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epa11880190 A handout photo made available by the Iranian Supreme Leader Office shows Iranian supreme leader Ayatollah Ali Khamenei addressing members of the Iranian Air Force during a meeting in Tehran, Iran, 07 February 2025. According to Khamenei's official website, the Iranian supreme leader said that negotiations with the USA 'are not wise and honorable'.  EPA/IRANIAN SUPREME LEADER OFFICE HANDOUT HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES
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IRANIAN SUPREME LEADER OFFICE HANDOUT/EPA

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Washington ameaçou e o Irão aceitou dialogar. O momento "crucial" que torna possível um novo acordo nuclear

Washington não tem uma posição unânime, Teerão está unido. Ambos deixam ameaças, mas nenhum quer a guerra. Contexto internacional pode forçar os dois países a assinar um acordo que falhou no passado.

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No dia 6 de abril de 2021, uma delegação dos Estados Unidos e outra do Irão deslocaram-se a Viena para negociar um acordo nuclear, com mediação de vários países europeus. Até fevereiro do ano seguinte, os dois países dialogaram de forma indireta noutras sete ocasiões. Os encontros foram-se sucedendo, de forma intermitente, mas sempre sem sucesso. Passados quatro anos, os dois países voltam à mesa de negociações.

O primeiro encontro aconteceu em Omã no passado sábado, dia 12 de abril, e foi considerado por ambas partes como “produtivo”. Uma semana mais tarde, norte-americanos e iranianos rumam agora a Itália para continuar o diálogo — que continua a ser de forma indireta.  Contudo, a situação é bastante diferente da de 2021.

A diferença mais óbvia é a da liderança norte-americana: em 2021, o Presidente era Joe Biden. Agora, é Donald Trump. O regresso do republicano à Casa Branca tem peso pois foi ele que, em 2018, retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão. Este acordo — formalmente conhecido como Plano de Ação Compreensivo Conjunto (JCPOA) — representa outra mudança: o plano foi assinado em 2015 com um prazo de uma década, que termina em outubro deste ano. O prazo está mais próximo agora do que estava nos encontros em Viena.

Além destas questões, que impactam diretamente as negociações, soma-se o contexto internacional, que pesa de forma diferente em Teerão e em Washington e que mudou as suas abordagens. Tendo tudo isto em conta, o facto de as duas partes terem aceitado um primeiro encontro já é um ponto positivo, pois “mostra que estão disponíveis para falar”, argumenta Banafsheh Keynoush, académica em residência no Instituto Kroc de Estudos Internacionais para a Paz da Universidade de Notre Dame, ao Observador.

"O tempo é demasiado curto, os riscos são demasiado elevados e as questões são demasiado complicadas para que a diplomacia tenha hipóteses sem que os dois principais protagonistas falem entre si."
Ali Vaez, diretor do think tank Crisis Group

A opinião é partilhada por vários analistas especializados no Irão, que argumentam que o momento é “crucial”. Os dois países têm muito mais a perder agora do que tinham em 2021 com um acordo nuclear falhado e a comunidade internacional tem muito a ganhar com um acordo bem-sucedido. “O tempo é demasiado curto, os riscos são demasiado elevados e as questões são demasiado complicadas para que a diplomacia tenha hipóteses sem que os dois principais protagonistas falem entre si”, considerou Ali Vaez, diretor para o programa do Irão no think tank Crisis Group, ao New York Times.

O caminho do Irão até à bomba nuclear, que “não está muito longe”

A preocupação internacional com o programa nuclear do Irão remonta a 2002, quando a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) confirmou que o país tinha instalações nucleares secretas. Teerão foi acusado de estar a construir armas nucleares, o que constitui uma violação do tratado de Não-Proliferação Nuclear que o país ratificou.

Essa possibilidade levou as potências nucleares a quererem monitorizar o programa nuclear do país dos ayatollahs. Em 2015, Irão, Estados Unidos, China, França, Rússia, Alemanha e Reino Unido assinaram o JCPOA, que limitava a quantidade de urânio enriquecido que o país podia ter e o seu nível de pureza — as armas nucleares precisam que o urânio seja enriquecido até aos 90%. Além disso, o Irão ficava sujeito à monitorização da IAEA. Em troca, os restantes países levantaram as sanções económicas contra Teerão. O acordo estaria em vigor durante dez anos, altura em que poderia ser renovado.

