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epa11930789 Ukrainian President Volodymyr Zelensky (L) talks with US President Donald Trump (R) in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 28 February 2025. Zelensky is in Washington to sign the framework of a deal, pushed by President Trump, to share Ukraines’s mineral wealth with the US.  EPA/JIM LO SCALZO / POOL
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JIM LO SCALZO / POOL/EPA

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Depois de uma discussão inédita, a relação Trump-Zelensky é "irreparável"? E que impacto vai ter para a guerra da Ucrânia?

É pouco claro se o apoio à Ucrânia vai continuar, mas, em qualquer cenário, a Rússia sai a ganhar. Especialistas argumentam que o objetivo da discussão foi pressionar a Zelensky a demitir-se.

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“Ele pode voltar quando estiver pronto para a paz”. A mensagem foi deixada nas redes sociais de Donald Trump, minutos depois de o Presidente norte-americano ter protagonizado um momento de alta tensão com o seu homólogo ucraniano. Volodymyr Zelensky deslocou-se esta sexta-feira à Casa Branca para assinar um acordo económico de exploração de minerais das terras raras ucranianas. Não chegou a fazê-lo. Muito menos a dar qualquer passo para contar com Trump para um acordo com a Rússia. Saiu da Sala Oval sob críticas da administração norte-americana de não querer o fim da guerra e o apoio da Europa.

Na tradicional conferência de imprensa, que antecede as reuniões bilaterais do Chefe de Estado, Trump deixou duras palavras contra Zelensky. “Ou faz um acordo ou estamos fora. Não está em posição de ditar o que quer que seja. Não tem as cartas todas e está a começar a ter problemas agora mesmo”. Com o vice-presidente JD Vance ao lado de Trump, Zelensky foi acusado de ser desrespeitoso e mal-agradecido.

Ao fim de mais de sete minutos, Trump pôs fim à conferência de imprensa, destacando o “bom momento de televisão” que tinha sido e, logo depois, a Reuters anunciava que Zelensky estava a abandonar a Casa Branca mais cedo do que o previsto. A Fox News avançou que o Presidente ucraniano terá sido expulso. Nenhum acordo foi assinado. Nenhum passo foi dado. O ambiente ficou aceso. E uma acusação ficou no ar: “Está a brincar com a Terceira Guerra Mundial”, disse o Presidente norte-americano ao ucraniano, que contestou que não podia ceder a Putin e argumentava com o que tinha acontecido em 2014.

E agora? As negociações para a paz, que Trump tem estado a mediar em contactos com Moscovo, ficam com um ponto de interrogação à frente. “O resultado pode ser a perda de interesse por parte de Donald Trump na mediação da paz”, avalia Mikhail Troitskiy, professor na universidade norte-americana de Wisconsin-Madison, ao Observador.

Reunião falhada é o fim do apoio norte-americano?

A tensão entre Zelensky e Trump tinha vindo a acumular-se nas últimas semanas, depois de os dois Chefes de Estado terem trocado várias acusações. Num discurso, Trump disse que Zelensky era um “ditador sem eleições”. Em declarações aos jornalistas no dia seguinte, Zelensky retorquiu que Trump vivia “numa bolha de desinformação”. Depois Trump, frente a Macron, ainda referiu que não usava “com leveza” a palavra ‘ditador’ quando foi questionado se também chamaria o mesmo a Putin. Esta quinta-feira, perante Starmer, já disse não se lembrar de ter usado tal termo para se referir ao presidente ucraniano.

Mas o encontro presencial desta sexta-feira parecia um bom sinal de que os dois estavam dispostos a colaborar. O acordo de minerais, que deveriam ter assinado, tinha sido negociado e sujeito a mudanças entre Kiev e Washington — o meio termo parecia possível. Chegou mesmo a falar-se em algo mais, muito mais, em segurança, num acordo mais alargado. No início da conferência de imprensa, Trump elogiou o compromisso: “Precisávamos do que eles tinham. O nosso país está agora a ser tratado de forma justa.”

