras semanas de negociação da Uber: “foi um filme de terror“.

Mas a sensação que fica, na opinião deste especialista, é que nesta fase “Wall Street já está a começar a digerir a Uber como uma ação relativamente normal — e o preço parece estar a conseguir reunir alguma base de estabilização”. Duas semanas após o arranque, Daniel Ives diz acreditar que “a poeira está a assentar e, pelo menos no curto prazo, o pior para a ação parece já ter passado”.

Depois desse curto prazo, é difícil fazer previsões. “O caminho que existe pela frente é longo e, aos olhos dos investidores, esta vai continuar a ser uma empresa que precisa de dar muitas provas”, defende, mostrando, contudo, ter uma visão otimista sobre o futuro: “Continuamos a acreditar que a Uber pode ser a Amazon dos transportes, com uma oportunidade de atacar um mercado que vale sete biliões de dólares, à medida que entra em setores como o Uber Eats, o transporte de mercadorias e os veículos autónomos”. Além disso, “o mercado da partilha de boleias ainda está na infância“, argumenta o analista.

"Continuamos a acreditar que a Uber pode ser a Amazon dos transportes, com uma oportunidade de atacar um mercado que vale sete biliões de dólares"
Daniel Ives, analista da Wedbush em Nova Iorque

Uma nota de investimento da Susquehanna, divulgada nos últimos dias, refere que “a Uber é uma empresa única, numa geração, com uma enorme oportunidade para revolucionar os transportes e a logística. Porém, o abrandamento do crescimento cria um grau de incerteza em relação à trajetória futura da empresa”.

Uma visão também menos otimista é manifestada por John Elfton, da Greycroft Partners, em entrevista recente à televisão financeira CNBC. O analista olha com alguma apreensão para um dado que pode ser decisivo: há alguns anos, nos EUA, a Uber tinha 80% dos condutores a operar exclusivamente para a Uber (10% estavam com a Lyft e os restantes 10% trabalhavam em “multi-homing”). Hoje, é 50% Uber, 25% só Lyft e 25% ambos. “Portanto, se tens uma frota de condutores menos fiéis e clientes que também só querem a solução mais barata, acabas por não ser mais do que um prestador de um serviço de ‘marca branca’, uma commodity perfeitamente intersubstituível”.

Essa é uma das principais preocupações de Steven Santos, do BiG, sobre o investimento na Uber. É um pouco diferente do Facebook porque “uma rede social depende muito mais de um efeito-rede do que uma app de transportes”, isto é “o valor do Facebook, para mim, é saber que encontro lá os meus familiares ou amigos. Em contraste, na Uber isso não acontece — não tenho qualquer interesse em saber se a pessoa ao meu lado tem a mesma app ou outra, pelo que é uma empresa muito mais suscetível à concorrência”.

A Uber teve receitas de 11,3 mil milhões de dólares em 2018, que comparam com os 2,2 mil milhões da Lyft (que é o maior concorrente da Uber nos EUA). Tanto uma empresa como outra, porém, incorreram em prejuízos operacionais de 1,8 mil milhões e 944 milhões de dólares, respetivamente. John Elfton comenta que tanto a “Uber como a Lyft são empresas que estão a esturrar muito dinheiro mas o seu principal ativo é uma empresa cheia de talento, com engenheiros de calibre mundial que estão a causar disrupção em mercados enormes”.

John Elfton defende que “se eles conseguirem soluções para todas estas questões, vão ser empresas enormes, importantes para o nosso futuro. Mas é verdade que são empresas com grande risco, portanto ninguém pode excluir que isto venha a acabar em desastre“.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: ecaetano@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)