1. O que aconteceu em Teerão?

  2. No dia 2, a embaixada da Arábia Saudita no Irão foi atacada com cocktails molotov, após uma vaga de manifestações no Irão, e em vários países com populações xiitas. O edifício foi incendiado e despojado de tudo o que tinha valor, apesar dos apelos sauditas para que a embaixada fosse protegida.

    No domingo, as autoridades de Riade cortaram relações diplomáticas com Teerão. Na segunda, foram as relações comerciais a cair. Hoje existe um clima de paz podre, em que o conflito direto entre Irão e Arábia Saudita decorre em outros palcos (como a Síria e o Iémen), de forma muito semelhante à Guerra Fria que opôs americanos e soviéticos.

  3. O que provocou os protestos?

  4. Estes protestos não surgiram do nada. São resultado direto do anúncio feito na manhã de dia 2 pelo regime saudita sobre a execução de 47 pessoas, especialmente uma delas: Nimr al-Nimr.

    Nimr al-Nirm era um líder religioso da minoria xiita na Arábia Saudita. Clérigo reconhecido pelas críticas ao governo dos príncipes sauditas, nunca escondeu que contava com o apoio do Irão na sua luta político-religiosa para que a voz xiita se fizesse ouvir, mas defendia que xiitas e sunitas não se deviam oprimir.

    Como a ditadura saudita é insegura e baseia o poder wahabismo, uma versão ultraconservadora do islamismo sunita, foi preciso satisfazer os desejos da linha dura do regime – que gostava de esmagar os xiitas na Arábia e em todo o Médio Oriente.

    Os líderes iranianos e outros grupos apoiados pelo Irão, como o Hezbollah no Líbano, tinham avisado a Arábia Saudita que não deveriam prosseguir com a execução, à qual al-Nimr foi condenado em meados de 2014. Após a execução, o líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, prometeu vingança com mão divina, incendiando os ânimos.

     

  5. Porque foi executado o clérigo xiita?

  6. Os sauditas acusaram Nimr al-Nimr de ofensas ao reino e de promover a intervenção externa. O clérigo, oriundo da província oriental da Arábia Saudita, de maioria xiita, criticou várias vezes a monarquia, que considerava ilegitima e de promover o ódio entre muçulmanos.

    O clérigo defendia no entanto que xiitas e sunitas não deviam atacar-se, que seria contra os ensinamentos de Deus e do profeta Maomé.

    Nimr al-Nimr pediu em 2011 a realização de eleições e apoiou os protestos contra a monarquia saudita, numa altura em que a Primavera Árabe levava a destituição de vários ditadores de longa data, como foi o caso no Egito e na Tunísia.

  7. Qual é a importância da província oriental para a Arábia Saudita?

  8. A minoria xiita na Arábia Saudita, mais de 10% da população do reino, está concentrada nesta região, em especial Al-Ahsa e Qatif, onde estão as maiores jazidas de petróleo do reino.

    É nesta província que está ainda a maior refinaria do reino e onde é um dos maiores importantes portos para a exportação do ouro negro, a maior fonte de receitas da Arábia Saudita.

  9. Porque é que outros países aderiram ao boicote diplomático?

  10. Esta é a outra razão da ação de força. O peso da Arábia Saudita no Médio Oriente vem de três fatores: do dinheiro, de ser o país que alberga Meca e Medina, os dois principais lugares sagrados do Islão (a mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, é o terceiro) e de se considerar o maior pilar do islamismo sunita, a corrente dominante no mundo muçulmano.

    Ora o Médio Oriente xiita é composto pelo Irão, pelo Iraque (que na prática já não existe como país desde o derrube de Saddam) e pela Síria (onde o controlo da minoria xiita mantém o país com dificuldade no meio da guerra civil). A isto contrapõe-se o maior peso sunita nos restantes países da região como o Qatar, os Emirados Árabes, o Kuwait, a Jordânia, o Bahrein (que é de maioria xiita mas controlado pelos sunitas), o Egito e o Paquistão.

    Por essa razão, Bahrein, Sudão e Kuwait fecharam as suas embaixadas e cortaram relações diplomáticas. Os Emirados Árabes Unidos mandaram regressar o seu enviado especial diplomático em Teerão.

  11. Mas qual é a raíz do problema entre sauditas e iranianos?

  12. A raiz do problema não tem diretamente a ver com a divisão sunita-xiita, embora essa seja muitas vezes usada como tal. A verdadeira divisão entre a Arábia Saudita e o Irão vem da revolução de Khomeini em 1979, mas não pelo xiismo do líder. Antes pela sua necessidade de exportar o modelo revolucionário e teocrático por todo o Médio Oriente, pondo efetivamente em risco a legitimidade da monarquia absolutista saudita.