O acordo caiu por terra quando, em 2018, Donald Trump retirou os Estados Unidos do JCPOA, que classificou como “um mau acordo”. Em vez disso, o Presidente norte-americano impôs novamente sanções e aplicou um política de “pressão máxima” contra Teerão. No ano seguinte, a IAEA confirmou que o Irão tinha violado os limites impostos no acordo. Ainda assim, o país continuou a ser monitorizado pela agência, que registou os desenvolvimentos do programa nuclear iraniano, mas viu o seu “âmbito de intervenção diminuído”, relatou Rafael Grossi, diretor da IAEA desde 2019.

Esta quarta-feira, Grossi visitou o Irão e sublinhou a necessidade de as negociações serem bem-sucedidas, dado o estado avançado do programa. “Apesar de o Irão ter material suficiente para construir não uma, mas várias bombas, ainda não tem uma arma nuclear“, relatou em entrevista ao Le Monde. “É como um puzzle. Tem as peças e podem juntá-las. Ainda há um caminho até chegarem aí, mas não estão muito longe“, alertou.

epa11730954 Secretary General of the International Atomic Energy Agency (IAEA) Rafael Mariano Grossi attends a press conference during an IAEA Board of Governors meeting at the IAEA headquarters of the United Nations seat in Vienna, Austria, 20 November 2024.  EPA/HEINZ-PETER BADER

A IAEA monitoriza o programa nuclear iraniano

HEINZ-PETER BADER/EPA

A resposta do Irão às acusações de que está a construir armas nucleares é a mesma que em 2002: o programa nuclear iraniano tem apenas uma vertente civil e não tem um objetivo militar, o que é permitido pelo tratado de não-proliferação. Há duas décadas, essa declaração foi feita na forma de uma fatwa — uma decisão legal islâmica — do Ayatollah Ali Khamenei em como a lei islâmica proíbe a produção e utilização de armas nucleares.

Agora, as afirmações visam diretamente os Estados Unidos. “O Presidente Trump pode não gostar do JCPOA, mas contém um compromisso essencial: o Irão reafirma que em nenhuma circunstância vai procurar, desenvolver ou adquirir armas nucleares”, escreveu o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, numa coluna de opinião no Washington Post.

“Desmantelamento total” ou “compromissos”? A divisão em Washington

O diálogo entre as duas potências é um sinal positivo. “Mas a lição que tem de ser retirada é a forma como cada uma das partes olha para estas conversas”, argumenta Banafsheh Keynoush. No entanto, ainda antes de as visões dos dois países serem comparáveis, é preciso que os Estados Unidos clarifiquem os seus objetivos internos: Washington quer o desmantelamento total do programa nuclear? Ou só quer repor o JCPOA?

Esta incerteza transparece na evolução das declarações do enviado norte-americano, Steve Witkoff. Antes de chegar a Omã, Witkoff afirmou que a posição norte-americana “começava com o desmantelamento [do programa iraniano]”. O mesmo objetivo foi definido logo à partida pelo conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz, que falou em “desmantelamento total”. A pena para o Irão, caso não aceitasse esta imposição, também foi deixada clara pelo próprio Presidente: “Se não fizerem um acordo, vai haver bombardeamentos como nunca viram antes”, ameaçou.

A postura assemelha-se àquela que Donald Trump assumiu durante o seu primeiro mandato, sob a política de “máxima pressão“. “O Presidente está a utilizar o seu guião habitual de escalar para desescalar: exigências difíceis de engolir, prazos comprimidos e ameaças militares”, resumem Reuel Marc Gerecht e Ray Takeyh, analistas do Irão, no Wall Street Journal.

epa12023486 US President Donald J. Trump (C) listens to remarks during a Cabinet meeting in the Cabinet Room of the White House in Washington, DC, USA, 10 April 2025.  EPA/SHAWN THEW / POOL

A administração Trump divide-se quanto à postura que se deve adotar sobre o Irão

SHAWN THEW / POOL/EPA

Contudo, já depois do primeiro encontro, as declarações de Witkoff foram bem menos decididas. Em entrevista à Fox News, falou na “verificação” das capacidades nucleares — sem nunca mencionar novamente o objetivo de “desmantelamento”, ressalva o New York Times, que nota que os contornos definidos pelo enviado são muito semelhantes aos que estavam consagrados no JCPOA.

