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DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

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Ventura procura reinar acima do caos

Ao contrário do que aconteceu noutras campanhas, Ventura não está no centro de todos os ataques e repiques. Com eleitorado fidelizado, líder do Chega acredita que guerra entre adversários o favorece.

Com fogo cruzado nas campanhas adversárias, André Ventura poupa-se nos ataques e aproveita para lucrar com o caos. Ao contrário do que foi acontecendo na maratona de debates, em que é sempre o mais vocal e desetabilizador, na estrada, o candidato a Belém apoiado pelo Chega tem evitado os ataques aos rivais. Com uma forte mobilização do eleitorado do partido em torno da sua candidatura, Ventura vai ignorando rivais e só fala neles quando confrontando com questões muito concretas. É uma posição nova para ele: desta vez, estão todos contra todos e não todos contra ele — e isso pode ser muito aliciante em termos eleitorais.

Há uma razão para isso: em teoria, João Cotrim Figueiredo, Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo estão a roubar eleitores uns dos outros. Aliás, a troca de acusações permanente entre os três tem sido um dos pontos de destaque desta campanha presidencial. Em comparação com campanhas anteriores, André Ventura tem pairado acima da luta mais feia. É matemática: numa economia circular de votos, ninguém toca no bolo do Chega; os outros que se entretenham com as migalhas.

Isso reflete-se na forma como foi pensada a campanha. André Ventura tem dispensado em grande medida as quintas de casamentos pelo país onde fazia comícios atrás de comícios. A corrida faz-se na rua, mais minimal, transformando as queixas das pessoas na sua principal bússola. Diversas vezes aproveita mesmo as declarações aos jornalistas para expor as lamentações que ouve durante as arruadas e usa os discursos finais para denunciar essas mesmas queixas.

Perante as (poucas) provocações dos adversários, que parecem mais apostados em discutir entre eles, Ventura segue em frente. Veja-se o que aconteceu quando Luís Marques Mendes tentou introduzir a questão do Orçamento do Estado na campanha. Ventura ouviu a pergunta e seguiu em frente, convencido de que o social-democrata apenas falou na questão para o “entalar” — o líder do Chega é o único dos candidatos com capacidade de decisão nessa frente.

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

Atingir o Governo para receber votos

O mais longe que foi no bate boca com Marques Mendes serviu para, em primeiro lugar, atingir o Governo, dizendo que Mendes “não é sequer o candidato do PSD, é o candidato do montenegrismo”; e, em segundo lugar, o apoucar, desconsiderado sequer as hipóteses do social-democrata de passar à segunda volta. “Há três candidaturas que estão na luta, talvez quatro, para que se passe a uma segunda volta”, sugeriu o líder do Chega, excluindo, deliberadamente, Marques Mendes, depois da publicação da tracking poll da Pitagórica.

Numas eleições necessariamente personalizadas, o foco de Ventura é mesmo Governo. Na quarta-feira, num comício que poderia ter ser aproveitado para atingir os rivais, o líder do Chega ignorou-os e falou sobre a Saúde. Culpou a ministra, o Governo de Luís Montenegro e até Marcelo Rebelo de Sousa, pelo “desaparecimento” e silêncio. Também já disse que dispensa a conversa dos “pactos” e acusou os “principais adversários passam a vida a decidir se são contra o Governo ou pró-Governo”. Enquanto todos os outros competem entre si sobre quem garante mais ou menos estabilidade, Ventura capitaliza os votos daqueles que querem mesmo castigar o Governo e o sistema.

Em tudo que são temas com potencial explosivo, Ventura retira o pé do acelerador. Mal explorou a questão da vida profissional de Marques Mendes e sobre os contratos de Henrique Gouveia e Melo na Marinha quase nem se ouviu. Há uma justificação para isso: atendendo às últimas sondagens, André Ventura não precisa mesmo de sujar as mãos. Os outros que o façam por ele.

Em teoria, João Cotrim Figueiredo, Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo e estão a roubar eleitores uns dos outros. Aliás, a troca de acusações permanente entre os três tem sido um dos pontos de destaque esta campanha presidencial. Em comparação com campanhas anteriores, André Ventura tem pairado acima da luta mais feia. É matemática: numa economia circular de votos, ninguém toca no bolo do Chega; os outros que se entretenham com as migalhas

Ventura duvida que eleitorado jovem fuja para Cotrim

Mesmo que André Ventura não o assuma, há um fator que pode pesar na contagem de votos: João Cotrim Figueiredo. Segundo os últimos estudos de opinião, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal está a crescer e, mais relevante ainda, está em primeiro lugar nas intenções de voto dos mais jovens — uma faixa etária em que o Chega tem liderado tranquilamente nas duas últimas legislativas.

