Portugal está em contagem decrescente. Daqui a menos de 24 horas, às 18h40 desta terça-feira, 14, será lançado o primeiro satélite comercial português, também o primeiro de uma constelação que promete “revolucionar” as comunicações e o mapeamento dos oceanos. “É um marco histórico e mostra como o setor do espaço está a crescer em Portugal”, sublinha ao Observador Ivo Yves Vieira, o fundador da empresa que criou o PoSat 2 e que, ainda estudante, colaborou na estreia de um satélite português no espaço, há mais de 30 anos.
O PoSat 2 vai partir da Califórnia a bordo de um Falcon 9, da norte-americana Space X, de Elon Musk. Foi criado para ser o satélite piloto de uma constelação capaz de receber e partilhar todo o tipo de dados marítimos, desde alertas de navios em perigo à presença de embarcações piratas ou icebergs à deriva. Uma espécie de “Waze dos oceanos”, como define o CEO da LusoSpace, acrescentando que também terá como missão monitorizar alterações climáticas e tornar os oceanos mais seguros.
A constelação ATON, que tem um custo total de 15 milhões de euros, e está a ser construída com apoio de fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), deverá estar pronta e a funcionar até fevereiro do próximo ano, revela Ivo Yves Vieira. Nesse caminho, o lançamento do PoSat 2, que vai dar os primeiros sinais de vida a partir do espaço em abril, é apenas o primeiro passo.
O “Twitter e Waze dos Oceanos”
Ivo Yves Vieira sempre foi um “apaixonado pelo espaço.” Chegou mesmo a concorrer, por duas vezes, a astronauta da Agência Espacial Europeia. Estava a concluir a licenciatura em Engenharia Física, na década de 90, quando surgiram as primeiras notícias sobre o lançamento de um satélite português para o espaço e percebeu que “tinha de participar.” Depois de muita insistência, conseguiu chegar ao responsável do projeto e integrar a equipa que lançou o PoSat 1. Agora, mais de 30 anos depois, a empresa que fundou vai levar ao espaço o quarto satélite português. E o primeiro comercial.
▲ O PoSat 2 foi construído pela LusoSpace, com apoio de fundos do PRR
LusoSpace
O PoSat 2 — nomeado em homenagem ao primeiro satélite português, o PoSat 1 — é um nanosatélite que começou a ser pensado em 2021, quando a Agência Especial Portuguesa e o Ministério da Ciência abriram um concurso para desenvolver um satélite financeiramente viável. A LusoSpace candidatou-se com um modelo que junta o melhor de dois mundos: o rentável e o inovador.
A “âncora financeira” está ligada à utilização do Automatic Identification System (IAF), um sistema que já existe há 20 anos e que permite a identificação de navios. “Eles enviam a sua posição GPS através de um rádio e o nosso satélite capta essa informação e vai transmiti-la para o mundo inteiro. Isto permite que haja um conhecimento de como é que o tráfego marítimo está a correr, evitar colisões”, enquadra Ivo Yves Vieira. A inovação está relacionada com o uso do sistema VDES (VHF Data Exchange System), um sistema de envio e receção de mensagens curtas para comunicações marítimas. “Costumo dizer que [através deste sistema,] a constelação vai ser uma espécie de Twitter dos oceanos“, refere.
▲ Cada satélite da futura constelação ATON tem um custo de cerca de 1 milhão de euros
LusoSpace
Até agora, só foram lançados para o espaço três satélites com esta tecnologia e, diz o engenheiro, nenhum está a providenciar este serviço porque é preciso uma constelação para cobrir todo o planeta de forma completa. A LusoSpace será, assim, a primeira empresa a criar uma constelação com este sistema, que permite não só uma maior rapidez, mas também custos mais baixos. “Enquanto o Starlink [constelação da Space X] é um sistema que tem que pagar 200 euros por mês e comprar equipamentos muito elevados, aqui vamos poder enviar e receber mensagens no meio do oceano por um preço de um euro ou menos, cêntimos”, explica.
Mais do que um “Twitter dos oceanos”, a LusoSpace quer criar o “Waze dos oceanos”. “No fundo, vamos criar um serviço de distribuição e recolha de informação de dados do mar, um pouco como o Waze tem”, refere. Além da já mencionada hipótese de partilhar avistamentos de embarcações suspeitas — seja de piratas ou pesca ilegal —, a presença de detritos ou icebergs à deriva, o objetivo é providenciar também informações de mau tempo ou mensagens de socorro. “No fundo, mapear o oceano com todas estas informações através de uma rede distribuída através desse sistema satélite. E isso, de facto, é totalmente inovador a nível mundial”, sublinha.
