Era hora de ponta no buffet de pequeno-almoço do Eden Resort em Albufeira. Apesar de ser novembro, o restaurante estava cheio quando se ouviu um estrondo. Sem tempo de reação, os turistas começaram a ver tudo levantar voo. “Parecia uma explosão. De repente começou a voar tudo e os vidros partiram”, relata José, espanhol, e que se preocupou com procurar os filhos. Mas a quantidade de objetos a voar tornava o “vento sujo” difícil de transpor.
Foram poucos segundos, mas o suficiente para virar tudo do avesso e fazer dezenas de feridos, a quem se tentava acudir. Mas a destruição não ficou por ali: o tornado que terá atingido mais de 150km/h prosseguiu o seu caminho e arrancou árvores, sinais de trânsito e cadeiras até ao lugar onde se tornou mais destrutivo. Entre os escombros do parque de campismo de Albufeira, uma idosa britânica de 85 anos foi encontrada morta.
No parque, o cenário encontrado após a passagem do “fenómeno extremo de vento” — que só mais tarde foi qualificado pelo IPMA como tornado — demonstra bem o que ali aconteceu horas antes. Os destroços de sanitas, sofás, telhados, fogões empilham-se por toda a parte.
DUARTE DRAGO/OBSERVADOR
“Um dos meus amigos estava a andar pelo parque, de manhã, quando veio o tornado. O vento fê-lo passar por cima da carrinha”, contou horas depois um turista britânico, de 66 anos, ainda pasmado com tudo o que tinha acontecido. “Sei de outro casal que estava na caravana. Ficou tudo destruído, os vidros todos partidos e eles foram para [o Hospital de] Faro cheios de cortes”.
A dezenas de metros do parque, outro casal entrou ofegante num hotel para procurar uma alternativa de alojamento. Ela a chorar, ele com ferimentos. Explicaram à rececionista que estavam numa autocaravana quando o vento os deixou sem chão e fez capotar o veículo em que estavam.
O último balanço da Proteção Civil apontava para 28 pessoas feridas (duas em estado grave) e uma vítima mortal após o tornado em Albufeira. A maioria dos feridos estava no restaurante do Eden Resort e quase todos são turistas — além das vítimas portuguesas, também há espanhóis, franceses e britânicos.
Pelas 16h, o recém-eleito presidente da Câmara Rui Cristina admitiu que ainda não havia informação de desalojados. “Se tivermos, a Câmara Municipal está preparada para dar alojamento. Temos as nossas equipas de ação social a prestar apoio psicológico às vítimas deste episódio trágico”. Mais tarde, o diretor do hotel disse que tinha sido contactado por um vereador da autarquia “que se disponibilizou para ajudar no que fosse necessário”.
Com “receio” de mais inundações, o autarca escolhido pelo Chega apontou à necessidade de avançar com a obra do plano de drenagem da baixa de Albufeira, semelhante à que está em curso em Lisboa. Denunciou, à RTP, que a obra tem pouco mais de 20% de execução. “Temos que avançar nessas obras o quanto antes. Temos que arranjar fundos europeus. (…) Espero da parte do Governo que haja colaboração”.
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“Nunca tive tanto medo na minha vida”. O cenário no parque de campismo onde morreu uma idosa britânica
“Nunca vi nada como isto, voou tudo”. Enquanto relata tudo o que viu dentro do parque de campismo, um britânico que fala com o Observador não poupa nos gestos. Afasta os braços e junta as mãos para descrever como tudo ficou esmagado. Estava na caravana quando ouviu “um grande barulho” e uma árvore a cair.
“Disse à minha mulher: ‘é um trovão. Não, é um avião a cair'”. Sentiu a casa ambulante — que “ano sim, ano não” pára algum tempo em Albufeira — a abanar. Teve medo, mas assume que mal abriu a porta e viu o cenário “terrível”, percebeu que tinha sido um sortudo.
O primeiro instinto foi tentar perceber se alguém precisava de ajuda. “Somos uma comunidade muito próxima de repetentes. Toda a gente estava a tentar ajudar. Alguns coitados, do outro lado [do parque] não tiveram sorte nenhuma”, desabafa, antes de recordar o amigo que “voou” por cima de uma carrinha ou o casal que ficou coberto por estilhaços de vidro.
