A diretora-geral da Saúde (DGS) disse, esta segunda-feira, que Portugal apresenta, neste momento, “uma taxa de notificação acumulada a 14 dias de 240 casos por 100 mil habitantes, ou mais”. Horas mais tarde, também em conferência de imprensa, a ministra da Saúde diria que essa taxa estava, afinal, nos 323 novos casos reportados por cada 100 mil habitantes. A afirmação de Graça Freitas espelha a real situação epidémica em Portugal? E as palavras de Marta Temido contrariam, ou não, a análise partilhada pela DGS?

No ponto de situação que fez sobre a evolução da Covid-19 em Portugal, a diretora-geral da Saúde recorreu aos dados do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) para sustentar a ideia de que o país teve um nível de contágio de “240 casos por 100 mil habitantes, ou mais”. Mas, em rigor, e também de acordo com o ECDC, o ritmo de propagação da doença estava, esta segunda-feira, nos 323.3 casos por 100 mil habitantes (subiu entretanto para 324.9 esta terça). Um valor, aliás, em linha com o que Marta Temido acabaria por revelar poucas horas mais tarde.

Há uma diferença significativa entre os dois números divulgados pela duas responsáveis na área da Saúde — uma discrepância de 83.3 casos, olhando para os 240 de que parte a diretora-geral da Saúde. No momento de partilhar o quadro da situação atual do país, Graça Freitas optou por se referir não a um valor concreto, mas a uma das categorias usadas pelo ECDC para agrupar as distintas realidades europeias — uma das sete balizas usadas para encaixar os vários países. Mas nunca deixou claro que o estava a fazer e, com isso, acabou por dar uma imagem menos grave da propagação da doença em Portugal do que aquela que se verifica no terreno.

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Para “arrumar” as diferentes realidades entre os vários países europeus, no que respeita ao universo de novos casos Covid-19 nas duas últimas semanas, aquilo que o Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças fez foi encaixar os países em sete categorias diferentes. Categorias que vão do nível mais baixo (“sem casos reportados”), a um nível intermédio (entre 60 e 119.9 casos) e até ao nível mais alto (240 ou mais casos por 100 mil habitantes). Há ainda um último parâmetro, que agrega os países (e regiões) em que não existem dados reportados às autoridades europeias.

Analisando o gráfico divulgado na última segunda-feira pelo ECDC, fica claro que Portugal surge no patamar mais elevado de propagação da doença — em números concretos, o país fica mesmo acima dos Estados Unidos, com 273.1 casos a 14 dias (valores desta terça-feira) . Apesar das diferenças regionais (com o norte a revelar uma taxa mais elevada de contágio e o Alentejo e o Algarve com uma propagação menos agressiva), a média nacional de novos casos por cada 100 mil habitantes deixa Portugal no grau mais elevado (e preocupante) de novos contágios nas últimas duas semanas. Graça Freitas disse, aliás, que “esta taxa de incidência, como todos sabemos, ao olhar para as curvas epidémicas, tem uma tendência crescente”.

Como o gráfico completo sobre a realidade europeia mostra, e como a imagem anterior ilustra, há vários países com uma taxa de propagação igual ou superior aos 240 casos nos últimos 14 dias. A Bélgica, com 1.390 novos casos, lidera esse patamar mais negro do ranking.  Um patamar que abarca realidades tão diferentes como as da Hungria (com 243.3 novos casos neste período) e da República Checa (o país com a segunda taxa mais elevada, com 1.380 novos Covid-positivos).

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Sensivelmente ao mesmo nível de Portugal surgem Itália (com 303.5 novos casos), a Polónia (352.1), Áustria (321.2), Irlanda (300.1) e Malta (309.8). Uns níveis mais abaixo na tabela (o que aqui se traduz por um ritmo mais reduzido de identificação de novos casos) estão a Estónia (que está num nível de propagação mais suave, com 41.1 novos casos), a Noruega (44.7) e a Finlândia (50.0). Mas, mesmo assim, nenhum destes países fica no patamar inferior, com menos de 20 novos casos nos últimos 14 dias.

Conclusão

Graça Freitas afirmou que Portugal teve “uma taxa de notificação acumulada a 14 dias de 240 casos por 100 mil habitantes, ou mais”. E isso corresponde, de facto, ao patamar em que o Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças colocou Portugal, dentro das sete categorias que agregam realidades nacionais absolutamente díspares no que respeita à Covid-19. Mas a diretora-geral da Saúde nunca deixou claro que se estava a referir a uma categoria e não a um valor concreto — no caso, a valor concreto de Portugal. E, assim, acabou por suavizar a realidade portuguesa: não eram cerca 240 casos por 100 mil habitantes, como poderia interpretar-se das declarações de Graça Freitas, mas sim 323.

Os mesmos dados permitiram a Marta Temido dizer, horas mais tarde, isso mesmo: que a propagação em Portugal esteve a um ritmo de 323 novos casos na segunda metade de outubro. Uma forma mais rigorosa de se referir à evolução da pandemia em território nacional.

Ainda assim, e segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ESTICADO

NOTA: este artigo foi produzido no âmbito de uma parceria de fact checking entre o Observador e a TVI

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