Várias publicações que circulam nas redes sociais alegam que a polícia dos Países Baixos deteve uma oficial israelita suspeita de ter cometido crimes de guerra na Faixa de Gaza. A mulher, chamada Yukhal Yulita, estaria de férias naquele país europeu. “A polícia holandesa arrasta [prende] a oficial Yukhal Yulita] quando estava de férias na Europa, acusada por grupos de direitos humanos de crimes de guerra em Rafah, onde *Is*ra*el massacrou civis. Ela pensou que podia beber cocktails no estrangeiro, enquanto as suas mãos escorrem sangue”, pode ler-se numa das publicações, que surge acompanhada de uma foto.
Na imagem, pode ver-se um agente da polícia a agarrar uma mulher pelo seu braço direito, o que transmite a ideia de que a jovem estará a ser detida.
Na sequência da operação militar que Israel lançou na Faixa de Gaza em outubro de 2023 (e que já fez mais de 62 mil mortes segundo o Ministério da Saúde daquele território), o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu, em novembro de 2024, mandados de detenção dirigidos a dois importantes responsáveis israelitas: ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e ao agora ex-ministro da Defesa Yoav Gallant. Os dois são acusados de serem responsáveis por crimes de guerra e contra a humanidade por terem utilizado fome como método de guerra e terem ordenado o assassinato de palestinianos.
O tribunal considerou que as ações dos acusados contribuíram para a privação deliberada de alimentos, água, medicamentos e outros bens essenciais à sobrevivência da população civil, tendo também comprometido severamente a prestação de assistência humanitária, o funcionamento de hospitais e o abastecimento de água.
No entanto, não existe nenhuma informação relativa a Yukhal Yulita no site da ONU.
Ainda assim, terá a polícia neerlandesa detido esta militar israelita? A resposta é não. À Reuters, um porta-voz do Ministério Público dos Países Baixos garantiu que “ninguém com esse nome” foi preso. “Posso confirmar que NÃO prendemos ninguém com esse nome nem [relacionado] com crimes de nacionais israelitas do TPI ou internacionais”, realçou fonte oficial. O Observador questionou a polícia nacional neerlandesa mas não obteve resposta.
Além de as autoridades dos Países Baixos não terem qualquer registo da detenção de uma oficial israelita, a foto que acompanha as publicações nem sequer foi tirada nos Países Baixos. Foi usada originalmente num artigo do tablóide britânico Daily Mail, de agosto de 2016, sobre o trabalho da polícia junto aos espaços de diversão noturna em Newcastle, no Reino Unido. Foi, por isso, usada fora do contexto original.
Esta não é a primeira vez que são colocadas a circular online supostas detenções de cidadãos israelitas em território europeu, alegadamente acusados de crimes de guerra em Gaza. Uma história semelhante foi partilhada há poucos dias, dando conta da alegada detenção de dois israelitas na Bélgica — que acabou por não se confirmar.
Conclusão
É falso que uma oficial israelita, chamada Yukhal Yulita, tenha sido detida pela polícia dos Países Baixos, acusada de alegados crimes de guerra cometidos em Gaza. O Ministério Público neerlandês negou que alguém com esse nome tenha sido detido. Para além disso, a a foto que acompanha as publicações foi tirada no Reino Unido e mostra a atuação da polícia britânica junto a espaços de diversão noturna.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.