Muitas comparações têm sido feitas entre países no que diz respeito à estratégia de combate contra a pandemia da Covid-19. Nesse sentido, surgiu um post, com um vídeo, no passado dia 20 de novembro, onde se alega, entre outras coisas, o seguinte: “A Suécia tem muitos menos mortes este ano do que na média dos últimos dez anos. Este é o ano com menos mortes.”  Obteve 1,6 mil partilhas. Trata-se, no entanto, de um post enganador.

Vídeo viral dá informação enganadora sobre número de mortes na Suécia.

O autor do vídeo explica que chegou à conclusão de que a Suécia obteve aqueles números depois de consultar o site Statista onde, de facto, comparativamente aos últimos dez anos — e até à data de 20 de novembro — 2020 é o ano em que se registou um número mais baixo de mortes. O problema é que todos os outros anos foram contabilizados em 12 meses, e este não, por ainda faltar cerca de um mês e uns dias para o seu fim. Ou seja, é impossível estabelecer essa comparação se ainda não se chegou ao fim dos 365 dias do ano. Também é importante dizer que o vídeo foi publicado na página oficial do autor a 19 de novembro, um dia antes desta nova partilha viral.

Ora, fazendo as contas que o autor faz, chegamos à conclusão de que a média de mortes nos últimos 10 anos foi de 89.784.1 mortes -— considerando o ano de 2010 e avançando até ao dia 20 de novembro de 2020, data mais recente disponível no site. Obviamente que esse é um número inferior ao registado, até ao momento, em 2020. Mas o número de mortes em 2019 (esse sim, definitivo), também é inferior à média: 88,766. E nesse ano ainda não estávamos a contabilizar o número de mortos por Covid-19.

A 1 de janeiro de 2021 até se pode dar o caso de o autor do vídeo ter razão no que agora alega. Mas, por agora, é enganador passar uma informação definitiva sem ter todos os dados na sua posse. Passa-se assim uma mensagem errada com um objetivo claro: o de defender, tal como é dito pelo autor no vídeo, que a estratégia sueca — sem uso de máscara obrigatória, sem distanciamento social, com todos os cidadãos a viver numa aparente normalidade — é muito mais acertada do que a portuguesa.

Mas, na Suécia, país que tem sido apontado como um exemplo de que é possível lidar com a pandemia sem que seja necessário limitar os movimentos e restringir hábitos sociais à população, a estratégia tem sofrido alterações nas últimas semanas. Depois de uma longa fase livre de regras apertadas, e com o número de doentes a necessitar de cuidados médicos a aumentar rapidamente, o país anunciou uma mudança de rumo: desde o final da semana passada, os ajuntamentos em locais públicos passaram a estar limitados a um máximo de oito pessoas, e isto já depois de ter sido proibida a venda de álcool a partir das 22 horas e de os bares, restaurantes e espaços de diversão noturna terem de fechar portas até às 22h30.

A verdade é que, logo no verão, Anders Tegnell, rosto da estratégia sanitária de combate à pandemia no país, admitia erros no caminho escolhido, numa entrevista a uma rádio sueca: “Se encontrássemos a mesma doença, com o que sabemos hoje sobre essa doença, penso que acabaríamos por fazer algo entre o que a Suécia fez e aquilo que o resto do mundo optou por fazer.”

Conclusão

Não é correto dizer-se que a Suécia registou, em 2020, o número mais baixo de mortes quando comparado com a média dos últimos 10 anos. A razão é simples: o ano ainda não terminou. Pode dar-se o caso do autor ter razão a partir de janeiro de 2021, mas afirmar algo definitivo, à priori,  sem ter todos os dados completos na sua posse, é transmitir uma ideia enganadora, especialmente nas redes sociais, onde conclusões precipitadas, com falta de contexto, podem ser retiradas.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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