“Vi telhados atirados, árvores caídas, bungalows, cadeiras, uma televisão, um barbecue. Tudo muito assustador. Nunca tive tanto medo na minha vida”, assegura a holandesa Marije, a passar férias em Portugal com familiares. Foi entre estes destroços que os serviços de emergência encontraram uma idosa britânica soterrada, já em paragem cardiorrespiratória.
“O barulho parecia como um helicóptero, muito forte, muita pressão. Começou a chover antes do tornado, depois, com o vento, sentimos a caravana a bambolear de um lado para o outro. Saímos e pensamos ‘o que é isto?’. Não se consegue descrever por palavras o que nós vimos…”
Dividido em três vilas, o Parque de Campismo tem zonas com bungalows, autocaravanas ou rulotes — nestas últimas, além de turistas, vivem alguns funcionários.
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Ao Observador, a Hola Camp, entidade espanhola que gere o espaço há cerca de um ano, disse que “tinham alojadas 240 pessoas” na última noite. “Primeiro, estamos a ajudar os que precisam e a colaborar com as autoridades para garantir a sua segurança. (…) Todas as pessoas no Camping foram socorridas pelos serviços de emergência e demos todo o apoio necessário”.
Poucas horas depois do tornado, a GNR cortou os acessos ao espaço para controlar melhor as entradas e facilitar a missão de socorro. “Acho que estavam com medo que houvesse pessoas a roubar, mas acho que as pessoas que estavam lá só queriam mesmo ajudar e procurar quem precisasse de ajuda”, explicou o britânico ouvido pelo Observador.
As primeiras imagens partilhadas nas redes sociais, e que permitem identificar o formato de funil comum nos tornados, mostram bem os objetos a serem projetados pela força do vento dentro do parque de campismo.
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O buffet interrompido e o homem “grande” projetado alguns metros
A meio da tarde no Eden Resort, ainda se notam as repercussões de um fenómeno meteorológico que foi tão rápido quanto intenso. Dentro do espaço comum do hotel, as funcionárias desdobram-se para limpar o chão e colocar as mesas no sítio.
No exterior, multiplicam-se os toldos usados para tapar os vidros que se partiram de forma violenta quando o tornado arrasou o restaurante onde, agora, ninguém pode entrar. Numa das varandas do café, turistas irlandeses bebem uma cerveja e abanam a cabeça ao olhar para os estragos.
Foi nesta zona comum que os funcionários concentraram durante a tarde os hóspedes para melhor os informar sobre o sucedido, mas alguns preferem voltar para casa, como José e Mari Carmen. Espanhóis de Huelva, decidiram interromper as férias e orientam os dois filhos para o carro, onde a mala aberta se revela carregada de mochilas. “Estávamos a tomar o pequeno-almoço. O vento veio, a porta abriu-se, e depois ouvimos o que parecia ser uma explosão”, descreve José.
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A passar férias com outras três famílias de amigos, os adultos fizeram a vontade às crianças durante o buffet e dividiram as mesas entre miúdos e graúdos. Estavam perto, mas não o suficiente para conseguirem ver os filhos quando o tornado interrompeu a refeição. “A primeira reação e preocupação era de pegar nas crianças, mas só víamos vidros no ar”. Incrédulo, José recordou ter visto um homem “grande” a ser projetado “alguns metros”.
“Foi um milagre só ter acontecido isto”, diz Mari Carmen, enquanto aponta para o sangue salpicado na camisola, fruto dos vidros que se lhe cravaram no corpo. Assim que o tornado passou, as pessoas “começaram a chorar”. “Alguns, mais conscientes, tentaram ajudar. O staff do hotel mandou todos para a receção”, completa José, que elogia a rapidez com que a GNR chegou ao local. Antes de sair com os filhos do restaurante, o casal ainda ajudou um idoso, “que estava em choque, de joelhos”, a levantar-se.
Nem o carro que utilizaram na viagem de uma hora entre Huelva e Albufeira escapou. “Decidimos ir de carro ao buffet para não nos molharmos, porque estava a chover”, lamenta José, ao apontar para os danos: um vidro partido e várias amolgadelas. “O hotel diz que vai reembolsar, mas é o menos importante, depois do que vimos ali”.
“As crianças ainda estão com medo, a chorar, o susto não desaparece”, resume a mãe, antes de encaminhar as crianças para o carro e entrar pela porta que agora, em vez de uma janela, tem um saco preto colado por fita cola.
