Uma publicação colocada no Facebook a 3 de dezembro sugere que as vacinas contra a Covid-19 desenvolvidas por várias farmacêuticas são perigosas para a saúde humana. Mais do que isso, o autor desvaloriza o fármaco em causa, afirmando que a maior parte da população mundial tem imunidade natural contra o SARS-CoV-2.

A mensagem foi partilhada mais de 400 vezes até à meia-noite de 09 de dezembro, mas está repleta de informações enganadoras ou, em alguns casos, falsas. Analisaremos então a publicação, que recolheu dezenas de comentários e centenas de “gostos”, ponto a ponto.

A publicação foi dividida em nove tópicos, mas alguns estão descontextualizados e, por isso, descrevem as vacinas contra a Covid-19 de forma enganadora. Outros tópicos têm informação errada. Créditos: Captura de ecrã (Facebook)

“As vacinas de mRNA baseiam-se em tecnologia nunca utilizada em humanos. Estão descritas, por exemplo, reações auto-imunes causadas pela sua administração nos testes clínicos recentemente levados a cabo”.

As vacinas de mRNA a que o autor desta publicação se refere utilizam uma molécula que codifica informação genética referente a uma parte específica de um agente patogénico. No caso da vacina contra a Covid-19, aquelas que utilizam esta tecnologia introduzem no organismo uma cópia do gene que codifica a proteína S, a mesma que o novo coronavírus utiliza para infetar as células humanas.

Não há nenhuma vacina de mRNA no mercado, mas não é verdade que esta tecnologia nunca tenha sido utilizada em humanos. Maria do Carmo Fonseca, presidente do Instituto de Medicina Molecular, esclareceu ao Observador que, mesmo antes da pandemia, já estavam em progresso ensaios clínicos que procuravam determinar a segurança e eficácia das vacinas de mRNA em doentes com cancro.

Nesse contexto, em vez de utilizar a maquinaria celular para produzir a proteína do novo coronavírus e desencadear uma resposta imune, a vacina de mRNA ensina o sistema imunitário a identificar as células cancerígenas através das proteínas que elas produzem e a destruí-las, ao recrutar um tipo específico de linfócitos T — uma classe de glóbulos brancos, células do sistema imunitário.

A presidente do Instituto Molecular explica que estes ensaios clínicos já originaram resultados muito positivos, mas ainda estão em fase de estudo. A BioNTech, que trabalhou em parceria com a Pfizer na vacina contra a Covid-19, e a Moderna já estavam a investir no desenvolvimento deste tipo de tecnologia mesmo antes da pandemia, num esforço na luta contra o cancro, mas também para a doença do vírus zika, por exemplo.

Quanto às reações auto-imunes, elas não são de estranhar na literatura científica relacionada com os medicamentos. Mais do que isso, “não são um efeito grave porque controlam-se”, garante Maria do Carmo Fonseca. Todos os fármacos alertam nas bulas que quem tiver algum tipo de alergia aos ingredientes desse medicamento não o deve tomar.

“As vacinas serão aprovadas através de um processo expedito, uma licença de uso experimental. Efetivamente, pelo menos no que diz respeito às de tecnologia mRNA, a sua administração constituirá uma experiência médica em humanos, a uma escala massiva”.

Se aprovar (como é expectável que o faça) alguma das vacinas contra a Covid-19, a Agência Europeia do Medicamento não está a conceder uma “licença de uso experimental”, mas sim uma autorização para uso em emergência, que permite aprovar um medicamento num período temporal mais célere para travar uma doença grave ou que afete um número muito elevado de pessoas. Ao longo deste processo, no entanto, tem de ser comprovada a segurança e eficácia desse fármaco. Sem exceções nem atalhos.

