Uma publicação no Facebook afirma que o Brasil teve “uma presidente terrorista assassina”. Em causa, o atentado a 26 de junho de 1968 contra o Quartel General do 2.º Exército, no bairro de Ibirapuera — em São Paulo — que resultou na morte de Mário Kozel Filho e deixou feridos outros cinco soldados.

Não é a primeira vez que este boato circula no Facebook. O Estadão já o desmentiu, mas nos últimos dias a partilha voltou a ter inúmeras interações nas redes sociais. A 27 de junho de 1968, a primeira página d’O Estado de S. Paulo — também conhecido por Estadão — noticiava a morte de Mário Kozel, com 18 anos, na madrugada do dia anterior, na sequência de um ataque executado por “apenas uma pessoa”.

Publicação no Facebook que insinua envolvimento de Dilma em atentado em 1968.

Na publicação do Facebook, o autor afirma que “a ex Presidente Dilma Rousseff matou o soldado Mário Kozel Filho, jogando uma granada no portão”. Fazendo uma leitura literal do atentado, a publicação seria imediatamente classificada como falsa, uma vez que o ataque não foi perpetrado com recurso a “uma granada no portão”.

De acordo com o relato do Estadão, apenas um homem levou a cabo o atentado. O homem conduzia um carro, do qual saltou depois de os soldados terem disparado em direção aos pneus, tendo o carro embatido na parede do quartel. Quando os soldados se aproximaram da viatura, esta explodiu, matando Mário Kozel Filho e deixando outros cinco soldados feridos.

O ataque foi atribuído ao grupo Vanguarda Popular Revolucionária, VPR, que se tinha formado dois anos antes, reunindo dissidentes da Política Operária (POLOP) e militares do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Ora, segundo a biografia de DilmaRousseff da Fundação GertúlioVargas, em 1967, no 4.º Congresso da POLOP — quando se deu uma fratura no interior da organização —, Dilma optou precisamente por integrar o grupo guerrilheiro Comando de Libertação Nacional (Colina).

Ainda assim, no ano seguinte ao atentado, em 1969, as duas fações que tinham surgido da POLOP (Colina e VPR) acabam por unir-se, dando origem à Vanguarda Armada Revolucionária (VAR). Ora, se a Colina — da qual Dilma fazia parte — só se uniu à VPR em 1969, é impossível que a ex-presidente tenha tido qualquer intervenção no atentado que causou a morte de Mário Kozel Filho e ferimentos noutros cinco soldados.

Mas este não é um boato exclusivamente das redes sociais. Em janeiro de 2019, também Jair Bolsonaro — que já se manifestou contra a legislação que está a ser preparada para limitar a disseminação das chamadas fake news no Brasil — insinuou que Dilma teria estado envolvida no atentado. A afirmação foi feita em entrevista ao canal de televisão italiano RAI, quando o presidente do Brasil disse que o VPR tinha sido responsável “por várias ações terroristas, incluindo uma bomba que matou um soldado em São Paulo”, acrescentando que “fazia parte dessa organização terrorista também a senhora Dilma Rousseff”.

A afirmação de Bolsonaro motivou uma reação de Dilma Rousseff que, em comunicado, acusou Bolsonaro de “divulgar fake news”. Além dos detalhes que são públicos na biografia da Fundação Gertúlio Vargas, Dilma acrescenta que no dia em que aconteceu o atentado “residia em Belo Horizonte e frequentava a Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais”. “Não tinha o dom da ubiquidade e ainda não tenho”, escreveu ainda a ex-presidente, acusando Bolsonaro de estar “apenas a repetir uma notícia falsa e insidiosa espalhada pelos seus apoiantes durante a campanha eleitoral”.

Conclusão

No ano em que o grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foi responsável por um atentado com um carro que explodiu no Quartel General do 2.º Exército, em São Paulo, matando o soldado Mário Kozel Filho e deixando outros cinco feridos, Dilma Rousseff integrava o grupo guerrilheiro Comando de Libertação Nacional (Colina), não tendo ficado nunca provada sequer qualquer ligação de Dilma a ações terroristas ou o recurso a qualquer tipo de violência.

Em 2019, a própria Dilma Rousseff emitiu um comunicado a desmentir Jair Bolsonaro que, em entrevista ao canal de televisão italiano RAI, defendeu a mesma ideia que a publicação partilhada no Facebook quer insinuar: que Dilma Rousseff esteve envolvida no atentado que matou o soldado Mário Kozel Filho. É falso.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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