No início do mês, numa altura em que a relação entre os Estados Unidos e a Ucrânia estava especialmente tensa, após uma discussão entre os líderes dos dois países na Sala Oval da Casa Branca, começaram a circular nas redes sociais vários rumores que envolvem Volodymyr Zelensky. Numa das publicações, um utilizador do Facebook alega que o Presidente ucraniano disse “literalmente” que os norte-americanos “vão ter de enviar os seus filhos e filhas para a guerra” e “eles vão ter de lutar” pela NATO.

Na publicação é partilhado um vídeo do YouTube, de uma conta chamada Pinball Preparedness, e os utilizadores são instruídos a carregar num tempo específico: 5 minutos e 45 segundos. Aí, são apresentadas declarações de Zelensky, que foram feitas em ucraniano e que estavam a ser traduzidas em simultâneo para inglês. “Os EUA terão de enviar os seus filhos e filhas [para a guerra] exatamente da mesma forma que nós estamos a enviar os nossos filhos e filhas para a guerra. E eles terão de lutar. Porque é da NATO que estamos a falar, e eles vão morrer”, ouve-se o Presidente ucraniano a dizer.

As declarações de Zelensky que têm sido partilhadas nas redes sociais estão descontextualizadas e incompletas. Foi durante uma conferência de imprensa em fevereiro de 2023, para assinalar o primeiro ano da invasão russa, que o líder ucraniano foi questionado por um jornalista acerca de sondagens que apontavam para um número crescente de norte-americanos a defender que o país estava a dar demasiado apoio a Kiev. Que mensagem transmitiria o Presidente da Ucrânia a essas pessoas? Foi o que o jornalista quis saber.

Na resposta, Zelensky começou por agradecer aos norte-americanos pelo seu apoio, incluindo ao Congresso, ao Presidente — que na altura ainda era Joe Biden — aos jornalistas e aos meios de comunicação. De seguida, explicou o que poderia acontecer se a Ucrânia perdesse a guerra. Trata-se de um cenário meramente hipotético. A falar em ucraniano, mas com as declarações a serem traduzidas para inglês, o líder ucraniano disse o seguinte: “Se a Ucrânia, devido a várias opiniões e a um enfraquecer e esgotar da ajuda, perder [o conflito], a Rússia vai entrar nos países bálticos, países membros da NATO, e então os EUA terão de enviar os seus filhos e filhas [para a guerra], exatamente da mesma forma que nós estamos a enviar os nossos filhos e filhas para a guerra. E eles terão de lutar. Porque é da NATO que estamos a falar, e eles vão morrer. Deus nos livre, porque é uma coisa horrível. Desejo paz e apoio ucraniano aos Estados Unidos.”

Não é a primeira vez que as declarações de Zelensky sobre os EUA poderem ter de enviar “os seus filhos e filhas” para a guerra, no eventual caso de uma derrota ucraniana, geram rumores. Começaram a circular logo em 2023, aquando da conferência de imprensa, e ressurgiram agora, numa altura em que Washington cortou o envio de ajuda militar à Ucrânia após uma discussão entre Zelensky e Trump na Casa Branca.

Depois de uma discussão inédita, a relação Trump-Zelensky é “irreparável”? E que impacto vai ter para a guerra da Ucrânia?

Conclusão

Volodymyr Zelensky avisou os EUA de que vão ter de enviar “os seus filhos e filhas” para a guerra para combater pela NATO? Não é bem assim. As declarações que têm sido partilhadas nas redes sociais estão descontextualizadas e incompletas, tendo sido originalmente feitas em fevereiro de 2023. Nessa altura, para assinalar o primeiro ano da invasão russa, o Presidente da Ucrânia falava de um cenário hipotético, em que Kiev perde a guerra e Moscovo invade países da NATO.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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