António Filipe, deputado do PCP, fez um post no Facebook no último sábado onde escreve que, em 2016, “a comunicação social criou um psicodrama do aplauso porque os deputados do PCP não aplaudiram o discurso de posse de Marcelo Rebelo de Sousa”. E, continua, a mesma comunicação social ficou agora em silêncio face à atitude de um deputado que, na reação à homenagem do Parlamento às vítimas do Holocausto, há uma semana, “se recusou a aplaudir”. Tudo verdade?

Vai fazer cinco anos que a comunicação social criou um psicodrama do aplauso porque os deputados do PCP não aplaudiram o…

Posted by António Filipe on Saturday, January 30, 2021

Comecemos pelo início. A 9 de março de 2016, Marcelo tomava posse como Presidente da República. No discurso, Marcelo falou sobre a necessidade de “cicatrizar feridas” — num recado para o Bloco Central —, lançou sementes de esperança sobre o que esperava serem “cinco anos de busca de unidade, de pacificação, de reforçada coesão nacional” na sua passagem por Belém e ainda defendeu a importância de estabelecer pontes entre diferentes atores políticos, cívicos e sociais.

Na cobertura da cerimónia, a (ausência de) reação — não apenas dos deputados do PCP, mas também do Bloco de Esquerda e do PEV. Vários meios de comunicação social que acompanharam o dia da tomada de posse destacaram o facto de, durante e após a intervenção de Marcelo no hemiciclo da Assembleia da República, os partidos à esquerda do PS se terem abstido de manifestações.

Excerto da reportagem do Expresso sobre a tomada de posse de Marcelo

Reunimos aqui apenas alguns dos vários exemplos possíveis da forma como foi feita cobertura jornalística desse facto político. Nas televisões, nos jornais e nas rádios, muitos meios de comunicação social destacaram o contraste entre a reação dos partidos à direita e até do PS ao discurso de Marcelo, por um lado, e a (não) reação da esquerda parlamentar.

BE, PCP e PEV não aplaudem juramento de Marcelo Rebelo de Sousa

Posted by RTP Notícias on Wednesday, March 9, 2016

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Mas o registo dessa impassividade não se esgotou nos media. Também os comentadores e analistas políticos notaram a ausência de reação dos três partidos. António Filipe registou essas análises num post que partilhou logo no dia seguinte à tomada de posse. “Eu sei que há países em que se aplaude o discurso do poder por dever de ofício, mas isso não é coisa que me agrade”, escreveu então o deputado comunista.

Já vi que anda uma polémica no ar porque o PCP, o BE o e PEV não aplaudiram o discurso do novo PR. Eu sei que há países…

Posted by António Filipe on Wednesday, March 9, 2016

Não foi o único. Também José Manuel Pureza, deputado do Bloco de Esquerda, abordou o tema com ironia. “Sempre achei Marcelo um tipo extraordinário, capaz de nos maravilhar e de nos comover pela imagem. Um gerador de consensos. Um enorme artista”, escreveu no Facebook. Na foto, outro Marcelo diferente. O ator italiano Marcelo Mastroianni.

Sempre achei Marcelo um tipo extraordinário, capaz de nos maravilhar pela palavra e de nos comover pela imagem. Um gerador de consensos. Um enorme artista.

Posted by José Manuel Pureza on Wednesday, March 9, 2016

Aparte as notas dos parlamentares, é verdade que a forma como os partidos da esquerda parlamentar reagiram — ou se abstiveram de reagir — ao discurso de Marcelo foi globalmente notada e assinalada pelos meios de comunicação social que acompanharam o momento.

Mas, e em relação à segunda nota do post de António Filipe: “A aprovação do voto foi saudada com aplausos por quase todos os deputados. Digo quase, porque houve um que se recusou a aplaudir”, escreveu o deputado comunista. Será verdade?

DIRETO | PLENÁRIO

Debates Europeus: prioridades da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia/ Proposta de Resolução (GOV) sobre o sistema de recursos próprios da União Europeia/ Proposta de lei (GOV) e projetos de lei (PCP, PEV e BE) sobre o regime jurídico de criação, modificação e extinção de freguesias/ Apreciação Parlamentar (PCP e BE) do decreto sobre a apropriação pública da Efacec Power Solutions/ Votações

Posted by ARTV | Canal Parlamento on Friday, January 29, 2021

No dia 29 de janeiro de 2021, o Presidente da Assembleia da República submeteu à apreciação dos deputados um “voto de pesar pelas vítimas do Holocausto e evocação do dia internacional da memória das vítimas do Holocausto”. No texto que enquadrava a homenagem, Ferro Rodrigues referiu a importância de “recordar a memória das vidas interrompidas ou desfeitas pela barbárie, as vítimas do ódio racial, da intolerância perante quem é diferente e da discriminação negadora da dignidade humana”.

Importa valorizar a memória do Holocausto, perceber as suas causas históricas, os mecanismos de propagação de mentira e distorção”, disse Ferro.

“É também reafirmar o compromisso de todas as instituições públicas para com esta missão de educação e de transmissão de factos e valores às novas gerações, a quem cumprirá manter acesa a chama da memória e o legado de defesa intransigente da dignidade humana”, defendia o voto apresentado pelo Presidente da Assembleia da República. A homenagem acabaria por ser aprovada por unanimidade. Mas, ainda antes da votação, os aplausos falharam essa unanimidade.

Nas imagens da ARTV (ao minuto 4’30’’40), é possível ver que, da esquerda à direita, os deputados vão aderindo à aprovação das palavras do Presidente da Assembleia da República. Alguns segundos depois, e quase todo o plenário aplaude a evocação. O gesto não é unânime porque, como sinalizou António Filipe, houve um deputado que se absteve de reagir: André Ventura.

Conclusão

As duas afirmações de António Filipe estão corretas: por um lado, há cinco anos, a reação do PCP (e do Bloco de Esquerda e do PEV) a discurso de Marcelo foi registada, quando os deputados não aplaudiram as palavras do Presidente da República na sua tomada de posse; por outro lado, também é verdade que, depois da enunciação do voto de pesar pelas vítimas do Holocausto, André Ventura não esboçou reação — embora tenha votado a favor da proposta de Ferro Rodrigues.

Assim, segundo a escala de classificação do Observador, este conteúdo está:

CERTO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

VERDADEIRO: conteúdos que não contenham informações incorretas ou enganosas.

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