A própria Agência Europeia do Medicamento esclarece, na página oficial, que um medicamento só pode ser aprovado pelas autoridades de saúde europeias se “os benefícios de uma vacina na proteção das pessoas contra as doenças forem muito maiores do que qualquer risco potencial”. Só depois de uma equipa de peritos se certificar de que é esse o caso é que o medicamento entra no mercado.

Além disso, não é verdade que a administração da vacina contra a Covid-19 será uma “experiência médica em humanos”. As vacinas que forem aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento já terão cumprido rigorosamente a fase de experimentação desses fármacos durante os ensaios clínicos, que incluíram a participação de dezenas de milhares de pessoas.

Assim que a vacina começar a ser distribuída por milhões de pessoas, a comunidade científica vai saber ainda mais sobre o seu efeito no organismo humano — incluindo o possível surgimento de efeitos secundários mais raros. No entanto, isso não comportará risco para a saúde das pessoas, uma vez que a segurança da vacina já terá sido profundamente estudada.

“As vacinas foram criadas, testadas e aprovadas em tempo recorde — 9 meses. Historicamente são necessários muitos anos (cerca de 10, em média) até se obter o grau de confiança e segurança necessária a disponibilizar uma vacina no mercado. Algumas demoraram décadas neste processo”.

Confirma-se que as vacinas contra a Covid-19 foram desenvolvidas, testadas e entraram num processo de aprovação num período de tempo mais acelerado do que é costume. Mas esse facto não deve minar a confiança da população no parecer das autoridades de saúde: o tempo recorde em que tudo isto aconteceu só foi possível porque “houve uma concentração de esforços, as empresas e as instituições deram toda a prioridade ao desenvolvimento da vacina”, descreve Maria do Carmo Fonseca.

“Foi possível disponibilizá-las tão rapidamente porque não foram recolhidos dados de segurança a longo prazo, nem feitos testes em animais, entre outras coisas. A única forma de sabermos que problemas as vacinas causarão daqui a 4 anos é esperar 4 anos”.

É verdade que não foram recolhidos dados de segurança a longo prazo, mas também não era necessário que assim fosse para aprovar a utilização da vacina, assegura Maria do Carmo Fonseca: “Nós baseamo-nos no conhecimento que já temos relativamente a outras vacinas. O que sabemos é que, quando ela demonstra segurança e eficácia, os efeitos secundários são de curto prazo”.

A presidente do Instituto de Medicina Molecular insistiu que a celeridade com que está a ser possível disponibilizar a vacina à população justifica-se pelo facto de ter sido possível compactar o que normalmente é feito em mais tempo em poucos meses. Mas “não se saltaram passos”, sublinha: “As vacinas não são menos seguras, não foram menos testadas por tudo ter sido feito mais rapidamente”.

Mesmo depois de serem introduzidos nos planos de vacinação nacionais, a segurança e a eficácia dos fármacos continuarão a ser monitorizados pelas autoridade de saúde, tanto dos países onde ela está a ser aplicada como por instituições como a Agência Europeia do Medicamento ou a Organização Mundial de Saúde. As informações sobre os efeitos das vacinas na população serão estudados por peritos para determinar se ela continua a trazer mais benefícios do que riscos para a saúde.

O que não é de todo verdade é que as vacinas contra a Covid-19 em vias de aprovação na União Europeia (e que já foram autorizadas no Reino Unido e Estados Unidos da América) não foram testadas em animais. Para que os planos para os ensaios clínicos das farmacêuticas sejam sequer aceites pelas entidades reguladoras, é sempre necessário experimentar a vacina em animais antes de passar aos testes em humanos, explicou Maria do Carmo Fonseca. Esse é um dos primeiros passos para estudar a segurança do fármaco.

“As farmacêuticas exigiram imunidade legal aos estados europeus, caso contrário não forneceriam as vacinas. As pessoas que vierem a ficar lesionadas ou incapacitadas temporária ou permanentemente, não poderão pedir indemnizações às farmacêuticas, teoricamente serão concedidas pelos estados (boa sorte)”.

