Pouco tempo depois da morte de Agustina Bessa-Luís em 2019, a filha Mónica Baldaque já estava a fazer contactos para uma homenagem especial tendo em vista o centenário da mãe, nascida em 1922. A ideia era simples no papel: enviar um livro de Agustina para o Espaço. Pôr o plano em prática é que se revelou mais complicado e, como tal, Mónica recebeu várias recusas ao longo dos anos. “É impossível”, escutou. Mas no início deste ano, bateu “à porta certa” e encontrou a Lusospace, uma empresa portuguesa que se foca na construção e no lançamento de satélites há mais de duas décadas. A discussão foi rápida e, apesar de se traduzir numa ligeira alteração dos planos originais, a obra de Agustina vai ser lançada ao Espaço num satélite com o seu nome.
O lançamento já sofreu vários atrasos, mas o satélite deverá seguir a bordo do Falcon 9 da SpaceX no início de março de 2026. Uma vez que se trata de um dispositivo de dimensões relativamente pequenas, a ideia de incluir A Ronda da Noite — a sua obra “mais misteriosa” escolhida pela filha — acabou por não se materializar por, com mais de 300 páginas, ser um peso demasiado grande para ser transportado naquele “pequeno” satélite.
“A terra é o eterno movimento do tempo bíblico. Ela é criada para o homem e é-lhe negada depois; é repartida, destruída, prometida sucessivamente. Começa por ser feita de poeira e de ervas que secam, depois amplia-se até às estrelas, até ao mais íntimo segredo dos homens“. Esta foi a frase escolhida por Mónica Baldaque e que esta segunda-feira, numa cerimónia privada, foi inscrita no satélite batizado Agustina Bessa-Luís.
A citação não é d’ A Ronda da Noite, como estava originalmente pensado. Não sendo possível incluir o livro na sua totalidade — que Mónica acredita ser “o testamento” de Agustina — a filha decidiu percorrer a vasta obra da escritora à procura de algo que pudesse estar ao nível da homenagem que iria prestar à mãe. Deparou-se com esta frase numa coletânea dos seus Ensaios e Artigos publicados no Diário Popular. A crónica em questão foi publicada no dia 22 de junho de 1967, com o nome Tempo Bíblico, revela ao Observador.
Nesta primeira janela de lançamentos estarão presentes quatro satélites da Lusospace — a Constelação Lusíada — que recebeu este nome por coincidir precisamente com o 500.º aniversário de Luís de Camões, e todos terão nomes de poetas e autores portugueses. O primeiro é o de Agustina, seguindo-se o de Camões, Pessoa e Saramago.
▲ Agustina Bessa-Luís
A “musa dos satélites” e as etiquetas “ultra resistentes” que vão levar Agustina ao Espaço
Para chegar ao local onde estão a ser limadas as arestas finais dos satélites, ainda é preciso percorrer vários pisos com a ajuda de Ivo Vieira, CEO da empresa. A sede da Lusospace, no centro de Lisboa, não aparenta, vista de fora, conter aquilo com que nos deparamos por dentro. A própria entrada no edifício é decorada de acordo com o tema em curso. Em cima de uma das mesas há uma réplica de dois foguetões importantes: um é o Starship, o grande projeto que está a ser desenvolvido pela empresa de Elon Musk para enviar humanos até Marte num futuro próximo. O outro — talvez mais conhecido pela generalidade da população — é um rocket mais pequeno, pintado com os seus icónicos quadrados vermelhos e brancos: uma réplica do foguetão presente nas histórias de Tintin.
Pequenas luzes estão colocadas no tecto de forma a simular o brilho das estrelas no céu e, quando lá fora escurece, acabam por iluminar a divisão e o papel de parede que simula a vista a partir da superfície lunar. É aqui que se encontram os vários gabinetes e as secretárias onde estão os mais de 30 funcionários — dos quais cerca de 95% são portugueses — a trabalhar nos vários projetos que correm em simultâneo.
Após ter passado por diferentes laboratórios, vitrines de exposição e espaços onde ideias estão a ser preparadas para futura divulgação, a tour chega ao seu destino final. Para entrar naquela última divisão — possivelmente a mais importante dentro das instalações da empresa — é preciso vestir uma touca para o cabelo e uma bata, e colocar uma proteção nos sapatos para preservar ao máximo as condições dentro da clean room. É aqui que se preparam os satélites e, como tal, todos os cuidados são necessários.
▲ Ivo Vieira, o CEO da Lusospace, a apresentar a sede da empresa ao Observador e à filha de Agustina Bessa-Luís
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Nunca esteve aqui tanta gente”, confessa um dos engenheiros ao ver a pequena comitiva encabeçada por Mónica Baldaque a entrar no laboratório. Cada uma das quatro bancadas instaladas nesta parte da sala segura contém na sua superfície um satélite da Constelação Lusíada. Mais perto da entrada está o Camões, mas o único que já conta com a nomeação oficial inscrita é o Pessoa. Foi uma sobrinha-neta do poeta português que, dias antes, havia sido convidada pelo fundador da Lusospace para uma cerimónia semelhante à organizada esta segunda-feira para a família de Agustina Bessa-Luís. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, lê-se no canto superior esquerdo do dispositivo.