Mas a recusa de Trump em assinar o acordo depois da discussão tensa levanta a questão: o apoio militar à Ucrânia vai continuar? O Presidente chegou a deixar um sinal animador sobre este tópico. Depois de ter afirmado que os Estados Unidos “não queriam enviar muitas armas”, foi questionado sobre se se iam manter os envios de armamento. A resposta foi afirmativa. “Espero que não tenhamos de enviar [muitas], porque quero acabar isto rapidamente”. Mais tarde, questionado sobre se pretende cortar a ajuda militar à Ucrânia, Donald Trump não deu uma resposta concreta. “Não importa o que eu acho.”

"O confronto foi um momento de verdade que irá galvanizar os membros pró-ucranianos da administração Trump e do aparelho governamental dos EUA. É de esperar uma onda de desacordo com o tratamento que o Presidente Trump deu ao Presidente Zelenskyy durante a reunião."
Mikhail Troitskiy, professor na universidade norte-americana de Wisconsin-Madison

Pós-discussão, não há respostas certas sobre este apoio. Contudo, Mikhail Troitskiy considera que a resposta a essa questão irá criar uma divisão no seio da administração norte-americana. “O confronto foi um momento de verdade que irá galvanizar os membros pró-ucranianos da administração Trump e do aparelho governamental dos EUA”, afirma ao Observador.

O momento foi recebido entre os membros da administração Trump com declarações de apoio. Mas a postura do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, foi alvo de escrutínio, pelo aparente desconforto com que assistiu à troca acesa de palavras. Apesar de ter liderado as negociações com a Rússia, Rubio afirmou-se antes disso pelas suas posições pró-Ucrânia e anti-Putin. “É de esperar uma onda de desacordo com o tratamento que o Presidente Trump deu ao Presidente Zelenskyy durante a reunião”, remata o professor Troitskiy.

Um mau acordo ou pressionar Zelensky a demitir-se: o que esteve na origem da discussão?

Apesar das palavras de Trump, a verdade é que a exploração dos minerais nos termos em que estava definido o acordo poderia ter saído muito cara aos Estados Unidos, dada a localização e as condições das reservas na Ucrânia. “É possível que, nos últimos dias, a administração Trump se tenha apercebido que o acordo sobre os minerais não era tão atrativo como se pensava inicialmente”, avalia Mikhail Troitskiy. “Essa pode ter sido uma das razões para o confronto na Sala Oval”.

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A interpretação de Trump é outra: “Determinei que o Presidente Zelensky não está pronto para a paz se a América estiver envolvida, porque ele sente que o nosso envolvimento lhe dá uma vantagem nas negociações. Eu não quero vantagem, eu quero PAZ”, escreveu na Truth Social, já depois de Zelensky ter abandonado a Casa Branca. Isto apesar do documento que devia ter sido assinado estabelecer um acordo de “natureza comercial” e não falar de cessar-fogo ou de acordos com a Rússia.

A decisão de não assinar o acordo partiu de Trump. Mas, ao dizer que Zelensky “pode voltar quando estiver pronto”, o Presidente norte-americano deu a entender que ainda estaria disponível para negociar, desde que seja nos seus próprios termos.

"Agora que Zelensky está designado por Trump como o obstáculo à paz, os obstáculos às oportunidades de negócios 'históricas' com a Rússia e às auto-felicitações por ter impedido a Terceira Guerra Mundial estão a ser removidos." 
Yaroslav Trofimov, correspondente de política externa do The Wall Street Journal

A possibilidade de negociar com Zelensky poderá não ser contudo, um objetivo futuro da Casa Branca. Pelo menos é essa a interpretação que Liana Fix, analista no Council of Foreign Relations, fez nas suas redes sociais, em resposta a uma declaração do senador norte-americano Lindsey Graham. Questionado sobre se o Presidente ucraniano se devia demitir, Graham respondeu que “ele precisa de se demitir ou enviar alguém com quem consigamos fazer negócios”.

“Esse era o objetivo”, escreveu Liana Fix, sobre a demissão de Zelensky. A possibilidade não é assim tão irrealista. “Não é claro como a relação bilateral pode prosseguir enquanto Zelensky estiver no cargo”, afirmou um oficial norte-americano à CNN, acrescentando que a relação pessoal entre Zelensky e Trump é “irreparável” e “desastrosa“.

Volodymyr Zelensky abandonar o cargo de Presidente seria uma vitória dupla: para Vladimir Putin, que estabeleceu a sua deposição como um dos objetivos para a invasão da Ucrânia, em 2022. E para Donald Trump, que poderia avançar com as negociações bilaterais com a Rússia e estabelecer a paz nos termos de Moscovo.