Fontes da campanha de André Ventura ouvidas pelo Observador dizem não acreditar no valor que o liberal possa vir a conquistar no dia 18 de janeiro. Publicamente, aliás, André Ventura sugeriu que João Cotrim Figueiredo está artificialmente insuflado. “Lembro-me, nas legislativas, de estarem em entrevistas e dizerem que o PSD e os liberais podiam ter maioria os dois. Eu disse ‘não brinquem connosco e não brinquem com as pessoas’. Todos sabem que isso é mentira, que isso não vai acontecer. Quem faz as sondagens também sabe, francamente, o que é que está a acontecer e como é que está a acontecer, porque nós também temos sondagens e também temos números.”

Quando confrontado com as palavras de João Cotrim Figueiredo — que considerou que “espírito reformista” de Sá Carneiro e a “coragem” de Passos estão “na sua candidatura” —, André Ventura ironizou: “Se o espírito de Sá Carneiro estivesse com 10% ou 12% nas sondagens era uma coisa muito má em Portugal.” A verdade é que, nessa mesma noite, a tracking poll da CNN os colocou nos 18% separados por curtas décimas e na pesquisa do dia seguinte ainda mais colados. Até ver, nem o suposto terceiro lugar de Cotrim muda alguma coisa na campanha de Ventura.

The candidate for the upcoming 18th January presidential elections, Andre Ventura, during a rally in Silves, Portugal, 04th January 2026. TIAGO PETINGA/LUSA

TIAGO PETINGA/LUSA

O seguro de vida de Ventura

Ao contrário de António José Seguro e de Luís Marques Mendes, que segundo as sondagens não conseguem convencer todo o eleitorado dos seus partidos originais, André Ventura está bem posicionado para o fazer. E é isso que a campanha se reflete. Para que passe à segunda volta das eleições, o resultado que conseguiu nas últimas legislativas (22,76%) é, aparentemente, mais do que suficiente. Portanto, a missão para esta primeira fase das presidenciais é: não mexer muito para não estragar.

Sendo, sem sombra de dúvidas, o ativo mais valioso do Chega, Ventura tem consciência de que ninguém conseguiria um melhor resultado do que o próprio. Assim, somando e subtraindo prós e contras, o presidente do Chega concentra-se em falar para os seus, com ênfase nos temas do costume: corrupção e imigração e um cheirinho em tudo o que é problema para as pessoas, desde a saúde, às pensões baixas e à fuga de cérebros para o estrangeiro.

Por tudo isto, Ventura não tem sentido a necessidade de entrar em grandes aventuras para tornar-se o centro das atenções, quando só precisa dos votos que conseguiu num passado muito recente. Mais uma vez: numa eleição tão fragmentada como esta, os eleitores que o partido teve em maio chegariam e sobrariam para uma passagem à segunda volta e, possivelmente, para uma vitória à primeira (como várias sondagens apontam).

Para que isso aconteça há um dado relevante: a fidelização de quem vota no Chega. Tal como tem vindo a ser revelado por diversas sondagens, acredita-se que Ventura tem o eleitorado mais fiel e menos volátil. O presidente do partido está mesmo a contar com essa vantagem teórica. Em declarações aos jornalistas, o líder do Chega falou em estudos do partido que “são claros”, dando-lhe o primeiro lugar, com uma “fidelização de voto na casa dos 86/87%, pessoas que dizem que já não alterarão o sentido de voto”. “Neste momento, sou o maior adversário de mim próprio“, atirou esta quinta-feira, dizendo que o seu grande objetivo é mesmo conquistar “todos os eleitores” que votaram no Chega nas últimas legislativas.

A partir daí, e se passar de facto à segunda volta, as coisas mudarão de figura, claro. “Há uma tendência para vencermos a primeira volta e para podermos não vencer a segunda volta. Não quero dourar a pílula, as coisas são o que são, porém, uma segunda volta é completamente diferente de uma primeira, nas suas dinâmicas, na sua estrutura, na sua organização. Depois do dia 18 vamos ter outra luta de três semanas, em que vamos só dois candidatos dizer ao país o que é que querem, e isso significa que podemos e devemos lutar  pela inversão dessa tendência”, assumiu o próprio candidato. Mas, com o conforto de um eleitorado altamente fiel, o céu é mesmo o limite para Ventura.

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