António Vitorino colocou-se fora da corrida presidencial mas admitiu que fez “esforço” para que pudesse existir apenas uma candidatura do centro-esquerda — a sua. Nos últimos meses, houve tentativas de acordo com António José Seguro, primeiro para que avançasse apenas um candidato, e, numa segunda fase, para que existisse um entendimento no sentido de, mais próximo da data das eleições, o pior colocado entre os dois pudesse desistir a favor do outro.
Esta quinta-feira à noite, quando revelou a sua decisão final na SIC Notícias, o socialista disse existir uma “pequena história” — que deixou “para depois” — por detrás da sua decisão final. A única coisa que revelou foi que fez um “esforço para que houvesse apenas uma única candidatura” de centro-esquerda nas presidenciais de 2026. No entanto, o Observador apurou junto de várias fontes socialistas que houve investidas do lado de António Vitorino em dois momentos, mas que Seguro esteve indisponível. “Recusou conversar”, diz um alto quadro do partido.
A condição de Vitorino para avançar foi sempre ter apenas um nome da área socialista na corrida e isso mesmo foi assumido pelo próprio quando revelou a sua decisão. Disse inclusivamente que não avança para Belém porque essa condição não existe: “A minha candidatura não conseguiu reunir o consenso para ser uma candidatura única desta área.”
Quando Seguro surgiu no terreno presidencial e o cenário de candidaturas múltiplas na sua área política começou a ensombrar o PS, houve uma abordagem indireta a Seguro, segundo apurou o Observador. A ideia era convencer o antigo líder do PS a esperar por uma avaliação sobre quem estaria em melhores condições de concorrer a Belém e, com isso, garantir que haveria apenas um candidato no centro-esquerda.
Seguro não quis admitir desistência
No entanto, vários socialistas que acompanharam este processo de perto, do lado de Vitorino, dizem ao Observador que Seguro fez saber que pretendia manter o calendário que tinha na cabeça. No seu espaço de comentário semanal na CNN Portugal, chegou a dizer que pretendia revelar o resultado da sua ponderação no final da primavera, início do verão — como acabou mesmo por fazer.
A segunda investida do lado de Vitorino tinha já em conta a possibilidade de haver mesmo dois socialistas na corrida presidencial. A ideia era ter um compromisso para que, mais perto das eleições, um dos dois pudesse desistir e apoiar o melhor posicionado para uma segunda volta, evitando atropelos nas eleições e procurando um impulso positivo, na reta final, ao candidato do centro-esquerda. Segundo contam as mesmas fontes contactadas pelo Observador, Seguro “também não quis”.
Questionada pelo Observador, esta sexta-feira, sobre esta tentativa de acordo para as Presidenciais, a candidatura de António José Seguro respondeu apenas que “não entra em intrigalhadas políticas”. Já António Vitorino, não quis falar sobre o assunto nesta altura.
Na SIC Notícias, Vitorino tinha explicado como a existência de uma candidatura única do lado socialista era uma “condição política necessária”. Não quis dizer quando decidiu não concorrer às presidenciais, mas disse que nada tinha a ver com o avanço que Seguro já levava ou com a questão do apoio do PS.
Entre os socialistas que acompanharam o processo de decisão de Vitorino, existe a convicção de que o topo do partido mais facilmente apoiaria uma candidatura sua. Mas a verdade é que entre os seus apoiantes existia também alguma apreensão com a demora da decisão. Ainda esta semana, um desses apoiantes comentava com o Observador que “o timing” estava a “ficar cada vez mais difícil para uma candidatura do António Vitorino”. Sobretudo quando no terreno já há “uma candidatura sólida. O PS vai unir-se em torno dessa candidatura e se ela for sólida não vai haver grande espaço para outra”, argumentava a mesma fonte.
Carneiro dá espaço para evitar divisões. Mas ainda há uma esquerda a mexer
Nas últimas semanas, o líder que será eleito este sábado, José Luís Carneiro, recuou alguns passos em relação à anterior direção em matéria de presidenciais. Com Seguro já no terreno (de quem Carneiro até já foi próximo), o socialista não deu sinais sobre qualquer apoio do partido — e havia esse receio entre os socialistas menos animados com a candidatura de Seguro, alguns deles apoiantes do futuro líder.
Na moção da sua candidatura escreveu que esse não é um assunto prioritário e não fez referência à necessidade de o PS vir a apoiar um candidato concreto — o que era sagrado para a anterior direção. O objetivo é ficar o mais tempo possível longe de eventuais confusões.
Entretanto, o avanço de António José Seguro mobilizou parte do partido, que já expressou o seu apoio ao candidato. Isso mesmo verificou-se na apresentação da sua candidatura, embora tenha ficado também claro que os elementos da direção (onde a esmagadora maioria preferia Vitorino) não apareceram ou fizeram qualquer manifestação de apoio.
A nega de Vitorino já fez com que Augusto Santos Silva viesse assumir estar numa “nova reflexão” sobre a sua própria candidatura presidencial, apontando a decisão para a próxima quarta-feira. Mas não é o único nome que pode alinhar-se à esquerda, o outro é o de António Sampaio da Nóvoa, que já concorreu em 2016, tendo ficado em segundo lugar, atrás de Marcelo Rebelo de Sousa.
O antigo reitor da Universidade de Lisboa ainda não rejeitou uma candidatura a Belém e tem mantido alguns contactos, mesmo entre socialistas. “Está à espera de alguns apoios de peso do PS, para não avançar apenas com apoios do BE e Livre”, comenta um socialista com o Observador. Entre essa esquerda ainda não há, de resto, uma candidatura presidencial alinhada. O caminho para as candidaturas de centro esquerda pode ainda não estar completamente fechado, mas vai ficando cada vez mais afunilado.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, coproduzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]