“Agora que Zelensky está designado por Trump como o obstáculo à paz, os obstáculos às oportunidades de negócios ‘históricos’ com a Rússia e às auto-felicitações por ter impedido a Terceira Guerra Mundial estão a ser removidos”, argumenta, também no X, Yaroslav Trofmov, correspondente de política externa do The Wall Street Journal.

Zelensky, contudo, só admitiu deixar o cargo se isso trouxesse paz à Ucrânia, mas dentro dos interesses que defende para o país.

Donald Trump: a aposta bem-sucedida da Rússia

Seja qual tenha sido a motivação de Trump para desencadear uma discussão, parece que, em todos os cenários mais prováveis, quem sai a ganhar é a Rússia. E, pelas palavras que chegaram de Moscovo, esse sentimento é percetível. “Histórico”, avaliou Kirill Dmitriev, um dos enviados russos às negociações bilaterais com Washington. “Pela primeira vez, Trump disse a verdade na cara do palhaço da cocaína: o regime de Kiev está a brincar com a Terceira Guerra Mundial”, declarou por sua vez Dmitry Medvedev, antigo Presidente russo.

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▲ Putin sai a ganhar de uma cisão entre Washington e Kiev

POOL/AFP via Getty Images

Na mesma medida em que esta reunião falhada foi uma derrota para a Ucrânia, parece ter sido uma vitória para a Rússia. Mesmo que, no melhor dos cenários para Kiev, o apoio norte-americano se mantenha e Zelensky volte a ser convidado para a Casa Branca no futuro, o momento foi inédito: nunca um Presidente dos Estados Unidos valeu tantos elogios a Vladimir Putin enquanto gritava com um líder europeu aliado.

“A Rússia pode ficar encorajada e aumentar a parada, acreditando que está a levar a melhor à medida que o apoio dos EUA à Ucrânia diminui”, argumenta Troitskiy ao Observador. “Até à data, a aposta do Kremlin em recusar as ideias para a paz tem sido justificada, pelo que a Rússia continuará a seguir o mesmo caminho após a discussão de hoje [sexta-feira]”, acrescenta.

Comfort Ero, presidente do think tank Crisis Group, recorreu ao X para fazer a sua avaliação da discussão. “Depois daquela conferência de imprensa, a capa perfeita do The Economist parece adequada”, escreveu. A capa da revista, publicada na quinta-feira, tem como título “A nova ordem mundial de Don”, com uma fotografia de Trump em primeiro plano. O primeiro líder internacional ao seu lado? Vladimir Putin.

A onda de apoio europeia: terá atos condizentes com as palavras?

Entre a pressão dos Estados Unidos e da Rússia, Volodymyr Zelensky encontrou apoio entre os seus pares europeus. Nas redes sociais, multiplicaram-se as mensagens de líderes da Europa que demonstraram solidariedade a Zelensky e criticaram a posição pouco diplomática e de humilhação que Trump e os seus apoiantes assumiram perante o Presidente ucraniano.

A Europa já tinha tido mão neste encontro ainda antes de ele acontecer: Trump tinha-se mostrado reticente em acolher Zelensky e foi o Presidente francês, Emmanuel Macron, que terá dialogado com o seu homólogo norte-americano para que o recebesse. Em reação ao que se passou na Casa Branca, o presidente francês disse “respeitar os que lutam” e lembrou: “A Rússia é o agressor, a Ucrânia é a vítima da agressão”.

Alguns argumentam que o momento inédito deve servir para a Europa tomar uma posição mais assertiva e passar das palavras de apoio aos atos. “Já é tempo de a UE confiscar 210 mil milhões de euros de ativos congelados da Rússia”, escreveu Paweł Tokarski, analista da Europa no think tank alemão SWP Berlin.

Ulrich Speck, analista da política externa europeia no Carnegie Endowment for International Peace, também defende esta posição. “A Europa vai dobrar o apoio à Ucrânia, enviar mais armas ou entregar os ativos russos congelados? Ou só vamos ver mais declarações de solidariedade? Quanto mais a Europa faça, menos a Ucrânia depende de Trump”, escreveu.

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