Várias publicações nas redes sociais alegam que um grupo de enfermeiros que trabalha num hospital dos EUA desenvolveu tumores cerebrais, que estarão relacionados com a administração de uma vacina de mRNA contra a Covid-19 a estes mesmos profissionais. “10 Enfermeiros Vacinados em Hospital de Massachusetts Diagnosticados com Tumores Cerebrais Simultaneamente […] provocando alarme e levantando questões sobre uma potencial ligação entre vacinas de mRNA e cancro”, lê-se numa das publicações.
A alegação é baseada num artigo do site de desinformação The People’s Voice, que, no final de março, relatou o caso. Segundo este site, os diagnósticos de tumores no cérebro foram detetados numa dezena de profissionais da ala materno-infantil do Hospital Newton-Wellesley, localizado nos subúrbios da cidade de Boston. O primeiro relato sobre o aparecimento de alegados tumores cerebrais neste serviço teve eco na imprensa norte-americana. A cadeia televisiva CBS, por exemplo, citou, sob anonimato, uma enfermeira que se mostrou preocupada com a situação. “Está a chegar a um ponto em que o número só aumenta […] Isto não pode ser apenas uma coincidência”, referiu, garantindo que pelo menos dez colegas foram diagnosticadas com tumores cerebrais durante o último ano, uns malignos e outros não.
Um porta-voz do hospital confirmou o aparecimento de casos, mas referiu serem cinco, e não dez. Para além disso, em todas as situações, os diagnósticos apontaram para tumores benignos. A unidade hospitalar adiantou ainda que, depois de ter conhecimentos dos casos, iniciou uma investigação, tendo concluído pela inexistência de “fatores ambientais” na origem do sucedido.
No entanto, o site The People’s Voice — e, consequentemente, as publicações nas redes sociais — concluíram, sem nenhum suporte factual, que existe uma ligação entre vacinação contra a Covid-19 (a que enfermeiros foram sujeitas, por trabalharem numa unidade de cuidados de saúde) e o cancro. Nem a enfermeira que falou à imprensa norte-americana nem o próprio hospitalar relacionaram a deteção dos tumores com a administração aos enfermeiros da vacina de mRNA contra a Covid-19.
Ao Observador, o investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM) Miguel Castanho afasta a ideia de que a vacinação potencie o desenvolvimento de cancro. “Antes pelo contrário, as vacinas podem evitar infeções virais que podem aumentar o risco de cancro”, diz o especialista, lembrando que a tecnologia de mRNA está a ser testada — com bons resultados — no tratamento de vários tipos de cancro (como o do pâncreas). Quanto à concentração de casos de tumores num grupo de pessoas vacinadas, Miguel Castanho recusa também qualquer relação estatística.
“Nos EUA, milhões de pessoas foram vacinadas com a vacina de mRNA. Se fizer uma estatística para relacionar o número de pessoas atropeladas e quantas delas foram vacinadas com vacina mRNA chegará ao resultado que a maioria das pessoas atropeladas estava vacinada com a vacina mRNA”, diz.
Conclusão
Os tumores cerebrais benignos detetados em vários enfermeiros de um hospital norte-americano não estão relacionados com a vacinação contra a covid-19. O investigador do IMM Miguel Castanho afasta qualquer ligação entre a administração da vacina de mRNA e o desenvolvimento de cancro.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.