1. O que é a Legionella?

  2. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, a Legionella é uma bactéria amplamente distribuída capaz de sobreviver em condições ambientais hostis por longos períodos, o que contribui para a sua fácil disseminação, daí resultar uma elevada probabilidade de exposição humana a este agente.

    A Legionella é um problema de saúde pública e tem “uma clara relação causa-efeito com a colonização da água pela bactéria em sistemas de água de grandes edifícios”, pode ler-se num documento da Direção-Geral de Saúde.

    A bactéria encontra-se em ambientes aquáticos naturais (como lagos e rios), mas também pode colonizar os sistemas artificiais de abastecimento de água. O agente da infeção encontra-se preferencialmente na água quente sanitária, nos sistemas de ar condicionado (como nas torres de arrefecimento, nos condensadores de evaporação e nos humidificadores) ou em fontes decorativas.

    A bactéria tem sido isolada nas redes de abastecimento de água, onde, aliás, pode sobreviver longos meses. Os pontos de maior disseminação de aerossóis (gotículas de água) são as torneiras de água quente e fria e os chuveiros.

  3. Porque é que também se chama "Doença do Legionário?

  4. A Legionella foi descoberta pelo Centro Norte-Americano de Prevenção e Controlo de Doenças, no seguimento de uma investigação a um surto de pneumonia que afetou os participantes da convenção anual da divisão da Pensilvânia da Legião Americana, realizada no Bellevue-Stratford Hotel em Filadélfia em 1976. Como ainda não se sabia o que tinha provocado a morte a 34 pessoas, a imprensa passou a chamar-lhe Doença dos Legionários.

    Mas as infeções causadas por Legionella incluem, para além da Doença dos Legionários, outras infeções difíceis de diagnosticar não associadas a pneumonia, geralmente referenciadas como febre de Pontiac.

    A incidência depende do grau e contaminação dos reservatórios de água, da suscetibilidade da pessoa exposta e da intensidade da exposição, uma vez que a febre de Pontiac é uma doença não pneumónica, autocontrolada, como a gripe, caracterizada por um acesso súbito e agudo de febre, tremores, mal-estar e dores de cabeça e musculares, mas sem complicações e que não requer tratamento específico.

  5. Como se transmite?

  6. A infeção transmite-se por via aérea (respiratória), através da inalação de gotículas de água (aerossóis) contaminadas com bactérias. A Legionella não se transmite de pessoa a pessoa, nem pela ingestão de água contaminada. As gotículas contaminadas podem ser libertadas através do duche, por exemplo, e do ar vindo dos aparelhos de ar condicionado.

    A Legionella pode ocorrer sob a forma de casos esporádicos ou de surtos epidémicos, sobretudo nos meses do verão e do outono. No entanto, análises feitas pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge feitas entre 2000 e 2006 permitiram observar, contrariamente ao que seria de esperar, que existe uma maior incidência nos meses de fevereiro, março, outubro e novembro.

  7. Quais são os sintomas?

  8. Febre, tosse, pontadas torácicas, dores no corpo e expetoração são os sintomas mais frequentes. Muito semelhante a uma pneumonia. No entanto, de acordo com o Instituto Dr. Ricardo Jorge, os sintomas incluem, inicialmente, dor de cabeça, dores musculares, febre acima dos 39 graus e calafrios associados a transpiração, logo seguidos por tosse seca, pulmões congestionados e possível afetação dos rins e do fígado. Registam-se também diarreia e vómitos num terço dos casos, assim como comportamentos confusos e delirantes em 50% dos casos.

    As formas mais graves resultam em pneumonia aguda ou infeção grave extra pulmonar que pode ser fatal.

    De acordo com a Direção-Geral de Saúde, em regra, cinco ou seis dias depois de um indivíduo inalar bactérias, poderão surgir as primeiras manifestações clínicas. É o chamado período de incubação que, no entanto, pode variar entre dois e dez dias.

    A pneumonia constitui a manifestação clínica mais expressiva da infeção. Surge habitualmente de forma aguda e pode, nos casos mais graves, conduzir à morte. Por isso, é importante atuar rapidamente.

  9. O que fazer em caso de sintomas?

  10. A Direção-Geral de Saúde aconselha as pessoas a ligarem para a linha Saúde 24, através do número 808 24 24 24, antes de se dirigirem a qualquer serviço de urgência.

  11. Quem corre mais riscos de ser infetado pela bactéria?

  12. Legionella ataca, sobretudo, adultos com mais de 50 anos de idade (duas a três vezes mais homens do que mulheres), fumadores ou doentes crónicos debilitantes (alcoolismo, diabetes, cancro, insuficiência renal, doença pulmonar) e doenças com compromisso da imunidade ou que imponham medicação com corticosteróides ou quimioterapia.

    A primeira vítima mortal do surto de Legionella que foi assistida no Hospital de Vila Franca de Xira era um homem de 59 anos que já sofria de doença respiratória, doença pulmonar obstrutiva crónica e era fumador.

  13. É possível prevenir surtos deste género?

