Circulam nas redes sociais uma série de fotografias do momento em que Donald Trump sai da Casa Branca para ser internado no hospital Walter Reed, depois de ter sido testado como positivo à Covid-19. São fotografias tiradas a ecrãs de televisão — não são as imagens originais recolhidas por fotojornalistas profissionais — e pretendem provar que o presidente norte-americano estaria a receber oxigénio nesse exato momento e que os tubos que transportaria o oxigénio eram visíveis na parte de trás do seu blazer, perto da orelha direita. Estaria Donald Trump sob respiração assistida ainda antes de chegar ao hospital? Ou estamos perante uma teoria da conspiração?

Vamos comparar as imagens ao pormenor:

À esquerda uma das fotografias partilhadas nas redes sociais onde o utilizador assinala os alegados tubos de oxigénio. À direita a fotografia original do mesmo momento da agência de notícias Agence France Presse, uma das maiores do mundo.

Neste conjunto de imagens, é possível ver, à esquerda, uma das fotografias partilhadas nas redes sociais: o utilizador assinala os alegados tubos de oxigénio com círculos de cor amarela e vermelha. Do lado direito, é apresentada a fotografia do mesmo momento — quando o presidente se preparava para uma viagem até ao hospital — e foi recolhida por um fotojornalista da agência de notícias Agence France Presse. Aí, é claramente visível que o círculo vermelho assinalado à esquerda como sendo parte do tubo de oxigénio é, na verdade, um conjunto de cabelos do presidente norte-americano.

Em baixo, num ângulo diferente, e analisando outras duas imagens, conseguimos comparar as diferenças: a da esquerda tenta induzir em erro os cibernautas, ao sugerir que aquele é o ponto de passagem de um suposto sistema de alimentação de oxigénio; por contraste, a imagem da direita, onde se pode verificar a fotografia desse exato momento, mas tirada por um fotojornalista profissional e que permite perceber que o que estava ali em causa era, afinal, um pedaço do cabelo do próprio Donald Trump.

À esquerda uma das fotografias partilhadas nas redes sociais onde o utilizador assinala os alegados tubos de oxigénio. À direita a fotografia original do mesmo momento da agência de notícias Agence France Presse, uma das maiores do mundo.

No conjunto destas duas imagens, é possível comprovar visivelmente que a fotografia da esquerda, além da fraca qualidade (por ter sido tirada através de uma televisão), foi manipulada digitalmente com o intuito de aproveitar o cabelo do presidente norte-americano, dando a impressão de que se tratava de um tubo de oxigénio que Donald Trump estaria a utilizar para o auxiliar na respiração, devido aos eventuais sintomas da Covid-19.

O Observador quis ainda perceber se seria possível que o presidente norte-americano estivesse a receber oxigénio naquele momento que antecedeu a sua viagem até ao hospital Walter Reed (uma decisão tomada por “precaução”). “É ridículo” imaginar que Trump pudesse estar a receber oxigénio naquelas condições, garante Lucindo Ormonde, diretor do serviço de Anestesiologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. O anestesiologista assegura que é “completamente impossível que Donald Trump estivesse, naquele momento, a receber oxigénio, fosse  de que maneira fosse”.

O responsável do Santa Maria concretiza a sua análise:

A única maneira que haveria de, nestas fotos, ele [o presidente Donald Trump] estar a receber oxigénio seria assegurando que haveria um tubo por baixo da máscara, com um sistema de propulsão de oxigénio direcionado para dentro do equipamento de proteção facial. Mas, para isso, teria de ser algo micro, micro, micro, micro, e isso nem sequer existe na medicina”, conclui o especialista.

Questionado sobre quais seriam as formas de o presidente norte-americano receber oxigénio de forma eficaz, o diretor do serviço de Anestesiologia garante que a única maneira seria se o “presidente tivesse umas cânulas [uns tubos] que penetrassem nas narinas, com oxigénio sob pressão”.

No entanto, Lucindo Ormonde adianta que “não existe nenhum mecanismo que, estando colocado dentro do casaco, pudesse fazer algum efeito”. E acrescenta que “é natural” que Donald Trump pareça estar cansado por estar infetado com a Covid-19.

À esquerda a fotografia que quer mostrar que o presidente Donald Trump estaria a transportar um eventual aparelho que o estaria a auxiliar com oxigénio. À direita a fotografia original, do mesmo momento, onde não há qualquer evidência que exista ali nenhum aparelho desse tipo.

A terceira imagem da publicação em causa sugere que o alegado aparelho que Donald Trump estaria a usar para o auxiliar com oxigénio teria sido colocado dentro do bolso ou, em alternativa, por baixo do blazer do presidente — que, na imagem da esquerda, foi assinalado com um círculo vermelho pelo autor de um dos posts que procuram sustentar aquela teoria.

Mas não há qualquer evidência visual ou científica de que Donald Trump estivesse a transportar um “mini” aparelho de oxigénio. E, mesmo que fosse esse o caso — ou seja, que transportasse um aparelho semelhante –, não poderia estar a fazer uso do mesmo: como vimos, não há qualquer ligação entre o interior do casaco e o nariz ou boca do presidente norte-americano.

Conclusão:

Não existe qualquer ligação entre a máscara facial que Donald Trump tem na cara e que são visíveis nas imagens e um eventual aparelho de oxigenação. A tese de que Trump estaria a receber oxigénio é, por isso, é falsa.

Nas imagens que sugerem que tenha sido instalado um tubo de oxigénio ligado à máscara do presidente norte-americano, aquilo que encontramos é, na verdade, parte do cabelo de Donald Trump. E não há qualquer evidência médica de que os “enchimentos” no casaco do presidente tenham alguma coisa a ver com a eventual presença de um aparelho propulsor de oxigénio.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este artigo foi produzido no âmbito de uma parceria de fact-checking entre o Observador e a TVI

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