No congresso do PCP, um dos elementos em destaque é João Ferreira, o candidato presidencial do partido. Apresentou candidatura a 17 de setembro e no início de outubro lançou-se à estrada, em pré-campanha. Mas na comissão política do Comité Central há acusações de “silenciamento” da candidatura comunista à Presidência da República.

No púlpito do congresso, este sábado de manhã, João Frazão elencou as ações de campanha de João Ferreira nestes dois meses, defendendo que “andou pelo país a dar voz aos trabalhadores, às populações, à juventude, aos micro pequenos e médias empresários, aos agricultores, às mulheres. Defendeu o SNS, os serviços públicos, a produção nacional, as forças de segurança e o direito à cultura”. E depois, este membro da comissão política do Comité Central, acusou: “Mas isso onde foi? Porque não apareceu na comunicação social? Porque é que os que choram lágrimas de crocodilo pela falta de participação em eleições tudo fazem para que trabalhadores e povo não conheçam uma candidatura, a de João Ferreira?”.

Mas disse mais, já no fim da sua intervenção, ao queixar-se que “João Ferreira está há dois meses na rua para afirmar a sua candidatura e estes dois meses são a amostra do que podemos esperar: silenciamento e desvalorização, manipulação e deturpação sobre o que defende e propõe”.

O Observador foi verificar se esta afirmação tem sustentação e se a comunicação social está a silenciar o candidato presidencial comunista nestes dois últimos meses, ou seja, desde 28 de setembro.

A primeira verificação foi feita com recurso à linha da Agência de Notícias Lusa (de acesso exclusivo para assinantes) que, neste período de tempo, registou 12 entradas de notícias sobre João Ferreira, segundo as contas do Observador. Entre estas notícias está a cobertura de ações de pré-campanha, como a que o comunista realizou na visita ao Funchal e ao Porto Santo, a meio de novembro, uma deslocação às Caldas da Rainha, onde disse que o país estaria melhor se a Constituição fosse cumprida, e ainda a ida ao Pinhal de Leiria onde apelou ao envolvimento dos cidadãos na recuperação da mata.

Aqui a comunicação social regional teve também um papel relevante, com os órgãos locais a cobrirem a ações mais próximas, como por exemplo o Jornal de Fundão, que registou a passagem do candidato pela região, em outubro. O Diário de Notícias da Madeira esteve no Porto Santo a dar conta da visita de João Ferreira, o Guimarães Digital noticiou a ida do comunista ao distrito antecipadamente e o Notícias da Maia fez o mesmo sobre a visita de João Ferreira à região, em novembro.

Quanto à cobertura noticiosa feita pela agência nacional de notícias, inclui ainda uma entrevista ao candidato, feita pela Lusa, que resultou em várias notícias diferentes, muitas delas difundidas também por outros órgãos de comunicação social. Aliás, quando contabilizadas as notícias sobre João Ferreira nos últimos dois meses, através da ferramenta de pesquisa Google News, o Observador chega a número 27 espalhadas por diversos órgãos de comunicação social (como é possível verificar através dos seguintes links). Nesta lista entra, por exemplo, o anúncio do apoio do Partido Ecologista “Os Verdes” à candidatura do comunista, ou da mandatária nacional de João Ferreira, Heloísa Apolónia, ou ainda uma notícia sobre o próprio discurso do eurodeputado e candidato presidencial no evento em que foi apresentada a mandatária.

O apoio do deputado socialista Ascenso Simões ao candidato do PCP também foi amplamente noticiado, bem como o apoio de outra deputada eleita em listas do PS, Isabel Moreira. Além disso, o candidato contou com várias entrevistas a órgãos de comunicação social. Além da já referida entrevista à Lusa  — que pode ler replicada aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e ainda aqui –, o candidato comunista foi ainda entrevistado, a meio de outubro, pelo Diário de Notícia e a TSF, e também pelo Porto Canal. Durante os dois primeiros dias de congresso, ainda antes de discursar no palco principal, o candidato presidencial comunista foi ainda entrevistado pelo Observador e em várias televisões com equipas destacadas para o Congresso de Loures. É de referir que as entrevistas costumam ser um formato a que todos os órgãos de comunicação social recorrem quando mais se aproxima o ato eleitoral.

Antes ainda deste período que analisamos neste fact check (entre 28 de setembro e 28 de novembro) também é possível encontrar registos de notícias sobre João Ferreira, nomeadamente uma vasta cobertura do momento em que oficializou a sua candidatura, no dia 17 de setembro. Nessa altura, o candidato comunista foi notícia até no Luxemburgo, no Contacto, jornal que se apelida como a publicação da comunidade portuguesa no país. O seu discurso de apresentação de candidatura teve cobertura geral e foi também analisado em trabalhos mais extensos.

Analisámos também o número de ações de campanha para as quais o candidato comunista a Belém convocou a comunicação social nos dois últimos meses e foram 20, de acordo com os emails recebidos através do gabinete de imprensa do PCP sobre a agenda de João Ferreira que dão conta de deslocações por todo o país. Bem diferente do número registado por uma outra candidatura também já oficializada e da mesma área política, também de alguém com lugar no Parlamento Europeu: Marisa Matias. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda tem tido menos ações de pré-campanha, de acordo com o que é possível verificar através do site oficial da sua candidatura onde surge o registo de apenas 8 eventos.

Marisa Matias foi a terceira candidata mais votada (10,12% dos votos) nas últimas presidenciais, ficou à frente do candidato comunista Edgar Silva (o quinto mais votado) por 276 mil votos. Quando comparada a cobertura das suas ações de pré-campanha com a de João Ferreira, o comunista fica muito à frente, embora também tenha tido muito mais eventos até agora.

Usando o mesmo modelo que usou para João Ferreira, o Observador registou cinco referências a Marisa Matias na Lusa nos últimos dois meses e 13 resultados de pesquisa através do Google News (só contabilizando os que se referem a notícias que foram replicadas na comunicação social) nesse mesmo período. São, assim, 20 ações de campanha de João Ferreira, com 12 notícias na Lusa e 27 entradas verificadas através do Google News e oito ações de campanha de Marisa Matias, com cinco notícias na Lusa e 13 entradas através do Google News.

O Observador escolheu o comparativo entre estes dois candidatos presidenciais não só por serem da mesma área política, mas também por terem funções iguais atualmente. A cobertura noticiosa de um candidato como André Ventura, por exemplo, é incomparável tendo em conta que para além de ter assumido uma candidatura a Belém, o líder do Chega é também deputado à Assembleia da República, pelo que o número de notícias a envolver conferências de imprensa, entrevistas e declarações públicas é mais elevado, tendo em conta que apresenta também maior atividade pública diária (devido às suas funções parlamentares) que não diz respeito à sua candidatura presidencial.

Conclusão

Os dados recolhidos pelo Observador permitem afirmar com segurança que não há fundamento para a acusação de “silenciamento” do candidato presidencial comunista. A queixa deixada no Congresso por João Frazão, membro da comissão política do Comité Central, não tem sustentação em factos que, aliás, mostram até que João Ferreira tem tido uma maior cobertura noticiosa do que a candidata mais próxima da sua área política e também eurodeputada, Marisa Matias.

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