A justificação para estas contradições pode estar numa divisão no seio da própria administração, relata o jornal Axios, que avançou que o Presidente Trump convocou uma reunião com o seu executivo na manhã de terça-feira para acertar a posição norte-americana antes da ronda de negociações em Roma. De um lado, estão os “falcões”, incluindo o secretário de Estado, Marco Rubio, e Waltz, que apoiam uma demonstração de força e questionam o sucesso da estratégia diplomática. Do outro lado, estão o vice-presidente, JD Vance, e Witkoff que apostam na diplomacia e argumentam que os Estados Unidos devem fazer compromissos para chegar a acordo.

Os compromissos dos Estados Unidos poderão ir além do levantamento de sanções que estava acordado no acordo nuclear de 2015. Antes do encontro em Omã, Witkoff falava sobre encontrar pontos de contacto “à margem” da questão nuclear. Dois responsáveis iranianos adiantaram ao New York Times que em Teerão também há disponibilidade para debater outros temas, especificamente o escalar das tensões no Médio Oriente.

Ambos os países têm capacidade para influenciar as partes em confronto direto na região: os Estados Unidos financiam Israel, enquanto o Irão financia os Houthis do Iémen, o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza. Dado o contexto atual, isto pode ser utilizado como moeda de troca por qualquer uma das partes: um novo acordo nuclear em troca da influência sobre os seus aliados.

Sanções, Gaza, queda de Assad. Os fatores acumulados que mudaram a opinião do Ayatollah

Enquanto Donald Trump convocava reuniões de emergência depois do primeiro encontro, Teerão agitava-se com esperança. A reabertura do diálogo com os Estados Unidos fez capa nos jornais iranianos, a semana começou com a valorização do rial iraniano face ao dólar e os mercados iranianos abriram em alta.

Afinal, o mero facto de o Irão se ter sentado à mesa com os Estados Unidos é uma evolução da sua posição. No início deste ano, logo após o regresso à Casa Branca, Donald Trump enviou uma carta ao Líder Supremo, o Ayatollah Ali Khamenei, em que propunha negociações. Caso contrário, manteria a postura agressiva. Khamenei recusou a proposta e afirmou que as conversações só tinham como objetivo “enganar a opinião pública”.

"A mudança de posição [de Khamenei] demonstra o seu princípio fundamental, há muito defendido, de que 'preservar o regime é a mais necessária das necessidades'.”
Houssein Mousavian, membro da equipa de negociação iraniana em 2015

Esta semana, num encontro com os mais próximos, o Ayatollah mostrou-se bem mais flexível (e vago). “Não estamos nem otimistas nem pessimistas [sobre os encontros]. É um processo”, declarou. A mudança de opinião terá sido motivada pelos responsáveis que o aconselharam a aceitar as negociações como solução para estabilizar a situação interna do país, relataram duas fontes iranianas ao New York Times.

A instabilidade iraniana resulta de uma soma de fatores que se tem vindo a acumular. Na base está a crise económica causada pela reimposição de sanções, em 2018; quando os Estados Unidos abandonaram o JCPOA, Reino Unido, França e Alemanha também voltaram a impor sanções. Em 2023, o Irão sofreu novo golpe quando Israel começou a ofensiva na Faixa de Gaza, depois dos ataques do 7 de Outubro. Teerão continuou a apoiar os grupos do Eixo da Resistência, mas, dos três maiores Hamas, Hezbollah e Houthis, os dois primeiros viram as suas cadeias de comando completamente destruídas pelos ataques israelitas.

Os aliados continuaram a cair: em dezembro de 2024, Bashar al-Assad, o Presidente da Síria, foi deposto. O Irão olhou para fora da região e focou-se nos seus aliados globais — Rússia e China –, mas a chegada de Donald Trump à Casa Branca dificultou também estas alianças. No caso da Rússia, devido à aproximação dos Estados Unidos ao Kremlin, com o objetivo de pôr fim à guerra na Ucrânia. No caso da China, através da aplicação de sanções económicas para que Pequim pare de comprar petróleo iraniano.

Tudo somado, os conselheiros mais próximos de Khamenei avisaram-no de que “uma guerra combinada com a implosão da economia interna podia rapidamente fugir ao controlo“, segundo relataram os dois responsáveis anónimos. O Ayatollah parece ter ouvido. “A sua mudança de posição demonstra o seu princípio fundamental, há muito defendido, de que ‘preservar o regime é a mais necessária das necessidades’”, argumentou Houssein Mousavian, que integrou a equipa de negociação iraniana em 2015 e é professor em Princeton, ao jornal norte-americano.

