A versão portuguesa de um vídeo que se tornou viral no Facebook diz que nas imagens é possível ver o presidente da Guiné-Bissau a agredir o ministro da Saúde por este ter desviado dinheiro durante a luta contra a Covid-19. Numa publicação em espanhol já se fala em Guiné (ou seja, a Guiné-Conacri) e da destituição do ministro. O post em inglês refere igualmente a Guiné-Conacri. Contudo, as filmagens não foram feitas nem na Guiné-Bissau nem na Guiné-Conacri. Tudo aconteceu na Guiné Equatorial e há anos, muito antes do início da pandemia. Os protagonistas também não são políticos.

Através de correspondentes nos diversos locais mencionados, a AFP conseguiu perceber qual a verdadeira fonte das imagens. De acordo com Carol Valade, que trabalha para a agência noticiosa na Guiné-Conacri, o vídeo não teve origem ali. “As placas [de matrícula] aqui são vermelhas (as padrão), verdes (as oficiais), pretas (militares) ou azuis (temporárias), brancas e vermelhas (empresas públicas), mas nunca totalmente brancas”, explicou.

Além de os carros visíveis no vídeo terem matrículas brancas com um modelo correspondente ao utilizado na Guiné Equatorial, o correspondente da AFP no país reconheceu outras características. “A cena foi gravada exatamente no pátio da Universidade Nacional da Guiné Equatorial (UNGE), que fica em frente ao Hotel Tropicana, cujo telhado pode ser visto no vídeo”, disse Samuel Obiang. Existe um vídeo no YouTube de um protesto que aconteceu em março de 2015 no local. O cenário é o mesmo e corresponde à descrição de Obiang.

Explicada a localização das filmagens, é preciso também esclarecer que nelas não está nenhum presidente ou ministro. As duas pessoas envolvidas no confronto são um professor e um aluno da Universidade da Guiné Equatorial. Segundo relatos de antigos estudantes, a pessoa agredida é “Filiberto Monayong, chefe do departamento de Filologia Hispânica e Ciências da Informação”.

O tal departamento já não existe, mas ainda fazia parte da instituição no ano letivo de 2015/2016, como é possível perceber através do site da universidade. As imagens terão, portanto, no mínimo quatro anos. Não são recentes e muito menos foram feitas depois do início da propagação da Covid-19.

O aluno, cujo nome não é conhecido, frequentaria o curso de jornalismo. Teria apresentado a respetiva tese em duas ocasiões, sem nunca conseguir a nota pretendida. Terá sido essa a origem do desentendimento.

“O assunto gerou polémica e o reitor convocou ambos para saber o que estava a acontecer. Muito irritado, o estudante dirigiu palavras duras também contra o reitor. Enquanto isso, o professor estava do lado de fora. Quando o estudante saiu da sala de reuniões e encontrou o professor no pátio da universidade, começou a agredi-lo”, recordou à AFP Mariano Nguema, ex-aluno da faculdade e agora professor no mesmo local. Segundo ele, os acontecimentos tiveram lugar em março de 2016.

Com estes dados, é possível encontrar no YouTube uma versão mais alargada do que os 19 segundos que circulam no Facebook.

Conclusão

O presidente da Guiné-Bissau não agrediu o ministro da Saúde por desvio de fundos durante a pandemia de Covid-19. Imagens são de 2016 e foram gravadas na Guiné Equatorial. Nenhum dos homens envolvidos é político. O agredido era professor universitário, o agressor um dos seus alunos. O desentendimento começou devido à nota de uma tese.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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