▲ O restaurante do Eden Resort
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O cenário vai-se repetindo ao longo da tarde. Aos jornalistas, depois de serenados os ânimos e acautelada a segurança dos hóspedes, o diretor-geral do Eden Resort disse que entre 60 a 70 hóspedes decidiram sair mais cedo do resort. Dois jovens do Reino Unido estão entre essas dezenas. Tinham chegado no dia anterior, mas já não conseguem permanecer ali. Antes de entrarem para o Uber que os levará para o aeroporto, mostram duas fotografias tiradas com o telemóvel: a primeira, às 10h02, com um sorriso na cara; a segunda; logo às 10h06, mostra os vidros estilhaçados no chão.
“Foi uma situação absolutamente caótica. As pessoas voavam dentro do restaurante com o vento. Houve muitos heróis, houve pessoal que se feriu para proteger as crianças”, assinalou Daniel Gama, visivelmente emocionado. “Entre os clientes feridos, o mais grave foi uma senhora que partiu uma perna. Há crianças com pequenos golpes. E só um dos nossos funcionários tem um traumatismo nos tornozelos, porque estava num buggy [carro de golfe] que voou”.
Sem conseguir ainda precisar o número e o valor dos danos, o responsável comoveu-se a recordar os funcionários que se dirigiram ao local para apoiar nas operações. Thaiane é um desses exemplos. Estava de férias, mas assim que soube o que tinha acontecido, correu para apoiar os “colegas em pranto”. “Está tudo destruído”.
No exterior do hotel o percurso do vento provocou também a destruição de um recinto circense montado pelo Eden Resort e que funciona com atividades de entretenimento aos hóspedes. Marco e Luís estão entre a tenda listada vermelha e branca, de lanterna na mão, à procura de material que possam salvar.
A tragédia motivou a compaixão de Isabela Cardinalli que, com a experiência de toda uma vida no mundo do circo, soube da notícia e foi espreitar o local. “Este circo já está cá pelo menos dois anos. Mas é um perigo ter um chapitô montado com este temporal. Normalmente, quando há uma tempestade nós desmontamos. Basta sabermos que vai haver um bocado de vento”. Entendida no assunto, estima os prejuízos dos objetos circenses em 50 mil euros.
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Marcelo destacou disciplina dos portugueses. Autarca de Albufeira destaca trabalhadores municipais
“Perante um fenómeno atmosférico extremo em Albufeira, a Proteção Civil reagiu com pleno empenho e a maior celeridade possível, como tem sido prática nesta semana muito exigente em termos climatéricos”, reagiu Luís Montenegro no X. A resposta coordenada mobilizou também operacionais dos bombeiros, da GNR, INEM e Cruz Vermelha — no total, segundo o Sul Informação, estiveram no terreno 62 operacionais e 25 viaturas.
Depois do primeiro-ministro, também o Presidente da República lamentou a morte da britânica de 85 anos. “Queria manifestar à família da senhora que faleceu nestas circunstâncias dramáticas a minha solidariedade”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.
“Sabemos como no Algarve foi muito intenso o efeito desta depressão, como foi na Grande Lisboa, mas sempre que há uma morte — já tinha havido duas — não podemos deixar de lamentar e de acompanhar o sofrimento”. Marcelo lamentou “sobretudo” que “quem morre nestas circunstâncias seja o mais indefeso, os mais velhos, os mais pobres, quem tem menos capacidade de se proteger”.
Ainda assim, considerou que “os portugueses foram muito disciplinados, muito sensatos, quer ontem quer anteontem”. “Via-se pelo trânsito, havia um trânsito menor, porque deve ter havido muito lisboeta que ficou em casa a trabalhar”. “A minha interpretação é esta, para aquilo que aconteceu, os lisboetas e os algarvios foram muito sensatos na maneira como reagiram”.
Além deste tornado, a Proteção Civil registou outra situação idêntica (na Lagoa e em Silves) e outras dezenas de ocorrências no Algarve — a região mais afetada pela Depressão Cláudia. Rui Cristina, autarca de Albufeira e chefe máximo da Proteção Civil no município, enalteceu o trabalho dos funcionários municipais. “Temos a Proteção Civil e os funcionários do concelho a trabalharem nas estradas, porque houve muitas árvores que caíram, caixotes do lixo no meio das estradas… estamos a tentar voltar à normalidade”.