E é hora de Mónica fazer o mesmo. A equipa de engenheiros mostra o papel com as frases já preparadas e prontas a colocar no satélite. A olho nu, parecem etiquetas normais. Porém, como explica ao Observador o responsável pelo laboratório, são produzidas especificamente com este propósito. “Têm uma cola muito mais resistente”, afirma João Duarte, referindo a característica que irá permitir que a frase de Agustina se mantenha a flutuar pelo Espaço com o satélite. Ao mesmo tempo, estas etiquetas têm uma película que serve para proteger o texto da radiação. “Há de ficar mais amarelo” quando entrar em órbita, admite o especialista, mas irá manter-se totalmente legível.
Foi preciso escolher um tamanho de letra bastante mais reduzido, uma vez que a frase escolhida por Mónica é a maior a ser inscrita nestes quatro satélites — bem dois autocolantes distintos para colocar a frase na íntegra. Antes de meter as mãos no satélite verdadeiro, a filha da escritora teve de praticar a colagem num suporte que não estava a ser utilizado, colocado a uma altura semelhante à do satélite. Tendo simulado a tarefa com grande sucesso logo à primeira tentativa, Mónica colocou as luvas e ainda uma “pulseira” para garantir que não transmitia qualquer tipo de interferência elétrica ao satélite. Instaladas as três etiquetas — duas com a frase e outra com o nome do satélite —, a sala que nunca estivera tão ocupada explodiu em aplausos.
Seguiram-se rondas intermináveis de fotografias para a equipa, tanto com o satélite como com Mónica — a “musa dos satélites”, como descreve alguém na sala — em representação de Agustina Bessa-Luís, com um duplo simbolismo de missão cumprida. Para os engenheiros — apesar de ainda não estar 100% finalizado — é mais uma etapa concluída. Para Mónica, é um desejo “impossível” que está cada vez mais perto de se concretizar.
A ideia “doida” para homenagear uma das maiores escritoras portuguesas de sempre
Foi só umas semanas antes do lançamento do PoSAT-2 — o primeiro satélite comercial português a ser lançado para o espaço — que Mónica Baldaque entrou em contacto com o CEO da Lusospace. Apesar de a ideia apresentada ter sido a inclusão de A Ronda da Noite na sua totalidade, Ivo Vieira admite que o email enviado pela filha de Agustina Bessa-Luís “o inspirou” a criar a constelação que homenageia os “grandes” da literatura portuguesa.
“Disseram-me que era doida”, conta Mónica ao Observador, à medida que explicava a sua ideia inicial a diferentes atores na indústria espacial portuguesa. Por ser um projeto ambicioso, houve quem lhe sugerisse ir diretamente aos Estados Unidos da América — onde o setor aeroespacial terá maior capacidade para levar avante este tipo de empreendimentos.
Até chegar a Ivo Vieira e à Lusospace, a filha de Agustina Bessa-Luís revela ter batido a várias portas diferentes e, à medida que tentava falar com diferentes “interlocutores” na área, foi percebendo lentamente as “dificuldades que teria em concretizar” este seu sonho. O prazo, na sua cabeça, era lançar a obra da sua mãe para o Espaço a tempo do centenário do seu nascimento, em 2022. Infelizmente, não teve grande sucesso nesta sua aventura dentro do período desejado.
“Foi logo a primeira coisa que eu quis, foi tirar daqui Agustina. Tirá-la da terra, ela foi, ela partiu. Estará algures no espaço, e eu só quis que ela levasse consigo A Ronda da Noite“, conta. Este livro é “como se fosse o testamento dela” e, ao mesmo tempo, uma das últimas obras que alguma vez escreveu. “É a vida dela. É toda a vida dela que ali está. E que ainda não foi percebida por ninguém”, continua.
Quando apresentou a ideia ao CEO da Lusospace, sentiu logo que este “se entusiasmou” com a ideia e que ficou combinado o também engenheiro pensar “como seria possível encontrar uma forma de celebrar Agustina, levando-a para o espaço”. O contacto surgiu mesmo no início de 2025, pouco tempo antes do grande lançamento do sucessor não oficial do PoSAT-1 (o primeiro satélite português), pelo que Ivo Vieira explica que nessa altura, não era possível fazer nada naquele preciso momento — uma vez que o dispositivo já estava em solo norte-americano para ser acoplado ao Falcon 9 da Space X.
Ao Observador, Ivo Vieira confessa que mal ouviu a sugestão de Mónica se pôs a pensar como seria possível avançar com a ideia. A proposta de enviar A Ronda da Noite também teve de ser descartada por uma questão de peso e dimensões — e o facto dos seus satélites serem “pequenos”. Não obstante, surgiu a possibilidade de dar o nome de poetas a estes engenhos e, assim, admite que a primeira pessoa que contactou foi a filha da escritora.