Ao Observador, a Direção-Geral da Saúde não esclareceu de quem seria a responsabilidade nos casos em que uma reação adversa da vacina contra a Covid-19 resultar em algum tipo de incapacidade para a pessoa que a recebeu. Mas não há indicações de que a proteção legal que terá sido pedida por um lobby farmacêutico à Comissão Europeia tenha sido uma condição imperativa para o fornecimento das vacinas.

O memorando a que o Financial Times teve acesso — e em que a Vaccine Europe, uma divisão da Federação Europeia das Indústrias Farmacêuticas e Associações, pediu isenção de responsabilidades caso se abram processos relacionados com as vacinas — sublinha que é preciso estabelecer “um sistema compreensivo relativamente a falhas zero e isenções em processos civis”.

Mas nem a União Europeia, nem nenhum dos Estados-membro sugeriu que esta solicitação tenha sido uma exigência para o acesso às vacinas. Mesmo que assim tenha sido, continua sem haver evidências de que essa condição foi aceite pela Comissão Europeia nos acordos assinados com as farmacêuticas que estão a desenvolver, testar, produzir e distribuir vacinas contra a Covid-19.

“Os proponentes e investidores da indústria da vacinação, esperam poder inocular a totalidade da população humana. No que depender deles, sem exceção, 7 mil milhões de pessoas. Dado o risco irrisório para a maior parte das pessoas jovens e saudáveis, fica exposta a motivação financeira”.

Para Maria do Carmo Fonseca, esta acusação não faz sentido uma vez que “é a sociedade que pede as vacinas, não é a indústria farmacêutica que nos quer impingir as vacinas”.

As farmacêuticas, que já investiram milhares de milhões de dólares nos projetos das vacinas contra a Covid-19, vão de facto receber dinheiro pelos fármacos que desenvolveram, mas a ambição de “inocular a totalidade da população humana” não parte das farmacêuticas, mas sim das próprias autoridades de saúde que pretendem travar o mais depressa e eficazmente possível a pandemia de Covid-19.

“A maior parte da população já tem imunidade natural ao vírus. Seja através de imunidade específica (humoral, através de anticorpos) resultante de infeção prévia por Sars-cov-2 ou por imunidade cruzada resultante da exposição a outros coronavirus (imunidade celular)”.

É falso que a maior parte da população já tenha imunidade natural contra o novo coronavírus. Conforme avança Maria do Carmo Fonseca, o estudo serológico realizado pelo Instituto de Medicina Molecular em setembro revelou que apenas 1% a 2% da população portuguesa desenvolveu anticorpos contra o SARS-CoV-2 como resultado de uma infeção prévia pelo vírus. Mesmo nas regiões mais afetadas pela epidemia, como Lisboa e Porto, essa percentagem não ultrapassou as duas pessoas imunizadas em cada 100 pessoas testadas.

Estes resultados também demonstram que a imunidade cruzada — que pressupõe que alguém pode estar imune ao SARS-CoV-2 por já ter estado exposto a outros coronavírus no passado — será muito pouco significativa. A médica que lidera aquele instituto alerta que, apesar de “não se poder dizer de todo que não exista (…), não podemos contar com isso”.

“Para as faixas etárias mais jovens e saudáveis, abaixo dos 50 anos, o risco da doença é praticamente nulo, o risco da vacina é em grande parte desconhecido. É possível que, para estas pessoas, a vacina comporte mais riscos do que a própria doença”.

Não é verdade que “o risco da vacina” seja “em grande parte desconhecido”, como afirmado na publicação. Pelo contrário, é precisamente nas faixas etárias mais jovens e saudáveis, entre os 18 e 55 anos, que a segurança e a eficácia da vacina estão mais documentadas porque essas são as características da maior parte dos voluntários que participaram nos ensaios clínicos das várias farmacêuticas.