    A mensagem de base da república iraniana era simples: o Islão é incompatível com monarquias. Isto, para um país como a Arábia Saudita cuja elite só governa graças a uma aliança de interesses com os ultraconservadores religiosos Wahabitas, é uma ameaça e uma declaração de guerra contra os interesses instalados em Riade. E, como ambos afirmam representar a verdadeira e justa nação islâmica, a própria existência de um é um desafio ao outro.

    A Arábia Saudita respondeu a esta ameaça armando o Iraque de Saddam para que este líder sunita pudesse atacar o Irão – provocando uma das guerras mais graves da história. Daí surgiu um conflito latente entre as duas nações que se joga em todo o tabuleiro do Médio Oriente – pelas linhas do interesse geopolítico e pelo atiçar de minorias religiosas dentro do Islamismo.

  13. Qual é a dimensão do conflito entre o Irão e a Arábia Saudita?

  14. Neste momento é tremenda e põe em causa toda a região.

    A Síria é o melhor exemplo disto: Bashar al-Assad é um líder aluíta, um movimento xiita apoiado pelo regime iraniano que domina um pais cuja maioria é sunita; isto leva a que os rebeldes que querem derrubar Assad sejam apoiados explicitamente pela Arábia Saudita, que os quer unificar para lhes dar mais força. Pelo meio estão os extremistas do Estado Islâmico e as forças das Nações Unidas a tentar salvar os milhões de refugiados que o caos provoca. Enquanto os dois poderes regionais não se sentarem à mesma mesa para tentar uma solução a guerra vai continuar, o EI vai progredir e vão morrer mais civis.

    O Iémen é outro país onde se trava uma guerra por procuração: a partir de um conflito local as forças sectárias ganharam espaço e hoje ameaçam dividir o país ao longo de linhas religiosas, pondo em risco a coexistência pacífica que era marca histórica do Iémen. Também aqui, enquanto Irão e Arábia Saudita nãos e sentarem à mesma mesa, não vai haver paz nem progresso para um dos países mais atrasados do mundo.

  15. Como têm sido as relações entre Arábia Saudita e Irão?

  16. O Irão e a Arábia Saudita tem uma longa dista de conflitos na sua história recente. Desde a revolução islâmica, em 1979, à guerra Irão-Iraque na década de 80 (em que a Arábia Saudita apoiou o Iraque), até ao primeiro grande incidente em Meca, em 1987, quando um grupo de peregrinos xiitas e as forças de segurança sauditas entraram em conflito durante a peregrinação anual, o Hajj. Mais de 400 pessoas morreram.

    Os protestos dos peregrinos contra os Estados Unidos e Israel eram habituais desde 1981, mas em 1987 as forças sauditas decidiram fazer um cordão para impedir o trajeto dos manifestantes xiitas. Os confrontos levaram ao pânico e muitos peregrinos morreram espezinhados. Arábia Saudita e Irão acusaram-se mutuamente.

    No ano passado, mais de 700 pessoas morreram novamente durante o Hajj em Meca, na sua maioria xiitas. O Irão acusou a Arábia Saudita de responsabilidades no caso.

     

  17. Porque é que os americanos continuam a apoiar a Arábia Saudita?

  18. Por interesse. Ao contrário do que sucede com países como a Inglaterra ou o Japão, em que há uma partilha de valores e de visões do mundo, a aliança com a Arábia Saudita é nascida de interesses comuns. Primeiro foi o petróleo, que os sauditas tinham para dar em barda; depois foi o comunismo, que ambos queriam combater com o mesmo fervor; a seguir foi Saddam, um inimigo comum; por fim foi Osama bin Laden quem se pôs a jeito para ocupar o lugar de alvo partilhado destas nações.

    O resultado é o que se vê: americanos forçados a engolirem em seco quando os sauditas se empenham em mostrar quão ditatoriais são; pior, americanos a ter de lidar com os problemas regionais criados pelo extremismo wahabita que continua a pôr em causa a estabilidade na região.

  19. E o que é que a religião tem a ver com isto?

  20. Os regimes de cada país usam a cartada religiosa para reforçar o sectarismo dentro das respetivas sociedades e legitimar o próprio poder. Ao mesmo tempo, servem-se disso para ganhar aliados e atacar inimigos nos países próximos, destabilizando efetivamente o Médio Oriente.

    A divisão entre xiitas e sunitas é profunda, mas não tinha contornos políticos precisos até à subida ao poder de Khomeini no Irão. Aí é que ganha dimensão e impacto ao longo das últimas três décadas, renovando contornos a cada conflito na região. E hoje é já o principal foco de perturbação regional, potencialmente global.