Apesar de não ser a sua intenção inicial, Mónica Baldaque continua a considerar “muito simbólica” a solução encontrada pelo CEO da Lusospace. “É uma frase muito bonita e que certamente fica muito bem no espaço”, admite a filha. O processo de seleção foi um pouco menos meticuloso que a escolha do livro para enviar. “[O CEO] disse-me que não podia ultrapassar um certo número de caracteres, portanto fui eliminando possibilidades. Abri o livro [Ensaios e Artigos] à sorte e esta apareceu-me, e por acaso é uma ótima frase“, conta ao Observador.
Agora com o desejo materializado e “carimbado” oficialmente no satélite com o nome da mãe, Ivo Vieira brinca que mesmo que o texto esteja parcialmente bloqueado pelos painéis solares do dispositivo — e escrito num tamanho de letra reduzido —, “os extraterrestres vão conseguir ler na mesma” parte da obra de Agustina Bessa-Luís.
O “Waze dos oceanos” que é a entrada de Portugal no setor comercial espacial
O lançamento do PoSAT-2 marcou a estreia não só da Lusospace, mas também de Portugal, na corrida do Espaço de uma forma quase independente e com um objetivo puramente comercial. Este pequeno satélite — de aproximadamente 3 mil cm3 — está atualmente em órbita a cerca de 550 km de altitude, à espera que os restantes 11 satélites desta constelação idealizada pela empresa portuguesa se juntem a ele no próximo ano.
São 12, no total, mas os que ainda estão na Terra já são quase três vezes maiores que o PoSAT-2. Com maior tamanho, terão uma maior capacidade de reação e controlo no Espaço, explica o CEO da empresa Ivo Vieira ao Observador. Na sala de reuniões da Lusospace, o fundador preparou uma pequena apresentação para Mónica Baldaque sobre o projeto que tem no centro esta inédita frota espacial portuguesa. De forma sucinta, refere que o grande objetivo é desenvolver o “Waze dos oceanos”, uma forma de melhorar a comunicação entre embarcações, à semelhança do que já acontece nas estradas.
Com uma imagem para exemplificar o tráfego marinho no Oceano Atlântico — onde a constelação Lusíada irá operar antes de eventualmente se tornar numa operação global — Ivo Vieira indica que, atualmente, os navios têm a capacidade de se localizar e de ter a sua posição identificada através de um sistema chamado AIS (Sistema de identificação automática, em inglês). “Todos os navios têm um rádio, que vai enviar para a sua posição para os satélites que estão a orbitar à volta da Terra. Estes apanham o sinal e, logo de seguida, enviam-no de novo para a Terra, de modo a dar a conhecer o tráfego marítimo aos utentes destas vias”, refere o CEO.
Apesar de este sistema ser utilizado desde o início do século, continua a ter bastantes limitações, admite Ivo Vieira. De acordo com o engenheiro, há navios que não conseguem captar os sinais e outros que optam por desligar o seu, de modo a não conseguirem ser identificados via satélite. Ao mesmo tempo, este sinal não está encriptado, ou seja, qualquer pessoa pode ter acesso à localização de um navio e, assim, a vida dos seus passageiros pode ser colocada em risco, dando o exemplo de piratas, que desligam deliberadamente o seu AIS e encontram facilmente alvos a intercetar através destes radares.
Assim, Ivo Vieira diz que existe um outro sistema que integra as funções do AIS, mas que acaba por ser um “upgrade“. “Não só permite receber a posição do navio, mas também permite enviar e receber mensagens. É um sistema de comunicação”, explica. Através deste sistema, que será fornecido pelos 12 satélites da Lusospace, as milhares de embarcações que circulam diariamente pelo Atlântico vão poder partilhar todo o tipo de informação entre si — seja de forma indireta com um intermediador (encriptado), ou através de uma app (estilo Waze) que deverá ser desenvolvida no futuro — “a um preço extremamente reduzido, talvez até grátis“.
A informação vai desde questões meteorológicas, avisos de segurança de embarcações não sinalizadas, questões de tráfego e de rotas mais complicadas num certo momento. Este novo sistema VDES (VHF Data Exchange System ou sistema de troca de dados VHF, em tradução livre), permite uma comunicação segura e bidirecional — ou seja, tanto vai dos navios para os satélites como vice versa — e será útil nestes casos, mas também em episódios de emergência e de resgates, por exemplo. A constelação da Lusospace será a primeira do mundo a operar este sistema.
Os primeiros quatro satélites da frota — o Agustina, o Camões, o Pessoa e o Saramago — vão seguir viagem para o Espaço no início de março de 2026, a bordo do Falcon 9 da Space X. Os restantes sete, ainda com o nome por definir — mas que fazem parte de uma campanha aberta ao público para escolher a designação oficial (“O Seu Nome no Espaço“) — devem partir em junho do mesmo ano, com o objetivo de estarem todos operacionais até ao final de 2026.
Dentro de poucos meses, estes quatro satélites devem ser “embalados” e enviados para os Estados Unidos da América a tempo da missão. “Todos achavam que era impossível”, recorda Mónica Baldaque ao Observador. “Mas eu lembrava-me de algo que a minha mãe dizia sempre: Nada é impossível, tudo é possível“.