  14. A prevenção baseia-se na deteção de eventuais focos de infeção através da realização de controlos regulares aos sistemas de ventilação dos grandes edifícios e, caso se confirme a infeção, proceder-se à sua adequada esterilização.

    A desinfeção periódica dos sistemas de ventilação, como condutas, aparelhos de ar condicionado ou condensadores de vapor, através de cloro ou outros métodos, evita o desenvolvimento de colónias de Legionella pneumophila, informa a Direção Geral de Saúde.

  15. Como pode proteger-se da bactéria?

  16. Uma vez que a bactéria sobrevive em água contaminada, a temperatura da água do sistema deve ser inferior a 20º ou superior 60º. A Legionella prefere água contaminada com ferrugem, algas, lamas, calcário, pelo que produtos de corrosão ajudam a manter estas águas limpas.

    Os chamados grupos de risco, ou seja, pessoas já com problemas de saúde graves, devem evitar os sistemas públicos de água como spas, banheiras de hidromassagem, piscinas públicas, hotéis e navios de cruzeiro.

    A Direção Geral de Saúde já avisou: não precisa deixar de beber água. Mas deve evitar duches, preferindo os banhos de imersão. Deve também mergulhar os chuveiros em água com lixívia e evitar cozinhar com água da torneira. Pode correr o risco de inalar gotículas da fervura da água.

  17. Qual é o tratamento?

  18. Não existe vacina para esta bactéria. O tratamento é feito com antibióticos em comprimidos, nos casos mais graves por via intra-venosa. Podem ser administrados os seguintes: Eritromicina, Azithromycin ou Claritromicina.

    Os antibióticos são geralmente aconselhados por sete a dez dias, mas em alguns casos o tratamento pode prolongar-se até três semanas.

  19. Quais as localidades portuguesas afectadas pelo surto?

  20. De acordo com a direção do Hospital de Vila Franca de Xira, as vítimas que estão a ser ali assistidas vieram de três freguesias: Vialonga, Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria.

    Apesar de ainda se desconhecer a origem concreta do surto, estas três freguesias são contíguas e há muitos serviços que obrigam a mobilização de pessoas de um lado para o outro. É normal que as vítimas assistidas no hospital do concelho, o de Vila Franca de Xira, tenham estado no mesmo sítio e por isso tenham sido infetadas.

    Há registo de vítimas infetadas e assistidas noutros hospitais do País. Mas todas elas terão passado pelo concelho de Vila Franca de Xira.

  21. Há muitos casos em Portugal?

  22. Em Portugal, a Doença dos Legionários é uma Doença de Declaração Obrigatória (DDO) desde 1999. Segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), o número de casos na Europa está a aumentar. E Portugal não foge à regra. Pensa-se, no entanto, que a doença seja subnotificada e subdiagnosticada, o que requer cuidados adicionais.

    É por isso que a Direção-Geral da Saúde coordena, desde 2004, o Programa de Vigilância Epidemiológica Integrada da Doença dos Legionários.

    Entre 2010 e 2013, o INSA registou 284 casos de vítimas infetadas. O período de inverno e início da primavera foi quando se registou o menor número de casos. A maioria dos casos eram residentes na região norte do país, com destaque para os distritos do Porto (91) e Braga (78). Na região de Lisboa e Vale do Tejo ocorreram 71 casos (25%), particularmente nos distritos de Lisboa (59) e Setúbal (12). Aveiro foi o distrito mais afetado na região Centro com 15 casos. O estudo não fala em vítimas mortais.

  23. Como é que a Direção Geral de Saúde está a atuar?

  24. A propósito do Programa de Vigilância Epidemiológica Integrada da Doença dos Legionários, a Direção Geral de Saúde (DGS) emitiu uma circular onde dava indicações das medidas a tomar em caso do surto da Doença dos Legionários.

    “Qualquer caso notificado de Doença dos Legionários deve ser alvo de uma investigação epidemiológica incluindo um estudo ambiental completo de possíveis fontes de infeção, sempre que a avaliação ambiental assim o justifique, nomeadamente se a fonte de infeção for um equipamento de utilização coletiva”, lê-se na circular.

    No caso agora registado, a DGS já anunciou a abertura de um inquérito epidemiológico.

    A investigação epidemiológica tem como objetivos a confirmação do caso, a sua melhor caracterização, a procura de casos relacionados e a identificação do reservatório ambiental da bactéria (fonte de infeção) que deu origem ao caso em estudo.

    Numa primeira fase há que apurar se existem outros casos relacionados com o inicial, quais as possíveis fontes ambientais da infecção e se há conhecimento de outros casos relacionados com essas fontes. Segue-se o estudo ambiental, com a inspeção sanitária dos edifícios, instalações e equipamentos e com a seleção dos pontos de amostragem para colheita de amostra. Depois procede-se à desinfeção do local.

    A DGS afirma que já iniciou o inquérito para descobrir como é que os doentes que chegaram infetados ao Hospital de Vila Franca de Xira foram infetados.

    Foram já recolhidas diversas amostras de vários locais, mas só é possível saber se há presença da bactéria mais de cinco dias depois.