Nesses estudos, determinou-se que não há riscos graves associados à vacina, o que derruba este argumento. Mesmo entre as pessoas que foram aconselhadas a não receber a vacina, como as grávidas e crianças ou alguns doentes auto-imunes, por exemplo, isso não será por haver suspeitas de possíveis reações adversas graves nessas pessoas. A questão é, simplesmente, que a vacina não foi testada em voluntários com essas características, por isso, enquanto se esperam mais resultados científicos e se vive na incerteza, segue-se o princípio da precaução.

Também não é correto assumir que o risco da Covid-19 entre essas pessoas é “praticamente nulo”, uma vez que são regulares os casos que, mesmo sem doenças de risco que significassem à partida uma maior vulnerabilidade perante uma infeção pelo novo coronavírus, desenvolveram quadros clínicos graves que necessitaram de acompanhamento hospitalar e que resultaram mesmo em morte.

Mesmo que se considere que o número de casos graves ou letais de Covid-19 é baixo entre os mais jovens e mais saudáveis, “são pessoas que não têm de ficar gravemente doentes, nem têm de morrer”, defende Maria do Carmo Fonseca. E do ponto de vista da proteção do Sistema Nacional de Saúde, é importante evitar que estas pessoas cheguem aos internamentos hospitalares: por terem um sistema imunitário mais vigoroso, mesmo os casos letais tendem a ficar internados mais tempo do que os mais idosos a batalhar contra a Covid-19, o que representa uma sobrecarga no SNS.

O que os ensaios clínicos às pessoas mais jovens e saudáveis com mais de 18 anos até aos 55 anos demonstraram foi, exatamente, que a vacina induz uma resposta imunitária forte e robusta, capaz de fazer frente ao SARS-CoV-2 e de se prolongar no tempo (embora não se saiba ainda quanto). É por a vacina trazer mais benefícios do que potenciais riscos a quem a receber que as autoridades de saúde internacionais a têm aprovado.

“Ninguém é obrigado a inocular-se”.

É verdade. Em Portugal, o plano de vacinação contra a Covid-19 apresentado por Francisco Ramos, o dirigente da task force constituída no seio da Direção-Geral da Saúde para gizar a forma como a vacina será distribuída pela população quando chegar ao país, evidencia que ninguém será obrigado a receber a vacina: ela será “facultativa”, tal como Marta Temido, ministra da Saúde, já tinha assegurado.

No entanto, a vacinação em massa da população é uma ferramenta muito valiosa para controlar a evolução da epidemia em Portugal. A maior parte dos cientistas concorda que entre 60% e 70% da população portuguesa precisa de estar imunizada — seja por vacinação ou pela recuperação da infeção natural — para que o vírus se transmita de forma sustentada na população.

Ora, como nenhuma das vacinas contra a Covid-19 é 100% eficaz (na verdade, nenhum medicamento o é), e como a fração da população que terá desenvolvido algum tipo de proteção contra o vírus após ter recuperado da infeção é muito pequena, será necessário vacinar mais do que 60% a 70% da população para atingir a imunidade de grupo. Quanto maior for a adesão à campanha de vacinação, maior o sucesso dela no controlo da epidemia.

Conclusão

Não é verdade que a maior parte da população já tem imunidade natural ao vírus. Um inquérito serológico organizado pelo Instituto de Medicina Molecular determinou que a percentagem da população com anticorpos contra o novo coronavírus não ultrapassa os 2% mesmo nas regiões mais afetadas pela pandemia.

Aliás, uma parte significativa da publicação tem informações erradas ou incompletas. Por exemplo, não é verdade que as vacinas baseadas em ARN nunca tenham sido aplicadas em humanos, porque esse tipo de fármacos já estava em ensaios clínicos para o tratamentos do cancro. E também é falso que a vacinação contra a Covid-19 seja uma experiência humana, visto que as vacinas já foram testadas em termos de segurança e eficácia antes de serem distribuídas e administradas.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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