Todavia, os responsáveis iranianos não se limitaram a deixar avisos, mas também conselhos: por exemplo, a aposta em incentivos económicos para os Estados Unidos. O ministro Abbas Araghchi também deixou essa possibilidade clara na sua coluna de opinião. “Há um grave equívoco que precisa de ser esclarecido. Muitos em Washington retratam o Irão como um país fechado do ponto de vista económico”, começa por escrever.

epa11923761 Iranian Foreign Minister Abbas Araghchi attends a joint press conference with his Russian counterpart, in Tehran, Iran, 25 February 2025. Lavrov is visiting Tehran to hold talks with Iranian senior officials.  EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão propôs uma abertura económica aos EUA

ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

“A verdade é que estamos abertos a acolher empresas de todo o mundo. Foram as administrações americanas e os impedimentos do Congresso [as sanções], e não o Irão, que mantiveram as empresas americanas afastadas da oportunidade de um bilião de dólares que o acesso à nossa economia representa”, remata, numa oferta aparentemente tentadora, que apela ao passado empresarial de Donald Trump.

A possibilidade de um acordo transparece tanto nas reuniões do círculo do Ayatollah, mais conservador, como nas palavras do governo, mais moderado. Ainda assim, não é unânime. Na segunda-feira, um dos jornais mais antigos do Irão deixava críticas à posição esperançosa do governo relativamente às negociações. “Por que fazem promessas sobre as conversações que não podem cumprir? Não minem a confiança do público com promessas que só são feitas para atenção mediática fugaz”, pode ler-se num excerto citado pela Reuters.

A improbabilidade de um ataque ao Irão abre caminho ao diálogo

“A bola está do lado da América”. O título da coluna de opinião do ministro resume o espírito em Teerão, agora que o Líder Supremo aceitou avançar com as negociações. Abbas Araghchi reconhece que não há confiança entre as duas partes para encontros diretos, mas insiste numa mensagem clara, em que traça paralelos com o papel de mediador que Trump está a ter na guerra na Ucrânia: não pode ser o “Presidente da paz” se começar uma guerra no Médio Oriente.

Banafsheh Keynoush considera que o sucesso destas negociações depende de outros dois fatores além do acordo nos detalhes do programa nuclear iraniano: “A disponibilidade de Israel para um compromisso sobre o programa nuclear” e um “compromisso de EUA, Irão e Israel sobre [outras] capacidades militares iranianas, incluindo mísseis balísticos”. A dupla referência a Israel destaca a importância que o maior aliado dos Estados Unidos no Médio Oriente terá inevitavelmente na pacificação da região.

Neste aspeto, a capacidade de Washington tomar as suas decisões e influenciar Telavive a ficar do seu lado parece bem-consolidada: no início deste mês, Donald Trump terá dissuadido o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, de atacar as instalações nucleares do Irão já em maio, avançou o New York Times esta quarta-feira. O ataque estava a ser organizado há vários meses, mas Trump informou Netanyahu, durante a sua visita a Washington, que as forças norte-americanas não iriam apoiar Israel num novo ataque. Em vez disso, anunciou a retoma das negociações com Teerão.

Trump recusou apoiar um ataque israelita contra o Irão

Getty Images

A preferência dos Estados Unidos pela diplomacia é uma escolha calculada, segundo um relatório dos serviços de informação norte-americanos do início deste ano, noticiado pelo Washington Post. As secretas antecipavam já um ataque israelita para a primeira metade de 2025, mas deixavam um alerta: qualquer dano causado por um eventual ataque pouco atrasaria o programa nuclear iraniano. Mais: seria um incentivo para Teerão acelerar a concretização de armas nucleares.

Ou seja, “se bombardearem o Irão, o Irão vai muito provavelmente expulsar os inspetores internacionais [da IAEA] e correr para a bomba“, argumenta James Action, analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace, à Reuters.

Um ataque norte-americano às instalações nucleares iranianas parece, portanto, improvável. Mas continua a colocar-se a questão: qual pode ser a conclusão das atuais negociações? Ao Observador, Banafsheh Keynoush apresenta múltiplas hipóteses: “Uma resolução final, uma solução intermédia, uma desescalada ou comprar tempo”.

Garey Samore, que participou nas negociações de 2015 como conselheiro da Casa Branca, argumentou ao New York Times que as técnicas utilizadas anteriormente — “sabotagem, sanções e diplomacia” — só serviram para “comprar tempo”. Mas, dado o atual cenário internacional, mostra-se confiante que nenhuma das partes “quer ir para a guerra”. E que, desta vez, será possível chegar a um acordo.

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