Monitorizar as alterações climáticas e tornar os oceanos mais seguros. As missões do PoSat 2
Um dos objetivos do PoSat 2 é a monitorização das alterações climáticas. É que, além dos navios, também as bóias que recolhem dados sobre o mar — seja de ondulação, qualidade da água, vento — precisam de um sistema de comunicação para providenciar estas informações. Neste momento, descreve Ivo Yves Vieira, utilizam sistemas muito caros. “O nosso sistema vai permitir recolher muito mais dados e ajudar a monitorizar o tempo”, resume.
Numa componente que é mais experimental, também se pretende que o satélite recolha informações a partir das ondas eletromagnéticas da comunicação com os navios. “Através da sua alteração por causa dos ventos, da humidade, podemos tirar algumas ilações de como é que está a atmosfera. Essa é outra ideia que queremos explorar, mas a mais a longo prazo”, admite.
Para lá das alterações climáticas, a LusoSpace acredita que a partilha de informações através da constelação de satélites vai ajudar a tornar os oceanos mais seguros: “Há um navio que sabe que há outro navio que está a afundar a cem milhas e que é preciso ir resgatar os passageiros ou é o próprio navio que está a afundar e precisa de enviar uma mensagem de socorro. Há aqui muitas coisas em termos de segurança que nós vamos poder melhorar.”
▲ O satélite foi desenvolvido por uma equipa de cerca de 15 pessoas
LusoSpace
Ivo Yves Vieira destaca também potenciais aplicações para a Marinha Portuguesa, com a qual a empresa que lidera já estabeleceu contactos. A ideia é que este ramo das Forças Armadas use o sistema para complementar o seu sistema de comunicação naval. “Neste momento já estão em cooperação connosco, não na parte do satélite em si, mas na parte de testar com os seus navios este sistema de comunicação para implementar nas suas operações uma comunicação que seja feita a partir de qualquer ponto do globo”, aponta.
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O primeiro satélite de uma constelação 100% portuguesa que estará terminada dentro de um ano
O PoSat 2 é o primeiro satélite de 12 que vão integrar a constelação ATON. Vai seguir esta terça-feira no Falcon 9 da Space X até aos 500 km de altitude, juntamente com outros como o Prometheus-1, da Universidade do Minho, e três satélites da tecnológica espanhola FOSSA Systems, que abre no mesmo dia escritórios no Taguspark, em Oeiras.
Depois o PoSat 2 vai continuar a viagem numa nave até aos 550 km — acima da Estação Espacial Internacional. Esta altitude foi escolhida devido ao período de atividade solar intenso, que leva a atmosfera a expandir-se e a gerar mais atrito nas órbitas mais baixas, contribuindo assim para diminuir o tempo de vida útil dos satélites. Vai circular em torno das órbitas polares, passando do polo Sul ao polo Norte no espaço de 90 minutos. “Como a Terra roda, acaba por apanhar qualquer ponto do planeta ao fim de pouco tempo”, destaca Ivo Yves Vieira.
▲ O satélite, o primeiro de 12 a ir para o espaço, vai partir num Falcon 9 da Space X de Elon Musk
CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH/EPA
A vantagem de ter uma constelação de satélites é diminuir ao máximo o tempo entre o envio e receção das mensagens. “Não podemos esperar seis horas para receber uma resposta”, nota. O fundador da LusoSpace explica que através dos sistemas e do número de satélites vão conseguir ter tempos de cerca de 20 minutos a meia hora. “Parece muito para quem está habituado na Terra a ter comunicação frequente, mas quando estamos no mar em 20 minutos o navio quase que não se mexeu. É mais que suficiente para providenciar o tipo de serviço”, diz.
A previsão é que, após o lançamento na terça-feira, os primeiros sinais do PoSat 2 comecem a chegar em abril. O satélite, que não tem propulsor, tem um tempo médio de vida de três anos e meio. Os que se seguirem, que serão mais robustos e maiores, já terão essa componente, essencial em caso de perda de altitude e para evitar potenciais colisões. No final do tempo de vida, o propulsor vai também ajudar a fazer a reentrada do satélite na atmosfera e assim evitar a acumulação de lixo espacial.
Cada satélite custa cerca de um milhão de euros. É isso que vai tornar o negócio “tão atrativo”, sublinha o engenheiro, lembrando que normalmente estes equipamentos rondam os dez, 50 e 100 milhões de euros. É também em parte por isso que a expectativa é que a constelação não se fique apenas pelos 12. “É o primeiro marco para depois aumentarmos para 50 ou 100, de forma a reduzirmos o tempo de comunicação a minutos”, indica.
De olhos postos no lançamento de terça, a equipa portuguesa já está a montar os próximos satélites, que estarão prontos até ao final do ano. As opções e datas de lançamento ainda estão a ser analisadas, mas a ideia é continuar a colaborar com a Space X. Segundo o CEO da LusoSpace, os próximos deverão começar a seguir para o espaço a partir de outubro ou novembro para “ter o Waze dos oceanos totalmente operacional” até fevereiro de 2025.